Do gramado às urnas

Do gramado às urnas

A Copa do Mundo e as eleições dão um gosto de festividade e de oportunidades ao calendário ribeirãopretano

No ano de 2014, o país será marcado por dois grandes eventos: a Copa do Mundo, que será realizada pela segunda vez no Brasil, e as eleições estaduais e nacionais. Em relação ao primeiro evento, o fato de ter sido escolhida para sede da delegação francesa tende a aproximar o ribeirãopretano e a população regional do acontecimento esportivo mais aguardado do momento. Quanto ao segundo evento, que acontecerá em outubro, há sempre a perspectiva de aumentar a representatividade do município nos altos escalões do Legislativo e atrair mais recursos para a cidade, que podem ser revertidos em benfeitorias para a população.

A localização estratégica de Ribeirão Preto foi determinante para a escolha da cidade como subsede da Copa, assim como a infraestrutura oferecida pelo Município. Ribeirão Preto reúne condições indispensáveis para receber os jogadores estrangeiros, como o Centro de Treinamento Manoel Leão e o estádio Santa Cruz, do Botafogo, além das acomodações do Hotel JP, onde a seleção ficará hospedada. O fato inédito para Ribeirão Preto torna o novo ano peculiar e suscita questionamentos acerca das perspectivas do município: de que maneira esses eventos tão antagônicos, em curto espaço de tempo, podem beneficiar o município?

Baseado em um levantamento do Ministério do Turismo e no perfil da região, há uma estimativa de que a Copa do Mundo deve atrair 25 mil turistas e movimentar até R$ 200 milhões na economia local, o que representa 1% do PIB da cidade. Até o momento, foi investido R$ 1 milhão, vindo do Ministério do Turismo, na colocação de placas de sinalização turística, 55 painéis com pontos turísticos e 11 totens eletrônicos.

Apesar dos números serem inferiores aos da Agrishow, que traz para o Município um público de 150 mil pessoas e chega a movimentar R$ 2,6 bilhões, os reflexos de um evento desse porte são inúmeros, segundo os representantes de diversos setores. José Carlos Carvalho, presidente da Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (ACIRP), ressalta que a vinda da delegação francesa, da comissão técnica, de jornalistas e de torcedores aquecerá setores específicos, como hotelaria, gastronomia e comércio. “O aspecto mais positivo, entretanto, é a internacionalização no nome de Ribeirão Preto. A repercussão poderá ser positiva ou negativa, dependendo da maneira como trabalharemos a chegada e a permanência dos franceses. Se houver falhas no processo, será negativa”, alerta José Carlos.

Estrutura, segundo o presidente da Associação, existe. A maior preocupação é o aeroporto Leite Lopes, que não apresenta condições ideais para passageiros, mas é possível minimizar esse impacto. “Para atender bem aos turistas não teremos que fazer nenhum investimento, a não ser em recursos humanos. Qualquer necessidade que possa surgir neste primeiro semestre será avaliada pelo comitê que está sendo constituído”, ressalta José Carlos. O presidente da ACI acrescenta que uma das barreiras a serem enfrentadas é a cultural, já que os franceses não gostam de se comunicar no idioma inglês. Por isso, turmas de francês já estão sendo formadas pela Fundação de Formação Tecnológica Ribeirão Preto (Fortec), gratuitamente, em cursos oferecidos pela Prefeitura.


Avaliando os dois grandes eventos, o presidente da ACI acredita que 2014 será positivo para o município. Em relação às eleições, os segmentos diretamente associados, como o de mídia e de marketing serão o mais beneficiados. “O impacto negativo é que, a cada dois anos, o país para devido à eleição. Como boa parte dos políticos trabalha voltado à eleição seguinte, isso não é bom do ponto de vista do desenvolvimento”, comenta José Carlos, acrescentando que o ônus pode ser grande para 2015, caso o processo não seja acompanhado com rigor pelo Tribunal Eleitoral.

O economista Edgard Monforte Merlo, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP/USP), afirma que, graças à vinda da delegação francesa, o Município poderá contar com uma renda adicional significativa que não estava prevista para o período do evento. O professor acrescenta, ainda, que o impacto da visibilidade alcançada por Ribeirão Preto no exterior pode ser positivo ou negativo, maior ou menor — depende de a cidade ser transformada para o turista em um cartão postal positivo ou negativo. “Ribeirão Preto não tem problemas de logística, mas a segurança precisa ser trabalhada. Este é o tipo de evento em que não se pode cometer erros”, observa. É o momento, segundo o economista, de projetar o município para o mundo, criar eventos, divulgar produtos da região. Se os trabalhos forem bem conduzidos, é possível alcançar um aumento de 1,5% no Produto Interno Bruto regional.

Quanto ao cenário político, apesar das campanhas com ênfase na transparência e na ética que já estão sendo veiculadas, o professor da USP não prevê grandes mudanças. “Não enquanto não mudar o sistema de financiamento das campanhas, os gastos exorbitantes que levam à corrupção”, reforça. Para tanto, defende a fiscalização da aplicação dos recursos através de sistema integrado de administração financeira. “Se não for informatizado, a chance de desvios é grande”, ressalta Edgard.

Não é apenas a questão financeira que deve sofrer alterações em Ribeirão Preto. O secretário de Esportes, Marcelo Palinkas, acredita que a estada da delegação francesa na cidade causará mudanças para a pasta que comanda. “Hoje, há uma demanda muito grande de atividades para a juventude. Cada vez mais, as pessoas querem ingressar no esporte, que não é mais visto como gasto, mas como investimento”, salienta. O secretário se refere aos vários benefícios que a prática de modalidades esportivas proporciona: o aumento no rendimento escolar, a melhoria da qualidade de vida e ganhos incontestáveis na saúde.

Na sequência da Copa acontecerão as Olimpíadas, em 2016, o que, segundo Palinkas, servirá de incentivo a crianças, jovens e adultos e acarretará em muitos ganhos para o Brasil, principalmente devido aos novos equipamentos que serão construídos e reformados. “No âmbito local, movimenta a cidade, a economia, os esportes e prova que Ribeirão Preto tem potencial para muito mais”, observa.

A realidade também deve mudar para quem já é atleta, uma vez que a falta de patrocínio é um problema
constante do segmento. “O cenário é muito claro: sem parceria com a iniciativa privada, dificilmente o esporte funcionará”, acrescenta Palinkas, destacando que o evento pode despertar os empresários para a importância de investir na área, sobretudo, com as facilidades proporcionadas por leis de incentivo: ao invés de direcionar todo o imposto para o fisco, os empresários podem aportar parte dele para viabilizar projetos no próprio município.

A grande vantagem é a facilidade de acompanhar e fiscalizar projetos desenvolvidos em Ribeirão Preto. “Se o empresário pretende pagar R$ 10,00 para o governo de imposto podendo investir R$ 3,00 em sua própria cidade, por que não fazê-lo?”, questiona o secretário de Esportes. Outra vantagem destacada por Palinkas é o marketing, pois o nome da empresa passa a ser vinculado aos eventos esportivos, evidenciando ao seu comprometimento social. Ribeirão Preto, que já é bastante conhecida dentro do país, tem, com a Copa do Mundo, a possibilidade de projetar seu nome mundialmente. “É a oportunidade de mostrar ao mundo nosso progresso. Todos os setores têm que se unir e trabalhar visando ao desenvolvimento da cidade”, frisa Palinkas.

O secretário da Cultura, Alessandro da Silva Firmino, conhecido como Maraca, acredita que a questão cultural foi fundamental para a França ter escolhido Ribeirão Preto. “Quando os franceses fecharam que seríamos a sede de sua delegação, foram muito influenciados pela Feira do Livro, que estava acontecendo naquele momento”, explica. Decidiram por Ribeirão Preto, enquanto observavam o evento, da sacada do Theatro Pedro II, conforme Maraca.

Tendo em vista a importância dada a esse segmento, o secretário da Cultura ressalta que a Copa será o
momento ideal para conhecer a riqueza da cultura francesa e para mostrar o que o Brasil tem de melhor. “A cidade conta, hoje, com 10 pontos de cultura e é o momento de levar o que está sendo produzido aos estrangeiros”, ressalta o secretário, acrescentando que o mesmo deve ser feito em relação aos eventos que acontecem na cidade.

Outro ponto fundamental, conforme Maraca, é trabalhar a cultura francesa, de janeiro a maio, para que os estrangeiros se sintam bem recepcionados e atendidos. “Isso deve ser feito em todos os âmbitos: artes plásticas, música, dança — precisamos estar preparados para que consumam nossa cultura, fazer uma programação voltada para os turistas do mundo inteiro”, pontua.

O secretário declara que, mais importante do que o momento em que o francês estará aqui, consumindo a
cultura ribeirãopretana, é a informação que levará sobre o Município para seu país de origem: a ideia de que a cidade produz e divulga a cultura. Daí a importância do investimento no idioma francês, cujo treinamento tem sido oferecido a pessoas dos setores de comércio, serviços, poder público e a população.

Segundo Maraca, a Copa do Mundo coloca a cidade no cenário, mesmo antes do período dos jogos. A partir de janeiro, a imprensa francesa começa a buscar informações sobre o Brasil e é preciso estar preparado para atender às expectativas internacionais.

O momento eleitoral também é visto com otimismo por Maraca, que define 2014 como um ano de grande impacto, já que terá uma disputa muito acirrada ao governo do Estado de São Paulo, uma busca intensa por votos. Por sua vez, a população terá uma boa oportunidade de mostrar aos candidatos o que Ribeirão Preto precisa. “Nos últimos anos, a cidade tem recebido muito pouco em investimentos do governo do Estado. Precisamos estreitar laços com os candidatos para que eles possam reconhecer a grandeza de Ribeirão Preto”, salienta o secretário.

Maraca também enfatiza que a representatividade do município na Assembleia Legislativa e na Câmara Federal é muito pequena. “Na Câmara Federal é quase nula, temos apenas um deputado. O número de emendas que Ribeirão Preto recebe é muito aquém do que poderia ser. Se tivesse mais representantes, a cidade ganharia muito”, explica. Por isso, chama a atenção da população para a necessidade de eleger representantes da cidade para o Legislativo. Na Assembleia, Ribeirão Preto conta com três deputados estaduais, que não pode correr o risco de perder: é preciso brigar para garantir sua representatividade, frisa o secretário, é preciso lutar para que a cidade possa se desenvolver e crescer. Nesse sentido, conforme Maraca, o ano de 2014 é das oportunidades, principalmente de escolha para que sejam eleitos candidatos comprometidos e o Município possa se beneficiar das decisões políticas.

Na área do Turismo, o secretário municipal Tanielson Campos (na foto, o primeiro da esquerda, com a delegação) ressalta que as mudanças no cenário de sua pasta dependerão da maneira que os eleitos vão encarar o segmento: serão positivas se os novos representantes conceberem o turismo como um fator de desenvolvimento. “Se o político eleito apoia turismo e entende que através dele pode trazer recursos, gerar empregos, fomentar o desenvolvimento e melhorar o país, vai investir na área”, afirma. Mas não acredita que a campanha eleitoral que culminará em outubro deva interferir no segmento este ano.

Já a Copa do Mundo, conforme o secretário do Turismo, será um divisor de águas, afinal, o Brasil tem mais de 5.600 municípios e só 32 cidades terão a oportunidade de receber uma seleção, de estar inserida e viver o maior evento esportivo do mundo. “A cidade poderá gerar e oferecer eventos, lotar hotéis, efervescer o comércio, injetando o Euro na nossa economia”, avalia Tanielson. Outras perspectivas favoráveis são as transações paralelas à Copa, como eventos de negócios.

Na esteira da delegação francesa, podem vir para o país, sugere Tanielson, representantes de empresas fortes que, como cortesia, trarão clientes, realizarão jantares e rodadas de negócios. Pessoas que aproveitarão para conhecer, negociar seus produtos, observar o mercado e a possibilidade de comprar, de incorporar, de investir em Ribeirão Preto. “Se estivermos preparados, isso pode acontecer”, acrescenta o secretário.

Uma demanda que, para ele, Ribeirão Preto está pronta a absorver. Tal conquista se deve ao investimento em grandes eventos, como Stock Car e Agrishow, que, ao serem realizados, preparam a cidade para acontecimentos futuros, desenvolvendo, conforme são realizados, a infraestrutura já existente, como o aeroporto, que está sendo internacionalizado, apesar de ainda ter uma estrutura precária para passageiros.  “Temos uma rede hoteleira crescente, com bons hotéis sendo inaugurados, e grandes redes chegando”, afirma Tanielson, pontuando um problema que já afetou o Município, mas faz parte do passado. O secretário ressalta que a cidade supriu as exigências da Fifa para se tornar subsede da Copa do Mundo. 

A precariedade do aeroporto é a maior preocupação do secretário do Turismo. O Leite Lopes atende às necessidades da Fifa, mas está muito aquém do que deveria. “Na hora em que chegam três ou quatro aeronaves, vira um tumulto. Imagine durante a Copa, que terá voos extras e muito mais pessoas desembarcando”, observa Tanielson. O secretário reforça a necessidade de receber bem o turista, fator que precisa ser melhorado.

Além do investimento de mais de R$ 1 milhão do Ministério do Turismo, o secretário afirma que a administração está trabalhando para conseguir recursos do governo estadual para a sinalização de rodovias, facilitando a chegada a Ribeirão Preto, orientando sobre os pontos turísticos, e as possibilidades existentes na região.

Apesar de o setor privado ser o mais impactado economicamente com a vinda da seleção francesa, sobretudo os serviços que compõem o trade turístico e o setor de serviços, Tanielson acredita que todos serão beneficiados. “A população sai ganhando, seja com a melhoria da cidade ou simplesmente por ter a oportunidade de aprender a falar novos idiomas ou de conquistar um novo emprego”, ressalta o secretário.

Para Tanielson, a Copa 2014 é uma grande oportunidade de mudar a cidade e a visão que o mundo tem do Município. “A França traz como legado a grande divulgação de Ribeirão Preto. Precisamos aproveitar esse momento único de nossa história. Nós, que já somos referência em turismo de eventos e de negócios, podemos passar a ser uma referência em receber o turista estrangeiro”, conclui o secretário.

A prefeita Dárcy Vera acompanhou de perto as conversas com a delegação francesa. No ano passado, encontrou-se, inclusive, com o presidente do país europeu, François Hollande, que visitou o Brasil. No dia 13 de janeiro, a prefeita embarca para a França, onde participa, no dia 15 de janeiro, da apresentação oficial de Ribeirão Preto à Federação Francesa de Futebol. Dárcy, que viaja com recursos próprios, permanecerá no país por alguns dias e irá aproveitar para visitar a embaixada brasileira e outros órgãos representativos localizados em Paris.

Texto: Carla Mimessi

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