Deu Match
A revolução causada pela internet acertou em cheio os corações em busca de novos pares: Tinder, Badoo, Outra Metade ou Cuddli são alguns dos aplicativos que ajudam quem deseja encontrar sua metade
Conhecer de antemão as principais características de uma pessoa, começar um novo relacionamento e saber exatamente qual tempo ele poderá durar pode parecer ficção. De fato, previsões como estas ganharam destaque na 4ª temporada da série Black Mirror, disponível na provedora global de filmes e séries Netflix. Intitulado “Hang The DJ”, um dos episódios gira em torno de um aplicativo que prevê a data de validade de um relacionamento. O gadget da ficção avalia os participantes, seleciona um pretendente, alinha as características em comum, revela a combinação ideal e se o relacionamento terá ou não futuro. Sem spoilers, dá para antecipar que o final do protagonista do episódio em questão é surpreendente.
A série Black Mirror é conhecida por chamar a atenção para o universo da tecnologia — especialmente para os excessos que ela pode significar. O episódio que ilustra o início desta reportagem, representa de maneira caricata situações que, segundo muitas pessoas, não estão longe de acontecer. Os aplicativos de relacionamento já são parte da realidade. Mais do que isso, representam uma fatia de usuários em expansão, em busca de cupidos on-line cada vez mais ágeis e certeiros.
De acordo com uma pesquisa realizada pela Happn Brasil, em parceria com a YouGov, em 2017, cerca de 60% dos brasileiros afirmaram usar aplicativos de paquera. Para a especialista em comunicação midiática e redes sociais aplicadas aos negócios, Fernanda Marchioretto, trata-se de um número alto de usuários para recursos relativamente novos. “Embora a maioria das pessoas conectadas seja formada por jovens de até 30 anos, os apps têm muitos usuários acima dessa idade. Tive uma aluna de 40 e poucos anos, casada com uma pessoa que havia conhecido no Tinder. Acredito que boa parte das pessoas criam perfis nessas redes por curiosidade, para conhecer novos amigos ou só para ter um primeiro contato. A propósito, muitos contatos iniciados em apps de relacionamento migram para outras redes sociais”, acrescenta Fernanda.
A psicóloga Ana Flávia de Oliveira Santos observa que o avanço tecnológico propicia o aparecimento de novos comportamentos e o desenvolvimento de novas formas de comunicação. A busca por relacionamentos através de aplicativos e sites é mais um desses desdobramentos. O estar conectado vem ganhando uma proporção cada vez maior, não apenas em números de pessoas, mas principalmente em relação ao tempo e ao espaço que ocupa na vida de cada um. “Especificamente em relação aos apps e sites de relacionamento, esse aumento pode estar associado a vários fatores. Ao passo que as redes sociais mostram um número cada vez maior de amigos e seguidores, o que se observa é a contrastante percepção de que talvez as pessoas nunca estiveram tão isoladas e até solitárias. O contato via site e aplicativos permite conhecer outras pessoas em um contexto que favorece o anonimato, em que as manifestações podem ser mais contidas e controladas”, pressupõe a psicóloga.
Uma pesquisa recente realizada pelo CONECTAí Express divulgou que, no Brasil, um em cada cinco usuários, tem, pelo menos, um app de relacionamento instalado no smartphone, o que significa que 20% dos internautas brasileiros buscam a tecnologia para conhecer pessoas, seja para fazer novos amigos ou encontrar um amor. Esses aplicativos analisam as informações disponibilizadas nos perfis para promover encontros certeiros. Direto da matemática, os algoritmos são os cupidos da vez, uma vez que seu cruzamento permite identificar o grau de compatibilidade entre os perfis. “No entanto, vale lembrar, que o usuário não precisa ser 100% honesto ao criar sua conta, podendo minimizar dificuldades para facilitar o contato. Há pessoas que acreditam que esses apps e sites serão a solução de todos os problemas, quase com garantia de segurança contra decepções e frustrações”, comenta Ana Flávia.
A adesão aos aplicativos de relacionamentos tende a aumentar. Um levantamento realizado pelo site eHarmony estimou que, até 2040, cerca de 70% dos casais terão se conhecido por meio de aplicativos ou sites de namoro. Afinal, esses recursos podem facilitar o contato inicial e possibilitar que pessoas que não se conheceriam de outra forma passem a se encontrar, aproximando, assim, indivíduos interessados nos mesmos objetivos. Os apps favorecem, também, outras formas de expressão que podem ajudar quem convive com a insegurança, a timidez ou a dificuldade de comunicação.
Por outro lado, de acordo com a psicóloga, o uso dessa ferramenta pode favorecer o fortalecimento de fantasias que não correspondem à realidade. Há, também, perigos associados à transposição do virtual para o mundo real. “Pode-se imaginar que as dificuldades das relações não existem no universo virtual, mas é importante lembrar que as relações que começam com o auxílio da tecnologia também estão sujeitas a conflitos, desencontros, mentiras e decepções, o que significa que não oferecem seguro ou garantia contra frustrações”, avalia Ana Flávia.
Para Fernanda, existe uma relação direta entre a estabilidade do relacionamento com a forma como ele foi iniciado. Segundo a especialista, relacionamentos iniciados por meio de apps começaram mais abertos e transparentes, uma vez que a pessoa com um perfil ativo nesses ambientes deixa claro o que ela quer. “No entanto, essa estabilidade está mais associada às transformações da própria sociedade contemporânea: as pessoas começam relacionamentos mais livres para escolher com quem querem ficar e se querem continuar neles ou não. Essa liberdade amorosa que começamos a desfrutar tem nos dado mais segurança para entrar em relacionamentos que julgamos melhores para nós mesmos”, finaliza.
Conexão certeira
A busca por alguém especial através da internet não é novidade. Desde os tempos de bate-papo até os modernos aplicativos, a web funciona como cupido porque ajuda a identificar pessoas com gostos parecidos, o que aumenta a chance do romance dar certo. Foi exatamente por querer encontrar seu par que a confeiteira funcional Lívia Dzura Martins, de 34 anos, aceitou a sugestão de uma amiga e passou a integrar o site Badoo. Do outro lado do monitor, o programador Leandro Fagundes, de 35 anos, também buscava alguém interessante através da mesma plataforma.
No Badoo, é possível visualizar perfis de quem está próximo, buscar amigos de outras redes sociais e enviar mensagens. Diferente do Tinder, não é necessário dar o “match” para começar a conversar com o pretendente. “Depois de certo tempo sem utilizar o aplicativo, entrei no Badoo e vi a mensagem do Leandro falando que ‘talvez’ quisesse me conhecer. Aquilo me deixou intrigada, o que serviu de pretexto para iniciarmos uma longa conversa”, lembra a confeiteira.
Do Badoo, migraram para o Messenger e, aos poucos, perceberam que tinham mais características em comum do que o próprio aplicativo havia suposto. “Marcamos um encontro em um restaurante e nos divertimos muito. Entretanto, não saímos de lá com um relacionamento estabelecido”, recorda Leandro.
Aos poucos, o casal passou a se encontrar com mais frequência, até que o relacionamento se tornou real. Para Lívia, qualquer lugar é um bom lugar para encontrar alguém para chamar de seu. “Basta ter foco e eliminar quem não tem a ver com seus objetivos. Acredito que os aplicativos e sites ajudam a filtrar interesses com o outro antes de conhecer, além de estreitar distâncias”, avalia. O casal, que completou sete anos juntos, acredita que, se não fosse pelo Badoo, não teriam se conhecido. “Sabemos que, sem o aplicativo, as chances de nos encontrarmos seriam mínimas. Hoje é fácil encontrar casais que se conheceram através de sites ou de aplicativos e estão muito felizes, assim como nós. Talvez isso aconteça porque a pessoa tende a ser mais sincera e a conversar mais, verificando afinidades antes de realmente assumir um relacionamento. Automaticamente, criam um laço antes de saberem se, de fato, darão certo”, concluem Lívia e Leandro.

Do virtual para o real
Diversas pesquisas mostram que houve um nítido aumento no número de relacionamentos iniciados por meio de alguma plataforma on-line. Se, antes, os casais se formavam graças a amigos em comum ou ao ambiente de trabalho, hoje, é possível interagir com pessoas fora do círculo comum sem sair de casa. O Brasil é o segundo país que mais usa o Tinder no mundo, só superado pelos Estados Unidos. Entre os usuários do aplicativo por aqui estavam à administradora Andrea Estevão, de 30 anos, e o engenheiro agrícola, Leandro Ferreira, de 32 anos. Ambos baixaram o app em que o usuário pode conhecer novas pessoas com interesses em comum. Para isso acontecer, o programa cruza as informações dos perfis com dados de geolocalização e, assim, sugere possíveis pretendentes que estejam relativamente próximos.
Após as informações cruzadas, é hora de dar o “match” e confiar que o outro também demonstre interesse. “O Tinder nos apresentou em abril de 2016. A partir daí passamos a conversar com frequência e o interesse mútuo foi crescendo. Depois de dois meses, marcamos de nos conhecer pessoalmente. Ficamos ainda um mês saindo juntos aos finais de semana, até o que Leandro me pediu em namoro”, conta Andrea.
Também no caso de Andrea e Leandro, o aplicativo promoveu um encontro que, provavelmente, não teria acontecido sem a ajuda da tecnologia. “Quando começamos a conversar eu não morava em Ribeirão Preto. Sou de Campinas, mas, na época, morava em Pradópolis. Ela nunca havia usado o app antes e foi certeira na primeira tentativa”, lembra Leandro.
Para o casal, os apps de relacionamento são uma boa opção para novos contatos, pois boa parte das pessoas que estão solteiras usam aplicativos como o Tinder, por exemplo, para conhecer alguém especial. No entanto, os dois alertam para a importância de alguns cuidados na hora de marcar um encontro no mundo real. “Existem pessoas mal intencionadas em todos os lugares, inclusive, no Tinder. Portanto, antes de sair com alguém, é sempre bom pesquisar em outras redes sociais, procurar amigos em comum e sugerir lugares públicos ou até mesmo levar alguém junto”, enfatiza Leandro.

Crush x block
A cada ano, surgem novos aplicativos e sites de paquera. Faça sua escolha entre as opções selecionadas, encontre um novo crush ou dê aquele block no pretendente.
C-date
Voltado para pessoas de 30 a 50 anos, o site é focado em encontros sem compromisso, especialmente porque esse público costuma trabalhar bastante e não dedicar muito tempo a um relacionamento.
Tinder
Esse é o app de relacionamento mais famoso da atualidade; após cruzar alguns dados, o Tinder exibe fotos e informações gerais sobre o usuário que, após visualizar o perfil de outra pessoa, pode sinalizar seu interesse com um “match”.
Outra metade
Focado no público com mais de 30 anos, o objetivo é unir os românticos à moda antiga. Não é preciso colocar foto, mas a descrição é obrigatória e, através dela, as pessoas avaliarão se o perfil interessa.
Happn
O app mostra as pessoas que cruzaram o caminho uma das outras em um raio pré-estabelecido pelos próprios usuários. O chat privado é aberto quando duas pessoas demonstraram interesse uma pela outra com um “like”.
Cuddli
É voltado para o público nerd e geek que deseja encontrar um parceiro ideal para jogar videogame ou passar horas assistindo à trilogia de Star Wars. Ao descobrir outro nerd, é só selecionar modo casal para um conversa privada.
Grindr
Esse app é voltado para o público gay — mais especificamente, homens gays — e conta com GPS para mostrar usuários que estão nas suas proximidades, para facilitar os encontros ao vivo.
Femme
Já esse app tem como público-alvo as mulheres homossexuais em busca de um relacionamento sério.
Dicionário do amor 2.0
Depois de baixar o app, os usuários acessam e visualizam se o “crush” está on-line; se a resposta for negativa, vale dar uma “stalkeada” nas redes sociais e saber o que ele anda fazendo. A internet apresentou uma nova forma de paquerar, mas, para fazer parte dessa galera que está “shippando” por aí, é preciso, primeiro, compreender a linguagem mais comum dentro desse universo.
Shippar
Deriva da palavra em inglês relationship (relacionamento). Na linguagem da internet, shippar um casal é dizer que você aprova aquele namoro e que acha os namorados o máximo.
Crush
Em inglês, a expressão “I have a crush on you” pode ser traduzida como “eu tenho uma quedinha por você”. O crush, então, é aquela pessoa em que você está de olho.
Stalker
Também derivada do inglês, a palavra significa, literalmente, “perseguidor”. O stalker investiga tudo sobre o pretendente, ou stalkeado: quem são seus amigos, aonde vai e o que gosta de fazer.
Match
O famoso “match” acontece quando a pessoa de quem você está a fim também demonstra interesse por você. O termo é usado em aplicativos de encontro e também já deu nome a alguns programas internacionais de TV.
Não era amor...era?
O amor sempre soou como uma verdadeira poesia nos ouvidos e nos corações apaixonados. Com o passar do tempo, cada um dá seu “jeitinho” para conquistar o coração da pessoa amada.
Cartas
Durante muitos anos os casais apaixonados esperavam dias para receber cartas com poesias e declarações de amor.
Classificados
Houve a época, também, em que, além das notícias, os leitores dos jornais de domingo também podiam encontrar o “par perfeito”.
Namoro na TV
Quem nunca pulou de um canal para o outro só para ver se homens e mulheres sentados nos sofás, posicionados na frente um do outro, resultaria em namoro ou em amizade?
Salas de bate-papo
O “paulista_18” entrou na sala e o coração da “afrodite21” começou a disparar: ela estava esperando há dias encontrar seu “amigo” on-line para finalmente conversar no reservado.
É só baixar
Foi só entrar na era 2.0 que as relações também ficaram mais rápidas. Em um click, é possível baixar o app, conhecer o pretendente e marcar um encontro em um café próximo.
Texto: Pâmela Silva
Foto capa: Roberto Galhardo
Fotos: Ibraim Leão, Juliana Bório e Julio Sian