Decolagem autorizada
O que era uma paixão de infância para Francisco Galindo e Paulo Madeira se transformou em trabalho sério e colocou Ribeirão Preto na rota dos amantes da aviação
Poucas pessoas sabem que, bem ali em uma rua que cruza a Avenida Brasil, no caminho para o Aeroporto Leite Lopes, em Ribeirão Preto, está instalada uma fábrica de aviões. O espaço, na verdade, não produz cada um dos componentes de uma aeronave, mas importa o kit básico e o transforma em um avião de pequeno porte, de dois ou quatro lugares. Dali já saíram sete unidades e outras quatro estão sendo montadas.
Com seis funcionários, a fábrica ocupa uma pequena instalação e não tem linha de montagem. Todo o processo realizado é bem artesanal. Primeiro, são encomendados os kits da Vans Aircraft, número um do mundo nesse setor. Depois, as peças são lixadas e recebem um banho químico de alodine, substância que protege contra corrosão e dá aderência à tinta aeronáutica. A partir daí, segue-se uma longa trajetória, que pode levar de um a dois anos, até o resultado final. Terminada a fase de montagem, são retiradas as asas e a calda da aeronave, que é levada até Ituverava, onde, enfim, o veículo é finalizado e testado por um piloto.
Quando os caminhos se cruzam
Esse processo todo faz parte da rotina dos empresários Francisco Galindo e Paulo de Tarso Madeira, que comandam a Free Wings. Francisco vem da construção amadora, sempre gostou de aviação e, ao lado dos irmãos, estava frequentemente envolvido com máquinas, sejam elas carros, motos, barcos ou aviões. Quando veio para Ribeirão Preto, em 1998, passou a se envolver mais com os aviões. Um dos irmãos já fazia curso de piloto e o levou para conhecer um aeromodelo. “Quando vi um ultraleve, fiquei arrepiado. Em três dias, eu já estava montado em um”, relembra. Naquela época, não havia tantas aeronaves particulares. Em 1991, o empresário fez o seu primeiro veículo, começando do zero, e nunca mais parou. Agora, Francisco tem sempre um avião sendo mexido no quintal de casa.
Paulo é piloto formado. Depois de se tornar instrutor, montou, em 1986, a primeira escola de ultraleve da região, representante de uma empresa americana. O mercado esteve em forte expansão até 1994, quando muitas dificuldades entraram em cena, entre elas, o alto custo das aeronaves (em dólar) e o grande número de acidentes, causados, principalmente, por pessoas que se atreviam a construir sozinhas seus ultraleves. Em 1999, respaldado por um novo conceito de aeronave e uma legislação mais rigorosa, ele reabriu a escola. Agora, nesta segunda fase, está prestes a formar o 100º aluno.
Paralelamente a isso, o piloto e instrutor auxiliava e levava clientes para comprar componentes de aviões longe daqui. Então, Paulo e Chico, que já eram amigos da aviação, decidiram abrir um negócio juntos. Em 2012, entregaram o primeiro avião. Na fábrica, eles constroem cinco modelos de dois lugares — RV-7, RV-8, RV-9, RV-12 e RV-14 — e um modelo de quatro lugares, o RV-10, sendo que o RV-7 e o RV-14 são acrobáticos. “Geralmente, na fábrica, são montados dois aviões por ano, mas, neste momento, estamos com quatro sendo desenvolvidos”, conta Paulo.
Um empurrãozinho para voar
Entre os quarto aviões do pátio, um é o de Altamir Olivo Júnior, que se formou em Engenharia Mecânica, em Campo Grande (MS), e está em Ribeirão Preto há um ano e três meses montando sua aeronave. A previsão é que em nove meses o processo seja concluído. Esse é outro serviço oferecido pela empresa: a equipe da Free Wings faz a triagem para analisar qual equipamento é mais indicado para o cliente, especifica o kit, monta a relação de peças, cuida da importação e cede o espaço para que ele mesmo construa o seu avião. Além disso, dá todo o suporte técnico e ferramental para esse desenvolvimento.
Para construir seu próprio avião, é necessário se adequar ao Programa de Apoio ao Construtor Amador, que estabelece que o amador faça até 51% do trabalho em casa e pelo menos 49% seja terceirizado. Comprar o kit pronto já conta como um peso na parte terceirizada. Quando chega o fim do processo, a aeronave é avaliada pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC).
Com conhecimento aprimorado e expertise na área, a empresa também faz manutenção nas aeronaves, no hangar do próprio cliente. Paulo explica que, obedecendo à tabela de inspeção, não é preciso fazer ações corretivas. A maior dificuldade, de acordo com o empresário, continua sendo a legislação, que é bastante inconstante. “As especificações mudam, não são objetivas, e isso torna o processo mais lento tecnicamente”, conta Steneo Galindo, responsável pela documentação das aeronaves.
Steneo é sobrinho de Francisco e, portanto, sempre esteve envolvido com as máquinas também. Ele iniciou o curso de Engenharia Mecânica com ênfase em Aeronáutica, mas, no decorrer do curso, mudou para Engenharia Mecânica com ênfase em Materiais Metálicos. Passou um ano na Itália estudando Engenharia Aeroespacial e, desde 2005, acompanha o tio no Projeto Thor. Começaram a montar uma aeronave, fizeram desenhos, cálculos, mas, durante o desenvolvimento, as regras mudaram e o projeto perdeu o sentido. Para piorar, uma forte ventania acabou prejudicando o protótipo.
Em 2014, o projeto foi resgatado. Os cálculos foram refeitos e tudo foi colocado no papel antes da montagem. “É mais difícil fazer um avião no papel do que na prática. A aeronáutica tem uma margem de erro muito grande e é preciso enquadrar a empresa numa série de regras exigidas pela ANAC”, reforça Steneo. De qualquer forma, a empresa deve seguir essas especificações para manter a fábrica produzindo.
Colocando responsabilidade no ar
Geralmente, os clientes que chegam até a fábrica são alunos da escola de Paulo, amantes da aviação. É possível comprar uma aeronave a partir de 110 mil dólares. O valor muda de acordo com o modelo, a autonomia, as especificidades e o acabamento que cada cliente deseja. Quanto ao resultado, os empresários garantem que é um excelente produto. “Tecnicamente, nós temos os aviões mais bem montados do mundo. Somos constantemente parabenizados pela montagem”, orgulha-se Paulo, reforçando que, por conta das regras limitantes, das dez empresas que faziam montagem de aviões de pequeno porte restaram apenas duas.
Além do pintor e do tapeceiro, que são terceirizados, os seis funcionários que atuam na Free Wings têm formação técnica na área de aviação e são coordenados por Estevan Galindo, outro sobrinho de Francisco, tecnólogo em manutenção de aeronaves. É ele quem lida diretamente com o “quebra-cabeça” que é a montagem de um avião, com os manuais 100% em inglês, mas muito bem explicados. “Apesar de todas as dificuldades, é um trabalho muito prazeroso. É indescritível a sensação de ver um avião nosso correndo pista. Fico muito orgulhoso”, comenta Estevan. Afinal, ali na fábrica, entram longarinas, nervuras, chaves e saem aeronaves prontas para voar. Nas mãos deles, está depositada muita responsabilidade e eles não podem mudar nada do projeto, até porque não são projetistas e sim construtores.
Paixão nas alturas e pés no chão
Francisco fala da aviação com um brilho extra nos olhos. Apesar de hoje ter uma empresa no segmento, ele ainda prefere o amadorismo e lembra com saudade de quando usava o motor de um fusca para colocar uma máquina no ar. Para ele, as “arapucas” são muito mais divertidas do que os aviões convencionais. O amigo Paulo encontra as palavras certas para definir esse sentimento que ele também partilha: “Aviação é segurança. Para colocar uma aeronave no ar, é preciso cumprir todas as normas de segurança. O amadorismo é mais divertido, não há regras que nos limite”, analisa.
Mesmo com o coração de amador, na empresa, o negócio é sério: tudo é feito cumprindo cada ordem estabelecida. Antes que cada unidade saia da fábrica, ela é inspecionada pela ANAC, agência extremamente rigoroso em seu controle de qualidade. Porém, mesmo com tanto rigor, é um trabalho possível e prazeroso de ser realizado. “A aviação é um setor muito diferente de qualquer outro porque abrange a paixão. Quem se envolve com isso não consegue mais deixar de lado”, reforça Chico, que também é vice-presidente da Associação Brasileira de Construtores Amadores de Aeronaves (ABRAACE).
Paulo faz questão de deixar claro que a aviação é envolvente, mas não muito rentável. “Nós temos custos diários, nossos funcionários trabalham de forma artesanal e não é fácil mensurar o valor disso. Portanto, é difícil ficar no azul. Costumo brincar que esse é o tipo de negócio que você pode ser milionário, desde que entre bilionário, injetando muito dinheiro, e vai perdendo aos poucos”, frisa, lembrando que essa realidade é comum nesse ramo de atuação. A própria Embraer começou pequena, quando fez o seu primeiro Bandeirante. Depois, recebeu altos investimentos do governo e se tornou uma das maiores fabricantes de aeronaves do mundo, com atuação nos segmentos de aviação executiva, comercial, agrícola e militar.
Mesmo que o cenário econômico e financeiro não seja tão favorável, fazer da paixão um trabalho é um verdadeiro privilégio. Os empresários conseguem conciliar seus outros negócios à montadora de aviões, onde dão todo o respaldo técnico e comercial. Eles declaram que, neste momento, a demanda está refreada, mas a empresa está trabalhando a carteira feita antes da crise econômica, o que representa trabalho para este e o próximo ano.
Texto: Máisa Valochi
Fotos: Ibraim Leão