Dedicação à Medicina
Driblando as dificuldades iniciais da carreira, Dr. Bianchi revela ao Dr. Pedro que havia poucos especialistas em ouvido no país
Apesar das agendas concorridas, Dr. Pedro Palocci (CRM 37.509) e Dr. Luiz Carlos Bianchi (CRM 8.061) encontraram tempo para um encontro rápido, porém gratificante, especialmente marcado. Um dos seus mais admirados integrantes da administração e do corpo clínico do Hospital São Lucas, Dr. Bianchi, um dos especialistas em problemas otológicos (ouvido) de Ribeirão Preto, aceitou o convite do diretor da instituição médica para uma entrevista.
Ribeirãopretano de nascimento e botafoguense por paixão, Dr. Bianchi se formou em Medicina pela Universidade Federal do Paraná, em Curitiba, em 1957. Durante os dois anos de residência médica na Santa Casa de São Paulo, teve como um dos mestres o professor Rezende Barbosa. De volta a sua cidade natal, montou consultório próprio, dedicando 55 anos, dos seus 83, à Medicina, clinicando até outubro de 2012. Longe do centro cirúrgico há 13 anos, o médico revela que ainda encontra com antigos pacientes e deles recebe carinhosos agradecimentos pelo cuidado dispensado nas consultas ou nas cirurgias.
Driblando as dificuldades iniciais da carreira, Dr. Bianchi revela ao Dr. Pedro que havia poucos especialistas em ouvido no país naquela época — os médicos Olati Brasil Pereira e o Jaime Nogueira Costa estavam entre os únicos. Quando começou a clinicar, só existiam dois microscópios cirúrgicos: um era de Jaime e de Olati e o outro era dele. “Fomos os precursores de cirurgias otológicas na cidade”, frisa Bianchi.
Em busca de especialização, foi para a França, na região de Bordeaux, onde fez um curso com Dr. Michel Portman. “Na época, estávamos começando a operar problemas de surdez, como otosclerose, uma doença do ouvido médio que causa surdez progressiva. Hoje, a estapedotomia, cirurgia que corrige a perda de audição com implante de uma prótese, por exemplo, já é mais comum”, aponta o médico.
Atualmente, é diretor adjunto do São Lucas, tendo sido um dos fundadores do Hospital, onde também ocupou a presidência por seis anos. Foi, ainda, fundador da Unimed e presidente do Centro Médico, entre outros cargos. Ativo na vida social da cidade, também deu sua contribuição como presidente do Lions, do conselho da Recreativa e do Botafogo, entre outras atribuições.
Comemorando seus 53 anos de vida em comum com Vera Calil Bianchi, Dr. Bianchi teve cinco filhos: Luiz Carlos, Marcelo, Luciana, Eduardo — o Duda, já falecido — e a caçula Daniela. A família aumentou com a chegada dos netos, que já são sete. Essas paixões, o médico soma ao amor pela Medicina e pelo São Lucas, como revela nesta entrevista ao Dr. Pedro Palocci.
Pedro Palocci: Por que o senhor optou por esta área da Medicina?
Luiz Bianchi: Até hoje, não sei bem porque decidi pela Otorrinolaringologia, mas talvez tenha sido levado pela curiosidade de descobrir um pouco mais sobre o funcionamento deste órgão fascinante. Quando eu era criança, tinha muita dor de ouvido e recorria sempre ao meu pediatra, o Dr. Roberto Taranto.
Pedro Palocci: O senhor nunca teve vontade de atuar na área acadêmica?
Luiz Bianchi: Fui convidado muitas vezes para ser docente na Faculdade de Medicina da USP, mas não deu certo. Eu tinha uma clínica com uma clientela grande na época e não dispunha de muito tempo para lecionar.
Pedro Palocci: Mesmo sem ter seguido a carreira acadêmica, o senhor teve alguns discípulos, certo?
Luiz Bianchi: Sim, tive a honra de contribuir para o desenvolvimento profissional de vários especialistas. Um deles é o Dr. Luis Carlos Alves de Souza, que acabou nos brindando com dois implantes cocleares bilaterais, realizados no Hospital São Lucas.
Pedro Palocci: Em sua trajetória, qual foi o maior desafio?
Luiz Bianchi: Acredito que tenha sido vencer as barreiras operacionais, como a falta de equipamentos, para um diagnóstico seguro. No início da carreira, comprar instrumentos básicos para o consultório, como espéculo nasal ou auricular, ponta de aspiração de ouvido e o otoscópio, também foi muito difícil e caro. Esses aparelhos eram importados, pois o Brasil ainda não fabricava equipamentos do gênero. Ainda assim, pude fazer um grande acervo, contribuindo, muitas vezes, com os colegas da área que não dispunham da instrumentação necessária para diagnóstico e cirurgias.
Pedro Palocci: Que outras dificuldades precisou enfrentar naquela época?
Luiz Bianchi: Não contávamos com muitos recursos, não existia computador nem diagnósticos por imagens, como ressonância, por exemplo. Operávamos depois de analisar radiografias comuns de osso temporal, mas a base do diagnóstico era clínica. Muitas vezes, precisávamos abrir o ouvido para verificar a real causa do problema. Na época, o órgão ainda era um mistério para os médicos.
Pedro Palocci: O senhor foi o pioneiro das cirurgias de mastoide?
Luiz Bianchi: Sim. Durante muitos anos Ribeirão Preto não tinha serviço próprio de otologia, nem mesmo no Hospital das Clínicas (HC). Então, a pedido de um professor, fui o primeiro a fazer uma cirurgia de mastoide (base do osso temporal situado atrás da orelha), realizada na Unidade de Emergência do HC. Para isso, levei todo o material do meu consultório. Lembro que tinha um DKW, onde coloquei microscópio, material, instrumentadora e fui operar, ao lado do chefe do serviço, Dr. Luiz de Goes Mascarenhas.
Pedro Palocci: Quando a intervenção cirúrgica de ouvido começou a ser difundida na cidade?
Luiz Bianchi: Isso aconteceu com a implantação do serviço otológico no HC, pelas mãos do meu grande amigo José Antônio Aparecido de Oliveira, o Juba. Foi ele, também, o primeiro médico a realizar um implante coclear em Ribeirão Preto. O José Antônio realmente é um grande cientista. Fomos sócios no consultório durante alguns anos, mas ele resolveu ir de vez para a Faculdade. Em matéria fisiologia do ouvido, ele é um grande conhecedor.
Pedro Palocci: Até quando o senhor clinicou?
Luiz Bianchi: Atendi normalmente até outubro de 2012, contabilizando quase 61 mil pacientes cadastrados.
Pedro Palocci: O senhor se considera um médico conservador?
Luiz Bianchi: Posso dizer que sim. Sempre fui um conservador, principalmente quando o assunto é cirurgia. No caso de uma amidalectomia (remoção das amídalas), por exemplo, sempre optei por preservá-las. Não que eu não operasse, mas indicava sua extração somente quando era imprescindível. Até hoje tenho pacientes que me agradecem por não terem sidos operados.
Pedro Palocci: O senhor reconhece a Medicina ou terapia alternativa?
Luiz Bianchi: Não. Eu respeito, mas não aceito.
Pedro Palocci: Em sua opinião, a tecnologia favorece o diagnóstico?
Luiz Bianchi: A evolução da Medicina é fantástica! Hoje, praticamente tudo é eletrônico e automatizado, o que facilita um diagnóstico mais preciso. Esse fator é positivo para o médico e para o paciente. Mas, por outro lado, acaba comprometendo um pouco o contato mais direto entre médico e paciente. Para mim, a Medicina está mais fria.
Pedro Palocci: O senhor é a favor da Medicina mais humanista?
Luiz Bianchi: Claro! Acho o dialogo entre médico e paciente fundamental, mas hoje, na prática, isso ficou esquecido. Não é mais como antigamente, quando o médico tinha mais tempo para ouvir o paciente e, às vezes, acabava se transformando em um amigo da família. Também era um profissional mais respeitado e importante. Um reflexo disso é que a Medicina era uma das cadeiras mais procuradas nas faculdades. Pena que, hoje, o lado humano ficou de lado.
Pedro Palocci: Quando passou a se dedicar à administração do São Lucas?
Luiz Bianchi: Primeiro fui presidente do conselho e, em 2008, graças a seu convite, assumi como diretor adjunto.
Pedro Palocci: O seu dia começa a que horas?
Luiz Bianchi: Não sei ficar parado. Gosto de levantar cedo e, mesmo aos 83 anos de idade, passo praticamente o dia todo no Hospital. Em média, trabalho oito horas por dia, mas quando é preciso, fico até mais tarde, chegando a sair entre 21h e 22h.
Pedro Palocci: O trabalho é o seu segredo para tanta vitalidade?
Luiz Bianchi: Sim, o trabalho é essencial para o ser humano, especialmente se o que se busca é ter vitalidade e boa qualidade de vida.
Pedro Palocci: Que atividades escolhe para as horas de lazer?
Luiz Bianchi: Além de estar com a família, gosto muito de pescar. Antigamente eu pescava muito mais, junto com um grande grupo de amigos. Mas com o passar dos anos, isso foi ficando mais espaçado. Mas de vez em quando, dou uma escapadinha para uma pescaria rápida. Fazer pequenos consertos, cuidando da manutenção da casa, é outra atividade que gosto bastante.
Pedro Palocci: Qual foi o momento mais gratificante da sua carreira?
Luiz Bianchi: O que eu tenho de mais gratificante na vida é o Hospital São Lucas. Nutro um amor tremendo pelo Hospital, é como se ele fosse meu sexto filho. Fico tão preocupado com a possibilidade de parar de trabalhar que, com o mandato prestes a vencer, já o questionei se continuo ou não no cargo. Para minha satisfação, a resposta foi positiva.
Pedro Palocci: Qual o segredo para manter esse carisma junto à equipe do Hospital?
Luiz Bianchi: Saber ouvir é um item importante. Eu me interesso muito pelo ser humano, pelos meus auxiliares. Tanto que fiz questão que todas as funcionárias que passaram pelo meu consultório se formassem.
Pedro Palocci: Que conselho daria a quem está saindo da faculdade ou iniciando a carreira médica?
Luiz Bianchi: Que aprenda a ser humano, que ouça mais os pacientes. Nossa luta dentro do São Lucas sempre foi a humanização do atendimento. Esse cuidado é tão importante, que eu atribuo cerca de 40% da melhora ou da cura do paciente exatamente à humanização: esse cuidado com o outro, com a atenção e o tempo disponível para ouvir o outro. A piora do estado geral de um paciente pode até estar relacionada a essa deficiência. A grande luta é por uma Medicina e por médicos mais humanistas.
Integridade e carisma
“O Dr. Bianchi é um profissional espetacular e um indivíduo especial. Algumas características da sua personalidade são muito marcantes e tê-lo como amigo já é um privilégio. Além disso, conseguimos convencê-lo a participar da diretoria do Hospital São Lucas como diretor-adjunto. A idade só lhe trouxe mais serenidade. É um médico excepcional e, na gestão do Hospital, mostra-se conciliador, amigo e um dirigente eficiente. Muito respeitado, não conheço sequer um médico que o tenha criticado ou que não o admire. Dinâmico e muito ágil, conquista a todos os colegas e funcionários. Chegar a esta idade com este carisma, prestígio e integridade não é fácil. Nem de longe o Dr. Bianchi sonha em parar de trabalhar e já nos cobra os próximos passos para incrementarmos os serviços prestados pelo grupo. Ter o Bianchi em nossa diretoria só nos engrandece.” Dr. Pedro Palocci é pediatra e diretor presidente do Grupo São Lucas.
Texto: Rose Rubini | Fotos: Carolina Alves