Desafios do agronegócio

Desafios do agronegócio

O Programa Nacional de Comunicação vai mostrar a importância do agronegócio para o cidadão urbano

Apesar da estimativa de safra recorde de 149 milhões de toneladas para este ano, o Brasil precisa superar as limitações estruturais do agronegócio para manter esse setor da economia em expansão. Retomar os investimentos para atender à crescente demanda mundial por alimentos — 20% nos próximos dez anos, de acordo com dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) —, é um dos principais desafios.

Para o ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, que atualmente coordena o Conselho Superior de Agronegócios da Fundação Getulio Vargas (FGV), esta deve ser uma das principais metas para o novo governo. Ele aponta quatro setores que precisam de atenção urgente: renda, logística, comercialização e reforma institucional.

Ao comparar a política de renda agrícola, o agricultor e professor prioriza mudanças relativas ao câmbio, ao crédito rural (inalterado desde 1965), aos endividamentos, ao seguro agrícola e aos mecanismos de comercialização. “A política agrícola no Brasil precisa sair do papel. Todos sabem que o produtor brasileiro é competitivo dentro da fazenda dele. Quando sai, perde muito por causa, por exemplo, da falta de instrumentos eficientes em logística”, alerta o professor, reforçando a urgência na melhoria das malhas viária e ferroviária, além da necessidade de mais hidrovias e portos para tornar o transporte eficiente e facilitar o escoamento da produção agrícola.

Para ampliar as fronteiras comerciais brasileiras, Rodrigues sugere aumentar o número de Embaixadas, que tenham adidos agrícolas, com condições de analisar o mercado em cada país e mostrar que o produto brasileiro tem todas as condições para atender ao mercado internacional. Para isso, é preciso ter uma política clara de comércio internacional, que também passa pela união dos setores público e privado e novos acordos bilaterais.

Rodrigues aponta que o atual modelo de governo, com quase 40 ministérios, já demonstrou não ser eficiente e contribui para emperrar o andamento dos trabalhos do Ministério da Agricultura. Para ele, 20 ministérios seriam suficientes. “Alem disso, é preciso atentar para a ação positiva da Bancada Ruralista , inclusive na luta por um Código Florestal moderno e uma Reforma Agrária capitalista, que assente o trabalhador rural com acesso ao crédito e à tecnologia”.

Para Rodrigues, o cidadão deveria falar mais sobre política e sobre a importância da agricultura que move o país. “Não existe roupa sem algodão, nem sapato sem couro ou borracha sem seringueira. Tudo isso é resultado do trabalho rural, e o povo brasileiro precisa entender e valorizar essa riqueza”, argumenta. “Para isso, um conjunto de entidades e empresas ligadas ao Conselho Superior do Agronegócio da FIESP  colocará em prática um plano de comunicação e marketing. Subsidiado por empresas ligadas ao setor, o Programa Nacional de Comunicação vai mostrar a importância do agronegócio para o cidadão urbano por meio de peças publicitárias veiculadas na internet, na TV, no rádio, entre outros canais de comunicação.

Aos 68 anos, pai de quatro filhos e com sete netos, Roberto Rodrigues acredita no potencial brasileiro e confia na força de trabalho do homem do campo. O ex-ministro revela que seu maior desejo é um dia poder transformar o sonho em realidade e ver que o país cresce e se projeta mundialmente como potência econômica “nas asas do agronegócio”.

Engenheiro agrônomo, produtor de cana e de grãos, foi secretário da Agricultura do Estado de São Paulo e presidente da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), da Sociedade Rural Brasileira (SRB) e da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag). Coordenador do Centro de Agronegócio da FGV, divide o tempo entre a presidência do Conselho Superior do Agronegócio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e as aulas no Departamento de Economia Rural da Unesp, em Jaboticabal. Ao lado do colombiano Luís Alberto Moreno e do ex-governador da Flórida, Jeb Bush, comanda a Comissão Interamericana do Etanol.

ALAVANCA COMERCIAL

Ex-ministro do governo Lula, classifica o agronegócio como o setor econômico mais importante do país. Segundo ele, a atividade responde por 29% de tudo o que é produzido no país (PIB), gera 37% dos empregos e quase o dobro do saldo comercial total do país. Mesmo assim, lamenta que o segmento não tenha respaldo da opinião pública urbana.

Rodrigues reconhece que o agronegócio deu um salto no governo Lula, mas isso fez parte de um processo desenvolvido no decorrer de 20 anos e iniciado em 1990 com o Plano Collor e mais tarde com o Plano Real, que, segundo ele, produziram ao mesmo tempo a estabilização interna da moeda, a abertura comercial sem nenhuma proteção e a falência das políticas públicas, o que exigiu a profissionalização do nosso agropecuarista.

O professor lembra, ainda, que durante o período em que esteve à frente do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) criou várias leis que asseguraram a implantação do Seguro Rural, da biotecnologia, dos alimentos orgânicos, criação do Centro de Agroenergia da Embrapa, entre outras medidas.

Crítico do atual sistema organizacional do agronegócio brasileiro, Rodrigues recorda que plantou as bases da agricultura do futuro, realizando a reforma administrativa e preparando a máquina administrativa para o século XIX, mas ressalta que, para que o setor ganhe força política, a reforma das bases governistas se faz necessária.

Para Rodrigues, é preciso incentivar parcerias com o setor privado e implementar o funcionamento adequado das 23 câmaras setoriais criadas em sua gestão. Defensor de uma reforma institucional urgente, Rodrigues aponta seis pilares fundamentais para que isso ocorra de forma sustentável: implantação de política de renda e de comércio exterior; logística; defesa sanitária; tecnologia agrícola e investimento ao longo de todo o processo produtivo. Acrescenta, ainda, a institucionalidade que, segundo suas previsões, poderia ser a economia verde, onde o lastro é a sustentabilidade.

O Brasil tem condições para atender à demanda por alimentos e energia limpa dentro e fora do país e o ex-ministro estima que a sociedade tem capacidade para reformar a geopolítica ambiental. “É a economia e o plástico verde, com o etanol, os recursos naturais da floresta Amazônica, a agroenergia, entre tantos outros produtos”, exemplifica.

Texto: Rose Rubini
Fotos: Julio Sian

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