DNA Musical

DNA Musical

Desde muito cedo influenciado pela família, Véio, como é conhecido Evandro Navarro, fez da música seu universo particular, com canções inspiradas em Minas Gerais

Em uma curta prosa com esse mineiro é possível sentir a paixão que ele nutre pela música. Evandro Navarro cresceu em meio a rodas musicais e, aos 9 anos de idade, começou a estudar violão. Daí em diante, ninguém mais segurou esse artista que, ao longo de 52 anos, dividiu sua vida entre a pacata cidade de nascença, Muzambinho, ao sul de Minas Gerais, e a agitada Ribeirão Preto. Com 32 anos de carreira, o músico e compositor, carinhosamente apelidado de Véio, lança o sexto CD. Na bagagem, traz mais de 500 canções autorais e cerca de 90 gravações em vozes de outros intérpretes. 

O álbum atual evidencia as “mineiridades musicais” de um artista de MPB que esclarece: a música é uma herança familiar. Um exemplo vem de mais ou menos 100 anos atrás, quando sua avó paterna abandonou a família para viver com músicos no Rio de Janeiro — foi amiga, inclusive, de Jacó do Bandolin, músico compositor e bandolinista brasileiro de choro. O “vô” Tonho, como Evandro gosta de chamar, tocava cavaco; já o avô materno era poeta, sem contar os irmãos e primos, que carregam no DNA os genes musicais.

Véio lançou seu CD no dia 17 de agosto, no espaço Pub 26, em Bonfim Paulista. Com um sorriso no rosto e quase não contendo a emoção, Evandro revela o prazer de gravar com seu grande ídolo, Lô Borges, um dos fundadores do Clube da Esquina. O resultado foi a gravação da “Canção que vem na chuva”, com direito a produção de clipe nas ruas de Belo Horizonte, onde nasceu o movimento que marcou a MPB nos anos de 1970 e tinha entre os líderes o cantor Milton Nascimento. O CD ainda conta com participações do músico Lucas Vargas, do intérprete e primeiro professor de violão Don Antena, Jack e Marina Dagher. Em uma família de músicos, não podia faltar, também, a participação do irmão, Tuíca Lima, compositor da única canção que Evandro não assina. Tuca Oliveira e Victor Cupertino são coautores em outra faixa. 

As paisagens e os costumes característicos de Minas Gerais estão representados no repertório de Paralelo 30. Foto: Wilson Peres Como surgiu a paixão pela música?

Evandro: Minha família foi uma influência muito forte para mim. Papai cantava sambas do Rio de Janeiro, nas décadas de 1940 e 1950. Mamãe, que tem me acompanhado para cantar nos bares comigo, seguia um estilo meio Dalva de Oliveira, afinadíssima. Ela dá canja e já participou de show meu. Então, o gosto pela música veio, principalmente, do ambiente familiar. 

Quando você subiu ao palco pela 1º vez?

Foi uma experiência muito bonita e importante. Eu fui aluno do Colégio Objetivo de 1982 a 1984 e  minha primeira vez no palco foi durante o Show dos Alunos do Colégio Objetivo, um evento chamado Shaco. Naquela ocasião, ainda nem tocava bem violão para me garantir, mas subi ao palco cantando uma música gravada pelo Lô Borges, “A força do vento”, de um compositor chamado Rogério de Freitas, de Juiz de Fora. Essa música é linda. O palco era o do Teatro Bassano Vaccarini, na Universidade de Ribeirão Preto (UNAERP). Foi meu primeiro palco profissional, com plateia. Foi maravilhoso.

Entre mais de 500 canções autorais, tem alguma especial?

As pessoas sempre me perguntam, mas essa escolha é dificílima. É como escolher apenas um entre muitos filhos. No entanto, claro que tenho mais afinidade com algumas, afinal, reconhecemos as músicas que tem melodia mais refinada. No entanto, eu não saberia escolher apenas uma, talvez, entre 500, eu ficaria com 20.

De onde vem tanta inspiração para compor canções?

É difícil falar de inspiração. De um bom tempo para cá, eu me determinei a fazer o exercício da composição. Não espero estar inspirado ou não. Criei uma disciplina para escrever e para tocar. Quando você se permite estar nesse estado criativo, em uma situação de sentir e captar, melhor é para desenvolver letras e melodias. Eu penso cantando; meu pensamento é cantado. Vejo algo, penso e canto. Às vezes, a frase que eu cantei é legal e dali sai uma música.

Por que, para você, é tão importante expressar “mineiridades musicais”?

Eu tenho um carinho profundo por tudo que eu vivo — por Ribeirão Preto e por outros lugares por onde já passei. Já morei em Brasília e também no Rio de Janeiro. Todos esses lugares me marcaram e foram importantes. Aqui tem muito do mineiro também — não tem como escapar de Minas. Eu escuto música mineira desde pequeno graças ao meu irmão e como vivi muito lá, acabei absorvendo tudo isso com muita força. Além disso, essa é a história da minha família, que gosto de preservar e de regar. 

Quais são as características do CD Paralelo 30?

Fiz questão que esse CD fosse 100% de Minas Gerais. Levei algumas músicas para o arranjador do disco, Pedro Sossego, para que tivessem a cara de Minas. Queria que ele também sentisse a vertente para arranjo, com sonoridade das músicas que nos levam para Minas. Queria, também, assumir a influência de Lô Borges, Beto Guedes e Milton Nascimento. Quem escutar meu disco vai saber que ele foi feito por um mineiro, homenageando o Clube da Esquina.

Por que o nome Paralelo 30?

Queria escolher um nome bem mineiro, como “Canções de Minas” ou algo do gênero, mas como solicitamos recursos do Programa de Ação Cultural (Proac) e conseguimos a verba do Governo de São Paulo, decidimos alterar o título do CD. O Pedro me alertou que vincular o nome do trabalho ao Estado de Minas Gerais poderia limitar nossas possibilidades. Aí amenizamos um pouco a mineiridade. A escolha foi baseada no meu pensamento: um paralelo da minha carreira, de tudo aquilo que já foi feito em 30 anos. O título também é uma forma de homenagear meu produtor, Lelo Guazelli.

Qual é a importância do arranjador e baixista Pedro Sossego em seu novo álbum?

O Pedrão já esteve comigo em outras situações, em outros trabalhos avulsos. Essa última oportunidade foi a derradeira para que eu soubesse, definitivamente, o grande profissional que é o Pedrão, uma pessoa com um talento de encher os olhos, de uma humildade e dedicação sem limite. Realmente, é emocionante trabalhar com ele, ver como é dedicado, amoroso e talentoso. Um cara paciencioso, que escuta, que acrescenta e que tem coragem de dar sua opinião. Eu diria que esse disco, se não é mais do Pedrão do que meu, é igualmente nosso. 

Diria que, hoje, vive a melhor fase de sua vida?

A melhor eu não sei, mas com certeza me sinto mais maduro, pela idade. Quando ficamos mais velhos, vamos nos tornando mais sensíveis e mais chatos também, mais criteriosos. 

Como foi você gravar com Lô Borges?

Fui me preparando muito antes, pois não podia balançar e virar tiete. Teria que ser profissional. Fiquei emocionado, mas não deixei de fazer o trabalho. Fiz uma canção em homenagem a ele e pensei, também, em Beto Guedes e nos compositores que me influenciaram. O nome é “Canção que vem na chuva”. Ela me remete a todas as pessoas que “choveram” música em minha vida. O que mais me emocionou, também, foi descobrir que Lô Borges ficou profundamente apaixonado pela música.

Você já sofreu algum preconceito na música?

Já, claro. O preconceito vem de pessoas que acham que fazer música não é profissão. Então, às vezes, escutamos frases  como “você só toca ou também trabalha?”

Em ano de eleições, o que espera para a área cultural no Brasil?

Há muitas demandas e ainda não vejo horizontes. Quero ser otimista, mas não posso perder o senso crítico. Um governo mal-intencionado não deseja governar um povo consciente. Um governo incompetente e mal-intencionado tem medo de um povo consciente e forte. Então, eles pensam: “vamos destruir esse povo, moralmente e intelectualmente”.

Acredita que ainda é possível reverter esse quadro?

Eu sonho, mas não sei se acredito. Em longo prazo, se alguém começar a trabalhar agora, veremos os efeitos mais adiante. Nada para agora, no entanto, se um trabalho sério começar a ser feito, nossos netos poderão usufruir dos resultados.

Quais são os desafios de fazer música no Brasil atualmente?

Um deles é trabalharmos em um lugar onde os espaços são mínimos, e isso se reflete no todo: vai cerceando o público e fechando os espaços físicos. A nossa arte não tem mais espaço e quem poderia dar esse espaço, acha que não temos público. Então, verificamos um efeito dominó, que vai derrubando todo mundo em sequência. É muito difícil sobreviver com dignidade. Nosso combate é esse: conseguir reconquistar um espaço.

“Eu diria que esse disco, se não é mais do Pedrão do que meu, é igualmente nosso”, ressalta o músicoNa sua trajetória, pensou em desistir em algum momento?

Nunca pensei, mas, às vezes, vem um abatimento.

Além de MPB, outros estilos musicais o agradam?

Muitos, sou eclético. Existe música boa em qualquer área, com boas melodias e arranjos. Adoro instrumental, música clássica, rap e até funks com boas letras. Entre as sertanejas de verdade, gosto de várias.

Aonde ainda quer chegar com a música?

Estou muito tranquilo. Continuo sonhando e alegre, mas muito mais sereno, sem ambições malucas. Assim, o que vier é lucro. Continuo fazendo o que gosto e sigo feliz por tocar para quem está perto de mim. Devemos ter muito cuidado para saber avaliar o que é sucesso. Tenho sucesso na minha vida, mas fama é bobagem, uma ilusão que pode empurrar para o buraco. Já tenho muitas conquistas. 

Evandro Navarro | Texto: Bruna Romão | Fotos: Ibraim Leão

Compartilhar: