Diálogos possíveis
Com suas questões, Marisa Giannecchini Gonçalves de Souza conduz a psicanalista Maria Bernadete Amêndola Contart de Assis à reflexão sobre diversos assuntos que permearam a IV Bienal de Psicanálise e
Promovida pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto (SBPRP), entidade filiada à Federação Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI), à Federación Psicoanalitica da América Latina (FEPAL) e à International Psychoanalitical Association (IPA), a Bienal de Psicanálise e Cultura objetiva provocar a reflexão sobre as mais diversas questões da atualidade, tendo a psicanálise e as expressões culturais como guias. Quarta edição do evento, a Bienal tratou dos diálogos possíveis entre psicanálise e tecnologia, que certamente vem provocando mudanças importantes no homem e na sua maneira de se relacionar com o outro e com o mundo.

Por sua experiência clínica e científica, a presidente da SBPRP, Maria Bernadete Amêndola Contart de Assis, está envolvida com o tema. Mais ainda, para falar sobre a Bienal, que acompanha, de uma forma ou de outra, desde a primeira edição. Na condução das perguntas, a professora Marisa Giannecchini Gonçalves de Souza revela a sensibilidade de quem dedica a vida ao conhecimento, seja na sua construção ou na sua difusão.
Marisa: O tema do evento, Psicanálise e Tecnologia: diálogos possíveis, pela atualidade, traz para a discussão as novas configurações das relações humanas, novas formas de representação e suas ferramentas. Como é ser analista e lidar com pacientes no contexto atual?
Bernadete: A Psicanálise tem um profundo comprometimento com o novo. Entendemos que o ser humano é novo a cada dia, está em contínuo movimento de “vir a ser”. As experiências do cotidiano, se aprendemos com elas, acrescentam e transformam. Sejam elas da qualidade que forem: alegres ou tristes, agradáveis ou desagradáveis. Há sempre uma oportunidade de aprendizagem no fluxo da vida. Ser analista no contexto atual é manter nosso método de trabalho que, na essência, é estar atento e em contato emocional profundo com as pessoas que chegam aos nossos consultórios trazendo dores e alegrias, vivências emocionais que, entre tantos outros fatores, ressoam o contexto em que estão mergulhadas. Ser psicanalista, hoje, é manter o vértice de observação constante, aberto às novidades, despojados de ideias pré-construídas. Assim, parece-me natural que surja na Sociedade de Psicanálise, interessada na investigação e no contato, com o que há de mais íntimo no ser humano, o tema dessa Bienal, em que estamos discutindo as repercussões das novas tecnologias na constituição da subjetividade, nos afetos e nas relações.
Marisa: Na Bienal, diferentes linguagens foram convocadas, como a música, a semiótica e a mediação dos sentidos, as formas de representação e a fotografia. Houve a intenção de trazer um mundo plural para o diálogo, sem eleger apenas a linguagem verbal como centralidade?
Bernadete: Nós, psicanalistas, entendemos que a linguagem verbal, ainda que fundamental na comunicação humana, não pode ser privilegiada como “mais importante”, seria um reducionismo imenso. O ser humano é riquíssimo em suas formas de comunicação e expressão. Utiliza-se da linguagem musical, fílmica, fotográfica, literária, poética, gráfica, corporal e tantas outras, na tentativa de comunicar o que pensa, o que sente e o que vê da vida. Interessa muito à Psicanálise o diálogo com todas as linguagens com que se expressa o ser humano, uma vez que nos aproxima da complexidade e do mistério de quem somos, do que sabemos e do que desconhecemos de nós mesmos. O psicanalista focaliza o olhar no interior de cada um e na microscopia das relações humanas. Esse olhar se amplia e se aprofunda quando nos valemos de outras linguagens. Aliás, no consultório, incluímos a atenção à coreografia do paciente, seu andar, seu gestual, a sonoridade da voz e as expressões corporais. Nossa observação não focaliza apenas o discurso, mas toda a linguagem pré-verbal ou não verbal do paciente. O conjunto de todas as formas de expressão nos envolve no encontro com o outro.
Marisa: Ítalo Calvino, em Seis propostas para o próximo milênio, sugere “Consistência” e “Leveza” para o século XXI. O programa do evento, além de trazer o mundo virtual para o centro da cena, dialogando com matrizes virtuais desde Platão e sua caverna, com o mito de Édipo, apresenta, com “Linguagem e Narrativa em tempo de Whatsapp”, as micronarrativas. Pode-se afirmar que o programa da IV Bienal teve como princípio atar as pontas do passado e do presente, rumo ao futuro?
Bernadete: Obrigada por instigar meu pensamento, pois não havia pensado nisso antes dessa pergunta. Entendo que o mito da caverna de Platão e o mito de Édipo são patrimônios culturais da humanidade. Foram concebidos em um passado remoto, mas permanecem no presente, uma vez que são narrativas sobre temas da essência humana. Assim sendo, atravessam séculos; são atemporais. Com a revolução da informática, novas linguagens e novas narrativas se apresentam. Precisamos de “Leveza” para acolher tais novidades e caminhar rumo ao futuro, sempre abertos ao que virá, com olhar curioso, inquieto e investigativo. Minha hipótese é de que as descobertas presentes no mito da caverna (real/imaginário; sensível/inteligível) e no mito de Édipo (triangularidade; busca da verdade) permanecem, porque são da substância do que é humano, e ganham novas formas de expressão com os recursos tecnológicos. Precisamos estar abertos para a identificação e a leitura dos novos códigos de comunicação e de relacionamento que se configuram na sociedade, mas estaremos sempre às voltas com nossas questões fundantes. Entre elas, destaco a constante reflexão sobre o que é real e o que é imaginário (como no mito da caverna) e a busca pela verdade (que aparece no mito de Édipo).
Marisa: A relação presencial entre analista e analisando é fundamental, diante das ferramentas virtuais?
Bernadete: O que posso dizer sobre um tema tão polêmico é que a relação presencial entre analista e analisando é diferente da relação via Skype, por exemplo, assim como acontece nas relações fora dos consultórios. No encontro presencial entre eu e o outro se forma um campo emocional a partir de muitos estímulos sensoriais e não sensoriais. Há o odor e o calor que emanam dos corpos; os olhares que se procuram ou se evitam; as expressões faciais, o andar, o sentar-se, o recostar-se; a modulação da voz, a sonoridade da fala; a percepção da alegria, da tristeza, da verdade e da mentira. Poderia fazer a maior das listas de fatores que compõem a experiência emocional de um encontro e, ainda assim, ela não seria suficiente porque o encontro com o outro contém o mistério do não sensorial, do intuitivo. Como nos diz Guimarães Rosa, afinamos e desafinamos. Essa é a beleza e a riqueza do encontro presencial. No encontro virtual, alguns dos órgãos dos sentidos não estão presentes, como o olfato e o tato. Além disso, a cena é recortada pela tela e os olhos captam partes dos corpos ou do ambiente, restringindo os estímulos. A pergunta está aberta: será que tal restrição prejudica ou favorece o encontro? Como nasci antes da revolução da informática, fui acostumada a decodificar os sinais de um encontro presencial, com sua riqueza e mistério. Penso que os que nascem na era virtual certamente estão desenvolvendo novos códigos de relacionamento e, com isso, novas habilidades para “sentir” e “perceber” o outro. No entanto, o ser humano, tal como o conhecemos até agora, ainda necessita do tato, do olfato, do afago, do abraço, do cafuné para se constituir como sujeito. Para não deixar de fora as paixões disruptivas, para a constituição do sujeito ainda é preciso experimentar no encontro o calor do ódio, o medo da agressão física, a ameaça do abandono, a insegurança da falta de controle. O encontro presencial se faz de corpo e alma e, assim sendo, oferece mais elementos para a constituição do campo emocional. Como você me levou a pensar na pergunta anterior, vamos com leveza em direção ao futuro, desejando que o Homem se adapte às novas tecnologias, sem perder a poesia.
Marisa: Todorov, na obra A beleza salvará o mundo, reafirma a arte como essencial ao ser humano. Como psicanalista, o binômio estética e ética deve estar no centro das reflexões?
Bernadete: Sim, a arte é produzida nas entranhas da alma e, assim sendo, a revela. De outro lado, é alimento para nosso psiquismo, constituído de imagens, palavras, significados, sonhos e sentimentos. A arte nos toca no íntimo, no mais profundo de nossa interioridade. É o que chamamos de experiência estética. Quando estamos diante de uma obra de arte, ela tem o potencial de nos sensibilizar para além do que os sentidos captam. Eu não sou tocado somente pelo que vejo e ouço, mas pelo que sinto a partir do que vejo e ouço. Portanto, a estética não só deve estar no centro das reflexões, mas deve estar presente no cotidiano, uma vez que cumpre a função de constituição e de abastecimento da subjetividade. Imagina se, da mesma forma que nos alimentamos todos os dias, tivéssemos o hábito de nos alimentar de obras de arte: ouvir uma música, assistir a um filme, ler um conto ou uma poesia. Hábito salutar, não acha? Como cuidamos de nos alimentar com comidas de boa procedência, com as vitaminas de que nosso corpo precisa, é interessante pensar que, do ponto de vista psicológico, também precisamos de alimentos saudáveis. As artes se constituem como um desses “bons alimentos” para a alma! Já o gesto ético é o que se refere fundamentalmente à consideração pela alteridade, ou seja, é constituir o outro como outro, diferente de mim. Os desdobramentos da constituição da alteridade são vários e fundamentais para a convivência humana: respeito, tolerância às diferenças, generosidade, compreensão, compaixão, amizade e amor. Como psicanalistas, sabemos que a constituição do outro, aparentemente simples, é um dos caminhos mais complexos da mente humana, uma vez que requer a renúncia à ideia do eu como centro do universo. Essa renúncia não foi fácil inclusive na história da humanidade: demoramos a descobrir que a Terra não era o centro do universo; demoramos a entender que o sol não girava em torno da Terra! A revolução copernicana, a que estou me referindo, acontece a cada dia dentro de nós, quando descobrimos e redescobrimos que não somos o centro do universo e que precisamos considerar o outro, para que a vida prossiga com um mínimo de convivência saudável. Como psicanalistas, exercitamos esse gesto ético a cada encontro com nossos pacientes. Assim, usando suas palavras, o binômio ética/estética deve estar no meio não só das reflexões atuais, mas do viver humano, em qualquer tempo.

Marisa: Falou-se, nesses encontros, sobre a cultura do ambiente tecnológico, em novo modo de ser e estar presente, conectado na atualidade. A tecnologia, vinda da palavra tekné, arte de fazer, define o perfil do ser humano, neste tempo de tantas invenções?
Bernadete: Como sabemos, o modo como o Homem produz, o seu “fazer”, está implicado no seu “ser”. Assim, em tempos em que estamos mergulhados no ambiente tecnológico, esse novo modo de operar na vida traz a configuração de um novo Homem. Não sei quem ele é, mas penso que o Homem, cada vez mais dependente da máquina, especialmente para se informar e se comunicar, vai criando extensões de si mesmo, transferindo funções humanas para as máquinas. A memória é um exemplo disso. Já não preciso guardar informações porque as tenho em mãos, digitando por vezes uma única palavra sobre o que preciso saber. Também não é preciso guardar caminhos, porque aplicativos me indicam por onde ir. Até a saudade anda cheia de novidades: posso “acessar” a pessoa ausente e a tenho, ali, em “minhas mãos”. A máquina facilita a vida, ou será que, nesse movimento, nos distancia de experiências humanizadoras, como o desconhecimento, a desorientação e a saudade? Se estes novos recursos tecnológicos contribuem para que o Homem possa dispor de mais tempo para crescer em sua humanidade, serão bem-vindos, mas há riscos de nos tornar “maquinais”. Lembro-me da cena maravilhosa e antológica de Chaplin, em Tempos Modernos, em que ele é “engolido” por uma máquina em uma esteira de produção em série e sai dela “sendo” uma máquina, com gestos compulsivos de apertar parafusos. Há aí uma brilhante advertência: o Homem corre o risco de se distanciar de sua essência, assemelhando-se a máquinas. Aliás, sobre isso, Jacques Derrida, filósofo francês, lembra que o encontro com o outro excede a máquina, no sentido de que é incalculável, imprevisível, incomensurável e, sobretudo, misterioso. Aí está o encantamento do “ser” humano. Aí está a experiência estética de que falei há pouco. Insubstituível.
Marisa: Bakthin, teórico russo, postulou o termo “dialogismo”, um diálogo da obra com outras que a antecederam. As falas nas mesas da Bienal foram também dialógicas, pois trouxeram a Filosofia, a Ciência e a Arte, entre outros vértices do conhecimento. Qual o balanço que você faz dessa abertura para o público presente?
Bernadete: O balanço da Bienal é muito positivo, estamos muito satisfeitos. Penso que a Sociedade de Psicanálise alcançou êxito em criar um fórum de diálogo sobre as influências das novas tecnologias no processo de subjetivação e nas relações interpessoais. Para isso, convidou profissionais expoentes de diferentes vértices do conhecimento para refletir sobre esta indagação: que Homem é este que aí está, envolto em tantas novidades tecnológicas? Abrir tal reflexão para o público é ampliar a condição de pensar. Não se trata somente de conhecer mais sobre o assunto, mas de ter noção do quanto se desconhece. Penso que a Bienal de Psicanálise e Cultura cumpre a função de levar à comunidade a oportunidade de pensar o humano, em toda sua complexidade, obscuridade e beleza.
Marisa: A Bienal foi interativa. Até as vinhetas dialogavam com o tema do encontro. Exposições, espaço compartilhado, lançamento de livros, livreiros, além de autores consagrados da Psicanálise. Material na pasta dos participantes, trazendo, entre outras indicações, as comissões abertas à parceria com a comunidade. A Sociedade de Psicanálise de Ribeirão Preto, na prática, abre espaços para atividades sociais em geral?
Bernadete: A Sociedade de Psicanálise de Ribeirão Preto tem como um de seus objetivos a inserção na comunidade. Procuramos levar nossos conhecimentos e nossa condição de gerar pensamentos e reflexões a vários segmentos da sociedade. Mantemos contato permanente, por intermédio de grupos de estudos e discussão, com profissionais e estudantes da área médica, da educação, do judiciário, das universidades públicas e particulares. Entendemos que o vértice psicanalítico, que apreende a mente humana e as relações interpessoais com olhar microscópico, pode ser útil em diferentes áreas, auxiliando a compreensão dos aspectos emocionais do viver e, também, colaborando na ampliação da capacidade de se sustentar o desconhecimento, que se apresenta recorrentemente quando o objeto de estudos é o humano, em sua dimensão emocional. Nesse ponto nos encontramos, Marisa, porque você, no seu ofício de educadora e promotora de cultura, influencia gerações de jovens e de adultos levando a todos o contato com mitos, literatura, poesia e artes. Como disse antes, são estes alimentos para alma que nos fortalecem como seres sonhantes que somos.