Divina quer ler a Bíblia
Uma empregada doméstica, analfabeta funcional e eleitora, desafia as próprias limitações com o sonho de decifrar o alfabeto para finalmente poder ler
Divina Arcari, 58 anos, paulista nascida na Fazenda Espírito Santo, município de Guaíra, viveu na roça muitos anos. Filha de um negro lavrador mineiro com uma italiana de olhos verdes, recebeu nome de cantora de ópera, mas sempre lidou foi com a vassoura.
Não é de forno e fogão, mas capricha no trivial simples: arroz com feijão e carne de panela. Também guarda, de cabeça, receitas que lhe ensinaram, nas casas em que trabalhou em Ribeirão Preto: panqueca, arroz com lentilha, maionese, pudins, bolos, torta de frango, quibe, coalhada, pastel e outros pratos. Sem alfabetização, guardou tudo “de cabeça”. Conta que, na infância, apanhou muito algodão, mas escola que é bom, nunca frequentou.
Só o nome
Apesar disso, sabe assinar o nome, vota religiosamente em todas as eleições — sejam municipais, estaduais ou federais. E, a dois anos da aposentadoria, vai uma vez por semana a um curso noturno de alfabetização para adultos, na igreja evangélica onde também faz pedidos, orações e paga seu dízimo.
Nada de vender apartamentos ou carros para pôr no altar, mesmo porque só agora ela conseguiu comprar o seu cantinho, onde, depois de aposentada, poderá ouvir músicas no rádio e realizar aquilo com que sempre sonhou.
Vendo figuras
Divina tem uma vontade muito antiga de ler. Sente que essa é uma porta fechada, que ela precisa abrir. Ex-patroas tentaram lhe ensinar o alfabeto, a formação de palavras. Ela não passou do “a”. Mas, curiosa, volta e meia está com revistas ou livros na mão.
Folheia tudo com voracidade. Observa de propagandas de supermercado a ofertas de magazines. Inteira-se dos assuntos pelas figuras. O que não entende, associa para fazer conclusões — quase sempre, corretas.
Porém, já há algum tempo, as figuras não lhe bastam. Divina quer mais. Precisa entender as “letras de verdade”. Planeja devorar romances, que imagina, são como “novelas de televisão, só que no papel”:
— Quero me divertir lendo, não só vendo tevê, diz ela.
Livro no alvo
A professora da Igreja a incentiva. Divina avança devagar, mas, depois de muito esforço, já decifra o a-e-i-o-u. Foi um progresso, mas tem dificuldade em ir adiante. Sente que a limitação a atrapalha e lhe tira o prazer intuitivo que ela pressente em revistas e livros. Mesmo que seja só para ver ilustrações.
Agora, assídua na Igreja, Divina identifica outro objetivo nesse aprendizado: quer ler tudo, sim, mas, principalmente, a Bíblia.
— Que parte da Bíblia, Divina?
Ela:
— Ah, aquelas histórias todas de Moisés, Davi, Jesus Cristo...
Divina não discrimina testamento. Velho ou Novo, acha lindas as citações, as parábolas, ah, e o Sermão da Montanha, que coisa bonita!
O desafio
Aquele emaranhado de letras, no livrão de papel fininho, a desafia. Ali não há figuras, é apenas o verbo. Se ela ainda vai conseguir decodificar tudo isso, é só um detalhe. O fato é que ela não sabe ler, que ela está tentando aprender e precisa vencer essa etapa. Divina tem a fina percepção de que, se superar essa barreira, terá pulado o muro que a separa de um outro mundo. O mundo das letras.
— E a Internet, Diva?
Isso é incrível. Parece claro que ela ainda está imune aos encantos do computador e da WEB. Responde com desdém, sem nenhuma afetação, os cadernos de exercícios ao lado, o foco todo nessa sua missão de dominar o alfabeto e os números:
— Não, desse negócio de “net” não sei. Nem quero saber.
Fotos: J. Cirillo