Determinação para ajudar
Entrevistada por Maria Aparecida Costa, Marina Vassimon explica o trabalho do Fundo Social de Solidariedade de Ribeirão Preto e a importância da participação do cidadão
Mãe de três filhas, esposa companheira há 43 anos e profissional dedicada à administração do escritório de Assessoria de Propriedade Intelectual da família, a ribeirãopretana Marina Vassimon sempre encontrou tempo em sua rotina para se dedicar com empenho a causas sociais. Essa conduta acabou rendendo a ela o convite para coordenar as Casas da Amizade do Rotary, liderando mais de 400 clubes do Distrito 4540, e, mais recentemente, para presidir o Fundo Social de Solidariedade de Ribeirão Preto.
Para Marina, seguir à risca o mandamento do cristianismo “amar ao próximo como a ti mesmo”, é uma forma de encontrar felicidade. Ela se sente grata por ser útil na área social. Por isso, desde muito nova, envolve-se nas mais variadas atividades voluntárias. Na entrevista a seguir, concedida à presidente da Sociedade Espírita Obreiros do Bem, Maria Aparecida F. A. Costa, a Cidinha, também idealizadora do Grupo de Suporte ao Terceiro Setor – GS3, Marina conta um pouco sobre a experiência no Fundo Social, antecipa as expectativas com esse trabalho para 2016 e, ainda, compartilha sua visão sobre o assistencialismo, o voluntariado e o perfil do brasileiro quando o assunto é a solidariedade.
Cidinha: Como aconteceu esse seu envolvimento natural com as questões sociais?
Marina: Desde cedo vivenciamos a experiência da generosidade. Acho que é algo familiar, que envolve Educação e também satisfação pessoal. A primeira vez que fui voluntária foi no Hospital Santa Lídia, quando eu devia ter uns 13 anos. Conversando com amigas da minha mãe, soube que estavam precisando de auxílio na área de ortopedia infantil e lá fui eu. As visitas eram uma aventura. Ia a pé, no período da tarde, dava o lanche, ficava contando histórias e brincando com as crianças. Era algo muito prazeroso que ficou gravado na minha memória — até hoje sinto o cheiro de gesso que impregnava o ambiente. Foi assim que comecei. Depois surgiram mais trabalhos voluntários, em atendimento a outras necessidades, e também o Rotary e a presidência da Casa da Amizade. Agora, estou no Fundo Social e acho que não paro por aí, porque o envolvimento com o trabalho social é cada vez maior.
Cidinha: O que pode nos dizer a respeito do serviço voluntário?
Marina: O serviço voluntário, em benefício dos mais carentes e excluídos, é um ato de amor. Amar o próximo inclui querer bem e se preocupar com as crianças abandonadas, os idosos agredidos, a mulher abusada e preterida, o doente ignorado e humilhado. A prática do bem, para que tenha seus méritos, deve ser anônima e constante. A bondade não nos permite escolhas: ou se pratica ou não, mas, ajudando os demais, ficamos mais satisfeitos. Essa atitude torna o viver prazeroso e isso nos motiva a fazer mais ainda. Parece que tudo na sua vida se resolve, flui naturalmente quando você se dedica aos outros. Quando praticamos o bem para o próximo, estamos fazendo bem para nós mesmos.
Cidinha: O que a levou a aceitar o convite para presidir o Fundo Social de Solidariedade?
Marina: Minha indicação foi uma surpresa e uma honra. Toda pessoa fica feliz recebendo um convite assim. É muito bom, sem dúvida, ser lembrada pelo que você já fez e pelo que você é. Fiquei contente, especialmente porque veio ao encontro da necessidade que eu sentia de fazer mais. Aceitei por se tratar de um nobre desafio. Recebemos tanto da vida, ainda que por mérito de nosso trabalho, e temos que retribuir. Mais importante do que doar algo material, doar o meu tempo. É essencial, claro, doar uma roupa. Agora, dispor do tempo é que faz a diferença. Esse trabalho, através do Fundo Social, é uma forma de gratidão para mim.
Cidinha: Como você encara esse novo desafio?
Marina: Acredito que o conhecimento adquirido através das Casas da Amizade do Rotary me encorajou a aceitar o convite. O Fundo Social do município é apolítico e a prefeita Dárcy Vera cuidou para não contaminá-lo desde o início de sua gestão. Todas que me precederam nesta administração desenvolveram um excelente trabalho voluntário, comprometido com as ações sociais, com a arrecadação de recursos e com a contribuição para melhorar a qualidade de vida das pessoas mais necessitadas. Mara Pereira Alvim e Maria Augusta Carvalho são exemplos. Acho que anda tudo muito bem com a equipe que trabalha no Fundo e minha meta é dar continuidade a essa missão.
Cidinha: Quais os recursos que o Fundo Social possui e como são utilizados?
Marina: O Fundo não possui recursos, ainda mais se considerarmos o atual momento econômico do país. Estamos com o caixa zerado, contudo, tenho recebido enorme colaboração de amigos, das pessoas que, espontaneamente, contribuem para as causas sociais e de inúmeras empresas que se fazem presentes quando necessário. Além disso, a Secretaria de Ação Social e a secretária Maria Sodré estão nos dando suporte, juntamente com outras secretarias, como a de Esportes, a de Cultura e a de Educação e, ainda, alguns vereadores que se interessam pelo Fundo e seus propósitos. Clubes como o Rotary Ribeirão Preto Norte, o Boulevard e o Entre Rios, o Lions e a Maçonaria também estão sempre cooperando. A imprensa tem sido uma grande aliada.
Cidinha: Quais são as ações do Fundo Social de Solidariedade?
Marina: Recebemos alguns projetos muito interessantes por meio do Fundo Social de Solidariedade do Estado de São Paulo e estamos aprimorando nossos próprios, que incluem a revisão dos sistemas administrativos e de controles, o incentivo a parcerias e, junto com nosso Conselho Consultivo, dedicamos especial atenção aos projetos já consolidados, como Farmácia da Gente, a Padaria Comunitária, os Cursos Profissionalizantes, Informática e Valorização da Terceira Idade. Temos o Agulhas Solidárias, onde uma voluntária dá aula e as alunas se reúnem uma vez por semana para produzir enxovais de bebê e doar às mães que precisam. Também são confeccionados panos de prato, toalhas de mesa, jogos americanos, entre outros produtos para compor um bazar e comprar material. Vale destacar, também, o Polo do Construtor, já na segunda turma, em que os alunos são capacitados para ter uma renda. A qualificação é uma proposta muito importante do Fundo Social para dignificar as pessoas.
Cidinha: Quais são as perspectivas para 2016?
Marina: O ano político deverá passar quase despercebido para nós, a despeito das nossas obrigações como cidadãos e cidadãs, que certamente cumpriremos. Isto porque o nosso compromisso social se sobrepõe ao triste momento nacional, econômico e político. Devemos desenvolver nossa criatividade e atingir nossos objetivos, cumprir nossas metas. A equipe do Fundo é formada por profissionais comprometidos com as causas e os interesses sociais. Nossos colaboradores e o Conselho Consultivo se fazem presentes quando necessário e a imprensa sinaliza que não nos faltará apoio. Somos agradecidos. É só trabalhar. Este ano, continuaremos focados em nossas metas e tenho certeza que, com boa vontade, persistência e amor, teremos um 2016 feliz. Quero terminar minha gestão com a convicção de que fiz o meu melhor.
Cidinha: A assistência social, em sua opinião, deve ser apenas assistencialista?
Marina: Madre Teresa de Calcutá, uma vez questionada sobre sua maior alegria, respondeu: “A alegria de servir”. Servir requer ação e nos libera para uma vida feliz. É também Madre Teresa quem nos ensina: “O amor, para ser verdadeiro, tem de doer. Não basta dar o supérfluo a quem necessita; é preciso fazer mais”. O assistencialismo acomoda as pessoas, tanto aquela que o pratica quanto a que o recebe. Instruir a respeito de fazer por si, ensinar a construir e participar talvez seja o maior benefício a ser concedido ao próximo, fazendo-o compartilhar dos resultados obtidos. Diz o ditado que não devemos apenas entregar o peixe, mas ensinar o beneficiado a pescar. Torná-lo participativo. O assistencialismo inibe esse propósito. Por isso, digo que as ações de qualificação promovidas pelo Fundo Social, como o Polo do Construtor e a Padaria Comunitária, são tão importantes. São instrumentos para que as pessoas possam conquistar sua própria renda.
Cidinha: Qual deve ser a motivação para praticar o voluntariado?
Marina: Quando as pessoas são gratificadas em suas vidas, através da família, dos amigos, dos negócios e do trabalho, possuem o comprometimento de doar voluntariamente. Trata-se da verdade contida no lema utilizado no Rotary: “dar de si antes de pensar em si”. Doar o seu tempo, suas ações e compartilhar esperanças é agradecimento, oração, aprendizado. É a forma mais justa e coerente de retribuirmos com pouco o muito recebido em nossas vidas. Para ter mérito, o compartilhar necessita ser desejado e espontâneo, portanto, voluntário, jamais exigido. Uma vez imposto, perde seu valor, sua dignidade. O voluntariado é o compromisso que se origina no coração e nos habilita a servir. É a retribuição que nos motiva.
Cidinha: O brasileiro é solidário?
Marina: Comparados a outros povos e culturas, não somos tão solidários quanto imaginamos. Somos um povo emotivo, comovido com fatos desastrosos, mas ausente e distante das ações concretas. Fazemos pouco e falamos muito, essa é uma tentação que devemos evitar. Os sinais da nossa abstenção e apatia são vistos nas creches, orfanatos, asilos, hospitais e escolas. Deixamos de doar ou de participar alegando ausência de transparência ou de confiança nos solicitadores e, às vezes, concluímos por nossa conta que não precisam. Esquecemos que doar é um ato de coragem e ser solidário é acreditar. Nunca devemos excluir ou penalizar os bons em razão dos maus que não conhecem a caridade e a generosidade. Existem oportunistas, aproveitadores que precisam ser combatidos e punidos com rigor. Devemos denunciá-los e excluí-los do nosso meio, expurgá-los, sem dúvida, mas sem esquecer ou deixar de acreditar no trabalho de pessoas e organizações do bem, que são fundamentais para a estabilidade social.
Cidinha: Para você, o que é ser solidário?
Marina: Ser solidário é um ato de amor. Sócrates, com sua filosofia, diz que “amigo é aquele que pratica através do outro o que julga ser bom para si” e assim também deve ser a pessoa solidária. Ser solidário é fazer o bem sem olhar a quem, mas, principalmente, escutar e enxergar quais são as necessidades dos outros e provê-las como se fossem nossas. É retirar-se da cena ao final do espetáculo sem esperar os aplausos, mas com a certeza de que fez seu melhor e cumpriu seu dever. É saber agradecer com o coração àqueles que se preocupam com o próximo e cooperam para a evolução da humanidade.
Cidinha: Como você vê a participação brasileira, especialmente em nossa cidade, com relação às doações?
Marina: O brasileiro se julga muito solidário, contudo, figuramos em 86º lugar entre os povos e países que mais doam. É muito pouco para um país e uma região tão rica e abençoada como a nossa. Deveríamos estar entre os primeiros que mais doam e não estamos. Alguns países pobres da África e da América Latina praticam doações solidárias e voluntárias superiores às nossas. A prática em países da Europa e nos Estados Unidos é corriqueira. Certa vez, assistindo a um concerto em Nova Iorque, no Lincoln Center, fomos surpreendidos quando a orquestra parou para nominar seus doadores. Ficamos impressionados com a relação e os valores apresentados. Nunca pensei que tantas pessoas pudessem doar valores tão expressivos para a manutenção de uma orquestra. Com tristeza, lembramos da nossa Sinfônica. O Rotary doou US$ 14 bilhões para exterminar a Pólio no mundo. Esses exemplos merecem aplausos e, guardadas as proporções, devem ser seguidos.
Cidinha: A religião e a política podem ser obstáculos ao ato de doar?
Marina: Jamais. Não devemos justificar a nossa exclusão como doadores alegando pretextos religiosos, políticos ou mesmo preconceituosos. Temos em nossa região associações maravilhosas que se dedicam às causas sociais, como a Obreiros do Bem, o Cantinho do Céu, a Creche Modelo, a Casinha Azul, a Casa do Vovô, entre inúmeras outras que prestam atendimentos sociais excelentes e devem ser incentivadas, independente de seus gestores. Os resultados obtidos por elas justificam nosso ato solidário e isso basta. Excluí-las da nossa cooperação e apoio por motivos fúteis ou ocasionais constitui em ato de covardia. Não se pode deixar de ajudar por ser de outro partido ou outra religião. A assistência social não deve se misturar a mais nada porque há um trabalho sendo feito, que pode ser avaliado e precisa ser realizado. O dar-se, o servir, o compartilhar e o participar não possui cor, religião ou partido e, sim, uma finalidade que, uma vez conquistada, merece ser aplaudida por todos, é de todos.
Um pouco além
“Conheci a Marina em função do trabalho. Estamos transformando a Obreiros do Bem em uma associação autossustentável. Temos a padaria e produzimos alimentos para vender. Como a Marina tem o escritório de marcas e patentes, entramos em contato para que nos ajudasse com a documentação. Ela nos visitou e, imediatamente, houve uma empatia porque falamos a mesma língua. O escritório dela faz isso profissionalmente, mas realizou gratuitamente esse serviço para nós. O exemplo de Marina serve para todos. Mostra como, dentro de nossas possibilidades, no lugar onde estamos, sem grandes esforços, podemos fazer algo a mais para mudar o mundo”.
Maria Aparecida Costa, a Cidinha, presidente da Associação Obreiros do Bem