Diversidade e inclusão: um olhar para o século XXI

Diversidade e inclusão: um olhar para o século XXI

Este foi o tema da palestra do jornalista Jairo Marques, da Folha de S. Paulo, que aproveitou o convite da Revide para apresentar seu seu livro Malacabado

Dando sequência ao ciclo de palestras que integra as comemorações de seus 30 anos, a Revide recebeu, no auditório da Associação de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de Ribeirão Preto (AEAARP), no dia 26 de julho, o jornalista Jairo Marques. Repórter do jornal Folha de S. Paulo, onde ingressou em 1999 por meio de um programa de treinamento, Jairo é formado pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) e pós-graduado em Jornalismo Social pela PUC de São Paulo. Cadeirante desde a infância, o jornalista tem muita propriedade para abordar o tema “Diversidade e inclusão: um olhar para o século XXI”, escolhido para o encontro com o público de Ribeirão Preto. 

Discorrer sobre os desafios das pessoas com deficiência e sobre outros temas relacionados à cidadania é a especialidade de Jairo, que, além das reportagens para o caderno Cotidiano, assina o blog Assim como você. Foi a repercussão desse trabalho que o levou a lançar, recentemente, o livro Malacabado, pela editora Três Estrelas, do Grupo Folha. Mistura de provocação, brincadeira e chamada para a reflexão, o título da publicação tem chamado a atenção. O mesmo espírito que pautou o nome percorre cada página da obra e também foi transportado para a palestra do jornalista em Ribeirão Preto, que emocionou, divertiu e convidou os participantes a repensarem o olhar sobre as pessoas com deficiência e, principalmente, sobre seu papel no processo de inclusão.

Malacabado

“Algumas pessoas veem esse título com mal estar, interpretando-o como ofensivo. Costumo afirmar que ofensivo é não olhar para as pessoas com deficiência, não abrir espaço para que elas atuem em sociedade. Apesar dessa brincadeira que nomeia o livro, a discussão em torno da terminologia mais adequada para se referir ao nosso grupo de pessoas faz sentido. Nos meios formais, utilizamos ‘pessoas com deficiência’. Nos anos 2000, o termo usual era ‘portador de necessidades especiais’. Ao adotar o termo atual, passamos a valorizar a pessoa e não a sua ‘necessidade’ diferente do outro. Empregar termos como cadeirantes, cegos e surdos é absolutamente usual e esclarece a limitação de cada um.”

Discussão necessária

“Minha proposta, na palestra e no livro, é discutir um novo olhar sobre as pessoas com deficiência. Ainda há muitos estigmas envolvendo a imagem de quem carrega uma cadeira de rodas, de quem usa uma bengala ou puxa um cachorro, por exemplo. Ao longo dos anos, uma série de meias verdades foram criadas em torno dessas pessoas e um poderoso apartamento social foi criado. Para que possamos romper essas barreiras, há um extenso caminho e é por isso que estou aqui, por isso escrevo livros, por isso há um batalhão de pessoas em missões semelhantes.”

Infância como base

“A mudança de imagem da pessoa com deficiência precisa começar na infância. A criança com deficiência no Brasil ainda padece de uma incompreensão absurda. Este ano, escolas particulares moveram uma ação para que as famílias das pessoas com deficiência pagassem mais para que seus filhos estudassem nas escolas. É preciso entender que a criança com deficiência não é um ser extraterrestre. Acesso à educação é um direito de todos e a diferenciação de preço não se justifica. Quando uma criança com deficiência chega à escola, entendo a complexidade com que esses professores a veem, mas não consigo entender a resposta negativa, como se eles não pudessem dar conta da missão. Ora, se a escola não pode assumir essa atividade, o que há de se fazer? Felizmente, a Justiça considerou o pedido uma aberração e a ação não prosperou.”

Ambiente plural

“Mais do que aprender plenamente ciência, matemática ou biologia, o estar junto é fundamental para o desenvolvimento de uma criança. O mais importante é que ela tenha a oportunidade de conviver com as outras crianças. Garantir a participação dessa realidade é contribuir para a construção de seu ‘ser social’, independentemente do grau de deficiência em questão. Há estudos científicos que comprovam que ambientes plurais propiciam a evolução, a abertura de novos espaços. Quando todos pensam da mesma forma, a criatividade fica prejudicada. Outro dado importante é que o mundo está começando a reconhecer o potencial de consumo do universo de pessoas com deficiência. Grandes marcas brasileiras, inclusive, já estão de olho no conceito da diversidade, seja ela como orientação sexual, ideológica, física ou de qualquer outra natureza. Essas pessoas estão chegando com força na sociedade, por meio de muita batalha, e as marcas estão querendo dialogar com elas.”

Construção de uma nova realidade

“Hoje, é impossível chegar à escola do bairro e encontrar um cuidador para o seu filho ou um professor com um material didático pronto e totalmente adequado. Essa escola ainda não existe e precisa ser construída. Esse desafio é de todos nós: da escola, das família e da sociedade. Todos vocês esbarram em uma pessoa com deficiência em um momento ou outro, seja por meio de um colega, um parente ou um amigo. O apoio à família é fundamental. Não se pode negar que ‘peso’ da deficiência é significativo para a família. Sem um suporte da comunidade, essa missão fica ainda mais complicada. É preciso olhar com um pouco mais de atenção para isso.”

Experiência própria

“Fui criança há 40 anos. Naquela época, era mais comum as famílias esconderem as crianças com deficiência em casa. Era feio mostrar essa realidade. Quando essa primeira barreira era transposta, as pessoas mal se aproximavam, pois não sabiam como lidar conosco. Isso é aterrador para uma família. Posso comemorar o fato de ter sido preparado para viver com certa independência. Fui para a escola convencional, mas, até os 11 ou 12 anos, era obrigado a segurar a vontade de ir ao banheiro simplesmente porque a porta era estreita demais. Ainda assim, persisti.

Suporte fundamental

“A importância de acolher a criança com deficiência é enorme, determinante: ou empurramos essa pessoa na direção do desenvolvimento ou comprometemos sua vida. Muitas vezes, ela só precisa de um estímulo. Como sociedade, não estamos fazendo aquilo que deveríamos fazer, que é tentar facilitar o acesso, compreender que essas pessoas precisam conviver, perguntar à escola dos nossos filhos onde estão os colegas deficientes. Deixamos tudo passar por nós sem questionar, sem parar para pensar.”

Exemplo

“A Sofia, de 11 anos, tem uma paralisia cerebral grave. As pessoas com essa deficiência sofrem demais no Brasil, porque costumam ser tratadas como completas imbecis. Não se consegue ver nas crianças com paralisia cerebral, por exemplo, um potencial, que sempre existe — raras são as pessoas com o cognitivo integralmente comprometido. Sempre é possível encontrar uma habilidade a ser desenvolvida. Há que se considerar, ainda, a neuroplasticidade, a imensa capacidade do cérebro de se adaptar.”

Muitos entraves

“No Brasil, ainda não conseguimos garantir o básico, como a rampa no final da rua. Isso afeta a vida das pessoas de maneira absurda — ou você vai pelo meio da rua ou não vai. Acho que talvez em 20 ou 30 anos seja possível comemorar algum avanço. Hoje em dia, esses recursos mínimos não estão garantidos nem mesmo em cidades médias e ricas, como é o caso de Ribeirão Preto. Imagine o que acontece em uma cidade grande. Raros são os restaurantes com cardápios em braile, não são comuns os programas de televisão com legendas. Esses são apenas alguns exemplos que ajudam a entender que a caminhada ainda é longa.”

Boas iniciativas

“Por outro lado, há muita coisa bacana sendo feita no Brasil. Conheci um cadeirante que é instrutor de voo e leva outros cadeirantes para voar com ele. Eu, inclusive, vivi essa experiência e quase morri de medo! Essas iniciativas, no entanto, ficam muito isoladas porque nosso país é continental, as distâncias são significativas. Ainda assim, é fundamental divulgar as boas iniciativas para que possamos promover uma mudança no olhar. O potencial das pessoas, se combinado a instrumentos de igualdade, vai florescer.” 

Exclusão logo ao lado
 
“O preconceito, o desrespeito à lei, a desumanidade e a intolerância são fatores bastante presentes. Costumo exagerar dizendo que sofro preconceito praticamente todos os dias. Considero que, quando não consigo entrar em um lugar depois da terceira tentativa, estou sofrendo preconceito. Afinal, aquele estabelecimento não faz questão da minha presença. Às vezes, a exclusão passa ainda mais perto de nós e não a vemos. Por incrível que pareça, muitas pessoas não conseguem nem mesmo respeitar as vagas de estacionamento reservadas às pessoas com deficiência. Provavelmente fazem isso porque não têm noção do impacto que provocam na vida do outro. Se vou a um lugar e não posso parar na vaga reservada, vou embora, não há outra solução. Parar em outra vaga não é uma alternativa porque não há espaço para abrir a porta e posicionar a cadeira. Além disso, a vaga reservada está sempre  mais próxima da entrada, por uma questão de segurança importante. Um cadeirante circulando por um estacionamento corre risco porque fica no nível abaixo dos demais carros e pode não ser visto. Esse é apenas um dos direitos não respeitados.” 

Uma conta compartilhada

“Quando a exclusão acontece, não há acesso à educação e não se desenvolve a capacidade de convivência. Por consequência, as pessoas com deficiência não vão ter condições próprias de adquirir bens de consumo ou de acessibilidade, o que sobrecarregará a sociedade. É muito mais produtivo as pessoas terem condições de acessar a educação, ingressar no mercado de trabalho e, por esforço pessoal, conquistarem seus sonhos. Isso é ter autonomia. Parece muito simples, mas não é bem assim no Brasil. Por aqui, o acesso ao trabalho ainda é muito incipiente. É preciso entender que a maioria das pessoas com deficiência pode desempenhar funções laborais. Isso depende da boa vontade da empresa para encontrar a atividade ideal para determinado funcionário, e também da pessoa com deficiência, de dedicar-se com afinco. Abrir uma vaga dessa natureza apenas porque é bonito ou legal não é fazer parte do processo de inclusão.”

Aceitação é fundamental

“Respeito e compreensão são fundamentais. Todas as pessoas com deficiência, de qualquer natureza, têm potenciais fantásticos. Apesar disso, possuem uma diferença que tende a ser permanente. Portanto, mais do que querer mudar o deficiente, é preciso aceitá-lo, seja sua deficiência física ou intelectual. Ser diferente é uma barra, lidar com essa realidade é, muitas vezes, complicado e doloroso. A partir do momento que a deficiência está instalada, o mais importante é criar uma realidade bacana para essa pessoa. Estamos vivos e queremos desfrutar da vida como qualquer outro ser. Abraçar essa diferença é um caminho mais produtivo: em vez de julgar, acolher é uma boa opção. Além disso, nunca ignore a força do acaso: não se sabe o que o futuro reserva e, de uma hora para outra, poderemos passar a conviver com alguma diferença.”

O poder do acaso

“Falo de inclusão há muitos anos e conheço de perto o poder do acaso. Muita gente me procura depois de sofrer um acidente ou coisa parecida. Ao longo dos anos, percebi o poder transformador do tal acaso e, ao mesmo tempo, a pouquíssima importância que damos a ele. Pensar nisso nos ajuda a entender quem vive na diversidade. Precisamos desenvolver a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro por alguns instantes. Viver nessa posição permanentemente não é fácil e é só para alguns, mas exercitar é cabível a todos e salutar para a sociedade.”

Curiosidades do público

Recentemente, ainda por causas não totalmente esclarecidas, houve um nascimento acima da expectativa de crianças com microcefalia. Como lidar com elas no futuro?
Jairo:
As crianças com microcefalia deram um chacoalhão no Brasil. Lamento que o tratamento dado a elas tenha sido equivocado desde o princípio, como se fossem crianças absolutamente desprezíveis, inúteis. Ora, elas vão exigir maior atenção para se desenvolver, mas a microcefalia deixa diversas possibilidades, embora seja um desafio. O debate precisa caminhar no sentido de propor opções para recuperar essas crianças. Isso vai ao encontro do que já falei no começo, do incentivo às famílias. Essas famílias, geralmente, também enfrentam dificuldades financeiras porque a demanda é muito grande para incluir a criança, e elas dependem delas mesmas. 

Segundo sua experiência, o que seria mais importante: a atitude pessoal diante da deficiência ou a aceitação social?
Jairo:
Por causa da realidade que enfrentamos, dependemos muito do esforço pessoal. Esse esforço, às vezes, causa um desgaste que beira o limite. Embora essa dedicação interna seja realmente importante, ela não basta. Em muitos momentos, eu mesmo me questiono se não é hora de parar, de me aposentar e ficar quieto dentro de casa. Combater isso e manter o impulso interno em alta talvez seja a parte mais importante. Porém, o entorno funcionando bem e acolhendo a pessoa com deficiência proporcionaria uma vida mais tranquila, sem tantas barreiras.

Na construção da sua carreira jornalística, quais foram as principais barreiras superadas?
Jairo:
O jornalismo é uma profissão bastante desafiadora para quem tem uma deficiência. Enfrentei toda espécie de barreira. Em geral, as pessoas não acreditam que o cadeirante é o repórter. Há uma imagem pré-concebida de que o repórter de um jornal como a Folha vive de terno, sapatos caros e cabelo bem cuidado. Quando o entrevistado se depara com um cadeirante nesse papel, a surpresa é grande. Além disso, é preciso tornar bastante clara a relação estabelecida com a empresa. Sempre tive o cuidado de encarar apenas as coberturas que sabia que teria condições. Melhor ainda quando o reconhecimento do limite parte do próprio profissional. Na tentativa de projetar o que o outro não é capaz de fazer, podemos nos enganar completamente. No geral, a barreira do reconhecimento ainda é a mais difícil de transpor.

Este é um ano importante para o esporte. A realização dos Jogos Paraolímpicos no Rio pode trazer algum benefício para as pessoas com deficiência no Brasil?
Jairo:
Não. Com o perdão do discurso pessimista, não conseguimos implementar uma grande discussão em torno das Paraolimpíadas. Os participantes dos Jogos são esportistas competentes, que treinam seríssimo, recebem investimento, mas, infelizmente, são vistos por muitos como aleijados. Difícil identificar o reconhecimento desses atletas. Parte disso vem do momento político e econômico que o país vive, que dá o protagonismo do noticiário a bandidos e corruptos. Diante de tantos escândalos, as outras questões ficaram para escanteio. Um pequeno avanço poderá acontecer agora, já que haverá quatro mil atletas com deficiência no Rio de Janeiro, mas esse impacto, provavelmente, não vai prosperar. 

Seguindo nesse tema, vale destacar que os atletas brasileiros são destaque nos Jogos Paraolímpicos, certo?
Jairo:
Para isso, existe uma explicação bastante contundente. Os atletas com deficiência começam no esporte na infância, como parte de seu processo de integração e reabilitação. Graças a esse treinamento precoce, surgem grandes nomes. Como o Brasil não possui centros de reabilitação bem estruturados, o esporte se torna uma saída interessante. Assim, geramos uma infinidade de bons atletas, diferentemente de outros países, que possuem uma rede de reabilitação bem organizada. 

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