Disturbios da tireoide
Com o formato de uma borboleta, o tamanho dessa glândula não corresponde a sua importância no organismo
Cansaço, mau funcionamento do intestino, inchaço na face, alterações de peso, do sono e, no caso das mulheres, alterações menstruais podem ser sinais de que a tireoide não está funcionando bem. A glândula possui o formato de uma borboleta e está localizada no pescoço abaixo da cartilagem conhecida como “pomo de Adão”. Pesa de 15 a 30 gramas, mas apesar do tamanho, o corpo todo depende do seu equilíbrio e a mínima alteração causa mudanças importantes.
A função da tireoide é produzir, armazenar e liberar os hormônios triiodotironina (T3) e tiroxina (T4) na corrente sanguínea, responsáveis pelo desenvolvimento, crescimento e regulação do metabolismo. Sua disfunção pode causar o hipotireoidismo ou hipertiroidismo.
No primeiro caso, hipotireoidismo, a glândula perde a capacidade de produzir hormônios tireoidianos em quantidades suficientes. Como essas substâncias agem em todos os órgãos, o quadro clínico é bastante amplo e variável. Entre os sintomas que podem aparecer estão cansaço, sonolência, intolerância ao frio, déficit de memória, redução de libido, alterações menstruais, pele seca, queda de cabelo, unhas frágeis, constipação intestinal e edema facial. Já o hipertireoidismo é caracterizado pela produção excessiva dos hormônios tireoidianos. “Nesses casos, observa-se insônia, tremor, palpitação/taquicardia, hiperfagia, hiperdefecação, intolerância ao calor, suor excessivo e irregularidade menstrual”, explica a endocrinologista Renata Pavan (CRM: 84104).
O teste do pezinho, realizado entre o 3º e o 5º dia de vida, é importante para identificar os casos de hipotireoidismo congênito e iniciar o tratamento precoce. “O diagnóstico imediato e o tratamento adequado do hipotireoidismo congênito são fundamentais para que o recém-nascido tenha um desenvolvimento neurológico e intelectual normais”, explica Renata.
Dificilmente alguém procura um médico com suspeitas relativas à tireoide. No caso da analista de marketing Talita Carabolante, a desconfiança da disfunção da glândula ocorreu durante um tratamento alérgico. Após exames clínicos, ficou constatado o hipertireoidismo. “Nunca tinha percebido nenhum sintoma que me fizesse procurar um médico. Depois de constatada a disfunção, foi necessário tomar medicamento durante dois anos”, afirma Talita.
O acompanhamento foi rigoroso. A analista fazia exames de sangue e ultrassons regularmente. Há um ano, sua endocrinologista suspendeu a medicação, mas a cada seis meses os exames são refeitos para garantir a normalidade da produção dos hormônios. “Não percebia nenhum sintoma além de muito sono e não tinha nenhum conhecimento sobre a doença. Acredito que, em alguns casos, como no meu, a doença não se manifeste, aparentemente, o que faz com que o paciente não procure o médico para iniciar o tratamento e acabe descobrindo por acaso”, alerta.
Se o problema demora a ser descoberto, o resultado pode ser até um câncer. Segundo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, o câncer de tireoide atinge, na maioria das vezes, mulheres acima dos 40 anos, porém, pode estar presente entre 25 e 65 anos em homens e mulheres. Pesquisas do Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA), do Ministério da Saúde, revelam que a estimativa para 2014 é de 9.200 novos casos de câncer de tireoide no Brasil, tornando este o quinto tipo de câncer mais frequente em mulheres, atrás somente do câncer de mama, do intestino, de pulmão e de colo de útero.
Os principais tipos de câncer de tireoide são os carcinomas papilífero e folicular que, juntos, correspondem a mais de 90% dos casos. Ao toque, de 4% a 7% das mulheres e 1% dos homens têm nódulos na tireoide. Se forem utilizados métodos de diagnóstico por imagem, como o ultrassom, este número atinge percentuais que variam entre 20% e 76% nos diversos estudos realizados. Portanto, os nódulos tireoidianos são frequentes.
Segundo Pavan, ao identificar um nódulo, é necessário realizar uma punção para a análise das células. Na maioria das vezes, a citologia é capaz de diferenciar o tipo de nódulo — benigno ou maligno, dependendo do caso, há a necessidade de cirurgia. “Os nódulos benignos, de maneira geral, só precisam ser monitorados. Diante do diagnóstico de um nódulo maligno, o paciente precisa ser informado que estes tumores têm um comportamento muito benigno. Quando tratados adequadamente, têm excelente prognóstico”, afirma.
A endocrinologista ainda ressalta que o tratamento é tranquilo e as chances de remissão são favoráveis. Nestes casos, diferente de outros cânceres, o tratamento não necessita de sessões de quimioterapia ou radioterapia. “É uma doença de baixa mortalidade que dá trabalho, precisa ser monitorada constantemente”, acrescenta Renata.
O desejo de emagrecer fez a arquiteta Claudia Stuchi Mello procurar o auxílio de uma endocrinologista. Foi quando constatou, através de um exame, o aumento da tireoide. “Tudo aconteceu por acaso. Ao apalpar meu pescoço, a médica percebeu um nódulo do lado direito da tireoide. Solicitou, então, que fizesse ultrassom com punção e alguns exames. Emagrecer, naquele momento, ficou em segundo plano”, lembra Cláudia.
Sem nunca ter sentido nenhum sintoma e com exames rotineiros normais, Claudia recorreu à ultrassonografia, que indicou a presença de quatro nódulos – três do lado direito e um do lado esquerdo. A decisão pela cirurgia de retirada da tireoide veio por falta de um diagnóstico preciso. “A cirurgia, realizada no dia 3 de dezembro, correu bem, assim como minha recuperação”, completa Claudia. Após 17 dias, uma biópsia revelou o carcinoma papilífero, padrão folicular. “Embora eu soubesse que câncer de tireoide é tratável e tem altos os índices de cura, ouvir o diagnóstico do médico foi um choque. Neste momento, o apoio da família foi essencial”, salienta.
De fato, receber o diagnóstico médico de um câncer é sempre um momento muito delicado, que pode ser agravado pela falta de informação. Na maioria das vezes, a família é peça fundamental para colocar os sentimentos de volta no eixo e motivar o paciente a seguir em busca da recuperação do corpo e da mente. A princípio, confiar no médico e desvendar todas as dúvidas é o melhor caminho. Quanto maior o acesso a informações, mais facilmente a doença poderá ser encarada.
A partir de então, Claudia começou a sentir os sintomas da falta de hormônio: sonolência, dores musculares, aumento do peso, fala lenta e rouca, lentidão dos reflexos, pele seca, depressão, dores nas articulações e irritabilidade. Segundo a paciente, os sintomas são os mesmos de pessoas com hipotireoidismo, porém, mais acentuados. “Há dias bons e dias que não quero sair da cama. Em alguns momentos arriscava um passeio no shopping e, em outros, que não conseguia andar dez metros. Desde a cirurgia, também fui orientada a não dirigir”, relata.
O tratamento com o iodo começou logo. “Fui encaminhada a uma clínica de Medicina Nuclear e realizei exames em que se utilizam pequenas quantidades de material radioativo para avaliar a presença de resíduos tireoidianos e/ou metástases após a retirada da glândula”, explica. Para este exame, Claudia foi submetida a uma dieta com sal sem iodo durante 15 dias. “Além do sal iodado, não eram permitidos alimentos, como leite e derivados, ovos, pães industrializados e doces. Após o exame, minha internação foi agendada para a iodoterapia”, continua. Durante o tratamento foi necessário que Cláudia se mantivesse afastada da família. “Optei por ficar em casa. Meus filhos foram para a casa da minha mãe”, desabafa.
Embora ainda esteja em tratamento, Claudia se revela esperançosa em relação ao resultado. “Foi difícil ficar longe dos meus filhos. Falava com eles diariamente, mas o abraço no momento do reencontro não tem preço. Dei início à reposição hormonal e sei que ainda tenho um longo caminho pela frente, mas estou confiante que os sintomas desapareçam rapidamente e minha vida volte ao normal”, finaliza, salientando que o principal é manter a fé diante do diagnóstico. “Não desanime e acredite sempre na vida”, afirma a arquiteta.
Para o cirurgião de cabeça e pescoço do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, Luiz Carlos Conti de Freitas (CRM: 95741), na maior parte dos casos, não é possível especificar a causa da doença. “O câncer de tireoide é mais comum em pessoas que tem casos da doença na família ou expostas à radiação, especialmente durante a infância. O importante é acompanhar caso a caso, bem como o avanço e o crescimento desses nódulos”, explica.
O médico ainda alerta que a incidência do câncer de tireoide tem aumentado, nos últimos 30 anos, especificamente no sul do país, sendo mais frequente entre as mulheres do que o câncer de colo de útero nessa região. Segundo ele, entre 1980 e 2006, houve um aumento de 2,5 vezes o número de pessoas diagnosticadas com câncer de tireoide.
Para a prevenção, Conti destaca que, em casos com histórico familiar, os testes genéticos indicam a remoção da tireoide previamente. “Alguns tipos de câncer de tireoide com importante fator familiar podem ser prevenidos através de testes genéticos que indicam a remoção da tireoide imediatamente. O diagnóstico precoce da doença será determinante na chance da cura”, alerta.
Os exames preventivos devem ser realizados anualmente. Após a identificação do nódulo na tireoide, a confirmação do diagnóstico de câncer é feita através da biópsia com agulha fina. Em alguns pacientes, é necessária a remoção da tireoide para a comprovação da doença. A partir do diagnóstico positivo, as chances elevadas de cura, de certa forma, tranquilizam os pacientes. No entanto, buscar o melhor tratamento e segui-lo a risca é importante. “O apoio da família também é fundamental. Além disso, alguns tipos de câncer de tireoide requerem avaliação dos familiares próximos preventivamente”, conta.
O tratamento
O Ministério da Saúde estabeleceu mudanças no tratamento do câncer de tireoide. Entre as mudanças, a ultrassonografia de alta resolução foi fixada como método para diagnóstico. O exame consegue identificar pequenos nódulos que não podem ser percebidos no exame clínico. Além disso, outro sistema padroniza os riscos dos nódulos encontrados.
A radiodoterapia é um dos tratamentos para tumores na tireoide, tanto benignos quanto malignos. O procedimento utiliza o radioisótopo 131-Iodo, elemento radioativo, que emite dois tipos de radiação: uma denominada gama e a outra partícula beta. Quando o iodo radioativo é incorporado pela célula do câncer de tireoide, esta sofre irradiação pelos dois tipos. No entanto, é a partícula beta a principal responsável pelo processo de ionização da célula que, no final, irá destruí-la ou desativá-la. “Pacientes que tiveram diagnóstico de câncer de tireoide podem ser beneficiados com este tratamento, destruindo o resíduo de tecido tireoideano que pode ter ficado após a cirurgia e, assim, facilitar o acompanhamento médico. Aqueles pacientes que infelizmente evoluíram com lesões à distância (metástases em linfonodos, pulmões e ossos) também podem receber o iodo radioativo para tratamento das metástases”, explica doutora Rafaela Corte Denardi (CRM: 122.654), especialista em Medicina Nuclear.
Para pacientes com hipertiroidismo, o mesmo tratamento pode ser aplicado se o uso de medicamentos não foi satisfatório ou teve que interrompê-los pela ocorrência de efeitos colaterais. É permitido realizá-lo ambulatorialmente ou dentro de ambiente hospitalar, dependendo da quantidade de iodo radioativo necessária. “Antes da ingestão da dose de iodo, todos os pacientes são questionados a respeito de doenças de base, fertilidade, adequação ao preparo solicitado e são orientados quanto aos efeitos colaterais a curto e longo prazos. Os pacientes que recebem doses menores de iodo podem ir para casa logo depois da ingestão; no caso de doses maiores, os pacientes terão alta hospitalar apenas quando estiverem emitindo baixas taxas da radiação”, pontua.
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O iodo radioativo é administrado por via oral, líquido ou em cápsulas. Para maior eficácia do tratamento, o paciente deve fazer dieta com restrição de iodo estável, forma não radioativa da substância. Ainda existe a limitação do contato com familiares e a comunidade quando o paciente retorna para casa. “A principal contraindicação ao tratamento é a gravidez. Outros casos também devem ser observados, como mulheres que estão amamentando e pacientes dependentes, que não poderiam permanecer isolados sem auxílio de outras pessoas”, esclarece Rafaela. Neste caso é necessária a permanência de acompanhantes, desde que recebam as informações sobre cuidados e riscos. “Nos casos de tratamento para hipertireoidismo, é preciso avaliar riscos de descompensação de doenças associadas, principalmente cardíacas, além de avaliar a necessidade da proteção ocular com anti-inflamatórios hormonais nos pacientes com alguma repercussão nos olhos”, destaca a especialista.
Rafaela ainda ressalta que os resultados do tratamento são positivos. Nos casos de hipertireoidismo, dependendo da dose administrada: cerca de 80% ou mais dos pacientes respondem ao tratamento apenas com uma única dose, porém, parte deles evolui para uma situação de hipotireoismo. “Embora possa ser considerada outra doença, é uma situação aceita por médicos e pacientes por se tratar de uma condição de menor repercussão e de fácil tratamento, desde que o paciente faça o acompanhamento médico adequado”, esclarece. Outro ponto merece destaque: nos casos de câncer de tireoide, o tratamento com iodo radioativo apresenta resultados variáveis, dependendo da condição da doença — lembrando que quanto mais avançada a doença, mais difícil e longo será o seu tratamento, inclusive, com a possibilidade de aplicações repetidas de altas doses do iodo radioativo.
Para a médica, o tratamento ainda é alvo de debates e motivo de ansiedade dos pacientes por se tratar de radiação, mas esse sentimento pode ser superado com o esclarecimento de dúvidas numa linguagem acessível, no momento do agendamento do tratamento. “Sem dúvida, a família pode e deve auxiliar o paciente nas questões práticas, como acompanhá-lo em consultas, auxiliar na parte burocrática com convênios, licenças do trabalho quando necessário e, principalmente, dar o respaldo emocional, porque é evidente a fragilidade que alguns pacientes apresentam”, complementa.
Como as disfunções da tireoide afetam o organismo
Sistema nervoso
Hormônios: essenciais para o desenvolvimento e para a manutenção do sistema nervoso central
Deficiência: segundo estudos divulgados pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), o hipotireoidismo frequentemente leva à depressão
Excesso: irritabilidade, nervosismo, ansiedade, agitação, insônia, aumento da velocidade e amplitude dos movimentos e tremores
Pele, unhas e cabelos
Hormônios: as proteínas são essenciais para essas estruturas, da mesma forma que no sistema muscular-esquelético
Deficiência: a pele resseca, o cabelo pode cair e as unhas ficam quebradiças.
Excesso: os hormônios queimam proteínas em excesso, causando os mesmos sintomas do hipotireoidismo.
Sistema Cardiovascular
Hormônios: interferem nos batimentos cardíacos e agem na quantidade de sangue bombeada pelo coração a cada minuto
Deficiência: diminuição da frequência cardíaca
Excesso: taquicardia e arritmias
Sistema gastrointestinal
Hormônios: colaboram com a ação das glândulas adrenais que agem como neurotransmissores, interferindo no funcionamento do intestino e rins
Deficiência: o intestino fica mais lento e pode causar prisão de ventre Excesso: o funcionamento do intestino fica acelerado, provocando muita evacuação
Sistema reprodutor
Hormônios: o T3 e o T4 interagem com os hormônios da hipófise e do aparelho reprodutor, ajudando a manter as funções reprodutivas em ordem
Deficiência: acarreta a disfunção nos níveis de prolactina, hormônio que, em excesso, diminui a fertilidade
Excesso: causa irregularidade na menstruação e infertilidade, mas provoca o aumento da libido
Sistema muscular-esquelético
Hormônios: controlam a síntese de proteínas, essencial para o crescimento e desenvolvimento dos músculos
Deficiência: fraqueza, dores musculares, câimbras e diminuição da massa óssea.
Excesso: os hormônios queimam proteínas em excesso,causando os mesmos sintomas do hipotireoidismo.
Peso corporal
Hormônios: regulam a transformação dos nutrientes em energia para manter as funções vitais e para a atividade física
Deficiência: como o metabolismo energético trabalha devagar, gasta menos energia e provoca o aumento de peso
Excesso: acelera o metabolismo, levando a um maior gasto de energia e perda de peso, apesar do aumento de apetite
Texto: Cristiane Araujo
Fotos: Carolina Alves, Julio Sian e Ibraim Leão