Destinos traçados na maternidade

Destinos traçados na maternidade

Se para muitos, encontrar a cara-metade não é tarefa fácil, há casais que se reconheceram como pares ideais ainda na juventude e decidiram seguir lado a lado desde então

De acordo com as estatísticas divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de casamentos registrados no Brasil voltou a subir, depois de uma década encolhendo. Os dados referentes a 2014 revelam que foram realizados mais de 1,1 milhão de matrimônios civis no país naqueles 12 meses, número 5,1% maior do que no ano anterior. A mesma pesquisa revela, no entanto, que os divórcios também subiram cerca de 5%, ultrapassando 341 mil separações. Ainda vale ressaltar que a duração média dos relacionamentos, que 20 anos atrás atingia 19 anos, agora gira em torno de 15 anos em 2014.

Silvana: o homem não desiste do amor porque é ele que torna o mundo belo, as pessoas boas e o futuro promissorA pesquisa do IBGE traz outros dados relativos a uniões e separações no Brasil. No conjunto, eles ajudam a tornar evidente, pelo retorno do crescimento do número de uniões, que as pessoas ainda estão apostando no amor. Segundo a diretora científica da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto, Silvana Vassimon, o amor é considerado o sentimento mais nobre do ser humano — a vivência desse sentimento dá colorido e sentido à vida da maioria das pessoas. “Para ser mantido, no entanto, o vínculo amoroso necessita de condições muito especiais, incluindo características de personalidade que acabam influenciando profundamente a manutenção da relação. Maturidade, respeito, admiração, companheirismo e gratidão são alguns dos elementos que alimentam e mantém aceso, no casal, o desejo de permanecer junto”, pontua a psicóloga e psicanalista que também é membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Ainda segundo Silvana, quanto mais desenvolvida estiver a identidade do indivíduo, mais o casal terá meios de exercer seus papéis na dupla ou no conjunto familiar. “Hoje em dia, constatamos que um casal deve ter flexibilidade no desempenho de papéis antes exclusivos do homem ou da mulher. Mais importante é que cada um colabore com a dupla, nas várias situações de vida, de acordo com sua experiência e personalidade. Não dá mais para pontuar o que o homem ou a mulher devem fazer, a não ser recomendar que eles se conheçam e entendam como somar um ao outro”, afirma a psicanalista.

Sobre a aparente superficialidade em tempos de internet, Silvana destaca que todos estão em busca do amor. “Nas músicas, nos filmes, nas redes sociais,  por todo canto as pessoas procuram um amor de verdade. Muitas, felizmente, o encontram — nem sempre para a vida toda, mas por tempo suficiente para viver momentos significativos”, destaca Silvana. Para ela, a era cibernética impôs uma velocidade extrema ao indivíduo, que quer tudo para já. “Além disso, ou por causa disso, vivemos a ‘era do prazer’, mas suportar o trabalho de contato com os sentimentos e sua manutenção, em geral, exige tempo, interesse e paciência, costurados pelo fio do amor até compor um tecido único e fascinante que dará sustentação ao casal”, ensina a psicóloga. 

Para ela, por mais trabalhosa que possa ser essa construção, o homem não abre mão do amor porque é ele que torna o mundo belo, as pessoas boas e o futuro promissor. “Porque o amor tem o dom único e inconfundível de fazer aquele que o experimenta sentir-se uma pessoa melhor, como se tivesse recebido um presente especial da vida”, finaliza Silvana.
Quando este amor que dá sentido à vida acontece ainda na juventude, a descoberta de cada ingrediente capaz de fazer durar o relacionamento acontece enquanto se constrói as bases para a vida a dois. Esse processo está sendo ou já foi vivenciado por casais como Raíssa e Ronaldo, Gláucia e Marcelo e Ana Paula e Daniel. 

Uma casa e um cachorro

Apesar de ainda jovens — 25 e 29 anos, respectivamente — Raíssa Arantes e Ronaldo Boldrin já acumulam nove anos de relacionamento, uma casa em construção e um cachorro, o Ayron, que mora com Ronaldo. “Frequentávamos uma roda de amigos em comum e, em uma espécie de ‘emboscada’ de uma amiga, acabamos iniciando uma paquera, que virou namoro”, recorda Raíssa. Carinho, compreensão, companheirismo, diálogo e, acima de tudo, respeito, são alguns dos elementos que mantiveram os dois unidos até aqui. “É claro que, como em qualquer relacionamento, temos momentos de desentendimento, mas nunca houve um motivo maior que nos fizesse desistir um do outro”, declara o casal. Bastante planejados, os dois devem concluir a casa que possuem juntos este ano e, se tudo correr bem, dar o próximo passo no ano que vem. Segundo Raíssa, Ronaldo tem um coração imenso e é um batalhador. De acordo com Ronaldo, Raíssa é extremamente companheira e está sempre disponível para o que for preciso. “Em contrapartida, ele é muito perfeccionista e descobre um defeitinho em diversas situações, enquanto eu, confesso, sou um pouco impaciente”, revela Raíssa. 

Ajudinha dos irmãos

O relacionamento de Gláucia e Marcelo Rossini deve muito aos irmãos dos dois — o de Gláucia estudou com Marcelo desde a infância e o de Marcelo dividiu sala com Gláucia durante todo o ensino Fundamental e Médio. Depois de alguns namorinhos de adolescência, os dois assumiram compromisso definitivo em 1998, quando ela tinha 17 anos e ele, 19. “Marcelo morou com o meu irmão durante o cursinho, em 1996, e foi aí que começamos a nos aproximar. O namoro demorou um pouco para engatar, mas depois não nos separamos mais”, lembra Gláucia. Entre as melhores lembranças do casal estão diversas viagens — Paris, Disney e Nova Iorque, por exemplo — e muitas festas e encontro de amigos. Depois de 11 anos de namoro, o casamento aconteceu quando os dois já estavam encaminhados profissionalmente. Marcelo é dentista e Gláucia, servidora pública estadual. “Essa transição requer maturidade e muito amor, já que é preciso se adequar às atitudes e ao estilo de vida do outro”, pontua Marcelo, destacando que a maior alegria dos dois é estar junto e sentir o companheirismo e o amor todos os dias. Há 36 semanas, os dois embarcaram em mais uma jornada juntos: a espera da Sara, primeira filha do casal. “A gestação tem sido uma fase especial para nós. Sinto o Marcelo mais cuidadoso e extremamente participativo. Planejamos tudo juntos: o quarto, o enxoval, o chá de fraldas, as fotos. Nosso lar está repleto de amor e ansioso pela chegada da nossa filha”, comemora Gláucia, reforçando que a expectativa é também de toda a família dela e dele, muito unidas. 

Uma vida juntos

Quando conheceu Daniel Marçola, Ana Paula tinha apenas 12 anos. Apesar da pouca idade, o sentimento estabelecido entre os dois foi arrebatador e transformou a paquera de rua em uma linda família, com Gabriela, de oito anos, e Mateus, de 5 anos. “Passamos por todas as etapas das nossas vidas juntos. Enquanto isso, fomos construindo um relacionamento sólido e cheio de amor”, afirma a chefe de seção e conciliadora do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. 

A passagem do namoro para o casamento aconteceu naturalmente. “Não sentimos dificuldade em nos adaptar à rotina um do outro, pelo contrário, nossa maior alegria é estarmos juntos o tempo todo, apesar das diferenças”, afirma Daniel, que é auxiliar financeiro. Também foi natural o reconhecimento de que era hora de aumentar a família. “Tanto a Gabi quanto o Mateus foram planejados e acrescentaram muito à nossa relação. Nossos filhos nos ensinam diariamente a ter mais paciência com tudo, a valorizar as pequenas coisas do dia a dia e a renovar o amor o tempo inteiro”, garante Ana Paula, reforçando que ter dois filhos significa não ter tempo de sobra para nada. “Administrar bem essa fase é o grande segredo para manter o casamento”, acrescenta. De acordo com Daniel, a determinação, o empenho e o otimismo para resolver os problemas de Ana Paula foram essenciais para permanecer ao lado dela nesses quase 24 anos. Ana Paula elenca a fidelidade e o companheirismo do parceiro como as principais características de Daniel que compõem o alicerce do relacionamento dos dois. Segundo o casal, amor, confiança, sinceridade e vontade de estar junto também não podem faltar na construção de um relacionamento duradouro.

Além das bodas de ouro

Ainda durante o segundo ano da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP-RP), onde integrou a primeira turma de formandos, o ginecologista Hemil Riscalla conheceu a jovem Mafalda, natural da vizinha Sertãozinho. Os dois começaram a flertar nos famosos “footings”, que ocorriam em Ribeirão Preto entre a cafeteria Única e a Catedral, mas foram formalmente apresentados por um casal de amigos em comum — ele, professor de Hemil na Faculdade e ela, amiga de infância de Mafalda. “Eu era recém-chegado na cidade, vindo de Catanduva para o curso, e, como a cidade tinha em torno de 60 mil habitantes, era comum ficarmos próximos dos colegas e dos professores. Foi um deles que me apresentou a Mafalda”, conta o médico. Já ela havia se comprometido consigo mesma que jamais namoraria um dos rapazes da Medicina, uma vez que a fama desses moços era de arrumar uma namorada local apenas para passar o tempo. “No dia da formatura, chegava a oficial para a festa”, brinca ela. Com Mafalda não aconteceu dessa forma. Para a festa de sua formatura, Hemil guardou o pedido de casamento, que aconteceu dois anos depois, em 1959. Assim fixaram-se em Ribeirão Preto e formaram uma família numerosa, com seis filhos — em oito anos — e cinco netos. “Ter a casa cheia, quando todos se reúnem, é uma alegria para nós”, garante a dona de casa, que encarou com maestria o papel de mãe e esposa de médico. “É preciso ter muita paciência”, reconhece Hemil. O casal concorda que o grande segredo para manter um relacionamento longo e saudável, o ingrediente mais importante é o respeito. “Hemil sempre foi um homem muito educado e tratamos nossos problemas por meio do diálogo aberto e franco”, pontua Mafalda. Da esposa, o médico ressalta, também, a humanidade e a delicadeza como qualidades fundamentais. 

Foto: Helker Leandri Fotografia, Patrícia Villas Boas, Viviane Gastaldi Fotografia 

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