Dia de teatro
Da atuação à gestão, Leo Santarosa vivencia o teatro em todas as suas dimensões, relação que teve início despretensioso aos 14 anos de idade e foi transformada em sonho concretizado
Natural de Americana, no interior de São Paulo, o ator e bacharel em Direito Leo Santarosa sempre nutriu um gosto especial pelas artes, especialmente, pelo teatro. Seu primeiro contato com o palco aconteceu aos 14 anos, quando teve a oportunidade de aprender mais sobre atuação com Antonio Ginco. A ideia de transformar essa arte em seu futuro profissional o levou a Nova Iorque, aos 20 anos, onde viveu experiências nunca imaginadas.
Do Brooklin, especialmente, trouxe vivências e ideias que culminaram na criação do Teatro Santarosa, inaugurado em 2010, em Ribeirão Preto, cidade que já “namorava”, há alguns anos. Por aqui, Leo, que possui cursos de dramaturgia, direção, atuação farsesca, linguagem do palhaço, entre outros, fez novas descobertas artísticas e passou a desempenhar todas as funções que o fazer teatral demanda, atividades que tomam conta da maior parte do seu dia a dia.
Como começou sua relação com as artes?
Sempre fui um apaixonado por artes em geral, mas o teatro me fascinava. Até que um dia, em Americana, minha cidade natal, foi contratado um diretor para iniciar um projeto com jovens que tinham a pretensão de ingressar na carreira artística. Aos 14 anos, não imaginava que o professor/diretor era alguém tão gabaritado. Seu nome é Antonio Ginco, até hoje um forte representante das artes cênicas no estado de São Paulo. Nossa turma era enorme, com mais de 70 pessoas. Sabíamos que poucos seriam selecionados para participar do curso. Depois de alguns dias de oficina, com duração de cinco horas, fui um dos selecionados.
Quando decidiu que sua carreira profissional seguiria esse viés?
Venho de uma família de empresários do ramo têxtil. Passei minha adolescência no teatro amador e dentro da empresa dos meus pais. Sabia que, em algum momento, teria que assumir que a empresa não era minha realidade. Isso não demorou para acontecer, pois, assim que finalizei o colegial, cursei um técnico em administração de empresas para cumprir o protocolo e me mudei para Nova Iorque, pois queria conhecer os espetáculos da Broadway.
Como ator, quais trabalhos destacaria?
Todos foram fundamentais para minha formação, mas destaco alguns que realmente marcantes para mim, como “A Rosa Tatuada”, de Tennessee Williams, “O Doente Imaginário”, de Molière, “Cabaré que Varia Até”, criação coletiva do grupo Zibaldoni, e “O Misterioso Fim de Pamela Sanches”, texto de minha autoria. Esse, inclusive, teve sua reestreia em julho, no SESC Ribeirão Preto, e será apresentado, novamente, no dia 11 de agosto, às 20h30. Esses trabalhos marcaram o início de um novo ciclo em minha carreira.
Que outras funções desempenha ou já executou nos bastidores do teatro?
Um ator sempre tem que desempenhar várias funções para realizar seu trabalho. No meu caso, como sou proprietário de um Teatro, tenho certeza de que já realizei todas: atuação, direção, figurinista, maquiador, sonoplasta, iluminador, produtor e tudo que possa fazer parte desse universo.
Nos períodos que passou no exterior, onde morou e o que você fez?
Como disse anteriormente, mudei-me para Nova Iorque aos 20 anos. Minha intenção, no início, era trabalhar para bancar um curso intensivo de inglês e assistir a todos os espetáculos que a cidade oferecia na época. As pretensões aumentaram e, após um ano, ingressei na universidade de comunicação com foco em artes. O curso era fantástico e trabalhava a comunicação em várias ramificações artísticas. Dentro da universidade, montamos um grupo de teatro com a linguagem da comédia. Esse grupo foi premiado em um festival de cenas curtas, o que nos levou para diversas apresentações em diferentes locais da cidade.
Você também é formado em Direito. Em que momento essa graduação aconteceu na sua vida?
Deixei Nova Iorque após quatro anos de estudos, em um momento muito triste e tenso. Eu estava lá no terrível atentado de 11 de setembro. Minha universidade, a San’t Francis College, entrou de luto e, na sequência, perdi meu emprego de garçom, pois o turismo caiu drasticamente nos primeiros dias após o atentado e as apresentações artísticas, então, desapareceram. Minha família estava muito preocupada no Brasil, o que me fez trancar meu curso e voltar. Quando cheguei, fiquei completamente perdido. Foi quando decidi ir para Campinas iniciar o curso de Direito. Tão logo comecei, voltei a viver o teatro no Brasil, mas não desisti do Direito. Levei o curso muito a sério e me formei, mas, com a certeza de que minha vida estava pautada única e exclusivamente no teatro.
De que maneira essas experiências contribuíram para sua formação como pessoa e profissional?
Nos Estados Unidos, tive uma vida inesquecível, diferente de tudo que eu imaginava viver um dia. Faculdade em período integral, trabalhar como garçom e bartender para pagar aluguel e faculdade, passar o chapéu nas apresentações teatrais em plena Times Square para levantar uma grana. Já com o Direito, aprendi a ter uma postura mais centrada, a valorizar a rotina, a ter foco para uma vida de sucesso, tanto pessoal como profissional.
Que caminhos o trouxeram a Ribeirão Preto?
Esta sempre foi uma cidade muito paquerada por mim. Minha irmã veio primeiro, logo que se casou, em 1996, pois meu cunhado havia se tornado professor na USP à época. Então, sempre vínhamos visitá-los e curtíamos muito a cidade. Minhas razões surgiram bem mais para frente, em 2005. Minha irmã, a Camila, conseguiu me convencer a vir morar com meu irmão, o Lucas, que tinha acabado de entrar em um curso universitário aqui. Ela via que eu não estava feliz em Americana, principalmente, por ter deixado Nova Iorque, onde vivia um frenesi cultural constante e, novamente, estava a contragosto me vinculando à empresa dos meus pais. Foi a melhor coisa que fiz na minha vida, pois me apaixonei por Ribeirão Preto. Em poucos meses na cidade, já estava no elenco de três espetáculos, ministrando cursos em escolas de teatro, meu irmão abandonou o curso que estava fazendo e ingressou no circo. No ano seguinte, entrei no SENAC, onde me formei no curso de Artes Dramáticas e, concomitantemente, estudei na Escola de Atores Wolf Maya, em São Paulo. Assim começou nossa trajetória artística na cidade.
Genericamente, de que maneira avalia a cena cultural ribeirãopretana?
A cena cultural em Ribeirão Preto é fantástica, muito efervescente. Isso acontece graças aos artistas, que estão em constante produção de novos espetáculos, shows musicais, apresentações de dança, novas pesquisas, tudo na garra. Faço questão de repetir, isso tudo acontece graças aos artistas da cidade.
Qual a recepção do público?
A cada ano que passa, nosso público aumenta consideravelmente. O SESC esgota seus ingressos na maioria das apresentações. Nos teatros da cidade, públicos ou privados, a realidade é a mesma. Os espaços alternativos sempre repletos de apresentações, ou seja, não temos como nos queixar do nosso querido público.
Que descobertas artísticas fez por aqui?
Aqui descobri tudo o que mais gosto. Desenvolvi a arte do palhaço com meu irmão, Lucas Santarosa, conheci a métrica da farsa com o diretor Renato Grecco, tive a oportunidade de trabalhar com Miriam Fontana, do grupo Fora do Sério, nossa grande mestra, Dino Bernardi, com sua genialidade na encenação, André Cruz, Rosana Pavinski e tantos outros artistas excepcionais que contribuíram para minhas descobertas, que prefiro parar por aqui, pois fatalmente esquecerei de mencionar muitos que contribuíram para o meu amadurecimento como ator e diretor teatral.
Em que momento surgiu a ideia de ter o próprio teatro?
Tudo começou em Nova Iorque, mais precisamente no Brooklyn, bairro onde morava. Na frente da minha casa, tinha um pequeno teatro, com 48 lugares. Eu via que a movimentação era intensa, então, resolvi comprar um bilhete para o espetáculo do dia. Quando fui comprar, a surpresa: só tinha ingresso para o final do mês, tudo esgotado. Comprei e me tornei cliente fixo do espaço. Quando voltei para o Brasil, comecei a sonhar com a possibilidade de ter um teatro nos mesmos moldes.
Por que escolheu Ribeirão Preto para realizar esse projeto?
Ribeirão Preto foi a cidade escolhida para viver e, consequentemente, o Teatro Santarosa aqui se concretizou. Lógico que, como se tratava de um sonho vindo de fora, toda vez que vinha à cidade, imaginava que o teatro pudesse ser construído aqui, mas como disse, não ultrapassava a barreira do sonho. Só que minha família, precisamente meu pai e minha mãe, que sempre foram parceiros e apoiaram as concretizações de nossos projetos de vida, abraçaram a causa e levantaram o Santarosa. Eles não mediram esforços para a construção do Teatro, devemos tudo aos dois.
Quando e com que proposta o Santarosa foi inaugurado?
Inauguramos a casa em dezembro de 2010, com a proposta de fortalecer a atividade cultural da cidade, agregar diferentes linguagens, ministrar cursos e oficinas, estabelecer o espaço como sede de um grupo de pesquisa, que hoje é a Companhia Santarosa de Teatro, além de tantas outras frentes que o Santarosa nos ensinou.
Quais cuidados arquitetônicos foram tomados para que o espaço cumprisse seu papel?
Meu irmão e eu já estávamos circulando ativamente pelo país, principalmente, em festivais e unidades do SESC São Paulo. Dessa forma, não nos faltavam referências. Porém, precisávamos encontrar alguém que dominasse um projeto cênico. Foi quando conheci Marco Antônio Cardoso, o Marquinho, que na época trabalhava no Pedro II. O homem sabe tudo de projeto cênico — tanto que, depois do Santarosa, ele já inaugurou diversos teatros. Além disso, contamos com uma arquiteta muito talentosa da cidade, a Luciana Scare, que foi quem cuidou de todo projeto arquitetônico do prédio.

A trajetória do teatro até hoje seguiu os rumos esperados?
Com certeza, além de novos rumos que somente a vivência no Santarosa nos possibilitou enxergar. Hoje, funcionamos de domingo a domingo, com uma agenda extremamente diversa que inclui espetáculos teatrais, circenses, música, dança, aulas de teatro, oficinas literárias, dramatúrgicas, além do nosso delicioso curso de Oratória com técnicas teatrais, eventos corporativos, formaturas etc.
Que outras atividades, não relativas à agenda do teatro, preenchem seu dia a dia?
Sou extremamente caseiro e cinéfilo. O pouquíssimo tempo que tenho para ficar em casa, aproveito para ver filmes, principalmente, os de minha coleção, que assisto repetidas vezes. Gosto muito de um bom restaurante, de viajar e de escrever. Tenho vários textos de minha autoria guardados a sete chaves para serem encenados um dia.
Texto: Luiza Meirelles
Fotos: Ibraim Leão e Rony Morbi