É hora da escola

É hora da escola

O primeiro dia de aula representa o início de uma nova fase na vida dos filhos — e dos pais também

Para qualquer criança, a primeira vez na escola sempre vem acompanhada de uma dose de tensão. Afinal, é hora de encarar um ambiente desconhecido, cheio de novidades. E o momento certo para que isso aconteça é uma dúvida constante na cabeça dos pais. Segundo a Constituição, a educação infantil tem a finalidade de desenvolver a criança até os cinco anos nos aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e integrando a criança à sociedade em que vive.


A partir de 2016, será obrigatória a matrícula de crianças de quatro a cinco anos na pré-escola. O ingresso em creches não será obrigatório, no entanto, é dever do poder público assegurar vagas a todos os interessados. Essa é uma tendência que se apresenta cada vez mais comum na vida dos brasileiros. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de  2012, a taxa de escolarização das crianças de cinco e seis anos atingiu 92% — em 2002, apenas 77,2% delas estavam na escola. A expectativa é que esse número aumente em 50% até 2020 entre as crianças de até três anos. Por ingressarem bem cedo na escola, os pequenos estão permanecendo anos a mais nas instituições de ensino. Segundo os dados do IBGE de 2012, jovens entre 20 e 24 passaram cerca de 9,9 anos estudando, enquanto pessoas com 60 anos ou mais estudaram, em média, 4,4 anos.

Para Heliana Palocci, diretora da Escola do Amanhã, de Ribeirão Preto, transformar o primeiro dia de aula da criança em uma atividade prazerosa é responsabilidade dos pais. “Atitudes como ajudar o filho a pentear o cabelo, a organizar a mochila, a vestir o uniforme e tornar este o assunto principal da família dão mais segurança à criança. Esse não é o momento dos pais dizerem que sentirão saudade ou de declarar o amor pelo filho de maneira enfática. O tema principal deve ser as oportunidades que a criança encontrará na escola”, explica a educadora.

O papel dos pais vai muito além de encontrar a melhor escola para seu filho. Valores, como amor e cuidado, desde a convivência com a família são importantes para formar crianças mais seguras e tranquilas e, assim, com mais facilidade de adaptação à escola. “No entanto, este cuidado dos pais não deve ser confundido com superproteção, já que, normalmente, crianças superprotegidas ou mimadas são mais inseguras e dependentes dos pais ou dos cuidadores, pois estes são os únicos que lhe dão a segurança de que todas suas vontades serão satisfeitas”, explica Myrna Coelho Matos, mestre em infância e adolescência e especialista  em terapia comportamental. Segundo ela, o ambiente superprotetor ocasiona frustrações e desenvolve poucas habilidades para a solução de problemas. Por isso, as crianças podem apresentar dificuldades frente às diversidades do universo escolar, onde elas precisam aprender a dividir, a compartilhar, a ter horários e a respeitar regras.

Outros fatores são importantes e devem ser levados em conta nessa fase em que tudo, para a criança, é novo e representa perigo. Mudança de endereço, de hábitos ou simplesmente tirar a chupeta ou a fralda causam um estresse que pode gerar ansiedade. “Muitas mudanças concomitantes podem prejudicar o processo de adaptação escolar. Vale lembrar que toda mudança, por mais positiva que seja, exige adaptação e gera um alto nível de estresse para a criança que a vivencia, devendo, por isso, acontecer gradualmente”, ressalta a especialista.

De forma geral, quando o assunto é a adaptação da criança a qualquer situação, há um conjunto de profissionais e de pessoas envolvidas. Não há dúvida de que tanto a escola quanto a família buscam criar oportunidades para a criança se desenvolver de forma saudável do ponto de vista físico, cognitivo, emocional e social. Algumas escolas e famílias também valorizam o desenvolvimento espiritual e trabalham em conjunto para isso. Entretanto, embora os valores e objetivos devam ser alinhados no que se referem ao desenvolvimento infantil, os ambientes de casa e da escola são muito diferentes também em suas funções na vida das crianças. O que ocorre é que os padrões comportamentais dos pequenos em casa, junto à família, tendem a afetar o ambiente escolar.  “Um filho controlador em casa ajuda a buscar o controle na escola, seja com seus pares ou com seus professores”, exemplifica Myrna. “Dessa forma, cabe à família ajudar a criança a desenvolver habilidades interpessoais adequadas que serão favoráveis ao bom convívio social”, completa.

O momento certo
Na fase obrigatória de ir para a escola, não adianta tentar preparar a criança com grande antecedência. Quanto mais novinhos, mais próximo do início das aulas deve ser a conversa dos pais com os pequenos. “Essas condições dependem muito da idade e da maturidade da criança. Isso ocorre devido à noção de tempo, que ainda está em desenvolvimento. Os pais podem estimular a curiosidade a respeito da escola com conversas esporádicas, como, por exemplo, quando passarem em frente a um colégio, quando se depararem com crianças em uma escola ou mesmo nos programas de televisão. O mais importante é que o assunto seja abordado da forma mais natural possível. Porém, à medida que a data do início das aulas se aproximar, a conversa pode ser mais frequente e mais explicativa”, elucida a terapeuta.

Comentar os aspectos físicos da escola, quem são os profissionais, quem a levará e a buscará, quem são as crianças que ela irá conviver, entre outras informações, ajuda a tornar o “desconhecido” menos amedrontador. “Quanto mais os pais descreverem os aspectos relacionados ao seu ingresso na escola, e fazer isso de forma positiva, mais eles ficarão seguros”, destaca. Se for possível, pode ser uma boa ideia levar a criança para conhecer a escola antes do início das aulas, possibilitando a familiarização com o ambiente físico e com as pessoas com que ela conviverá no dia a dia. “Os pais também podem mostrar o site da escola, as fotos dos ambientes e demonstrar que também estão felizes com a nova fase.

Também ajudam a criança quando respondem todas as perguntas feitas por ela, evitando criar falsas expectativas. Escola não é só playground, ela terá as atividades divertidas, mas que aquelas que exigirão esforço, obediência, etc. Não dá para criar a ilusão de que as brincadeiras irão durar o dia todo, como em uma colônia de férias”, alerta Myrna.

Por outro lado, os pais devem estar preparados para as reações dos filhos, que podem ser as mais diversas. A terapeuta alerta que o estado emocional dos pais é relevante.   “Neste caso, é recomendável manter a calma, dando segurança, tratando os sentimentos com naturalidade, mas mantendo uma postura encorajadora”, recomenda, reforçando que os pais devem deixar claro que não existe escolha entre ir ou não ir para a escola, evitando que a criança force uma situação.

A melhor escolha
A confiança dos pais na escola selecionada é importante para gerar segurança. Para Heliana, o fundamental é que a escola tenha um projeto pedagógico de qualidade, que valorize a transmissão do conhecimento. “Os pais devem saber a rotina pedagógica, conhecer o pensamento da diretoria da escola e a filosofia que permeia as ações educativas”, lista a educadora. Para a diretora, a função da escola é a construção do conhecimento e cabe aos professores prepararem boas aulas e bons projetos. “O universo escolar é bastante diverso. O maior desafio é trabalhar com alunos diferentes e promover a aprendizagem. Situações que extrapolem o universo pedagógico devem ser encaminhadas para os profissionais competentes”, reforça.

A instituição, por sua vez, deve usar métodos comprovadamente eficientes para a socialização dos novos alunos. A relação entre eles deve ser baseada em instrumentos pedagógicos para que o sentimento de confiança da criança seja natural. “A instituição de ensino tem a tarefa de ser rigorosa no despertar do esforço. Vivemos um momento em que as escolas brasileiras estão buscando um modelo mais eficiente. Nossos resultados no ranking internacional são muito ruins. É a hora de pais, educadores e alunos serem mais esforçados e entenderem que conhecimento requer trabalho”, afirma Heliana.

Para Myrna, é importante ficar atento à reação e ao processo individual de adaptação de cada aluno. “Há crianças que se entrosam no primeiro dia e, no segundo, já dispensam seus pais; outras reagem com muita ansiedade e por muito mais tempo. Cada indivíduo tem seu jeitinho próprio. O tempo de permanência dos pais para a adaptação costuma ser entre um e sete dias, podendo chegar a aproximadamente dez dias”, afirma.

Por parte da escola, a necessidade dos pais ficarem com as crianças por mais tempo deve ser observada e possivelmente algumas providências devem ser tomadas. O caso deve ser avaliado pela coordenação para oferecer alternativas de adaptação aos pais e à criança. “Uma observação importante refere-se ao tipo de choro apresentado. Nem todo choro significa sofrimento emocional, precisamos lembrar que quanto menos habilidades verbais uma criança tem, mais ela usará o choro para se comunicar”, ameniza a terapeuta.

 A profissional ainda ressalta que é necessário que os profissionais sejam flexíveis em relação aos pais, que também estão sensibilizados com a situação. “Cada pessoa é única e tem reações particulares diante da mesma realidade. Cabe aos profissionais terem, nesta fase, um proceder mais individualizado com as crianças e com a família, pois eles chegarão com demandas emocionais diferentes. Com o tempo, tudo se acalma e as coisas poderão ser feitas de forma mais coletiva”, enfatiza.

Para Luciana Orsini, coordenadora pedagógica do Colégio Auxiliadora, é importante observar os aspectos físicos e o projeto pedagógico da instituição escolhida, mas a relação entre a escola e a família é ainda mais primordial. “A escola deve estar aberta à família, realizar reuniões periódicas e sistematizadas, além de contar com a participação dos pais”, pontua.

Para ela, a instituição de ensino é responsável por preparar o ambiente adequado. “A adaptação deve acontecer tranquilamente, respeitando cada um. Os professores deverão estar atentos à preparação das atividades, com muita paciência e com o desejo de conquistar a criança”, acrescenta Luciana. O respeito às vontades de cada um e a demonstração de que a escola é um ambiente que permite o aprendizado de maneira divertida garantem o conforto dos pequenos. “As atividades cotidianas devem ser atrativas, com movimento, cores, músicas e muito entusiasmo. O professor deve ficar atento e envolver a turma, buscando alternativas que agradem a todos”, frisa a coordenadora.

A primeira vez
Erciliene Martins é ginecologista e mãe de Lissa, de cinco meses, e de Enzo de quatro anos. A médica já viveu a estreia na escola em dose dupla. Devido à volta ao trabalho, Lissa vai para a escola este ano. “Acho muito cedo para colocá-la na escola, mas não tive opção, pois tenho que retornar ao meu trabalho”, lamenta. Entretanto, Erciliene foi cautelosa na escolha do melhor local para a sua caçula. “Para mim, foi tranquilo tomar essa decisão porque o Enzo frequenta a mesma escola. Além disso, dei preferência à instituição porque sei que o número de alunos por sala é reduzido. A estrutura física,  a organização e o quadro de educadores também foram decisivos para mim”, enfatiza Erciliene.

Segundo a médica, mesmo conhecendo o ambiente, o momento da separação é sempre doloroso. “Após cinco meses de convívio intenso e amamentação exclusiva, esse processo se torna bastante difícil, especialmente para as mães, pois as crianças se adaptam mais facilmente ao ambiente e à situação. O que fica em nós é o sentimento de culpa que parece perseguir a maternidade eternamente. Estamos sempre questionando nossas decisões”, desabafa.

Apesar da insegurança natural, a experiência é positiva. Erciliene acredita que Lissa aprenda, desde cedo, a conviver, a dividir, a respeitar e a ter autonomia. “O Enzo é um exemplo que vem para confirmar que a escolha foi certa. São quatro anos convivendo em uma escola que investe na formação de pequenos cidadãos éticos, solidários, responsáveis e desafiadores. Espero que a Lissa aprenda os mesmos valores e, principalmente, que a mãe dela consiga se acostumar com a saudade rapidamente”, observa Erciliene.

Para os pais Eduardo e Juliana Aleixo, auditor e comunicadora social,  a adaptação é anterior ao primeiro dia de escola. Para Juliana, o nascimento do primeiro filho Davi, hoje com cinco anos, representou uma nova realidade para a família inteira. “O nascimento de uma criança requer mudanças na rotina dos pais. Quando chega o momento de encarar a escola, deixar seu ‘bem maior’ nas mãos de outras pessoas exige confiança e, mais uma vez, flexibilidade para se adaptar”, afirma Juliana.

Davi foi para a escola aos cinco meses e conciliar a rotina de trabalho dos pais com os horários da instituição foi cansativo. Então, Juliana passou a se dedicar integralmente ao papel de mãe. Aos dois anos, Davi retornaria à escola e mais um novo processo de adaptação começaria. “Essa foi uma fase mais tranquila, pois ele já falava de tudo e expressava suas vontades”, relembra.

Atualmente, o casal tem mais um filho, Caetano, de dois anos. “Optamos por deixar os dois irmãos na mesma escola e nos mesmos horários. Com Caetano, o processo foi mais suave, pois ele já estava habituado com o universo escolar pelo exemplo de Davi”, garante a mãe. Mas os pais ficam atentos a qualquer sinal de mudança no comportamento dos meninos. “Eles sabem de todas as etapas, desde a procura pela melhor escola até a rotina que deverá ser obedecida”, afirma o pai.

Para a escolha da instituição certo, Juliana e Eduardo observaram a proposta pedagógica, a filosofia, os valores transmitidos e o espaço físico adequado. Embora ainda esteja em fase de adaptação com o filho menor, os pais estão tranquilos. “O comum ‘eu quero minha mãe’ e o choro de Caetano existem, mas sem traumas. Conversamos previamente sobre a escola e sobre o que ele encontraria por lá”, enfatiza Juliana.

A ansiedade é comum nos pais, porém, para eles, todas as questões devem ser decididas em conjunto. “Esse é um ponto importante nesse momento, a decisão comum, pois assim, assumimos os riscos juntos, o que nos deixa seguros diante dos meninos e, assim, os deixamos mais calmos”, conclui Juliana.

A nova legislação
Em abril de 2013, o Governo Federal publicou, no Diário Oficial da União, uma alteração na lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Entre as novidades, está a obrigação de matricular as crianças na educação básica (pré-escola), aos quatro anos de idade. Estados e municípios têm até 2016 para garantir a oferta de vagas apropriada.

I- a educação básica obrigatória e gratuita vai dos quatro aos 17 anos, organizada da seguinte forma:
a) Pré-escola;
b) Ensino Fundamental;
c) Ensino Médio;

II - a educação infantil deve ser gratuita para crianças de até cinco
anos de idade;

III - deve haver atendimento educacional especializado gratuito aos educandos com deficiência, transtornos do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação, transversal a todos os níveis, etapas e modalidades, preferencialmente na rede regular de ensino;

Outras cláusulas
-
Acesso público e gratuito aos ensinos Fundamental e Médio a todos os que não os concluíram a educação na idade própria;
- Para a educação infantil, a carga horária mínima anual passa a ser de 800 horas, distribuídas por um mínimo de 200 dias;
- Atendimento à criança na educação infantil de, no mínimo, quatro horas diárias para o turno parcial e de sete horas para o integral;
- Acompanhamento da frequência e registro do período letivo;
- Avaliação e registro do desenvolvimento das crianças, sem o objetivo de promoção, mesmo para o acesso ao ensino fundamental;
- Controle de frequência, que deve atingir, no mínimo 60% do total de horas;

Avalie bem a escola

Ambiente físico: os pais devem observar quesitos como segurança para a criança e os facilitadores do aprendizado, além de espaços adequados para brincadeiras, salas arejadas, mobiliário adequado, etc. Os critérios de higiene da escola também devem ser considerados;


Metodologia de ensino:
como existem diferentes métodos pedagógicos, os pais dever estar cientes de qual é a escolha da escola e, principalmente, estar de acordo com ele;



Canal de comunicação entre a escola e os pais: verifique se a escola apresenta instrumentos que permitam uma fácil e ágil comunicação com os pais, como reuniões periódicas;



Relação número de alunos e o número de educadores:
este dado é importante porque salas muito cheias dificultam o acompanhamento individualizado do aluno, essencial para que o processo de ensino e aprendizado seja mais efetivo;

Aprimoramento: profissional:  os professores devem se atualizar e investir em aprimoramento profissional contínuo. A educação é uma área da ciência que sofre modificações e transformações importantes nos processos de ensino e de aprendizado;


Alimentação:
verifique se a escola possui um nutricionista e certifique-se de que os padrões de alimentação da escola são adequados à saúde do
seu filho;


Segurança: a escola precisa de bons padrões de vigilância e de segurança, principalmente em relação à entrada principal e a outros acessos que levam ao interior da escola;



Princípios e valores:
escola e família devem agir em cumplicidade, por isso, pais e professores devem compartilhar os mesmos valores. Só assim haverá coerência nos ensinamentos oferecidos à criança tanto na escola quanto em casa.


Texto: Cristiane Araujo | Fotos: Carolina Alves e Julio Sian

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