É hora de pedalar

É hora de pedalar

Os ribeirãopretanos estão descobrindo que andar de bicicleta, além de ser uma atividade prazerosa, pode trazer inúmeros benefícios para a saúde e para a qualidade de vida

Tudo começa como uma divertida brincadeira de criança. Na infância, a bicicleta costuma ser uma companhia constante, a parceira ideal para incríveis aventuras. Alguns anos depois, ela se transforma em um meio de transporte praticamente indispensável, trazendo uma sensação de liberdade que supre, sob medida, os anseios dos adolescentes, ávidos por explorar o mundo sem desperdiçar um minuto sequer. Porém, na fase adulta, com a rotina agitada, essa amiga fica esquecida, estacionada em algum canto da casa. Felizmente, hoje em dia, várias pessoas têm optado por um final diferente para essa história. A busca crescente pela tão sonhada qualidade de vida fez com que as bikes voltassem à ativa com força total, ocupando um lugar de destaque nas ruas de Ribeirão Preto.

Os cliclistas, individualmente ou em grupos, multiplicam-se pela cidade e os especialistas que atuam na área da saúde comemoram essa mudança de comportamento. Segundo Fábio Borsato da Luz, coordenador da Academia ArenaFit, do Complexo Donisoccer, pedalar é extremamente benéfico para o ser humano. “O ciclismo é uma ótima alternativa para quem quer acabar com o sedentarismo. Esse exercício melhora o condicionamento aeróbio, regulando os índices de glicemia e de colesterol, por exemplo, e evitando uma série de doenças relacionadas ao sistema cardiorrespiratório. Aprimora o equilíbrio e a coordenação ao mesmo tempo em que trabalha toda a musculatura do corpo, não só a dos membros inferiores, como muitos imaginam”, revela Fábio. Além disso, é uma forma eficiente de eliminar aquela gordurinha extra. Um passeio de uma hora queima, em média, 360 Kcal.

Para os leitores que se animaram com a ideia e pretendem testar suas habilidades sobre duas rodas, o educador físico tem algumas recomendações. “O indicado é que o início do processo seja tranquilo e confortável, sem desgaste excessivo ou dor, durante ou após a conclusão do trajeto programado. A dor é um indicativo de que algo saiu errado. Cada um tem o seu limite e deve respeitá-lo. Se a pessoa se sentir à vontade e gostar de pedalar, pode aumentar, gradativamente, a frequência e a intensidade do exercício, com percursos mais complexos e desafiadores”, completa Fábio. Vale lembrar que, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), um indivíduo é considerado ativo se praticar atividade física pelo menos três vezes por semana, por pelo menos 30 minutos.

Luiz Fernando Lima, fisioterapeuta do Complexo Donisoccer, aponta outro ponto positivo do ciclismo: o baixo impacto que gera, reduzindo o estresse sobre as articulações, principalmente do tornozelo, do quadril e da coluna. “Fora o risco de queda, não há motivos para preocupação, desde que o exercício seja feito com segurança e que o praticante busque orientação para escolher o modelo e os equipamentos adequados ao seu perfil. É fundamental que as duas partes estejam em total harmonia”, enfatiza Luiz Fernando.

Muita gente não sabe, mas o tamanho do quadro da bicicleta em relação à altura do seu ocupante é um dos fatores que colaboram para que esse fino ajuste de engrenagens aconteça. “As proporções e os posicionamentos em equilíbrio ajudam o ciclista a manter uma postura correta. Apesar de ser, às vezes, negligenciada, essa questão é superimportante. Qualquer desalinhamento pode acarretar em lesões ou dores na coluna lombar, na cervical, nos punhos, nos joelhos e nos tornozelos. A musculatura envolvida na atividade também tem chances de sofrer uma sobrecarga”, alerta. Por isso, antes de ingressar nesse universo do pedal, o fisioterapeuta sugere que o interessado passe por uma avaliação especializada. Depois de analisar diversas variáveis, esse estudo mostrará qual o melhor caminho a seguir, afinal, a bicicleta é versátil e oferece inúmeras possibilidades de uso. Confira algumas delas.


UMA OPÇÃO DE LAZER

A maioria das pessoas se interessa pelo ciclismo como um hobby, uma opção para curtir os momentos de lazer. Foi dessa maneira despretensiosa que Fabiane Caligaris começou a pedalar. “Trabalho em uma loja especializada em bicicletas que promove passeios noturnos pela cidade. Um dia, após encerrar o expediente, em vez de ir para casa, decidi me juntar ao grupo. Desde então, nunca mais parei. Tenho pouca paciência para frequentar academia, entretanto, sei que me exercitar é essencial. O ciclismo surgiu como a solução desse problema. É um esporte ao ar livre, que me proporciona resistência, força, disposição, saúde e diversão. Não vejo o tempo passar”, comenta Fabiane. Da turma dos iniciantes, logo evoluiu para a de avançados e, aos fins de semana, ainda percorre trilhas em estradas de terra na região.

Hoje, a bike faz parte da rotina da vendedora. Ciente dos ganhos que conquistou no decorrer dessa jornada, Fabiane tenta incentivar os amigos a seguir seu exemplo. “Convido todos para participar. Muitos deles já aceitaram e adoraram a experiência”, revela. A questão da socialização que essa atividade permite é um atrativo para Fabiane. “Ao lado de outras pessoas, a motivação é intensificada. Além disso, através do grupo, tive a oportunidade de ampliar minha rede de contatos. Fiz novos amigos, que são diferentes em vários sentidos, mas compartilham da mesma paixão pelo ciclismo. Trocamos dicas e informações sobre esporte, alimentação e os acessórios para aprimorar o rendimento. Pedalar se tornou um delicioso compromisso, do qual não falto de jeito nenhum”, afirma a vendedora.

ESPORTE DE ALTA PERFORMANCE

Tiago Belloube foi além e escolheu o esporte como profissão. Desde cedo, o educador físico desenvolveu uma afinidade muito grande com o ciclismo. “Com 12 anos, já andava de bicicleta. Percorria, aproximadamente, 10 km todos os dias para ir de casa até o trabalho. A partir dos 14 anos, um dos meus programas favoritos era pegar a mountain bike, reunir os amigos e pedalar por aí, de preferência em trilhas fora da cidade. Durante esses passeios, conseguia realizar os trajetos com bastante facilidade. Tinha um desempenho acima da média. Por isso, resolvi testar meus limites e fiz a inscrição em uma competição da modalidade”, lembra Tiago. Depois da primeira prova, o atleta teve a certeza de que continuaria se dedicando a esse projeto por um longo período.

Cada pódio era um incentivo a mais. Em 2013, foi vice-campeão do maior campeonato de Mountain Bike da região, A Liga, e garantiu também a segunda colocação na Copa Interior de Triatlhon, ambos na categoria 30-34 anos. Em 2014, foi campeão da Copa Interior de Triatlhon e chegou em terceiro lugar na Prova de 100 km dos Canaviais de Mountain Bike. Neste ano, apesar de um problema na bike, finalizou o IronMan em 10h e 20 minutos e foi o vencedor da Maratona dos Canaviais, dessa vez na categoria 35-39 anos. Para atingir esses resultados, o ciclista possui muita disciplina. Os treinos são divididos em intensivo, de 20 km a 40 km pedalando com um ritmo forte, extensivo, com mais de 100 km percorridos em intensidade baixa, e intervalado, que mistura estímulos fortes, de um a cinco minutos, com cinco minutos de descanso, em um total de uma hora e 30 minutos de duração. Pela animação de Tiago há, ainda, diversas conquistas por vir. “Adoro tudo o que está relacionado a esse esporte: o suor, a dor, a interação com os amigos, o gosto da terra na garganta, a sujeira nas pernas e as paisagens. Aquela sensação de missão cumprida, de vitória, é algo indescritível”, resume o atleta.

MEIO DE TRANSPORTE DIVERTIDO E SUSTENTÁVEL

O administrador de empresas Sidnei Calil optou por utilizar a bicicleta de outra forma: como meio de transporte. “Meu sonho é viver em um local onde os carros, simplesmente, sejam desnecessários. Apesar de Ribeirão Preto não oferecer as condições ideais, já que a cidade conta com uma topografia acidentada, cheia de altos e baixos, um clima extremamente quente e alguns motoristas desatentos, quis fazer a minha parte para mostrar que essa ideia pode se transformar em uma realidade”, explica Sidnei. Há menos de um ano, ele comprou uma bike elétrica para se locomover. Com o sistema de pedal assistido, é preciso se movimentar, constantemente, para contar com o auxílio do motor, que potencializa o rendimento.

Durante a semana, o administrador sai cedo do condomínio onde mora, próximo de Bonfim Paulista, e vai até o trabalho, que fica perto do cruzamento das avenidas Presidente Vargas e Antônio Diederichsen, em poucos minutos. “É uma verdadeira terapia. Tomo um ar fresco, não me estresso com o trânsito, cuido da minha saúde e fico muito mais disposto para encarar os compromissos”, comenta. O automóvel só sai da garagem nos dias de chuva ou quando o passeio é feito em família. “Se estou sozinho, faço tudo de bicicleta. Encontro os amigos no bar para um happy hour, vou ao banco, ao correio, ao supermercado e em qualquer lugar com rapidez, praticidade e economia. Desde que mudei para esse novo meio de locomoção, ganhei pontos na qualidade de vida”, confessa Sidnei. O administrador percorre, tranquilamente, 200 km por semana.

Além dos benefícios próprios, ele destaca o bem que essa conduta pode fazer para a cidade. “É preciso investir na mobilidade urbana. Quanto mais pessoas adotarem a causa, melhor. Teremos um ambiente agradável e sustentável, diminuindo o caos e os níveis de poluição, por exemplo. Porém, essa é uma tarefa que exige a colaboração de todos, um esforço conjunto entre a administração pública, o setor privado e o cidadão”, conclui Sidnei.

Segundo Paulinho e Adair Francisco Silva, da Bike Center, o crescimento do número de ciclistas pelas ruas é uma tendência mundial que veio para ficar. “Especialmente nos países da Europa, o uso da bicicleta para diversas finalidades já é algo natural. Faz parte da cultura, da educação deles. O Brasil, aos poucos, está descobrindo os encantos dessa atividade e, é claro, que Ribeirão Preto não poderia ficar de fora”, comentam os empresários.

De olho no grande potencial desse mercado, as indústrias não param de inovar. Produtos e tecnologias são lançados periodicamente, atraindo a atenção do público. Com tanta variedade à disposição, vale a pena se informar antes de fechar o negócio. Existem modelos específicos, com características bem particulares, elaborados sob medida para cada função.

Fazer a escolha certa é crucial para que essa aventura seja bem-sucedida. “Para pedalar na cidade, a melhor opção é a urbana, pelo conforto. A mountain bike tem resistência superior para quem prefere andar em uma pista de terra. Já para os profissionais, que buscam alta performance, sugerimos a speed”, orienta Adair. A loja tem bicicletas básicas, que custam cera de R$ 500, até as sofisticadas, que chegam a R$ 50.000, com diferentes materiais, cores e design. “Atualmente, as campeãs de vendas são as que ficam na faixa de R$ 2.000 a R$ 5.000, com aro 29 e de 20 a 30 marchas”, revela Paulinho.

A Bike Center também é a responsável por um dos mais tradicionais grupos de passeio ciclístico noturno, que roda pela cidade há 19 anos. “Mais do que vender bicicletas e acessórios, nosso foco está na saúde, na qualidade de vida e na felicidade dos nossos clientes. O grupo foi formado para consolidar essa proposta. Temos participantes de 16 anos a 80 anos, que se divertem, enquanto se cuidam e divulgam o esporte”, finaliza Adair.

 

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