Depressão, o mal do século
Em entrevista à Eunice Mendes, Mario Juruena explica os preconceitos, entraves e avanços no tratamento da depressão, doença mais incapacitante nos países de primeiro mundo e a segunda no Brasil
Desmistificar a depressão é um dos objetivos da atriz, pedagoga e consultora empresarial Eunice Mendes. Nesta entrevista com o psiquiatra Mario Francisco Juruena, professor doutor do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto. A doença afeta 25% das mulheres, ou seja, de cada quatro mulheres, uma terá episódio depressivo de moderado a grave no decorrer de sua vida. Os homens, em uma estatística de 10% a 15%, também podem passar pela doença em alguma fase de sua trajetória. Mario revela que, a cada duas mulheres depressivas, há um homem na mesma condição. “A desesperança é um dos piores fatores que agrava a doença”, observa o psiquiatra.
Até 2004, a depressão era a segunda doença mais incapacitante no mundo e, em 2010, passou a ser a primeira nos países desenvolvidos e a segunda em países de Terceiro Mundo, como o Brasil. Nessas localidades, de acordo com Mario, a depressão também se tornará a doença mais incapacitante até 2020. Eunice faz parte desses dados. Ela já vivenciou três episódios depressivos, continua em tratamento e encontrou na literatura uma forma de exteriorizar seus pensamentos e anseios. No livro “Depressão Versus Esperança – Uma história de Superação”, ela narra de forma simples e eficaz como enfrentou o problema e retomou as rédeas da vida.
No encontro entre os dois, registrado pela jornalista Rose Rubini, o psiquiatra explica que a depressão pode levar até à perda de emprego e de relacionamentos, afastamento do trabalho, incapacidade de desenvolver as atividades, chegando a provocar destruição de neurônios e problemas cardíacos, pois, em fases mais agudas, contribui para a formação de coágulos que entopem as coronárias. “Alguns cardiologistas não valorizam e muitos especialistas não sabem disso, mas essa informação salva-vidas”, ressalta Mario.
Eunice: As mulheres são mais expansivas e se cuidam mais do que os homens. É por isso que aparecem em maior número nas estatísticas de depressão?
Mario: Sim, mas é preciso identificar bem os sintomas da doença, porque não é simplesmente uma tristeza ou a perda de interesse que caracteriza a depressão. A pessoa deve ter, no mínimo, uns seis sintomas juntos, que durem mais que duas semanas. As mulheres, em alguns momentos de sua vida, terão ter tendência depressiva. Isso tem relação, por exemplo, com o ciclo menstrual, pois, em seu período fértil, com a redução dos hormônios femininos, principalmente o estrógeno, elas ficam mais vulneráveis, irritáveis, ansiosas e depressivas.
Eunice: A psiquiatria está preparada para lidar com um problema de proporções epidêmicas?
Mario: Se pensarmos em todas as doenças, vemos que em torno 40% da população precisa de algum tipo de tratamento psicológico. As depressões são epidêmicas nas mulheres e nos homens. Idosos também terão problemas importantes no decorrer da vida e, sem dúvida, não estamos prontos ainda. Nós, especialistas, não temos condições de poder chegar até o paciente, até a família. Aqui no Hospital das Clínicas (HC), temos no Centro de Saúde Mental o programa de prevenção do hospital-dia.
Eunice: Como funciona esse trabalho?
Mario: Vamos ao encontro do paciente, fazemos visita domiciliar, entre outros atendimentos na unidade, mas isso é uma exceção na rede pública de saúde, que não está aparelhada para tratar toda a população. Tivemos uma grande quantidade de leitos fechados, em decorrência do fim dos hospitais psiquiátricos e aproveitamos o espaço. Depois disso, não aumentou a cobertura por meio dos ambulatórios e de leitos nos hospitais gerais ou nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). É uma tristeza dizer isso, mas, diante da realidade, eu diria que, em alguns aspectos, nós até pioramos o atendimento a essa população.
Eunice: As doenças psíquicas estão relacionadas ao estresse da vida moderna?
Mario: O estresse é um gatilho e desencadeia episódios depressivos. Se a pessoa tem histórico de depressão na família ou ela mesma já passou por um episódio depressivo leve, ao se deparar com um problema mais grave, como uma perda, um assalto, um rompimento afetivo ou uma doença, que acomete ela própria ou algum familiar, pode desenvolver um quadro depressivo, que denominamos estresse precoce. Um trauma ou sobrecarga de estresse na infância também pode se transformar em gatilho para a ocorrência de depressão na vida adulta. O especialista precisa estudar retrospectivamente a vida do paciente.
Eunice: A pessoa depressiva é mais fraca que as outras?
Mario: Até uns 15 ou 20 anos atrás, isso era considerado secundário e costumávamos ouvir frases como: “Pobre não tem depressão. Isso é doença de rico”, “Vai trabalhar, vai lavar roupa que passa”, “Reage”. A família precisa saber que a doença depressiva acarreta falta de energia, de ânimo, de disposição, além de alteração no sono, falta de apetite ou compulsão por doces e por alimentos calóricos. É uma troca pela sensação de bem-estar, que reduz momentaneamente aquela voracidade. A família precisa estar atenta a essas alterações.
Eunice: O desequilíbrio químico no cérebro também influencia no desencadeamento da doença?
Mario: Sim. Já está comprovado que existem substâncias no sistema nervoso que dão energia, bem-estar, prazer, mas é preciso saber que a depressão tem dois pontos importantes: o afeto positivo (energia, ânimo, autoestima, concentração, memória) e o afeto negativo (medo, ansiedade, isolamento social). Algumas pessoas têm um ou outro e os casos mais graves apresentam ambos. Quando isso ocorre, é preciso integrar os tratamentos, aliando psicoterapia e medicamentos.
Eunice: O abuso emocional predispõe à depressão?
Mario: Sim. Algumas situações envolvendo familiares ou mesmo colegas dos ambientes de trabalho e estudo caracterizam o que chamamos de abuso emocional. São práticas como chamar uma criança de feia, gorda e outras ofensas. Ocorre também quando uma criança é depreciada, humilhada pelos pais ou cuidadores. Isso predispõe mais à depressão que o abuso físico, que também é uma situação grave. O abuso sexual, por exemplo, é outro problema. O Brasil é campeão mundial nesse tipo de ocorrência que atinge todas as classes sociais.
Eunice: Os transtornos mentais ainda são estigmatizados pela sociedade?
Mario: Bastante, até pelos próprios médicos, que aceitam ser tratados por outro problema, mas não querem ser vistos no consultório de um psiquiatra. Até alguns anos atrás, quem tratava depressão era o neurologista, mas isso está mudando, principalmente pela divulgação do problema na mídia. Temos visto que as pessoas já aceitam melhor as doenças psiquiátricas e buscam tratamento.
Eunice: As pessoas fazem o tratamento corretamente?
Mario: Muitos pacientes depressivos são resistentes ao tratamento e não associam psicoterapia e medicamento, mas outros respondem muito bem. Em torno de 50% dos pacientes graves são resistentes ao tratamento. Para se ter uma ideia, se fizerem o tratamento certo, combinando psicoterapia e medicamento, uma em cada duas pessoas vai melhorar. Isso é pior do que muitas doenças graves, como câncer e problemas cardíacos. Depressão não é bobagem; é um problema muito sério de saúde.
Eunice: O que é verdade e mito sobre os antidepressivos?
Mario: Primeiro é bom esclarecer que esse tipo de medicamento não causa dependência. Até porque o especialista deve iniciar o tratamento com doses pequenas e tirar o remédio na mesma proporção. Nunca de uma só vez. Se bem indicados e usados de maneira criteriosa, em doses corretas e progressivas, os antidepressivos só ajudam no tratamento.
Eunice: Quando eles são indicados?
Mario: Estudos na USP apontam que 70% dos depressivos passaram por conflitos graves na infância e na adolescência, portanto, a medicação, por melhor que seja, não vai resolver por si só a doença. É preciso diagnosticar o paciente e trabalhar os dois pontos: o conflito e a deficiência química. Em casos traumáticos, a psicoterapia dobra o potencial de resposta positiva e as chances de cura, que eram em torno de 40% a 50% só com fármaco, passam para 80% a 90% integrando a psicoterapia.
Eunice: Mulheres grávidas podem tomar antidepressivos?
Mario: É como qualquer outro tipo de medicamento que também pode gerar problemas para o bebê. Nesses casos, o médico precisa analisar o risco-benefício. É preciso ver se a mulher está com risco grande de suicídio ou depressão grave incapacitante. Sem dúvida que o medicamento deve ser integrado na psicoterapia, mas somente se for possível usar doses baixas. Alguns hormônios da gravidez até ajudam a mulher a ficar menos ansiosa e menos depressiva.
Eunice: O paciente que toma antidepressivo pode ingerir bebida alcoólica?
Mario: O melhor é não beber enquanto estiver em tratamento. O paciente precisa avaliar que o benefício do álcool é momentâneo, já o tratamento é para a sua vida toda, mas, se em algum momento, ele quiser muito beber, quando estiver em uma festa ou confraternização, indico não interromper a medicação e beber moderadamente durante a refeição.
Eunice: O que acontece se o paciente parar de tomar a medicação por conta própria?
Mario: Se o paciente parar abruptamente, pode se sentir mal. A cabeça parece sacudir e há a sensação de que falta alguma coisa. O remédio age estimulando a conexão dos neurônios para que eles se comuniquem adequadamente. No momento em que se perde isso, a conexão fica instável, prejudicando a comunicação.
Eunice: O que deve ser feito quando alguém quer se suicidar?
Mario: O Brasil é o oitavo país em números absolutos de suicídios ocorridos no mundo, sendo que o Estado com maior incidência é o Rio Grande do Sul, seguido por Santa Catarina e São Paulo. O Nordeste tem níveis mais baixos. É preciso saber como abordar e como prevenir. Identificamos três tipos de riscos: o paciente que afirma estar pensando em se matar, aquele que já tem o plano para isso e um terceiro, em estágio mais crítico, que tem em casa o que chamamos de “kit suicídio”, que inclui armas, venenos, entre outros itens. Por isso, criamos o Setembro Amarelo como forma de alertar as pessoas para essa problemática. O profissional e a família devem estar atentos a qualquer sinal e, caso a pessoa já tenha tentado se matar uma vez, talvez precise de internação para preservar a sua vida e ter um tratamento mais efetivo.
Eunice: As pessoas que não têm plano de saúde podem procurar ajuda onde?
Mario: O Sistema Único de Saúde (SUS) tem psiquiatras, psicólogos e profissionais multidisciplinares que atendem a população em nível primário, nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs). O SUS também dispõe de centros de atenção psicossocial que dão atendimento. Em nível terciário, no HC, também fazemos o encaminhamento. Infelizmente, isso ainda está aquém das necessidades. Seria preciso multiplicar por dois ou três as equipes de profissionais para atender a demanda. Faltam recursos humanos e financeiros. A maioria dos colegas que se forma, por exemplo, na USP, acaba indo para o sistema privado, que oferece melhores salários e condições de trabalho, além do maior número de vagas.
Eunice: O que existe de novo para o tratamento da depressão?
Mario: Não avançamos em formas de tratamento e a indústria farmacêutica parou de lançar novos fármacos. Recentemente, um ou dois medicamentos foram lançados, mas verificamos o mesmo mecanismo de ação que outros já usaram. Uma das novidades é a questão da cognição, do conhecimento. Surgiram estudos chamados psicoterapia cognitiva e terapia interpessoal, que têm demonstrado resultados superiores aos métodos tradicionais. Outro ponto importante é a prática de atividade física regular, que, além de trazer benefícios ao quadro psíquico do paciente, também melhora sua autoestima e até mesmo a sua socialização.
Eunice: Quais são os programas de referência no tratamento da depressão?
Mario: Vocês conhecem no Brasil algum instituto que cuide dessa doença? A depressão sozinha incapacita muito mais que muitas enfermidades juntas, para as quais já existem modernos institutos de pesquisa e tratamento, especializados em doenças do coração, câncer e saúde da mulher, por exemplo. É preciso criar um espaço que integre os vários tipos de depressão e mantenha pesquisas e avanços constantes para melhorarmos as formas de tratar e curar esse mal.
Eunice: Os fatores externos influenciam na depressão?
Mario: Sim. Crises financeiras, estresse, dupla jornada de trabalho da mulher, tudo isso influencia, não só nos adultos de agora, mas nessa geração que está vindo por aí e estará mais predisposta à depressão. O filho da mulher que tem dupla jornada de trabalho ou do pai que perdeu o trabalho e vai se refugiar no álcool ou nas drogas vai ficar mais suscetível à depressão. É o que chamamos de tríade depressiva: a pessoa tem autoestima baixa, visão do mundo negativa e não enxerga luz no fim do túnel.
Eunice: Quais são as pessoas com maior tendência a ter depressão?
Mario: Pacientes que tendem a ser mais introvertidos. As pessoas mais comunicativas não esquentam muito a cabeça com a questão. A terapia de grupo ajuda muito no tratamento, porque um vê na experiência do outro uma forma de incentivo para não desanimar e continuar o tratamento. A espiritualidade e o apoio familiar são importantes também para que a pessoa recupere a capacidade de conviver e de compartilhar suas dificuldades.
Eunice: Mesmo com depressão, é possível ter qualidade de vida?
Mario: O importante é saber que a depressão tem cura. Há o que chamamos de remissão, ou seja, a pessoa se recupera de todos os sintomas, interrompe o medicamento e a terapia, tem inserção social e volta a ser feliz na sua vida pessoal e profissional. Há quadros leves e moderados em que temos uma reposta muito boa, já os mais graves terão a resposta entre 50% e 60%, dependendo da abordagem. Não podemos dizer que a depressão é negativa em todos os sentidos. Há pessoas que saem dela mais fortes do que entraram e com experiências enriquecedoras.
Capacidade de ouvir
“Os temas psiquiátricos costumam ser muito complexos e a escolha do renomado psiquiatra Mario Juruena para ser entrevistado sobre a depressão foi justamente uma tentativa de abordar o assunto de forma mais inteligível para leigos. Pessoalmente, insiro-me entre aqueles que têm sede de saber mais sobre uma doença que, não sem razão, ganhou o título de ‘mal do século XXI’, seja como portadores, seja como familiares ou amigos próximos de alguém nessa condição. Foi a experiência adquirida na organização de cursos de comunicação verbal que me permitiu identificar no doutor Mario alguns predicativos essenciais não apenas à lida diária com as chamadas ‘dores da alma’, como também à nobre missão de ajudar no esclarecimento dos fatores específicos relacionados à depressão. Em uma entrevista prévia concedida ao também médico Jairo Bouer, percebi que ele demonstrou profundo conhecimento sobre o tema e, ao mesmo tempo, uma notável simplicidade ao expor as ideias. Somou-se a isso a clareza de raciocínio e a cada vez mais rara capacidade de ouvir com atenção o seu interlocutor. Ao longo de nossa entrevista, confirmei todas essas qualidades, o que resultou em uma oportunidade ímpar para leitores de todos os perfis conhecerem o mundo caótico da depressão e avistarem caminhos possíveis de tratamento e de superação da doença.” Eunice Mendes é atriz, pedagoga e consultora empresarial na área de comunicação verbal.
Texto: Rose Rubini
Fotos: Ibraim Leão