Dias de folia
Saiba mais sobre a evolução do Carnaval, desde os primeiros blocos
Uma das festas populares mais animadas do mundo, o Carnaval tem uma longa história, tendo passado por diversas modificações até chegar ao formato atual. A comemoração começou na Grécia, em meados dos anos 600 e 520 a.C., como uma forma de agradecer aos deuses pela fertilidade do solo e pela vasta colheita. Os cultos eram marcados pela alegria, pelo canto, pela dança, por bebidas alcóolicas e pela desinibição dos participantes. A Igreja condenava veementemente a celebração, classificando-a como pagã. Porém, em 590 d.C., o catolicismo inseriu o festejo em seu calendário, a partir da implantação da Semana Santa.
Ficou estabelecido que, durante os 40 dias que antecedem a Páscoa, os fiéis deveriam cumprir resguardo e jejum, período chamado de Quaresma, que se inicia na Quarta-feira de Cinzas. Pensando nas privações que teriam que enfrentar, as pesssoas passaram a realizar diversas atividades antes da Quaresma. Esses encontros foram denominados pela expressão em latim “carnis vales”, que significa os prazeres da carne. Posteriormente, o termo deu origem à palavra Carnaval.
Com o passar do tempo, a festa se espalhou pela Europa. Em cada local, a data passou a ser celebrada de uma forma diferente e particular. As máscaras, as fantasias e os carros alegóricos foram alguns dos recursos que começaram a marcar presença nesta época. Com a colonização portuguesa, não demorou muito para que a comemoração chegasse ao Brasil. Os primeiros registros da festa em terras brasileiras são do século XVII. Os blocos carnavalescos, os cordões e os famosos cortejos de automóveis, conhecidos como corsos, surgiram nessa época, mas ganharam ainda mais notoriedade no começo do século XX. Já nesse período, os foliões decoravam os carros, fantasiavam-se e, em grupos, desfilavam pelas ruas. Os clubes também entraram na dança e passaram a promover bailes memoráveis ao ritmo ditado pelas marchinhas, que garantiam a diversão. Esse modelo de folia tradicional foi se modificando aos poucos, mas ainda pode ser encontrado em pequenas cidades interioranas.
A primeira escola de samba, chamada “Deixe Falar”, foi fundada em 1928, seguida por outras agremiações em pouco tempo. Com isso, a festa foi elevada a outro patamar e ganhou novos contornos, especialmente no Rio de Janeiro e em São Paulo. Desta forma, o Carnaval acabou se transformando, pouco a pouco, em um negócio extremamente profissional. Organizados em Ligas de Escolas de Samba, os grupos criaram campeonatos, onde diversos critérios passaram a ser julgados e pontuados para, assim, eleger a melhor agremiação do ano. Quesitos como samba-enredo, alegorias, evolução, harmonia e conjunto, mestre sala e porta-bandeira e bateria compõem a lista. “Desde suas origens pagãs, nas festas Dionisíacas da Grécia Antiga, passando por Roma, o Carnaval exibe de forma encantada a inversão dos rígidos papéis que vivemos no dia a dia. De Veneza a Paris, do Rio a São Paulo, o povo dramatiza de maneira desmedida o avesso das regras do cotidiano: o pobre vira nobre, rei, rainha; o rico posa de povo, o homem de mulher, a mulher de homem. Uma escapada das protocolares regras de convivência. Contudo, essa característica persistiu somente em algumas manifestações. Na passarela, por exemplo, a festa perdeu o caráter de catarse popular para se render aos holofotes da massa e das celebridades”, opina o consultor político Luiz Rufino.
Mas, segundo os foliões, nada acaba com a naturalidade e com a magia da festa. Pelo contrário. Em diversos aspectos, a modernização trouxe ainda mais brilho e encanto para a avenida. Segundo Cristina Helena Cury Domingos, a emoção de cruzar a avenida é realmente única. Em 2006, ela saiu de Ribeirão Preto para desfilar em um bloco de convidados da Acadêmicos do Tucuruvi, em São Paulo. “Sou bailarina desde pequena e esse universo da arte sempre me atraiu. Quando tinha uns 17 anos, disse que estaria numa escola de samba, como destaque. O tempo foi passando e nada de realizar esse sonho. Naquela época, era mais difícil conseguir acesso. Todo mundo me desencorajava. Então, quando fiz 40 anos, recebi o convite através do meu ex-marido. Foi um momento de pura felicidade”, recorda.
Enquanto se preparava na concentração, foi chamada para ser destaque. “Uma das passistas faltou e eu, sem pensar duas vezes, assumi o lugar dela. Tive dez minutos para me preparar. Foi uma loucura deliciosa. Fiquei muito nervosa. Demoramos uma hora e quinze minutos no Sambódromo que, para mim, foram apenas cinco minutos, tamanha a magnitude desse evento. Lá, não tem passado nem futuro. A única coisa que existe é o presente. Estava na hora certa, no lugar certo, fazendo o que eu queria fazer. Foi perfeito”, resume Cristina. Ela ainda adianta que tem vontade de repetir a dose em breve.
Márcia e Marcela Mariani também vivenciaram a experiência, em 2011, pela Beija-Flor de Nilópolis, no Rio de Janeiro. “Meus pais passaram o Réveillon de 2010 para 2011 no Rio de Janeiro. Lá surgiu a ideia de desfilar e alguém tinha um contato com um diretor de ala da Beija-Flor. Quando soubemos que Roberto Carlos seria o homenageado ficamos ainda mais animadas. Somos muito fãs. A letra do samba-enredo era linda e a escola tinha uma história de muitas vitórias e lindas fantasias. Não dava para resistir”, lembra Marcela. A partir daí, o envolvimento foi total e a ansiedade, máxima.
Mãe e filha chegaram ao Sambódromo por volta das 21h30. Ficaram nas frisas, acompanhando cada detalhe de perto até o último minuto. Depois de cinco escolas, era a hora da Beija-Flor. “Fomos a última escola. Entramos às 5h15. Foi uma sensação única, indescritível e inesquecível. A energia daquele lugar pulsa e faz o corpo todo arrepiar”, comenta Marcela. Márcia destaca o envolvimento da comunidade, o trabalho e a dedicação dos componentes da escola para que tudo saia como o planejado. “A emoção é incrível, mas não podemos esquecer que é um campeonato, uma disputa séria. Eles se preparam o ano inteiro e aquela hora é a consagração do esforço. Vale a pena o investimento, a espera e a dor, porque a fantasia é pesada e o cansaço, implacável. Porém, o que sentimos na avenida compensa tudo”, conclui.
Na região
Para quem não vai ter a oportunidade de ir até São Paulo ou Rio de Janeiro para conferir o espetáculo de perto, mas também não quer ficar em casa assistindo tudo pela TV, há algumas opções para curtir a folia aqui mesmo na região.
Ribeirão Preto
O desfile das escolas de samba de Ribeirão Preto acontece na Passarela do Samba “Mestre Oscarzinho”, na Av. Mogiana, nos dia 9 e 10 de fevereiro, a partir das 20h, com a presença do Rei Momo Lucas Frateschi Borghetto e da Rainha do Carnaval, Geovana Carla Clemente. As escolas que vão passar pelo local são: X-9, Tradição do Ipiranga, Bambas, Imperadores do Samba, Falcão de Ouro e Embaixadores, além das apresentações dos grupos Afoxés Omó Orunmilá e Ogum-Oyá.
Bonfim Paulista
O Carnaval de Bonfim Paulista mantém a tradição e organiza, mais uma vez, um desfile que promete encantar os espectadores. Entre os dias 9 e 12, as escolas Unidos da Villa e Acadêmicos de Bonfim vão passar pela rua Professor Felisberto Almada, região central do distrito, a partir das 21h.
Batatais
Com uma estrutura bem elaborada, o desfile das escolas de samba de Batatais atrai um público cada vez maior. Este ano, o evento será nos dias 9 e 10 de fevereiro, a partir das 21h. Seis agremiações vão atravessar o Sambódromo Carlos Henrique Cândido Alves: Unidos do Morro, Castelo, Unidos da Liberdade, Riachuelo, Acadêmicos do Samba e Unidos da Fiel. As apresentações dos blocos Estação do Samba e Um Bando de Loucos estão programadas para abrir a festa.
O Carnaval pelo país
A diversidade cultural, tão característica do Brasil, não poderia ficar de fora no Carnaval. Além dos famosos desfiles das escolas de samba no Rio de Janeiro e em São Paulo, na região sudeste, a folia está presente em todos os cantos do país e se apresenta de diversas formas.
Amazonas
No território do Boi-Bumbá, o povo mantém firme suas raízes culturais, inclusive no Carnaval. Em Manaus, o Carnaboi é a maior atração, trazendo uma mistura inconfundível de músicas carnavalescas com toques da batida regional. Até a rivalidade entre os grupos Garantido e Caprichoso fica em segundo plano e todos se divertem unidos.
Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul
Na região Sul, o carnaval também arrasta multidões. A rica programação oferece opções para todos os gostos, desde os tradicionais bailes, onde as marchinhas ditam o ritmo, até os blocos de rua e os desfiles de escolas de samba. As cidades mais procuradas pelos turistas são Curitiba, Florianópolis, Gramado e Porto Alegre.
Pernambuco
No estado, especialmente em Recife e Olinda, o samba fica um pouco de lado e dá espaço ao frevo. Destaque para os grandes bonecos de Olinda e para os blocos, como o “Galo da Madrugada”, em Recife, considerado o maior do mundo. O maracatu, ligado a tradições afro-brasileiras, e as agremiações de caboclinhos, outro tipo de manifestação folclórica, também fazem sucesso.
Minas Gerais
Nas cidades históricas de Minas Gerais, como Diamantina e Ouro Preto, o público universitário é predominante. A agitação é constante durante os cinco dias de festa. Os blocos das repúblicas de estudantes dançam entre as ruas estreitas e os casarões antigos.
Bahia
O Carnaval de Salvador conquistou fama mundial com o som contagiante do axé e a animação dos trios elétricos, de onde artistas como Ivete Sangalo, Claudia Leitte, Chiclete com Banana, entre outros, comandam a festa. São três circuitos: Osmar (Campo Grande), Dodô (Barra-Ondina) e Batatinha (Centro Histórico). Ao todo, a comemoração ocupa uma área de 25 quilômetros de avenidas, ruas e praças, que abrigam uma completa infraestrutura.
Texto: Paula Zulian
Fotos: Julio Sian
Arte: Adriano Chereguini
Agradecimentos: Escola de Samba Unidos da Villa (Bonfim Paulista) e Sônia Roveri