De virada
Fundamentais para o amadurecimento, as derrotas exigem altivez para serem enfrentadas; por isso mesmo, podem representar uma verdadeira oportunidade de mudança para quem as encara com coragem
Superar barreiras desafiadoras, mudar o curso da história e vislumbrar uma saída quando tudo parece estar irremediavelmente perdido pode parecer impossível em certos momentos. Afinal, é natural que o ser humano, em suas mais diferentes dimensões — biológica, psicológica, social e espiritual, apenas para citar algumas —, sinta-se incapaz de superar determinado problema. Nessa hora, não é nenhum pecado sentir a dificuldade, deixando-se, inclusive, abater. No entanto, essa sensação não pode durar para sempre, incapacitando o indivíduo de seguir adiante. Quanto antes esta página for virada ou aceita e digerida com sabedoria, melhor. Passar a entender a mesma situação como uma oportunidade para mudar o curso da própria história é uma boa saída. Experiências assim, exemplificadas pela Revide através das histórias de Marília Castelo Branco e Fernando Barbosa de Toledo Ramos, o Fifo, são uma verdadeira lição de como encontrar sentido e paz em qualquer vivência, seja boa ou ruim.
A vida da redatora e empresária Marília Castelo Branco estava estabilizada quando seu filho Thales chegou. O pequeno veio sem pedir licença, fruto de seu segundo casamento, quando Marília já era mãe de dois filhos e avó de duas meninas. Aos 39 anos, a empresária já não pretendia ter mais filhos, mas foi surpreendida pelo teste positivo. Mesmo desconfiada por causa da idade, Marília curtiu uma gravidez tranquila e seguiu para a maternidade com a confiança de uma mãe veterana. Apesar de Thales não ter chorado ao nascer, Marília não se assustou e dormiu logo após o procedimento. Acordou apenas de madrugada, quando recebeu a notícia de que seu filho estava na UTI e tinha um grave problema cardíaco. “Ao vê-lo pela manhã, meu coração gritou. Eu sabia que era algo muito grave. O diagnóstico só foi conhecido 30 dias depois: Síndrome de Edwards. Fiquei muito deprimida e fui acalentada pelo amor dos meus filhos mais velhos. No começo, todos nós ficamos com muito medo, mas Léa e Nathan foram pais do Thales junto comigo. Foi uma experiência forte e linda”, relembra.
De acordo com Marília, a chegada de um filho, especialmente do primeiro, sempre promove uma verdadeira revolução na vida da família inteira. Entre as mudanças que provoca, está a rotina, o foco e até o relacionamento entre os outros membros daquele núcleo. No caso de uma criança especial, essas transformações podem ser ainda mais profundas e difíceis, acarretando, inclusive, desconfortos para o casal. “Aprendi com o Thales que não devemos guardar o que não foi bom. Desse relacionamento e de tudo que faz parte do passado, só me permito lembrar daquilo que foi lindo. O tempo mostrou que o aprendizado que o Thales me trouxe, assim como toda a solidão daquela época, fez total sentido. Sigo de coração leve e sempre acreditando no amor”, acrescenta a empresária.
Thales partiu com um ano e cinco meses, deixando um grande legado para a mãe. Com máxima delicadeza, a empresária diz que, graças a essa experiência dura e enriquecedora, aprendeu a lidar com sentimentos difíceis de serem digeridos. “Posso dizer que, hoje em dia, o medo já não me paralisa. Graças ao Thales, hoje sou capaz de enfrentá-lo com mais coragem e sabedoria. Antes dele, posso dizer que era mimada e dependia muito que outras pessoas cuidassem de mim, mas aprendi a ter mais autonomia e independência”, relata a mãe orgulhosa.
Além das conquistas pessoais, ou por causa delas, a experiência adquirida fez com que Marília fundasse a Associação Síndrome do Amor, Instituição que atende a famílias de crianças com disfunções cerebrais incuráveis. Dessa forma, a empresária transformou sua dor em inspiração para milhares de mães — de filhos especiais ou não. “Isso faz meu coração bater forte e feliz porque encontrei um sentido para tantas dificuldades que vi meu filho passar. O trabalho da Síndrome do Amor deu significado a tudo: a dor se transformou em amor, sentimento que só se multiplica”, salienta. Para a empresária, nada pode ser mais gratificante do que ver os sorrisos voltando. “Hoje posso trabalhar com aquilo que conheço e acredito. Isso é felicidade”, garante Marília.
A empresária acrescenta, no entanto, que a perda do filho jamais será superada, todavia, já aprendeu a administrar a falta de Thales. “Fiquei amiga da saudade porque sei que ela me acompanhará enquanto eu viver. Para isso, precisei aceitar uma vontade maior que a minha, o que exige máxima humildade. O importante é compreender que somos muito grandes, mas também muito pequenos. Apesar de tantas lições, ainda tenho muito o que aprender”, finaliza.
Um homem destemido, no mais genuíno sentido da palavra: sem medo. Em sua própria definição, este seria o traço mais marcante da personalidade do empresário Fernando Barbosa de Toledo Ramos, o Fifo. “Sempre gostei muito de esportes radicais, como motocross, mountain bike e esqui. O esporte era a paixão da minha vida, independentemente da aventura do momento”, lembra. Nem mesmo o passar dos anos e a chegada da idade foi capaz de encobrir o espírito aventureiro do menino.
Depois de um casamento, três filhas e uma separação, Fifo continuou a alimentar a paixão pelas experiências radicais. Em 2006, uma viagem com amigos à Fazenda Santa Eugênia, em Serra Azul, mudou a vida do empresário completamente. “Para aproveitar a linda paisagem próxima de um lago no lugar, decidimos amarrar uma corda em uma árvore à beira da água e brincar um pouco, dando saltos cada vez mais criativos”, recorda. Depois de uma pausa para o churrasco, a aventura foi retomada. A brincadeira acabou por causa de um salto prejudicado pelas mãos escorregadias que fizeram com que Fifo caísse na parte rasa do lago. Ao cair, sentiu um choque na nuca, mas nenhuma dor e soube imediatamente que algo havia dado errado. “Quando tentei subir, já não consegui sentir meu corpo”, acrescenta. Na ocasião, Fifo tinha 42 anos e inúmeros projetos pela frente.
Ainda no lago, o empresário teve consciência de que não sairia dali sem ajuda. Então, segurou a respiração para, ao menos, boiar enquanto rezava para que a ajuda não demorasse. Fifo foi retirado do lago pelos amigos já desmaiado, sem nenhum cuidado especial —afinal, ninguém podia imaginar que se tratava de um caso tão grave. “Acordei no banco de trás do meu carro deitado no colo da minha namorada e logo anunciei que estava paralítico. Mas ninguém acreditou”, relata.
No mesmo dia, o empresário foi trazido para um hospital em Ribeirão Preto, onde ficou internado durante dois meses e passou por duas cirurgias. Como imaginava, Fifo estava tetraplégico. O empresário conta, ainda, que viu a morte de perto por conta das complicações durante a internação. “No hospital, não conseguia pensar por causa das fortes dores. Quando fui para casa, fiquei acamado por um bom tempo e, nesse período, só queria morrer”, relembra.
Fifo revela que não conseguia conter o choro quando tentava vislumbrar como seria sua vida dali em diante. Naquela época, além das limitações físicas, o empresário passava por um período de intensos altos e baixos. Quando isso foi possível, passou a ser atendido na Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação, em Brasília, por três meses. Nesse intervalo, a convivência com outras pessoas em condições semelhantes à sua fez com que enxergasse outras possibilidades para o futuro. “O Sarah me mostrou que a vida continuava, que eu podia fazer inúmeras atividades, inclusive, trabalhar. Foi um trimestre excelente”, pontua. Fifo voltou para Ribeirão Preto certo de que voltaria a explorar o mundo.
A vontade de viver era tanta que o empresário arriscou-se em novas paixões, como a música. Tornou-se DJ e passou a animar inúmeras festas. Além disso, usou sua história de vida para ministrar palestras motivacionais. Nada disso, no entanto, o fez abandonar sua antiga agência de turismo. Aos poucos, Fifo aprendeu a adaptar seu eterno espírito aventureiro à nova rotina. “O que me levou a dar a volta por cima foi Deus, que colocou cada pessoa no lugar certo e na hora certa dali por diante. Na minha recuperação, a fé ocupou o primeiro lugar, e depois vieram trabalho, família e amigos”, diz entusiasmado. Diferente do que pensava logo no início, quando tinha medo de ser mal interpretado, hoje entende a importância de inspirar outras pessoas. “Com o tempo, passei a encarar isso tudo como uma verdadeira missão e passei a pautar minhas atitudes na vontade de ajudar os outros”, reforça.
O termo que se originou na física hoje possui desdobramentos em diversas outras áreas do conhecimento e também no comportamento humano. Isto porque seu significado — a capacidade de algumas matérias de recuperarem a condição inicial depois de sofrerem forte impacto — tem sido cada vez mais exigido, e com máxima velocidade, no mundo contemporâneo.
No que tange ao comportamento humano, a resiliência poderia ser resumida como a capacidade de transformar as experiências negativas em aprendizado e mudanças positivas para o crescimento emocional. Assim interpreta a psicoterapeuta e terapeuta familiar especialista em Constelação Sistêmica, Fátima de Oliveira. “Aproveitar as dificuldades para nos transformarmos em pessoas melhores e mais flexíveis é uma tarefa árdua, mas possível”, garante.
Segundo a psicoterapeuta, as derrotas podem influenciar positiva ou negativamente a vida de qualquer indivíduo: enquanto alguns perdem o rumo durante a crise, outros evoluem consideravelmente. “Quem tem menos facilidade para sair de situações difíceis pode estar ligado a um trauma do passado, por exemplo”, alerta a especialista. Para Fátima, nem uma desilusão amorosa nem a morte de um ente querido precisam ser encaradas como derrotas. “Apesar de serem completamente diferentes, as duas representam situações de luto que precisam ser vivenciadas, mas superadas o mais breve possível. “No entanto, para isso, não há receita mágica: cada um deve lidar com a dor à sua maneira e buscar crescer com ela. Entre os diversos caminhos possíveis, a psicoterapia pode ser uma boa saída “, finaliza.