Do Macro ao Micro
O economista e presidente do Banco de Ribeirão Preto, Nelson Rocha Augusto, acredita que a economia local deve se sair bem em 2020.
Texto: Paulo Apolinário
Uma das principais preocupações que o economista Nelson Rocha Augusto, presidente do Banco Ribeirão Preto (BRP), teve ao se encontrar com a reportagem foi sobre a data de publicação da entrevista que concederia. Não por capricho: em razão da volatilidade do cenário político e econômico atual, um dia a mais ou a menos faz toda a diferença. No bate-papo, Nelson trata do cenário da economia mundial, nacional e local no início de 2020 e debate as expectativas para o restante do ano. O especialista também comenta os possíveis impactos na economia com o novo coronavírus e discute a respeito da taxa de juros brasileira e da valorização do dólar. No âmbito regional, Nelson prevê bons resultados, principalmente nos setores da construção civil e no agronegócio. Para ele, fatores externos e da macroeconomia terão menor relevância no palco da economia local.
Como o senhor avalia a economia mundial neste início de 2020?
A economia internacional vinha em uma situação de perda de ritmo de atividade bastante suave, mas consistente. No final do ano passado, com a primeira fase do acordo entre a China e os Estados Unidos, a economia ganhou um fôlego diferente, porque isso trouxe uma perspectiva mais positiva. A ameaça dessa guerra tarifária impacta no preço das commodities, no fluxo de mercadorias ao redor do mundo todo. Além disso, tivemos o ataque dos EUA contra o Irã. Isso criou um nível de tensão extremamente forte. Boa parte dos analistas entende isso como uma questão já resolvida, mas não é bem assim, porque não sabemos como o Irã e toda aquela região, que é instável do ponto de vista do comportamento bélico, vão proceder. Aqui eu não me refiro apenas ao mercado financeiro, mas ao lado real da economia. Foi um susto, mas é como se já tivesse passado.

E em relação ao novo coronavírus?
É impossível medir quais são os efeitos do novo coronavírus na economia, mas é possível verificar, em uma aferição mais detalhada, técnica e cientifica dos fatos, que, por ser um vírus com baixa letalidade, vários países estão pesquisando uma maneira de criar vacinas e mecanismos para se defender. Ele tem uma alta probabilidade de ser um chamado V Shape, que é como um gráfico no formato da letra V. Ou seja, ele cai muito rápido, porque as pessoas não podem viajar, não podem trabalhar e nem consumir. Contudo, muito rapidamente, quando esse problema for resolvido, a economia deve voltar a uma velocidade muito forte, também, exatamente por não ser um problema econômico, mas de saúde pública. No entanto, se ele durar muito mais tempo, vira um problema econômico. Por isso, o mundo inteiro está muito preocupado: a incerteza ficou extremamente elevada porque não se sabe quanto tempo vai durar. O que as autoridades médicas do mundo, principalmente a OMS [Organização Mundial de Saúde], estão dizendo é que não há motivo para pânico. Se nós tratarmos isso como verdadeiro, muito provavelmente até o final de abril ele deve estar mais sob controle.
E quais podem ser os efeitos do novo coronavírus na economia brasileira?
Analisando friamente os impactos para a economia brasileira, algumas empresas já começam a ter seus funcionários sem trabalhar. No entanto, o Carnaval foi uma maravilha, o maior de todos os tempos no Brasil. As commodities, como minério de ferro e, principalmente, as agrícolas, não apresentaram quedas relacionadas ao vírus, mas o petróleo caiu bastante. Todos os complexos agroindustriais vão muito bem. Teremos a maior safra de todos os tempos no Brasil, segundo previsão da Conab [Companhia Nacional de Abastecimento] e do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística]. O novo coronavírus não fez nem cócegas no preço do açúcar, nas carnes, no café, na laranja e na soja, por exemplo, porque as pessoas não vão parar de comer.
Desde 2017, o Brasil mantém uma inflação considerada baixa a longo prazo. O que isso significa para a população?
Significa muito. Em 2017, ela ficou sensivelmente abaixo da meta. Em 2018, mais ainda. Em 2019, não, porque explodiu no último mês pela questão do problema das carnes na China e que impactou aqui. Neste ano, está de novo abaixo da meta. Para o consumidor, significa que os produtos são menos caros. Para o investidor, significa que o país tem uma moeda mais segura. Mesmo com a desvalorização do real em relação ao dólar, o impacto na inflação foi pífio. Isso dá muita segurança para o investidor, que consegue fazer projetos de longo prazo tendo segurança do comportamento dos preços da economia. Não há nenhum analista brasileiro minimente sério que está vendo uma aceleração no Brasil que coloque em risco o ambiente de metas inflacionárias.
Já que o senhor citou o dólar, poderia comentar sobre a valorização dele em relação ao real? Ela é boa ou ruim?
O dólar subiu, basicamente, por quatro fenômenos que aconteceram simultaneamente. Um deles é o diferencial da taxa de juros no Brasil em relação à internacional. Ou seja, o investidor retirava dinheiro de um país com uma taxa de juros menor e investia aqui, com os juros maiores. Eles vinham para cá, especulativamente, para se apropriar de uma taxa de juros que a sociedade brasileira pagava. Agora, a nossa taxa é a mais baixa entre os países emergentes, tirando o Chile. O segundo fenômeno foi a troca de dívida externa por dívida interna por parte de grandes empresas privadas. Eles pagaram parte da dívida externa que eles tinham e se financiaram aqui, porque o mercado de capitais brasileiro está funcionando bem. Isso implicou em uma maior demanda de dólares, porque os empresários precisaram comprar dólar no mercado brasileiro para pagar a dívida lá fora e emitir dívida aqui dentro. O que é extremamente saudável, porque amplia o mercado de capitais aqui e a área de serviços. O terceiro fator tem relação com o cenário internacional. O dólar se valorizou em relação a todas as outras moedas no mundo, por conta dos problemas chineses na guerra tarifária e, agora, com o novo coronavírus. Isso fez com que os EUA aparecessem como um país ainda mais forte economicamente, em relação ao resto do mundo. Em quarto lugar, mas não menos importante, está a incerteza institucional brasileira. Essa crise institucional impulsiona uma preservação patrimonial dos investidores em uma moeda mais estável e segura, o que faz com que mais pessoas comprem dólar. Assim, o dólar alto estimula a exportação e desestimula a importação. Porém, no balanço, do ponto de vista macroeconômico, essa taxa de câmbio é mais positiva do que negativa.
O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que o dólar alto veio para ficar. O senhor concorda?
Sim, porque os dois primeiros fenômenos de que falamos são mais duradouros. Além disso, a valorização da moeda americana é uma bandeira do [Donald] Trump nas eleições. Em ano eleitoral, eles não devem deixar o dólar perder muito o valor. Contudo, não acho que o dólar tenha espaço para ir muito além disso, somente se a crise institucional brasileira se acentuar. Estamos trabalhando com um dólar de R$ 4,30 para o final do ano.
Em 2020, quais segmentos o senhor acha que terão mais destaque na economia local?
Construção civil. Disparado. Principalmente, na parte habitacional, mas, também, na infraestrutura, porque a cidade não investia pesado em infraestrutura há muitos anos. Além disso, na região, por ser ano eleitoral, os prefeitos vão tentar fazer alguma obra. Teremos também muita exuberância no agronegócio. O setor sucroenergético vai ter, sem dúvida alguma, a melhor safra de todos os tempos, que acabará de ser contabilizada em abril. A próxima piora, mas não muito. No agro, também vão se destacar os produtores de café, laranja e grãos. Em Ribeirão Preto, a área educacional continua demonstrando o crescimento que sempre apresentou e a da saúde também, podendo ter até alguma surpresa positiva. Temos visto muitos investimentos na construção de hospitais, laboratórios, consultórios médicos e produção de equipamentos na cidade. Acompanhamos alguns indicadores das empresas de saúde da região e todas elas esperam crescimento acima de 10% em relação ao ano passado.

Quais podem ser os impactos das eleições municipais na economia?
Se o prefeito vai muito bem, ele ajuda a dinâmica econômica da cidade. Se ele vai muito mal, atrapalha. Contudo, ele não é fator determinante, é fator de impulsão de aceleração ou desaceleração. Isso porque a política econômica não é feita pelo município, mas pelo governo federal, então, o impacto é mais modesto, mas pode gerar efeitos a longo prazo. Por exemplo, a aprovação da reforma do IPM [Instituto de Previdência dos Municipiários] é importante para a atividade econômica de médio e longo prazo. A reforma do sistema previdenciário vai criar uma folga para que o município continue investindo.
O senhor abordou a crise institucional do governo federal. Poderia explicar melhor como ela pode afetar a economia em 2020?
Não entrando no mérito da pessoa do presidente da República, mas ele está colocando a instituição Presidência contra a instituição Congresso Nacional. Isso é muito grave. Todas as reformas que o Brasil precisava fazer ainda não foram feitas. Aprovamos a Reforma da Previdência no ano passado por uma maturidade da própria sociedade e, principalmente, por um protagonismo do Congresso, não do Executivo. Já se foram 14 meses e, até agora, o governo não mandou para o Congresso Nacional a sua proposta de reforma administrativa, nem a tributária. Se eu sou um empresário, vou esperar algumas semanas para definir um investimento. Só que, se a somatória dos empresários começa a esperar esse período para definir e nós estamos em uma recuperação tênue, temos um problema. Ainda acho que vão por panos quentes e fazer a coisa acontecer.
Ainda há muita incerteza em relação à taxa de crescimento do PIB, que varia de 1,7% a 2,4%. Com essa crise institucional, o senhor acredita que ele pode ser afetado?
Estamos trabalhando com um crescimento do PIB acima dos outros analistas, de 2%. Na nossa hipótese, contamos com as reformas administrativa e tributária sendo resolvidas até o final do primeiro semestre. No entanto, estamos revisando isso, com um viés de baixa por conta da crise. Agora, para que esses 2% aconteçam, teremos de ter um crescimento, no último trimestre do ano, a um ritmo acima de 3,5%. Por isso, essa crise institucional é extremamente importante. Você dirige olhando à frente: se começa a criar problema agora, você perde velocidade e não chega ao destino a tempo.