Dona do palco

Dona do palco

Com mais de 20 anos de carreira, Fernanda Marx, vê na música uma forma de resgatar emoções e conhecer partes inexploradas da vida; a cantora usa sua arte como um passaporte para uma viagem interior

Durante a infância no quintal do avô, Fernanda Marx encontrou duas paixões: o jornalismo e a música. Junto com a família, ouvia inúmeros vinis, enquanto escutava histórias ou apenas contemplava as horas ao lado de “seu” Sebastião. Também eram frequentes em sua rotina os shows e as apresentações musicais. Diante disso, escolher a música como profissão poderia ser um desdobramento natural na vida da menina que crescia, cantava e encantava a todos, mas não foi bem assim. Fernanda nutria uma curiosidade singular pelo jornalismo e enxergava a música como lazer — e, para ela, os dois itens poderiam caminhar juntos.

Ingressou na faculdade de Jornalismo, mas encontrou uma forma de conciliar os estudos a produções de óperas, musicais e concertos da Cia. Minaz. Aos poucos, a jornalista se tornou assessora de imprensa, cantora e solista do teatro. Nessa época, Fernanda passou pela banda Missionários do Blues e fez participações especiais em shows de outros grupos, como Banda Balaco e Srta. Zirma. Já conhecida dos palcos, começou a lidar com os questionamentos do público sobre uma possível carreira solo. A resposta era sempre a mesma: Fernanda não se sentia preparada. Em 2012, após assistir a um concerto de um amigo, sentiu que estava pronta para encarar a estrada e mostrar seu lado artístico. Desde então, a cantora apresentou diversos shows, como Flor de Café, Refazendo Gonzaguinha, Baile da Nega e Innove, o mais recente, lançado em outubro de 2017, com os hits do primeiro disco gravado, que leva o mesmo nome. 

“O rótulo é, muitas vezes, perigoso — ele empobrece aquilo que poderia ser muito maior e mais rico”, ressalta FernandaConsidera a música, na sua vida, um dom ou o resultado de muito estudo? 
Fernanda:
Acho que fui generosamente presenteada, sim, mas seria muita pretensão ter um “dom” e não aperfeiçoá-lo. A experiência vai lapidando, afiando e aprimorando, assim como a orientação de pessoas competentes, que amam o que fazem e só contribuem para que o artista execute seu ofício com excelência e amor. Quando criança, estudei piano com a minha tia, Maria Helena. Eu passava as manhãs na casa da minha avó, onde, além das músicas na vitrola, convivia com o som das teclas do piano. Na escola, fiz flauta doce, mesmo período em que comecei a praticar o canto coral no Colégio Itamarati. Dois anos após entrar no Minaz, aos 13, comecei a estudar de canto com a Gisele Ganade. Em nossas aulas, fui entendendo o funcionamento do meu instrumento, a voz. Os ensinamentos e as técnicas vocais, assim como de postura de palco, são utilizados até hoje, tanto na preparação das apresentações com a Cia. Minaz, quanto nos meus shows. Quando a apresentação é em Ribeirão Preto, é melhor ainda, pois tenho a Gisele e o Ivo Rinhel D’acol ao meu lado, que além de tudo, ainda me ensinam muito sobre produção e me dão ótimos feedbacks visando à minha melhora, afinal, sou, com muito orgulho, cria deles. 

Muitas pessoas tiveram a oportunidade de vê-la interpretando canções bem brasileiras e o blues raiz. Afinal, qual é o seu estilo musical?
Para falar a verdade, não gosto de uma única definição, que limita. Gosto da mistura e acho que ela enriquece a arte. Quanto mais conhecemos novos gêneros, ritmos, sons, artistas e trabalhos, mais difícil é rotular. Acho até que esse rótulo é, muitas vezes, perigoso — ele empobrece aquilo que poderia ser muito maior e mais rico. Quando colocamos rótulos, passamos a “ser” apenas aquilo que dissemos que éramos. Em alguns momentos, quando queremos mudar, precisamos fazer um esforço enorme. Além disso, nem sempre a mudança é compreendida. Para mim, não é assim. Claro que há estilos que me agradam mais que outros, mas os que me encantam são tantos que acho complicado dizer que sou cantora “disso” ou “daquilo”. Não me incomodo quando são mencionados estilos pertinentes para o meu trabalho, mas não consigo definir apenas um ou dois nomes. Ele é múltiplo! 

Que lembranças marcantes carrega do início da sua carreira? Quais foram as maiores dificuldades que enfrentou?
Tenho várias e boas lembranças. Desde o dia em que decidi fazer o meu primeiro show, passando pela escolha da banda, do repertório, da equipe técnica, do figurino e do cenário até a venda dos ingressos que esgotaram em um dia e, claro, o dia da estreia, que foi incrível. A maior dificuldade no início foi mostrar para alguns o meu objetivo. Não tinha essa necessidade, pois sabia que isso iria acontecer naturalmente, mas, em alguns momentos, fui questionada sobre isso e nem sempre esse questionamento foi feito de uma forma tranquila. No entanto, isso não foi nem um pouco doloroso — pelo contrário, para mim foi aprendizado, que meu deu ainda mais vontade de entrar com a “camisa 10” em campo.  

Seu primeiro disco autoral aconteceu depois de 20 anos na Cia Minaz e seis de carreira solo. Como foi esse processo? 
Foi um processo de longo amadurecimento. Quando lancei “Flor de Café”, em 2012, as pessoas já me perguntavam quando lançaria um disco. Eu tinha esse desejo, mas não queria fazer algo de qualquer maneira. Então, comecei a elaborar o disco, conversei com artistas que já tinham trabalhos gravados, pedi músicas para os amigos e passando a entender como era o procedimento. Em agosto de 2016, o disco começou a tomar forma. Chamei dois grandes parceiros e artistas para me ajudarem nesse processo inicial e para integrarem a equipe do disco e do show: Lucas Oliveira, guitarrista, compositor e diretor musical do disco, e Gustavo Engrácia, ator, diretor artístico e de iluminação dos meus shows, além de co-produtor do Innove. Com a ideia do álbum formatada, montamos a banda, formada por Daniel Del Carpio (bateria), Leandro Cunha (piano), Lucas Oliveira (guitarra, composições, arranjos e direção musical), Rafael Ramos (baixo) e Ricardo Perez. Além das participações especiais de Dayane Peixe (sax tenor), José Matsumoto (trombone), Mario Amorim “Nescau” (trompete) e Maracatu Chapéu de Sol. Em setembro, começamos os ensaios e, em dezembro, entramos no estúdio para gravação das primeiras faixas. Em maio e julho, partimos para os processos finais. O Innove, portanto, é filho de muitos pais e padrinhos. Graças aos músicos e aos amigos que citei, este trabalho contou com a dedicação de outros grandes parceiros e amigos, como Horácio Silveira, Pedro Panúncio (Pedrão Sossego), Sandro Rezende, Cláudio Frateschi, Marco Túlio R e Coletivo Fuligem. Fora isso, não posso deixar de citar o grande Alessandro Machado, Michel Miranda, Mauro Zacharias, Manga Morais, Inácio Koser, Eder Bortolato, Marcelo Toledo e muitos outros. 

O INNOVE traz um pouco de samba, jazz, xote e maracatu. De certa forma, esses ritmos refletem sua essência? 
Sim, eles refletem muito a Fernanda Marx. Os meus repertórios são sempre baseados nas músicas que escuto, nas melodias que mexem comigo, naquilo que gosto de cantar e de dançar. Costumo escutar diferentes estilos musicais e acredito muito na mistura de ritmos. Como eu queria que o disco tivesse a marca do que eu sou, resolvemos, o diretor musical e eu, trazer ritmos como samba, jazz, xote e chacarera. Adoro essas misturas. Na realidade, elas conversam entre si e, juntas, no contexto todo do disco, contam uma história, com começo, meio e fim. Apresentar melodias, sensações e climas diferentes torna o trabalho, ao meu ver, interessante demais. Quando assisto a algum espetáculo artístico onde isso é proposto, vou a delírio. Gosto de sentir e de proporcionar essa provocação. 

A cantora interpreta canções de artistas com personalidades diferentes e se identifica com todas elas

Como avalia os rumos da música brasileira, diante de tantos artistas “comerciais” ganhando espaço na mídia?

Sempre tenho muito cuidado para falar sobre isso, pois não quero ser mal interpretada. Acho que uma boa forma de começarmos a refletir sobre o assunto é diferenciar uma linha da outra. A primeira é comercial — para entretenimento, com prazo de validade determinado pelos empresários, gravadores e etc; a segunda possui conteúdo cultural, ou seja, são músicas cuja função não se limita ao período do lançamento. O grande problema, no meu ponto de vista, é que as duas não têm o mesmo espaço de divulgação, nem o mesmo espaço para acontecer. A música de conteúdo cultural é pouco divulgada em redes abertas, o que, por consequência, acaba afastando essa linha do público. A música não comercial está acontecendo em muitos lugares mas, como a grande maioria das pessoas não costuma frequentar peças de teatro interpretadas por atores desconhecidos, assistir a shows de novos cantores ou instrumentistas ou ir a museus, fica mais difícil fazer com a que a massa compreenda que essa arte é bacana. Por esse distanciamento e também pela falta de interesse do público, a música não comercial é tida como elitizada. Então, a música comercial acaba ganhando mais espaço. Acho que as duas podem e devem existir, ocupando seus respectivos lugares e cumprindo funções distintas. No entanto, explicar essa função para o público, educar e dar cultura, muitas vezes, não é interessante para alguns setores. 

Você nutre uma admiração especial pela cantora Elza Soares. Que semelhanças identifica entre vocês?
Isso vem da infância, de ouvir as músicas que ela cantava e vê-la no palco. Depois, crescendo um pouco, fui entendendo que, além de uma artista ímpar, ela era uma mulher fortíssima, com uma história de vida de total resistência, o que, definitivamente, acho encantador. Em 2013, ao entrevistá-la durante a Feira do Livro de Ribeirão Preto, contei que investiria na minha carreira. Quando a entrevista acabou e eu estava saindo do camarim, ela me chamou e disse: “Ei, menina! Canta, você tem que cantar”. A partir daquele momento, abençoada pela Elza, tive ainda mais certeza de que estava no caminho certo. Este ano, tive o prazer de representar a Elza na edição especial do Dia das Mulheres da Revide, o que me deixou muito honrada. Para coroar nossos encontros, em 2018, Elza lançou seu novo disco, “Deus é Mulher”, em maio. A capa do álbum dela é muito parecida com a do Innove, lançado em outubro de 2017. Essa semelhança só me fez ter a certeza de que somos duas artistas tendo o mesmo olhar para a arte e, mais uma vez, de que se estou olhando para o mesmo lugar que a Elza e da mesma forma que ela e seus músicos, estou no caminho certo. Juntando tudo isso, vejo que nossa maior semelhança é a garra e a vontade de fazer arte e música, de não parar nunca, assim como destaca uma de suas composições, “A Mulher do Fim do Mundo”, de penúltimo disco, “Eu quero cantar até o fim, me deixem cantar até o fim”. É isso que a Elza está fazendo e também é isso que eu farei. 

Na música brasileira, há grandes nomes femininos. Qual sua opinião em relação ao empoderamento da mulher como artista?
Acho incrível ver a cena feminina aumentando na música brasileira. Sempre tivemos mulheres neste cenário, algumas são minhas referências, mas, hoje, isso está crescendo consideravelmente. Era muito mais comum vermos apenas cantoras, agora, temos instrumentistas, produtoras, iluminadoras e muitas outras profissionais ocupando funções relacionadas ao universo artístico. Essas mulheres se bancam, mostram e dão voz a outras que têm sonhos parecidos. Temos muitos exemplos, como o SÊLA, projeto lindo encabeçado pela grande amiga, parceira, cantora, instrumentista, compositora e produtora Camila Garófalo. Em 2017, tive o prazer de encerrar a programação de uma mostra chamada “Mulheres Rio Acima”, realizada por um grupo de artistas de Ribeirão Preto, que tinham a figura feminina como protagonista. Outro projeto lindo que acontece na cidade há quase dois anos é a Roda das Flores, criada para abrir espaço para as mulheres diretoras, produtoras e cantoras. Tenho orgulho de ser uma das fundadoras da roda junto com Fabiana Sberni, Gabriela Francheck, Maysa e Mariana Sampaio. A Roda das Flores também conta com os nossos queridos músicos João Roberto, Filipe Cardoso, Ricardo Perez e Alexandre Gu, mas, na realidade, quem manda mesmo é a mulherada. Não posso deixar de falar de outras grandes cantoras, como Verônica Ferriani, Camila Kerr, Karol Sun, Carla Viana e muitas outras. Ou seja, esse cenário está crescendo, se fortalecendo, ganhando forma e muito conteúdo. 

Quando lançou “Flor de Café”, em 2012 , as pessoas já perguntavam quando a cantora lançaria um discoAcredita que o surgimento de novas mídias fez cair o mercado fonográfico?
Acredito, sim, que houve uma queda na venda de discos por conta da internet, mas as plataformas digitais de música e de vídeo também colaboraram muito para que mais pessoas tivessem acesso ao trabalho dos artistas. A internet é uma ferramenta maravilhosa de divulgação, especialmente para os artistas independentes, que têm a oportunidade chegar ao público de qualquer lugar do mundo. Acho, também, que a internet é uma forma democrática de divulgação que já apresentou muitas pessoas talentosas. Ou seja, existiu uma queda no mercado fonográfico, mas, por outro lado, ganhamos um espaço muito maior. 

Como avalia a evolução do seu trabalho até aqui? 
Vejo um amadurecimento muito grande e significativo, tanto meu quanto dos músicos que trabalham comigo, pois fomos criando intimidade e nos sentindo cada vez mais “em casa”, o que se reflete diretamente no trabalho. Aprendo novas coisas, a cada dia, a cada ensaio ou show. Aprendo com os meus parceiros, com os profissionais que trabalham comigo e também com o público. Aprendo quando vou a shows e observo a outros músicos, tentando sempre captar aquilo que pode contribuir no que eu faço. Estou sempre aberta ao novo e, por consequência, apreendo e cresço mais. A Fernanda de hoje tem muito mais conteúdo para oferecer do tinha há seis anos, inclusive, do que a mulher de uma hora atrás. Quem viu minhas primeiras apresentações percebe nitidamente que, hoje, sou muito mais preparada e segura. A Fernanda tem a oferecer conteúdos novos e antigos, porém, com novas “roupas”. Por ser intérprete, coloco em meus trabalhos minha cara e minha marca, tendo como princípio a excelência. Miramos sempre o primor e a cada novo trabalho vemos que isso é percebido pelo público, nosso maior e melhor termômetro. 

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