Economia em pauta
Os professores da FEA-USP, Alberto Borges Matias e Rudinei Toneto Júnior, debatem o cenário atual da economia brasileira

Um é bacharel, mestre e doutor em Administração de Empresas, com livre-docência em Finanças. O outro é professor, mestre, doutor e livre-docente em Economia. Ambos atuam no campus ribeirãopretano da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo. A conversa entre dois especialistas reconhecidos, como Alberto Borges Matias, no papel de entrevistador, e Rudinei Toneto Junior, respondendo aos questionamentos do colega, não poderia resultar em nada menos do que uma verdadeira aula de economia.
Matias: Como você tem avaliado o desempenho recente da economia brasileira?
Toneto: A principal questão do Brasil nos últimos anos tem sido a retomada do crescimento econômico. Como você mesmo costuma dizer, o país sempre enfrenta uma onda de pessimismo em relação ao futuro, mas isso tem uma explicação: são mais ou menos três décadas de crescimento baixo. No Brasil, não historicamente, mas considerando as últimas décadas, um pouco de pessimismo e insegurança fazem parte da vida empresarial. Mas quando analisamos a história brasileira do século passado, chegamos à conclusão de que o país foi um dos casos de sucesso mundiais. Falamos muito em milagre japonês, em milagre chinês ou em milagre indiano, mas até os anos 80, o milagre econômico mundial era o brasileiro. No período pós-guerra, tivemos uma rápida transformação econômica, deixando de seu um país agrário para ser uma das principais nações industriais do mundo, crescendo, em média, de 7% a 7,5% ao ano. Naquele momento, a questão básica do crescimento — característica perdida a partir dos anos de 1980 — eram as altas taxas de investimento praticadas por aqui. Investia-se muito, por exemplo, na modernização da infraestrutura, na melhora do sistema educacional, na constituição de um sistema universitário. Esses aportes foram perdidos nos últimos 30 anos, quando foram reduzidas a poupança pública e a poupança como um todo. Perdemos, assim, a capacidade de investir e de inovar em produtividade, o que resultou no que passamos a chamar de três décadas perdidas.
Matias: Isso mudou nos últimos anos?
Toneto: Este cenário começou a ser alterado no final da última década. Começamos a ver muitas transformações a partir do governo Fernando Henrique Cardoso, que se acentuaram no primeiro mandato do governo Lula. Nesse período, houve mudanças importantes, como a melhora do mercado de crédito, cujo sistema foi aprimorado. O sistema financeiro também passou por melhorias, facilitando esse funcionamento, o que contribuiu para que o país desse maior dinamismo ao mercado interno. De certa forma, foi possível retomar o crescimento a partir do segundo mandato do governo Lula, o que teve uma forte contribuição do cenário econômico mundial.
Matias: Qual a situação que se coloca agora, no governo Dilma Rousseff?
Toneto: A principal questão que volta à pauta no governo Dilma é se o crescimento que verificamos durante o governo Lula era sustentável ou não. Temos, aí, uma questão-chave da economia brasileira, um dilema básico: nos períodos em que crescemos muito no passado, crescemos concentrando renda nas mãos de poucos. Já no governo Fernando Henrique, começou a haver uma mudança e a renda passou a ser distribuída, o que foi acentuado no governo Lula através de programas sociais tipo bolsa-família e outras políticas de transferência de renda. Só que isso chegou ao limite. Enfrentamos outro dilema hoje: ao melhorar a distribuição de renda, não conseguimos retomar níveis satisfatórios de poupança para voltar a investir e garantir o crescimento. Como, então, retomar o crescimento, ampliar a poupança e preservar os ganhos de distribuição de renda do período recente? A constituição da classe média brasileira, amplo mercado consumidor, é o ponto mais visível dessa melhora na distribuição da renda no país. Nesse aspecto, o Brasil ainda tem um grande potencial de expansão, precisa explorar o otimismo, fazendo com que ele vire ganho de produtividade, poupança e acumulação de capital.
Matias: Essa dúvida não está ligada ao fato de o empresário se sentir órfão do governo?
Toneto: Acredito que sim. Grande parte dessa retenção que aconteceu se deu porque o governo perdeu a capacidade de investir, reduzindo muito sua poupança. Sempre tentou incorporar tudo sob seu guarda-chuva. No entanto, fazer política de distribuição de renda e, simultaneamente, tentar avançar preservando setores econômicos, o mercado de crédito e outros, reduziu a capacidade do Estado de controlar a economia. Além disso, grandes setores econômicos são dependentes do governo, seja como regulador ou provedor direto. Educação, saúde, infraestrutura e uma série de outros setores são muito dependentes do Estado. Sem a capacidade de investir, o governo não consegue atrair o setor privado. Como as empresas irão investir, ampliando fronteiras agrícolas e o setor industrial, por exemplo, se temos sérias deficiências de rodovias, portos, ferrovias, saneamento básico e energia elétrica? Essa incapacidade de resolver problemas estruturais deixou o empresário órfão e incapacitado para realizar seus investimentos.
Matias: Na sua opinião, qual deve ser a postura do Estado para que o país volte a crescer?
Toneto: Uma questão-chave dessa discussão: será que precisamos desse estado que preserva todas as atividades econômicas, que continua com um comando muito centralizado em diversas atividades e, simultaneamente, faça a distribuição de renda? Os ganhos que tivemos nesse segmento não podem ser ignorados e precisam ser preservados a todo custo. Temos que fortalecer os ganhos em distribuição de renda, garantindo a consolidação de ações como a universalização da educação — não só da Educação Fundamental, mas também na Pré-escola e no Ensino Médio —, com mais qualidade e incentivando os projetos sociais que melhoram a possibilidade de acesso da população de baixa renda. O saneamento básico no Brasil também é uma vergonha. Isso aumenta a incidência de doenças e eleva o número de faltas ao trabalho, impactando a produtividade. Pouco mais da metade das casas brasileiras têm acesso à rede de esgoto, o que é um absurdo para o nível de desenvolvimento que atingimos. Se o governo focar nessa questão, por exemplo, terá que abrir mão de outras atividades. Por exemplo, será que vale a pena intervir tão pesadamente no mercado de crédito e garantir subsídios em algumas operações? Será que vale a pena avançar em políticas de compra tão fortes como forma de garantir algumas atividades? O que precisa é conquistar a confiança do empresariado para que eles possam avançar nesses investimentos e deixar que o governo garanta educação, saúde, saneamento básico e dê sustentação ao amplo mercado consumidor criado recentemente, assegurando que a distribuição de renda continue.
Matias: Nesse processo, a expansão do mercado interno foi importante, e continua sendo, com um grande potencial de crescimento. Como você enxerga daqui para frente o mercado de crédito: chegamos a um ponto de saturação que vai exigir um assentamento das condições para um crescimento futuro ou dá para continuar incentivando o crédito?
Toneto: Acredito que esse assentamento já tenha ocorrido. Se analisarmos o último ano, as concessões de crédito ao consumidor já se retraíram. Essa diminuição ocorreu por vários aspectos: pela própria estagnação da atividade econômica no país, ou seja, pelo baixo crescimento; pela perda do poder de compra do consumidor graças ao aumento da inflação; e pelo crescimento muito rápido que ocorreu desde 2003 até o final da última década. Agora, se o investimento for retomado e se a aceleração da inflação for controlada, preservando o ganho real, o mercado de crédito terá todo espaço para voltar a crescer.
Matias: Nesse desenvolvimento, a educação não é um ponto comprometedor?
Toneto: Ela está relacionada às opções de governo já mencionadas. Se nossa opção é focar principalmente na melhora da distribuição de renda e gastar mais com a parcela mais vulnerável da sociedade, teremos que melhorar muito a Pré-escola, a Educação Básica e a Fundamental. Aí deve se concentrar o papel do governo. Ao focar nesse grupo, tanto universalizando quanto ampliando a qualidade da educação nessas etapas, ao Ensino Superior chegarão alunos melhor preparados a serem trabalhados. Quando pensamos no Ensino Superior, precisamos considerar a demanda existente no mercado de trabalho para ampliar vagas. Para isso, é necessário reativar a demanda e a indústria, incentivando setores tecnológicos, que exigem profissionais qualificados. Com um mercado de trabalho que depende prioritariamente de mão de obra de menor qualificação, que incentivo estamos dando ao jovem que sai do Ensino Médio? Se esse estudante achar que o salário dele terá um grande ganho, por conta de uma boa colocação no mercado, ele vai procurar o Ensino Superior e o mercado vai, por outro lado, oferecer as vagas necessárias. Se o governo assegurar Ensino Fundamental e Médio universal de boa qualidade, garantiremos uma demanda forte para o Ensino Superior, desde que consigamos fomentar as atividades de maior valor agregado.
Matias: Até agora, esse processo não aconteceu e a educação é um investimento de longo prazo. Atualmente, o país já sofre com a falta de mão de obra qualificada em diversos setores. Estamos começando a verificar a entrada de profissionais europeus no mercado de trabalho brasileiro. Esse incremento é positivo?
Toneto: Acredito que sim. Hoje temos uma falta de mão de obra qualificada que não pode ser resolvida imediatamente, exatamente pelas falhas estruturais na educação e por questões da estagnação do mercado. Na outra ponta, vemos a oferta excedente de mão de obra qualificada nos países de baixo crescimento. Portanto, acho positivo que seja facilitado o acesso desses profissionais para gerar capacidade de crescimento ao Brasil. Com isso, não estou dizendo que o país deva aceitar qualquer tipo de profissional. Temos que garantir exames, certificações e diplomas. Mas, nesse momento em que temos uma escassez em vários setores, o ingresso de profissionais estrangeiros é positivo para o país.
Matias: Os grandes eventos esportivos que já chegaram ao Brasil contribuíram menos do que se esperava estruturalmente. Ainda assim, o Brasil ganha com os investimentos já feitos e previstos para os próximos anos?
Toneto: Novamente, estamos diante da questão do foco da política pública. Para a marca “Brasil”, esses investimentos são muito importantes. Porém, se fizermos qualquer cálculo de taxa de retorno de investimento, acredito que tenha havido alocação equivocada do dinheiro público. Se tomarmos os estádios que, depois da Copa, apresentarão taxa de retorno negativa, quanto não poderíamos ter avançado em termos de saneamento básico, por exemplo? As Olimpíadas de 2016 foram propostas com a promessa de que o esgoto da região metropolitana seria 100% coletado e tratado antes de ser despejado para não poluir a Baía de Guanabara. Alguns investimentos avançaram, mas a região metropolitana do Rio continua apresentando os piores indicadores do país em termos de coleta e tratamento de esgoto. Será que não há uma distorção social e de longo prazo aonde esses recursos foram alocados?
Matias: De que forma tirar o melhor proveito desses investimentos?
Toneto: É preciso criar regras bastante estáveis, modelos de governança adequados, com transparência, confiança e certeza de que os contratos serão cumpridos. É preciso, ainda, checar quem é o melhor gestor. Dessa forma, dá para garantir que o investidor tenha o retorno esperado e, com isso, promover o retorno social que se espera. Eu não sou contra os eventos esportivos no país. Eles são importantes para colocar o Brasil em uma posição de visibilidade externa. Porém, a questão da governança, de como selecionar esses investimentos, é bastante complicada.
Matias: Você teve uma grande contribuição na implantação do Parque Tecnológico de Ribeirão Preto. Como foi essa participação e qual a importância desse projeto no teu próprio currículo?
Toneto: Esta é uma ideia bastante antiga. Fizemos um estudo no final da década de 1990 sobre as potencialidades de Ribeirão Preto. Naquela época, já havia um potencial ligado ao setor sucroenergético, o que movimenta a cidade. Percebemos, também, que Ribeirão Preto tem sua economia bastante relacionada ao setor de serviços, com dois fortes segmentos econômicos: educação e saúde. Esses são os propulsores da nossa economia. Nesse sentido, a USP tem um papel fundamental no direcionamento econômico do Município. Com a chegada do curso de Medicina à cidade, foram atraídos muitos profissionais altamente qualificados, tanto prestadores de serviços quanto empresas — muitas delas, surgidas no próprio Campus. A Universidade acabou sendo, portanto, o embrião de diversos negócios, especialmente na área da saúde e também da educação. Vários centros universitários foram desenvolvidos em Ribeirão Preto na tangência de uma universidade pública de qualidade. Ao se expandir, a USP abriu novas possibilidades, até com o surgimento da FEA, em 1992, que contribuiu ainda mais para a inserção da Universidade na comunidade. Buscando aprofundar esse processo, surgiu a ideia de fomentar a criação de um polo avançado da saúde em Ribeirão Preto, integrando a prestação de serviço e a produção de equipamentos médico-hospitalares, de medicamentos, etc. Assim, o Polo Avançado da Saúde começaria como uma incubadora de empresas, partindo para um parque tecnológico, tanto para absorver as empresas quanto para atrair novos investimentos para o Município. A USP participa desde o começo do projeto, que começou efetivamente em 2001. Naquele ano, em meio à discussão do Plano Diretor do campus, decidiu-se que uma área de aproximadamente 300 mil m² seria destinada à implantação do Parque. Outros representantes da USP avançaram na elaboração do projeto, no credenciamento junto à Secretaria de Desenvolvimento Econômico e todas as outras demandas necessárias. Estamos na fase da implantação e eu voltei a fazer parte do Conselho Estratégico do Parque Tecnológico como representante da Universidade. Os primeiros edifícios já estão praticamente construídos e devem ser inaugurados no segundo semestre. Isso será fundamental para o desenvolvimento de Ribeirão Preto por atrair empresas de alta tecnologia, que é o tipo de emprego que precisamos criar na cidade. Essa é nossa expectativa em relação ao Parque Tecnológico.