Dificuldade de gente grande

Dificuldade de gente grande

Para terapeuta que atua há 16 anos na área, postura dos pais é essencial para minimizar os impactos da pandemia no dia a dia dos pequenos

Para as crianças com mais de cinco anos, Denise Dias sugere que os pais comecem a explicar o problema atualDe repente, as brincadeiras no parque e os passeios pelas ruas cederam espaço ao lazer dentro de casa. Por conta do isolamento social, a rotina ativa das crianças precisou ser transferida para o interior dos lares, mudando a relação dos pais com os pequenos.

Mesmo com a mudança do cotidiano, as crianças ainda não possuem recursos suficientes para compreender a situação da pandemia do novo coronavírus. Por isso, segundo a terapeuta Denise Dias, que atua há 16 anos na área, com foco em crianças, adolescentes, adultos e casais, a postura dos pais é essencial para minimizar os impactos do cenário atual no dia a dia dos filhos.

Com formação em Musicoterapia, Pedagogia, Psicopedagogia, Psicossomática, Dislexia e Terapia Comportamental e especializações no exterior, a autora dos livros “Tapa na bunda”, “Filhos perdidos” e “Produção independente” destaca que, independente da faixa etária, o impacto do confinamento é grande para todos. “Somos seres humanos, necessitados de contato físico, de olho no olho, de poder encontrar e conversar com as pessoas ao vivo. Mesmo os bem pequenos, de dois e três anos, que pela idade ainda não elaboram o pensamento cognitivo abstrato e, portanto, não entendem a pandemia, são afetados por ela. Criança precisa de espaço, de se exercitar para gastar a energia e de estímulos para o desenvolvimento da coordenação motora global e da psicomotricidade geral. Isso faz parte da infância. Infelizmente, por causa da pandemia, fomos obrigados a nos recolher, prejudicando todo o desenrolar desse processo”, pontua Denise.

Explicação

Para a terapeuta, a partir dos cinco anos, a criança já tem maturidade para compreender a situação e, assim, vale a pena conversar sobre o assunto. “Explicar, com calma e com respeito, o que é o vírus, que ele está no mundo inteiro, que deixa as pessoas doentes e que, por isso, é preciso ficar em casa, usar a máscara e o álcool em gel, faz com que elas se sintam importantes e engrandecidas”, detalha a terapeuta, que ainda afirma que o peso ou a leveza do isolamento social para as crianças são determinados de acordo com a forma como os pais olham para o contexto. “Os pais não podem ter preguiça de brincar. Vários estão trabalhando normalmente e se culpam por não dar a atenção devida aos pequenos durante todo o dia. Esse sentimento só atrapalha uma situação que já está caótica por si só. O ideal é que o casal se reveze, equilibrando o profissional e o pessoal, ou, também, recorrendo à ajuda de alguém da família ou de amigos próximos. No momento em que o expediente terminar, a orientação é suprir essa ausência, dando o afeto e o acolhimento que os filhos tanto precisam”, argumenta.

Como terapeuta, Denise afirma ouvir frequentes relatos de pais que não gostam ou não conseguem estabelecer uma interação de forma natural com os filhos, desejando o imediato retorno das atividades escolares para eliminarem a situação incômoda. A eles, Denise afirma que é necessário encarar a pandemia como uma oportunidade para reavaliar a relação, buscando melhorias.

On-line

Segundo a terapeuta, é possível afirmar que os pequenos sofrerão prejuízos: “regressão pedagógica”Com as aulas presenciais suspensas, as unidades escolares adaptaram o conteúdo pedagógico que seria administrado presencialmente para o universo digital. Contudo, segundo Denise, muitas escolas não tiveram o tempo necessário para se estruturar e fazer essa adaptação adequadamente. “Por mais que os professores estejam se desdobrando para continuar exercendo suas funções da melhor maneira possível, a situação exigiu um imediatismo que abriu espaço para falhas no sistema. Nas escolas particulares, a intensa cobrança dos pais por atividades — para justificar os pagamentos — também contribui para elevar o estresse dos profissionais que estão à frente desse processo, o que aumenta a chance de erros e pode ocasionar, inclusive, uma sobrecarga de tarefas. Os pais, pressionados para cumprir a jornada de trabalho, pelo corte no salário e pelo desemprego, ainda precisam assumir o papel de professores em casa, sem nenhum tipo de capacitação para isso. Ficam perdidos e frustrados, pois criam expectativas irreais em relação ao bom desempenho dos filhos. Conciliar essa nova dinâmica familiar é muito difícil. Diante desses e de outros fatores, apesar de todos os esforços, o cenário atual não é favorável para o aprendizado. Se fosse para ser algo permanente, teríamos de promover vários ajustes”, avalia.

Para a terapeuta, uma avaliação do cenário pandêmico permite concluir que, para as crianças, também há prejuízo. “Muitas crianças apresentarão uma regressão pedagógica, porque, apesar da realização das atividades em casa, não são estimuladas como seriam na escola. A questão comportamental também merece atenção. Os pais e os professores desconhecem os bastidores psicológicos das crianças. Não há como prever e dimensionar como cada uma vai absorver e reagir a tudo o que está acontecendo. São muitas mudanças. Ninguém sabe ao certo como agir, pois nunca vivenciamos essa experiência antes. A parceria entre as escolas e os pais deve ser fortalecida. Em conjunto, temos de compreender, amparar e respeitar essas crianças. Além disso, há a necessidade de revisar os conteúdos e de flexibilizar tanto as datas, quanto o nível de dificuldade das provas, por exemplo. Será, literalmente, um recomeço”, finaliza. 

Compartilhar: