Depressão tem saída
A boa notícia é que a depressão pode ser tratada e o depressivo pode voltar a viver sem os sintomas
Considerada por muitos “o mal do século”, a depressão faz jus à fama que vem adquirindo. Para se ter uma ideia, a doença já ocupa o segundo lugar no ranking médico das doenças mais incapacitantes — só perde para as doenças cardíacas. Isso significa que a depressão, em sua versão grave, impede que o indivíduo mantenha uma rotina normal no trabalho, em casa, nos relacionamentos ou nos momentos de lazer. As perspectivas da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam que, até 2020, esta doença psiquiátrica já terá alcançado o topo do ranking, tornando-se, entre todas as doenças médicas, o mais incapacitante problema.
Hoje em dia, os dados já comprovam que uma em cada quatro mulheres desenvolverá um episódio depressivo em algum momento da vida. Entre os homens, as estimativas giram em torno de 10% e 15%. O problema é mais comum entre elas por causa das variações constantes dos hormônios. Essas substâncias compõem a extensa lista de fatores que influenciam o aparecimento da depressão. Na menopausa, por exemplo, a taxa do hormônio feminino estrogênio, que é um antidepressivo natural, cai, consideravelmente, aumentando as chances de desenvolver a doença. O mesmo vale para os períodos pré-menstrual e pós-parto.
Sabe-se, também, que em situações de estresse, o cortisol, hormônio produzido pela glândula suprarrenal, está relacionado ao desenvolvimento da doença. Benéfico, este hormônio na dose certa é uma resposta do organismo a momentos estressores. Quando sua produção é excessiva ou escassa, pode favorecer a chegada da depressão. Não se concluiu, no entanto, se é a depressão que eleva as taxas de cortisol no organismo ou se são essas alterações hormonais que desencadeiam o problema.
Também é possível afirmar que fatores genéticos estão relacionados à depressão. A incidência da doença é mais comum em pessoas que possuem histórico familiar relacionado a problemas psiquiátricos. No entanto, mais importante do que indicadores orgânicos ou genéticos são os fatores ambientais. Pesquisas apontam que dois terços das chances de desenvolver depressão estão ligados a episódios estressores vividos pelo doente. Isso não significa que todas as pessoas expostas a ambientes difíceis desenvolverão a doença, sendo necessário possuir vulnerabilidade pessoal associada a vivências ambientais adversas.
A dificuldade de traçar um panorama claro da depressão está presente, também, na rotina dos médicos, que não possuem parâmetros claros na hora do diagnóstico. Um artigo publicado na Revista Journal of Affective Disorders, este ano, deixa claro que identificar o problema é uma arte para especialistas, por conta da quantidade de sintomas. Há 227 possíveis sinais de uma depressão maior, segundo dados da Associação Americana de Psicologia — e de suas descrições subjetivas. “Existem inúmeras classificações para a depressão, segmentadas pelas causas e pelos sintomas, formando síndromes depressivas distintas. Mas a falta de indicadores biológicos para diferir um tipo e outro torna mais complicada a identificação destes quadros e o tratamento da depressão. Hoje, os sistemas de classificação de doenças baseiam-se somente em descrições subjetivas dos sintomas depressivos. Tal descrição detalhada inclui múltiplos subtipos clínicos. No entanto, não há uma característica biológica que diferencie um subtipo do outro. Essa falha nos critérios diagnósticos permeia toda a psiquiatria, inclusive, tornando difícil a aproximação dessa especialidade das demais áreas da Medicina”, afirma.
Mario Francisco Juruena, um dos autores do artigo, coordenador do Programa de Assistência, Ensino e Pesquisa do Hospital Dia Psiquiátrico do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (FMRP-USP).
De acordo com Juruena, que é professor na FMRP-USP e desenvolveu sua trajetória acadêmica debruçado em pesquisas sobre os transtornos afetivos, especialmente a depressão e transtorno bipolar, na Universidade de Londres, Inglaterra, a psiquiatria está evoluindo nesse sentido. Ele mesmo conduz, em parceria com a Instituição Inglesa, da qual é professor honorário, novas pesquisas sobre o assunto. “Mas de modo simplificado, podemos dizer que há dois tipos de depressão, de acordo com o afeto. Diminuição do afeto positivo, que é a perda da alegria, interesse, energia, concentração; e aumento do afeto negativo: tristeza, culpa, isolamento social”, simplifica o especialista.
Os sintomas gerais não são difíceis de identificar, começando pelo humor deprimido e pela perda de interesse ou prazer por, no mínimo, duas semanas. Esses fatores devem estar associados a três ou mais sintomas, como: alterações de peso e do sono, alteração psicomotora, fadiga e perda de energia, sentimento de inutilidade ou culpa, perda da capacidade de concentração ou indecisão acentuada e ideação suicida. “A associação dessas características deve, ainda, causar sofrimento e/ou prejuízo social ao paciente”, explica Juruena, reforçando que só tristeza é diferente de depressão. “Enquanto a primeira é um sentimento que todos temos, em um momento ou outro, a segunda é uma doença crônica, sistêmica, com vários sintomas que resultam na incapacitação funcional e até no comprometimento da saúde física”, reforça o professor.

O estresse como gatilho
Estudos desenvolvidos pelo Juruena na Inglaterra e na FMRP-USP demonstram que o estresse, especialmente quando acontece precocemente, propicia o aparecimento de quadros depressivos. “Análises já publicadas apontam que entre 60% e 70% dos episódios depressivos estão associados a um evento estressor. Os indivíduos que enfrentaram tais episódios na infância e na adolescência ficam ainda mais vulneráveis à depressão”, explica o pesquisador.
Tais episódios podem estar relacionados a abusos físicos, emocionais e até sexuais. “Agressões físicas com ou sem lesões, insultos ao bem-estar e à moral das crianças e abusos ou estímulos sexuais por alguém mais velho podem desencadear a propensão à depressão”, esclarece Juruena. A negligência com os pequenos e os jovens pode vir na forma de falhas ao atender as necessidades básicas, como moradia, segurança e saúde, além de falta de amor, atenção, motivação e suporte emocional, entre outros.
Uma situação estressora na adolescência levou Maria Cláudia à depressão. Já casada, com uma filha jovem e uma carreira consolidada, a advogada começou a notar os primeiros sintomas: perda da concentração, elevado grau de irritabilidade e comprometimento da capacidade de solucionar casos rotineiros. Em casa, a vida familiar também foi comprometida e a falta de paciência afetou seu relacionamento com o marido e com a filha. Conforme o tempo passava, a doença se agravava e Maria Cláudia já não conseguia manter as atividades do dia a dia. Levantar da cama para fazer o café da manhã ou tomar banho dependia de um esforço sobre-humano. “Por desconhecimento, não entendia o que estava acontecendo comigo. Minha família acabou adoecendo junto, pois era impossível aceitar e entender aquela situação. Até que me convenci de que havia um problema mais sério e busquei ajuda profissional”, relata Maria Cláudia.
Durante esse processo, precisou livrar-se dos próprios preconceitos em relação à doença para aceitar o tratamento, uma associação de medicamentos e psicoterapia. “Depois de muitos melhoras e pioras, tive que passar um período internada em um spa psiquiátrico para me livrar das crises agudas da depressão”, acrescenta a advogada, que abandonou a profissão para cuidar de si e da família.
Essa fase durou cinco meses. Nesse período, a advogada passou por terapias individuais e em grupo, fez terapia ocupacional e muitas outras atividades recomendadas. A família de Maria Claudia também participou do tratamento, que acabou no final de 2009. De volta para casa, uma nova luta foi iniciada: pela ressocialização. “Quando estamos num lugar como aquele, convivemos com pessoas que entendem exatamente o que enfrentamos, ou porque são especialistas no assunto ou porque lidam com os mesmos problemas. Por isso, voltar à rotina não é fácil”, afirma.
A luta ficou mais fácil ao lado de um novo amor, que conheceu no spa. O terceiro marido de Maria Cláudia também lida com transtornos de humor, portanto, a cumplicidade entre os dois e o companheirismo nos momentos de crise tornaram-se santos remédios. “O respeito é a base do nosso relacionamento. O Lucio foi minha remição e também meu novo motivo para seguir adiante”, declara-se a advogada.
Para dar sustentação ao tratamento, Maria Cláudia encontrou o Hospital-Dia (HD), do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, que presta assistência em saúde mental à comunidade. No local, participou, diariamente, por quatro meses consecutivos dos encontros com grupos de pacientes de transtornos do humor, especialmente de depressão e todas as demais atividades oferecidas pelo HD até a sua ressocialização total. Após este período, continuou participando das atividades e terapias para pacientes pós-alta. “Falar sobre o assunto, ouvir histórias de outros pacientes e contar como venho sendo bem-sucedida no tratamento, que precisa ser mantido para garantir que as recaídas não aconteçam, faz muito bem”, finaliza Maria Cláudia.
Para tratar e educar
O Hospital-Dia (HD) da FMRP/USP é a primeira internação parcial em instituição universitária do Brasil, tendo completado 50 anos recentemente. Foi fundado pelos professores David Azoubel Neto e José Onildo Betioli Contel. Criado em 1961, o lugar, que deve ser ampliado em breve, recebe pacientes em fase de semi-internação — eles passam o dia no hospital e retornam para casa à noite —, além de grupos terapêuticos e atendimentos individuais. O Hospital-Dia também funciona como um campo de ensino e pesquisa, com ênfase na formação de novos recursos humanos, treinamento de residentes em psiquiatria, pesquisadores em fase de mestrado e doutorado, além de outros profissionais dedicados à saúde mental. Todos os profissionais são importantes para dar novo significado aos episódios do dia a dia dos pacientes com depressão.
O tratamento recebido pelos pacientes envolve uma série de especialidades. Ao lado do corpo de psiquiatria e dos estudantes estão psicólogos, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais e recreacionistas. A docente da Escola de Enfemagem EERP-USP, Lucilene Cardoso, enfatiza que o atendimento multidisciplinar faz toda a diferença nos resultados obtidos. “Ainda assim, dependemos muito da adesão do paciente ao tratamento para que possamos atingir o sucesso terapêutico”, reforça Lucilene.
Tão importante quanto isso é, também, o trabalho de psicoeducação empreendido pelo grupo. “Muita gente sofre calada, sem saber que tem uma doença grave que pode ser tratada”, afirma o professor Juruena. Para cruzar a barreira do desconhecimento, o melhor caminho é levar informação às comunidades. Por meio dos próprios pacientes e de seus familiares, podem ser organizados encontros para esclarecer todas as dúvidas sobre a depressão. Como os encontros comunitários do HD, coordenados pelo médico Sergio Ishara. “A família também precisa entender mais sobre o problema e, assim, colaborar ativamente na recuperação do paciente”, alerta o especialista.
Os pacientes atendidos no Hospital-Dia devem ser encaminhados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O lugar também conta com um grupo de acolhimento. Para saber mais, acesse o site www.hcrp.fmrp.usp.br ou entre em contato pelo tel.: (16) 3602.4623.
Os remédios, a tristeza e o pensar
* Por Alexandre Martins de Mello
A reportagem orienta para a necessidade dos pacientes com depressão procurarem tratamento. Vivemos uma pressão social intensa para estarmos alegres, bonitos, ricos e divertidos. Muitas vezes, os sentimentos de tristeza e angústia são medicados, quando poderiam ser apenas parte essencial de alguns períodos da vida. Ouço relatos de pessoas que foram medicadas quando se sentiam tristes porque perderam alguém querido ou por estarem em um período difícil da vida. Qual o direito/respeito à dor mental sem sua medicalização ou estratégias excitantes para se sentir animado, por exemplo: recurso ao álcool, drogas, consumo compulsivo, sexo ou pornografia? Qual a importância do aprendizado e convivência com emoções e dores mentais para o desenvolvimento do pensar para o ser humano? O que são dores emocionais inúteis e quais são as necessárias para nossa subjetividade e autonomia? É importante desenvolver recursos para contenção de dores necessárias ao pensar criativo. O pensar pode ser um efetivo remédio para o desânimo e a futilidade. Também recomendo a leitura do livro chamado Perto das Trevas, escrito por Willian Styron, autor de “A Escolha de Sofia”, um relato de uma crise depressiva e seu tratamento medicamentoso e psicoterápico.
Vai e vem do humor
É como estar constantemente em uma montanha russa: o transtorno bipolar coloca o humor na zona da instabilidade, fazendo com que seu portador alterne períodos de tristeza, melancolia, desânimo e desordem do sono e do apetite a momentos de extrema euforia, com hiperatividade física e mental. Nessa fase, abusar das compras e praticar muito sexo são ações comuns. Atualmente, estima-se que de 5% a 8 % das pessoas estejam sujeitas a este transtorno, número que cresceu graças à evolução do diagnóstico. Normalmente, a doença passa a ser conhecida a partir dos 20 anos, idade em que o sistema nervoso já está maduro. A depressão bipolar também é determinada por uma conjunção de fatores: além da predisposição genética, a doença depende de fatores ambientais e psicológicos para se desenvolver. O paciente bipolar acelera o seu metabolismo cerebral, o que o leva a pensar mais rapidamente, gastando mais energia mental e emocional do que as pessoas que não sofrem desse transtorno. O tratamento mais eficaz também é a combinação entre medicamentos estabilizadores do humor e terapia cognitiva.
Alerta ligado
Se a tristeza e o desinteresse por atividades antes prazerosas persistirem por duas semanas ou mais, preste atenção nos sintomas abaixo. Se três ou mais dos sintomas fizerem parte da sua rotina, talvez seja hora de buscar ajuda profissional.
Mudanças bruscas de peso
Sono alterado para mais ou para menos
Alteração psicomotora
Fadiga e perda de energia
Sentimento de inutilidade ou culpa
Perda da capacidade de concentração ou indecisão acentuada
Ideação suicida![]()

Texto: Luiza Meirelles
Fotos: Julio Sian
Diagramação e ilustrações: Lucas Chaibub