Distante da igualdade racial

Distante da igualdade racial

Abolição da escravatura que completa 126 anos não foi capaz aproximar as raças

A tão aclamada democracia racial ensinada nas escolas brasileiras está longe da realidade demonstrada pelos frios números das estatísticas oficiais e pelos estudos acadêmicos. 126 anos passados desde a abolição da escravatura no Brasil, brasileiros de cor preta ou parda se deparam com maior índice de mortalidade violenta, salários menores e índices de escolaridade inferiores aos brasileiros brancos.

O Mapa da Violência de 2013, elaborado pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-americanos (Cebela) e pela Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais (Flacso) mostra que, 76,9% dos jovens mortos por causa violenta em 2011 eram pretos e pardos, enquanto que os dados de 2002 mostram que o índice era menor (63%), mais ainda preocupante.

Paulo César Pereira de Oliveira, ativista do Movimento Social Negro e fundador do Centro Cultural Orunmilá, em Ribeirão Preto, classifica a matança de jovens negros como “extermínio da juventude negra” e aponta duas principais causas para a maior mortalidade entre os afrodescendentes: a concepção de racismo e abordagem policial.

De acordo com o ativista, persiste na mentalidade dos brasileiros a ideia de que o negro é um objeto, desumanizando a raça, heranças de um passado escravagista insepulto.  A violência de Estado gera casos como o do auxiliar de pedreiro carioca Amarildo de Souza, que teria sido torturado pela polícia carioca durante a operação “Paz Armada”.

O auxiliar de pedreiro teria sido levado por policiais para prestar esclarecimentos na Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha. Há acusação com policiais já indiciados de que Amarildo foi torturado para que contasse o que sabia sobre o tráfico de drogas na favela da Rocinha, onde morava. Depois da tortura, Amarildo teria sido assassinado e está desaparecido desde então.

O caso de Amarildo chama a atenção do uso da violência policial contra negros e pobres. “Existem pesquisas que comprovam que, em casos de perseguição, policiais atiram em órgãos vitais em negros e no caso dos brancos, atiram nas pernas”, afirmou Paulo César.

Além da violência, as diferenças entre negros e brancos aparecem no nível de escolaridade. Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostra que dobrou em dez anos a proporção de brasileiros que se autodeclararam pretos e pardos no ensino superior. O número saltou de 19% em 2002 para 38% em 2012.

Segundo a pesquisa, a expansão do ensino superior verificada entre 1995 e 2011 foi determinante para o aumento do número de negros cursando a universidade. Porém, outra pesquisa, como a do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), revela que o negro estuda, em média, dois anos a menos que os brancos.

Até 2011, 8,7% dos negros com idade maior de 18 anos tinham curso superior completo ou incompleto, um avanço em comparação com os números de 2001, quando a proporção era de 4,3%, mas é pequeno se comparado aos 24,4% de brancos com ensino superior.

Comparando salários de homens negros e brancos do mesmo nível educacional, fica evidente a diferenciação que o mercado de trabalho faz entre as raças. A pesquisa “Os negros nos mercados de trabalhos metropolitanos”, realizado pelo Dieese nas regiões metropolitanas de São Paulo, Belo Horizonte, Salvador, Brasília, Porto Alegre e Recife e divulgada na ocasião do Dia da Consciência Negra de 2013, mostra que o trabalhador negro ganha cerca de 36% a menos que o trabalhador branco, mesmo com  grau de escolaridade idêntico.

Entre as pessoas com ensino fundamental incompleto, o rendimento médio por hora gira em torno de R$ 5,27 entre os negros e R$ 6,46 entre os brancos. A disparidade de rendimentos é maior entre os trabalhadores com ensino superior completo, enquanto brancos ganham R$ 29,03, os negros ganham R$ 17,39, R$ 11,64 a menos.

A pesquisa aponta que os negros se concentram em cargos de menor prestígio e valorização, como pedreiros, pintores, serventes e trabalhadores braçais. Na Região Metropolitana de São Paulo, 18,1% dos não negros alcançam cargos de direção de empresas, enquanto somente 3,7% atingem a função de chefia.

Nos últimos anos, o Estado brasileiro implementou medidas de compensações aos negros, como ações afirmativas e de promoção socioeconômica. Daí surgiram cotas para negros nas universidades e, mais recentemente, a cota para concurso público que garantirá 20% das vagas.

Para o fundador do Centro Cultural Orunmilá as políticas são necessárias, mas precisam ir além. “Precisamos desconstruir o imaginário racista e fazer valer a Lei 10.639/03 que garante o ensino da história e da cultura afro-brasileira. Sem isso não vamos avançar [para a igualdade]”, finalizou.

Revide On-line
Texto: Brunno Vogah
Foto: Arquivo Revide

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