É tempo de São João
Nesta época do ano, os “arraiás” tomam conta do país: a celebração tornou-se uma das mais conhecidas expressões da cultura popular brasileira
Quem nunca se contagiou pelo clima festeiro do São João? Essa festa de características ditas “caipiras” foi adotada pelo povo brasileiro e, hoje, toma conta de quase todo o território nacional. Ruas, praças e escolas de diversas cidades são decoradas com bandeirinhas coloridas e barracas montadas geralmente ao ar livre, onde são servidas comidas e bebidas típicas. Também são comuns brincadeiras, como pescaria, argolas, tiro ao alvo e danças tradicionais, como a quadrilha.
O ciclo das festas juninas começa em meados de junho, quando se celebram três santos: Santo Antônio, no dia 13, São João, no dia 24, e São Pedro, no dia 29 de junho. De cunho religioso ou solidário, essas festas tomam conta do inverno ribeirãopretano, animando as noites da população.
No vasto calendário de festanças está a Festa Junina Beneficente da Estação Vassoural, realizada em prol da Associação de Equoterapia Vassoural (EAV). O evento, que em 2013 chega à 5ª edição, já recebeu cerca de 800 pessoas.
Segundo Rodolfo Biagi, um dos organizadores do “arraiá”, a intenção sempre foi unir a tradição junina a uma ação beneficente. “Cresci acompanhando eventos sociais e sempre gostei da tradição das festas juninas. Minha vontade era juntar as duas coisas em um evento alegre e importante culturalmente”, explica o organizador.
Frequentadora assídua das festas juninas, a jornalista Janaína Aparício começa a programar o seu roteiro no início do mês. “No final de maio, já fico na expectativa para a chegada das festas juninas. Procuro faixas nas ruas, datas na internet e me programo para ir em cada uma”, acrescenta. Além das famosas quermesses organizadas por igrejas, a jornalista costuma frequentar eventos juninos beneficentes. “Acho muito válido unir diversão e solidariedade. Através desses eventos podemos começar a fazer a diferença e a ajudar a quem realmente precisa”, opina.
Pela tradição, a festa junina é um momento de celebrar os bons resultados da colheita e também de pedir que o próximo plantio traga bons frutos. Os “arraiás” estão enraizados na arte popular, com influências próprias de cada região, cheio de alegria, poesia e inspiração.
Janaína relembra que, quando era criança, esperava a época das festas juninas para se caracterizar e aproveitar as danças e as brincadeiras. A animação para participar da festança não parou por aí. Hoje em dia, trocou o típico casamento caipira pelas inúmeras opções gastronômicas. “Gosto da festa em si, mas confesso que fico esperando para saborear as comidas típicas, como canjica, cural, bolo de milho, quentão entre muitas delicias”, revela.
De origem europeia, a festa junina chegou ao Brasil pelas mãos dos portugueses. Inserida rapidamente na cultura local, suas características ganharam novas feições, especialmente à mesa. Em solo nacional, foram introduzidos o aipim, conhecido também como mandioca, o milho, o jenipapo e o leite de coco, por exemplo.
De acordo com o professor e historiador Carlo Monti, no Brasil é possível encontrar duas vertentes principais para a festa junina: o modelo nordestino e o caipira — o segundo reúne os estados de Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. “Mas cada localidade tem uma cultura diferente, porque cultura é dinamismo. Ela possibilita que as práticas comuns naquele lugar sejam absorvidas e utilizadas também na festa junina”, revela o professor.
Com a rápida urbanização, os costumes do campo foram transportados para a cidade. Desta forma, as festas juninas foram perdendo um pouco do sentido religioso e assumindo um caráter folclórico e cultural.
Segundo o padre Elviro Pinheiro Junior, que também exerce o ministério sacerdotal, as festas juninas como são atualmente fazem mais parte de um calendário cultural do que religioso. “Acredito que a Igreja mantém as celebrações em memória dos santos, bem como ao devocionismo popular, como as reuniões de amigos e familiares para a oração do terço e o hasteamento da bandeira”, explica.
Janaína, Rodrigo, Carlo e Elviro acreditam que, além de fomentar a cultura popular, a festa junina é um ótimo lugar para encontrar amigos e confraternizar. “A alegria deste tipo de evento é contagiante, um ótimo lugar para encontrar amigos e familiares”, aponta Janaína.
Para Rodolfo, o tema da festa é um ótimo ponto de partida para promover outros acontecimentos. “A partir dela conseguimos promover um evento bacana e ainda ajudamos outras pessoas”, argumenta. Na opinião do historiador Carlo Monti e do padre Elviro, a celebração é um momento de sociabilização significativo. “Vejo a festa como um momento de encontro e confraternização com os fieis de nossas comunidades paroquiais. É muito agradável”, opina Elviro. “Hoje em dia, temos perdido essas práticas de sociabilização, tendo em vista o aumento da violência, entre outras coisas. Assim, esse encontro na rua é de grande importância”, frisa Monti.
O ciclo junino
Apesar das festas juninas homenagearem três santos, a origem das comemorações nessa época do ano é anterior à era cristã. No hemisfério norte, várias celebrações pagãs aconteciam durante o solstício de verão, data astronômica que marca o dia mais longo do ano — por lá, ocorre nos dias 21 ou 22 de junho. Diversos povos da antiguidade, como os celtas e os egípcios, aproveitavam a ocasião para organizar rituais em que pediam fartura nas colheitas. Essas celebrações também aconteciam no dia 24 de junho, dia de São João. Por esse motivo, alguns países europeus católicos do século IV adaptaram a festa ao calendário cristão.
Nestes países, a festa era inicialmente chamada de “joanina”, em homenagem a São João. Trazida pelos portugueses para o Brasil, tornou-se festa “junina” e foi incorporada aos costumes locais. “No país, devido à colonização portuguesa, foi transplantada a adoração a Santo Antônio, santo de grande devoção portuguesa. Com isso, adotou-se o nome de festas juninas, por ser o mês dos santos já mencionados”, ressalta padre Elviro.
Carlo acredita que o cristianismo regionalizou a festa junina. “O cristianismo se apropriou de várias manifestações pagãs ou de outras religiões e reorganizou segundo o modelo cristão. Surgiram, a partir dessa rearticulação, as primeiras mudanças nas características da festa”, lembra o professor.
Nesta época, havia uma grande influência de elementos culturais portugueses, chineses, espanhóis e franceses. Da França, veio a dança marcada, característica típica das danças nobres e que, no Brasil, influenciou muito as típicas quadrilhas. Já a tradição de soltar fogos de artifício veio da China, região de onde teria surgido a manipulação da pólvora para a fabricação de fogos. Da península Ibérica teria vindo a dança de fitas, muito comum em Portugal e na Espanha.
Para Carlo Monti, essa mudança de localidade permite que os elementos da festa junina tomem feições locais atreladas a marcas culturais regionais e, aos poucos, distancie-se do modelo europeu. “Nenhuma cultura é estática e, como qualquer outro modelo, ela vai absorvendo as tradições regionais. Como exemplo, podemos citar a mudança na alimentação: antigamente, eram servidos pratos como a broa, que hoje em dia foi substituída pelo cachorro-quente”, exemplifica.
Todos estes elementos foram, com o passar do tempo, misturando-se aos aspectos culturais dos brasileiros nas diversas regiões do país, tomando características particulares em cada uma delas. Carlo frisa que todas as tradições são significativas e que elas têm o poder de aumentar a ideia de pertencimento da cultura pelo povo. “As tradições nos informam quem somos. Elas nos fazem relembrar nossa memória coletiva enquanto nação, daí o significado dessas manifestações. A festa junina existe em vários países, contudo, da forma como é aqui, é única, sempre com alegria, companheirismo, história e diversão”, conclui.