Decorador nato
Alexandre Calil de Salles conta que a decoração sempre esteve no seu caminho

Foi de uma forma bem descontraída que o decorador Alexandre Calil de Sallesrecebeu a estilista Carla Petean e a equipe da Revide para um bate-papo em seu escritório. Em meio a histórias engraçadas e brincadeiras impublicáveis que só os anos de amizade permitem, eles falaram sobre a aplicação prática da decoração: inspirações, referências, erros, acertos e limites. A evolução da profissão, tanto quanto da própria relação entre o decorador e o cliente, também foram assuntos em pauta. Dono de um bom gosto indiscutível e de um olhar apurado para observar tudo ao seu redor, Alexandre mostra, em cada minuto de conversa, que não poderia ter escolhido outra profissão. Estranho é pensar que isso aconteceu quase sem querer.
Carla: Você é decorador, mas também realiza projetos de arquitetura?
Alexandre: Eu sou decorador, mas o meu escritório é de arquitetura e interiores. Tenho um departamento de arquitetura, onde a responsável é a Nathalia Benedini Calil Wolf. Ela trabalha comigo há dez anos. Então, atendemos as duas áreas.
Carla: Por que você escolheu a decoração?
Alexandre: Eu não escolhi; fui escolhido. Desde pequeno, sempre fui observador. Minha mãe vivia redecorando a casa e elaborávamos tudo para as festas de aniversário, Natal, Reveillon, então eu fui criado nesse meio e curtia participar de tudo. Quando cresci, minha família tinha uma empresa onde eu trabalhava, no ramo do comércio. Uma vez, dei um palpite de decoração na obra de um amigo e ele disse que gostaria que eu passasse a cuidar daquilo. Ele argumentou que os profissionais contratados para cuidar do projeto não tinham visto o que eu percebi. Foi assim que comecei, como um desafio.
Carla: Antes disso, você já tinha colocado o seu gosto pela decoração em prática?
Alexandre: Quando eu tinha uns 15 anos, era do tipo que mudava os ambientes da casa do dia para a noite. De repente, isso começou a ficar mais frequente. Eu ia à casa de amigos e acaba mexendo em tudo para deixar os ambientes mais interessantes.
Carla: Quando você começou a trabalhar oficialmente como decorador?
Alexandre: Há 20 anos. Antes disso, no início da década de 1990, a função do decorador ainda era muito vaga. Não parecia uma profissão; parecia um hobby. Com o tempo, foi ganhando credibilidade. O que me abriu muitas portas foi o fato de vir de uma família tradicional e conhecer muita gente. Essa tarefa não é fácil, principalmente porque o decorador entra na casa das pessoas e na vida delas também.
Carla: Como você se preparou para a sua profissão?
Alexandre: Sou autodidata. Quando comecei a trabalhar como decorador, essa era uma profissão nova, sem cursos. Depois de oito anos, a profissão foi regulamentada. A partir daí, para exercê-la, era necessário cursar uma faculdade e se credenciar à Associação Brasileira de Designers de Interiores (ABD). Porém, os profissionais que já atuavam na área podiam ser regulamentados, desde que tivessem mais de cinco anos de atividade, mais de três trabalhos executados e pelo menos uma publicação em revista. Eu já trabalhava há oito anos, tinha 100 obras executadas e várias publicações em revistas, inclusive duas Casa Interior. Então, pude me adequar às novas exigências. Eu me formei na prática, porém, a minha base teórica vem de vários cursos que fiz e fui me aperfeiçoando. A última vez que fiz um levantamento, há um ano, já tinha executado mais de 370 trabalhos, entre obras inteiras ou ambientes específicos.
Carla: De 20 anos para cá, houve uma remodelação do mercado? O que mudou?
Alexandre: Sim. No início, era bem difícil. As pessoas acreditavam que só contratava um decorador quem era milionário e, quando ele começasse o trabalho, provavelmente teria que jogar a casa toda fora e pouco se aproveitaria. Vinte anos depois, ficou comprovado que o apoio de um decorador ou arquiteto se tornou indispensável. Antigamente, havia poucas lojas e opções de produtos no mercado, o que tornava mais fácil a escolha e a definição dos acabamentos. Com o tempo, o mercado se multiplicou e, consequentemente, tornou-se impossível administrar um projeto e fazer as escolhas sem o apoio de um profissional da área. Além disso, tem a nova configuração do mundo pela busca do visual, ou seja, hoje todas as pessoas querem morar bem, trabalhar em um local bacana e frequentar lugares bonitos.
Carla: Houve também uma mudança nos espaços físicos das residências?
Alexandre: Há uma nova configuração. Há 20 anos, as casas eram muito maiores. Hoje, isso custa muito caro. Nos projetos atuais, busca-se fazer cada vez mais pontos de união, seja ele o home, a cozinha ou a varanda. A arquitetura atual pressupõe que todos os ambientes sejam usáveis. Se o comportamento mudou, a estrutura das casas também precisa mudar.
Carla: De onde vem a inspiração para realizar o seu trabalho?
Alexandre: A inspiração vem de todos os lados: livros, viagens, revistas, cursos e nos próprios clientes. Hoje, nada se cria; tudo se copia e se aperfeiçoa. Embora tenha quem só copia, eu me proponho a apresentar sempre ideias inovadoras.
Carla: Você considera que as mostras do segmento trazem novas ideias?
Alexandre: Tudo acrescenta alguma coisa. Na Casa Cor, por exemplo, tem 60 ambientes. Desses, oito me interessam. Dali, tiro referências. Sempre há algo novo para ser acrescentado. Afinal, essas mostras são uma vitrine do segmento.
Carla: Seus trabalhos são clássicos?
Alexandre: Não. Meu trabalho é, também, inspirado no clássico. Eu tenho vários projetos e tento sempre mesclar o clássico com um toque de contemporâneo. Em alguns casos, o clássico predomina, pois, em geral, as obras menos modernas agradam muito.
Carla: Como você lida quando encontra um cliente com o gosto diferente do seu?
Alexandre: Existem vários tipos de clientes. O importante é, antes de fechar um projeto, fazer uma triagem e mostrar bem o meu estilo. Hoje, 99% dos meus clientes, quando fecham um contrato comigo, já entenderam o tipo de trabalho que eu tenho a oferecer e eu já entendi o que eles querem. Às vezes, acontece, ao longo da obra, dele me propor alguma coisa que eu não considere bacana. Aí, eu vou tentar convencê-lo, mas, se não for possível, vou adequar o desejo dele da melhor maneira possível, dentro do contexto, para que ele tenha o que quer com um resultado legal. Uma pessoa que não combina comigo, dificilmente acaba me procurando. Isso acontece no início de carreira, mas, depois de muitos anos, é raro. Hoje, elas me procuram porque já conhecem o meu trabalho.
Carla: O que acontece na hora de fazer as suas escolhas pessoais?
Alexandre: É muito difícil. Por conhecer bem a área, o nível de exigência é muito maior. Em minha casa, comecei por ver de que forma poderia agradar as pessoas que eu gostaria. Assim como se faz quando vamos nos vestir e elegemos uma peça que gostaríamos de usar, fiz na minha casa. No living, parti do tapete. No home, coloquei os sofás amarelos. Na cozinha, queria colocar a tapeçaria do Debret. Assim, elegi os meus pontos de partida em cada ambiente, sempre contando também com a ajuda da Nathalia.
Carla: Tem algum objeto que você considera eterno, que pode ser passado através de gerações?
Alexandre: Tem várias peças eternas, seja pelo valor financeiro — que são obras de arte realmente valiosas — ou pela atemporalidade — um bom lustre, um tapete, um móvel que não perdem a sua essência com o tempo. Porém, não se pode confundir coisas antigas com antiguidade. É preciso também saber dosar porque nem tudo é bacana e nem sempre se encaixa no novo contexto. Eu mesmo já carrego algumas peças de família na minha casa, mas sei muito bem o que elas representam e onde posso usá-las. Ganhei gravuras de Debret, no meu casamento, que vou carregar o resto da vida. Tenho um tapete francês no meu living, que comprei há muitos anos, quando ainda nem tinha minha própria casa e que vai ficar para a minha neta, se for bem cuidado. Também tenho quadros lindos do Marcelo Guarnieri. Ganhei de uma pessoa muito querida, que trouxe de Nova Iorque, dois cachorros da Sttafordshire, marca que assina as porcelanas da rainha da Inglaterra. São objetos muito interessantes, mas, além de saber usá-los, é importante ter alguém que acompanhe isso.
Carla: A que você se refere quando diz que é preciso ter alguém que acompanhe isso?
Alexandre: Estou cansado de ver pessoas que morrem e os filhos não querem nada do que elas deixam. A minha filha de sete anos já sabe o que temos em casa. Uma brincadeira nossa é mexer na casa à noite. É um hábito que carrego desde criança e estou passando adiante. Gosto de passar para ela o gosto pelo que é bonito, as maneiras de hamornizar a casa, a forma de bem receber.
Carla: Quando você entra na casa de alguém, sem ser profissionalmente, e vê algum ambiente sem harmonia, como se comporta?
Alexandre: Fico maluco. Para se ter uma ideia, eu chego nos hotéis e quero mudar tudo. No Tryp, em São Paulo, eu mudei a configuração da cama extra. Fiz de um jeito diferente do que eles costumavam fazer e eles adotaram a minha maneira. Uma vez, viajei para o sítio da minha mulher, que na época era minha namorada há pouco tempo, e mudei tudo também. É um hábito. Hoje, estou mais contido porque a decoração é o meu trabalho. Não posso chegar na casa das pessoas queimando o meu trabalho. Elas têm que me contratar para isso. Além do mais, não quero parecer grosseiro. Muitas vezes, guardo a minha opinião. Se tiver oportunidade, eu falo, mas de uma forma sutil.
Carla: Você atua apenas em Ribeirão Preto?
Alexandre: Não. Tenho obras em Ribeirão Preto, Campinas, São Paulo, Sertãozinho, Araraquara, Guarujá, São José do Rio Preto e Catanduva. Atuo em vários lugares, com obras residenciais e comerciais. Posso dizer que 70% do meu trabalho é residencial, mas trabalho em todos os segmentos. Agora mesmo estou fazendo um escritório de advocacia, fiz o D.O.C. Café do Shopping Iguatemi, a Maison Renato Aguiar, a Imobiliária César Paschoal, entre outros projetos corporativos.
Carla: Você destacaria alguma obra muito importante na sua carreira?
Alexandre: Todas são importantes. Uma obra recente muito interessante de fazer foi a Maison Renato Aguiar. Ele é uma figura pública e tudo o que usa e gosta, passa adiante. Então, além de ser muito bom trabalhar com ele, tem esse aspecto multiplicador. Além da Maison, fiz a casa dele e o outro salão por duas vezes. O Renato é muito exigente, então todos os projetos dele ficam bacanas. Tem muitos outros clientes interessantes, mas que não gostam de divulgação. Para um escritório de arquitetura e interiores, a divulgação é fundamental.
Carla: Existe alguma característica predominante no seu trabalho?
Alexandre: Existem várias características que marcam o meu trabalho. As cores, por exemplo, estão sempre presentes. Eu lido muito bem com elas; não tenho medo. Dificilmente alguém vai ver uma obra minha só branca. Outro ponto marcante do meu trabalho é a mistura de estilos. Jamais alguém vai entrar em uma obra minha e dizer que o cliente comprou tudo no mesmo lugar. Eu gosto de garimpar. Senão, o cliente não precisa de mim. Outro item fundamental nas minhas obras é a iluminação. Sempre cuido muito da iluminação. Nas minhas obras, à noite, é possível perceber um charme, uma atmosfera bem trabalhada. Esses são os três pontos altos do meu trabalho.
Carla: O que você preza em um trabalho?
Alexandre: Dedicação, comprometimento, pontualidade e disponibilidade com o cliente.
Carla: Com 20 anos de profissão, o que você espera do futuro?
Alexandre: Espero que cada vez mais as pessoas continuem com esse novo conceito, essa necessidade visual aprimorada. Espero que elas entendam o quanto é importante viver bem, com senso de organização, tendo uma vida mais centrada. A organização e a busca comedida por ela fazem com que a família cresça zelando por tudo o que tem. Isso traz, sob a minha ótica, um clima melhor. Essa noção independe de condições financeiras. Então, é isso que eu espero: um mundo cada vez mais belo.
FORA DO COMUM
“Eu acho que moda e decoração têm tudo a ver. Isso, de certa forma, aproxima o meu trabalho ao do Alexandre. Ele fez a minha casa uma vez e eu adorei a transformação feita. Além disso, somos amigos, acompanho o trabalho dele e sei identificar quando um projeto leva a sua assinatura. Gosto muito da mistura de estilos que ele usa. O Alexandre não é comum.”
Carla Petean, estilista.
Texto: Máisa Valochi
Fotos: Carolina Alves