Dom da comunicação
o convidado do ciclo de palestras dos 30 anos da Revide, José Luiz Datena, famoso por falar o que pensa, fala que isto o ajudou a ser um dos profissionais mais bem remunerados da TV brasileira
Convidado para participar das comemorações dos 30 anos da Revide, o apresentador José Luiz Datena esteve em Ribeirão Preto no dia 26 de fevereiro para uma palestra sobre suas experiências no jornalismo, que aconteceu no Theatro Pedro II. Fã de esportes, o comunicador lapidou seu talento como repórter e narrador esportivo, migrando depois para programas jornalísticos. Sua aptidão garantiu passagem pelas principais emissoras de televisão do Brasil e a conquista do prêmio Vladimir Herzog, um dos mais conceituados do jornalismo nacional.
Em 2010, em uma pesquisa feita pelo Datafolha, o âncora do Brasil Urgente apareceu como a 13ª personalidade de maior credibilidade junto à população brasileira. Ficou atrás de profissionais como William Bonner, da Globo, e Silvio Santos, do SBT, mas à frente da presidente Dilma Rousseff. Em sua trajetória, iniciada no programa de rádio Plantão Esportivo, passou pela TV Ribeirão (atual EPTV Ribeirão Preto) e, ao sair da Globo, estreou na Rede Bandeirantes como repórter e locutor de jornalismo esportivo, participando de eventos dentro e fora do país. Trabalhou em inúmeros programas da Rede Record, entre eles, Cidade Alerta e Fala Brasil, e como narrador na Copa do Mundo da França, em 1998. Na Rede Bandeirantes, apresentou vários jornais e programas, entre eles, No Coração do Brasil, SP Acontece e Quem Fica em Pé?, além de Brasil Urgente, que continua no ar. Na BandSports, cobriu a Copa do Mundo no Brasil e apresentou O Craque e a Fera.
O extenso currículo de Datena prova que sua personalidade e capacidade de transformar um fato simples em algo singular influenciou diretamente a ascensão da sua carreira. “Jornalismo policial ninguém valoriza, mas Nelson Rodrigues — um dos maiores cronistas do país — foi o maior jornalista policial do Brasil”, afirma o apresentador. Mesmo sem se considerar um palestrante, em visita a Ribeirão Preto, Datena contou para estudantes e admiradores causos da carreira e os anseios de ser diferente dos outros repórteres. Confira, na matéria a seguir, os melhores momentos do bate-papo, conduzido pelo diretor de redação da Revide, Murilo Pinheiro.
Horário nobre
Conhecido apresentador de programas policiais, Datena afirma que entrou nesse nicho por acaso, tudo graças à instabilidade do jornalismo, principalmente o esportivo, editoria em que atuava no início da carreira. Mesmo assim, ele considera “a profissão mais linda do mundo”.
“Tive uma discussão séria na Globo e fui demitido, mas, com a ajuda de Marco Moro, uma relíquia da TV, ingressei na Rede Bandeirantes. Um belo dia, ele me ligou e disse: ‘você foi um dos melhores repórteres que eu tive a oportunidade de trabalhar’. Devo muito a ele e ao Luciano do Vale, principalmente por causa da indicação para a Bandeirantes. A partir desse empurrão, comecei a crescer na minha carreira — não a ganhar dinheiro ainda, mas progredi muito como repórter.”
“Quando as coisas não vão bem, o departamento de esportes é o primeiro a mandar gente embora. Apareceu a oportunidade de fazer um teste para o Cidade Alerta, que eu não queria. Se vocês acham que programa policial hoje é violento, é porque não lembram daquela época. Só fiz o teste porque fui obrigado, senão, perdia o emprego. O programa foi para o ar em um dia de enchente e nossa audiência, que era de 6 pontos, passou para 15. O bispo (Edir Macedo, dono da Rede Record) viu e falou que eu ia morar em São Paulo. Respondi que não tinha dinheiro para morar lá, só que ele triplicou meu salário. Eu assinei na hora”, lembrou Datena.
“Não confio nas amostragens do Ibope porque eles não fazem levantamento em ‘área que não tem segurança’. Mas qual lugar do Brasil é seguro? Você acha que na favela o cara vê novela no boteco? Não, ele está vendo programa policial. Ibope não dá uma base de audiência, por isso, acho que a TV aberta não perdeu tantos telespectadores.”
Amizade com Sócrates
O apresentador também lembrou que, na última vez em que esteve no Theatro Pedro II, o ex-jogador Sócrates, participou da gravação de uma reportagem de destaque. Na ocasião, o antigo craque foi sabatinado bem no centro do palco. As imagens fizeram parte de produções especiais de grandes programas da Globo, como Globo Repórter e Fantástico.
“Botei o Magrão (Sócrates) para contar histórias da carreira dele. Ficou maravilhoso. Ele me ensinou a ter desapego ao dinheiro. Tive que pagar uma multa de R$ 23 milhões (rescisão de contrato com a Record), se não fosse o desapegado Doutor, eu não sei o que teria feito. Eu vivi momentos muito especiais com ele. O Sócrates talvez tenha sido o homem de melhor caráter que eu conheci, o homem que menos se interessou por grana. O Sócrates era de uma lealdade — desculpem-me, mas esse negócio de fidelidade é para cachorro. Ele era leal.”
Polêmicas
Dono de um estilo polêmico, o apresentador virou campeão de audiência da Band. A característica despachada não rendeu apenas desafetos. De tempos em tempos, Datena consegue, em primeira mão, notícias exclusivas.
“É engraçado quando você fala de dinheiro, porque muitas pessoas falam ‘nossa, você ficou rico’, mas esquecem que eu perdi R$ 23 milhões. Como disse Silvio Santos, fui o único artista de televisão a pagar uma multa nesse valor, ninguém nunca pagou, geralmente, as emissoras arcam com a dívida. O que aconteceu é que fui para Record, assinei um contrato de confissão de dívida e tive que pagar. Não me arrependo, o Sócrates me ensinou isso: a não valorizar o dinheiro. Acredito muito em Deus. Uma vez disseram ‘o Datena é contra ateu’. Não sou contra ateu coisa nenhuma, se o cara não quiser acreditar em nada, o problema é dele. O que aconteceu é que deturparam uma frase que eu disse, ‘o sujeito que mata não tem Deus no coração’. Essa frase é milenar, não é minha frase, mas vieram em cima de mim, sacanearam. Se me perguntarem ‘por quê você acredita em Deus?’ Eu vou responder: acredito porque acredito. Quem disse essa frase foi Schopenhauer, um dos maiores ateus que eu conheci até hoje”.
Também falou sobre a corrupção. “Nunca na vida usei o jornalismo para ganhar o que não fosse meu — e olha que tive oportunidades. Muita gente tentou me corromper. Eu devo ter um preço, mas, hoje, com 58 anos, tenho menos um ‘zilhão’ da grana que todo mundo imagina. Jamais me vendi para ninguém e um bando de sacana tentou me comprar, mas eu sinceramente não cedi. Tem muita gente que hoje está milionária na nossa carreira, porque se vendeu. A imprensa tem um fator impressionante, de fazer ídolos de barro. Eu ajudei muita gente que não mereceu, mas nunca ganhei um tostão.”
Jornalismo
Com a carreira iniciada no rádio, Datena possui muitas qualidades profissionais, entre elas, a que mais ficou popularizada foi a condição de tornar o comum mais interessante em uma matéria. Após realizar uma reportagem sobre um lixão do município, Datena recebeu o seu primeiro prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Apesar de já ser consagrado como jornalista na área, alcançou maior notoriedade ao comandar o programa policial “Cidade Alerta”. Seguindo um estilo polêmico, sem papas na língua, o apresentador também é conhecido pelos bordões que cria, como os clássicos: “Essa é a grande realidade!”, “Me dá imagens” e “Me ajuda aí, ô”. O apresentador aponta que as mídias digitais já são uma realidade, mesmo tendo abandonado há mais de um ano a conta pessoal no Twitter, que possui mais de 1,5 milhão de seguidores. “A rede social mudou tudo, porque na internet tem muita gente que dá sugestão bacana. Internet já é uma realidade da comunicação”, aponta o jornalista, que não considera que a rede tenha tirado audiência da televisão.
“No jornalismo, dificilmente o cara vai ganhar dinheiro. De vez em quando aparece um ou outro que consegue ganhar dinheiro, e esse foi o meu caso. Perdi dinheiro para caramba, mas ganhei também. Se alguém estiver pensando em fazer jornalismo para ganhar grana, vai ser difícil dar certo. Essa é a profissão mais linda do mundo e se eu tivesse que recomeçar, eu faria de novo. Meu sonho era ser médico, ainda bem que eu não fui, porque com um programa tão sanguinolento provavelmente eu mataria um por dia.”
O apresentador diz que a profissão abriu muitas portas. “O jornalismo me levou para o mundo. Quando percebi, estava na Itália ou cobrindo Copa do Mundo em Paris — e eu era duro. Conheci o mundo inteiro ganhando pouco, mas sendo muito feliz. Entrevistei os maiores gênios do futebol e também entrevistei Pavarotti. O jornalismo é uma janela. É uma carreira que não tem limites, e é isso que vale a pena.”
O jornalismo em tempos áureos
A edição nº 20, veiculada em 1990, trouxe um perfil do apresentador com o título “O Datena que você não vê na TV”. Na ocasião, a Revide reuniu alguns amigos num bar e, com algumas cervejinhas, a conversa fluiu naturalmente. O resultado foi uma grande entrevista onde o entrevistador virou entrevistado num bate-papo descontraído sobre a carreira e os rumos do jornalismo.
Revide: Há perspectiva de melhora (do jornalismo)?
Datena: Histórica. Daqui uns 100 anos... O processo é muito lento. Aqui no Brasil ainda se exige o diploma de jornalismo para o exercício legal da profissão. Lei da ditadura. Ao que me consta, só o Brasil e a Costa Rica fazem tal exigência. Uma tentativa de elitizar e reter a ascensão das classes mais pobres à informação e ao processo de comunicação. É como disse Jorge Amado: “já pensou se começarem a exigir diploma para escritor?”. Meio gozado, não...
Revide: Só a prática ensina?
Datena: O jornalismo prático é o jornalismo mais sério. Acho um pouco impossível aprender a fazer o jornalismo num banco de faculdade. A teoria, aliada a muita prática, talvez fosse o caminho. Acima de tudo, acho que deveria ser liberado. Quem quiser fazer e puder, faz, sem a obrigatoriedade.
Revide: Na TV, como surgiu a oportunidade de criar um estilo diferente, inovando na telinha?
Datena: (...) Eu tive que achar uma fórmula mágica para tratar de assuntos corriqueiros, que era o que mais aparecia, como uma torção ou a contusão do dedão do pé direito do Peu, por exemplo. Aí, o que eu fazia? Botava o Peu de dedo pra cima, escolhia ângulos diferentes para focalizá-lo na câmera, saía do trivial para que o editor de São Paulo se interessasse pela matéria.
Revide: Você já trabalhou em outra emissora de televisão, já ganhou dois prêmios Herzog. Qual é o sentido de seu trabalho?
Datena: Quando fui receber o prêmio no Sindicato dos Jornalistas, em São Paulo, fiz o seguinte discurso: “Se eu fosse um pouco mais desonesto, seria político”. Indo por esse raciocínio, se eu não acreditasse que fosse possível fazer um trabalho sério, em termos de informação, e que a minha verdade fosse possível de ser passada, 100%, não estaria na TV. Acho que a televisão precisa mostrar a verdade, total, integral.
Texto: Pâmela Silva
Fotos: Ibraim Leão