Educação do Futuro
Recursos tecnológicos e valores humanos se complementam na formação integral dos alunos, desenvolvendo competências socioemocionais para lidar com os desafios da contemporaneidade
Em um passado não tão distante, há cerca de 20 anos, o modelo de ensino tinha características bem distintas das encontradas, atualmente, em sala de aula. O professor era o personagem principal em cena. À frente dos alunos enfileirados, dissertava sobre conhecimentos enciclopédicos com o respaldo de quadro negro, giz e materiais didáticos. A grade curricular seguia um padrão rígido e conservador, focada, apenas, nas disciplinas tradicionais, como Português, Matemática, Geografia, História e Biologia. Os conteúdos eram apresentados de forma teórica, reduzidos, basicamente, a fundamentos, datas, regras e fórmulas. “No decorrer dos anos, para acompanhar as mudanças experimentadas em todas as esferas da sociedade, essa configuração foi sendo modificada. A memorização pura e simples de informações perdeu força. Em seu lugar, as competências cognitivas mais complexas passaram a ser desenvolvidas com maior ênfase, sempre em sinergia com as não cognitivas. Ou seja, fazer cálculos complicados continua sendo útil, desde que isso seja complementado por habilidades emocionais e relacionais”, explica Mônica Righi Jacob, diretora da Escola SEB unidade Portugal.
Esse novo olhar para a educação promoveu a intensificação das chamadas metodologias ativas de aprendizado. Segundo Mônica, a ideia é que o professor deixe de ser a única fonte, com os alunos assistindo passivamente às suas explicações, e passe a ser um mediador, ajudando as crianças e os adolescentes a se tornarem, também, protagonistas. “Há muitas incertezas sobre a vida social e o mercado de trabalho do futuro. No entanto, não temos dúvidas de que as pessoas precisarão ter mais proatividade”, acrescenta a educadora. Isso começa pelos projetos concebidos no ambiente escolar, incluindo desde aulas de linguagens digitais e laboratórios maker, até iniciativas mais simples, como jogos e debates.
A formação socioemocional e a construção de valores fazem parte desse contexto. “A educação deve promover a oportunidade de fomentar a reflexão crítica, de estabelecer relações interpessoais e de minimizar tanto as barreiras geográficas quanto a própria compartimentalização do conhecimento. Se queremos formar pessoas criativas, reflexivas, atuantes, precisamos ir muito além da sala de aula tradicional e mostrar o mundo como um espaço de aprendizagem, de pesquisa e de significância. Assim, contribuímos para que o estudante se conheça, reconheça suas potencialidades e interaja com o próximo de modo independente e colaborativo”, afirma Frederico Azevedo, diretor da Escola Concept unidade Ribeirão Preto.

A instituição trabalha com a perspectiva Project Based Learning (PBL), em que os conteúdos previstos pelos referenciais curriculares se articulam de forma interdisciplinar, convocando os estudantes a interrogar sua lógica, a fazer perguntas, a manter a curiosidade latente e a desenvolver hábitos da mente em uma cultura de visibilidade de pensamento. Devidamente preparadas, em todos os sentidos, as crianças crescem confiantes e cientes de qual é o impacto de suas ações e de sua postura dentro da sociedade em um âmbito mais global, assumindo a responsabilidade na concepção de um futuro melhor.
Por fim, destaque para a incorporação de tecnologias de ponta ao processo de ensino-aprendizagem. Durante um período, houve certo temor de que esses recursos pudessem ameaçar a humanização da escola, mas ficou comprovado que as inovações vieram para somar. “A cada ano, nossas lideranças frequentam congressos internacionais, contratam consultores de altíssimo nível e promovem debates internos para revisitarmos nossa visão de futuro. O mais significativo avanço que temos desenvolvido nessa área é a aplicação de recursos de inteligência artificial à educação. Há algum tempo, já se falava sobre ensino adaptativo, ou seja, um ensino que cria trilhas individuais para os alunos com base nas características pessoais. No entanto, muitas propostas anunciadas se tornaram apenas tentativas insuficientes de personalização. Agora, com os algoritmos e com as ferramentas de inteligência artificial, os computadores conseguem realizar infinitas inferências, correlações e descobertas que podem ajudar muito mais cada indivíduo a entender o que está ocorrendo em sua aprendizagem e como vencer seus próprios desafios”, revela Márvio Lima, diretor-geral das Escolas SEB.

Vale frisar que essa transição deve ser conduzida gradativamente, com muito cuidado, critério e consistência, até porque o sistema educacional do país é grande e complexo. Existe a nova Base Nacional apontando nessa direção, mas provas importantes, como o Enem, não deixaram claro como será o futuro em termos de avaliação e de seleção para universidades. “De um lado, miramos o futuro e continuamos construindo-o como protagonista. De outro, garantimos que as necessidades do presente sejam atendidas. Não adianta romper com tudo de uma vez se tantos estudantes precisam passar por modelos de avaliação mais tradicionais”, pondera Mônica. A educadora salienta, ainda, o papel dos professores nessa evolução. “A capacitação contínua dos envolvidos nessa revolução é imprescindível. Precisamos de profissionais comprometidos e atualizados para aproveitar o máximo do que o mundo digital já oferece e virá a oferecer”, finaliza.
Estímulo desde a primeira infância
Há alguns anos, o primeiro contato das crianças com o ambiente escolar era quase exclusivamente focado em cuidados básicos. Porém, pesquisas na área de Neurologia apontaram que esse período é essencial para o desenvolvimento cerebral — com respostas mais rápidas, intensas e duradouras aos estímulos apresentados —, desencadeando uma revolução na educação infantil. Entendeu-se que as impressões e as experiências vivenciadas nessa fase preparam o terreno sobre a qual os conhecimentos e as emoções serão sedimentados posteriormente. Quanto mais sólida for essa base, maiores são as chances de que esses pequenos se tornem adultos seguros, conscientes, críticos, criativos, atuantes, felizes e realizados.
Juliana Vianna, diretora pedagógica do Berçário e Escola Pique Aprende, atua há 22 anos na área e acompanhou de perto essa transformação. “Quando iniciei minha trajetória acadêmica, os berçários não tinham uma metodologia, uma proposta pedagógica definida para essa faixa etária. Hoje, desde os primeiros meses existe uma preocupação em valorizar as potencialidades das crianças de maneira integral, com atividades lúdicas e dinâmicas direcionadas para o desenvolvimento de habilidades cognitivas. Por meio das descobertas sensoriais, por exemplo, o bebê vai construindo lembranças positivas e prazerosas do mundo ao seu redor, despertando a curiosidade, a autoconfiança, o discernimento e a autonomia para enfrentar desafios”, aponta a especialista.

As regras, os limites e os valores humanos, como respeito, companheirismo e empatia, também devem ser inseridos na rotina, sem modelos prontos, nem apostilas ou cartilhas. “Os alunos não podem ficar presos a sistemas conteudistas e ultrapassados. Inserimos esses conceitos em projetos personalizados, que atendem às necessidades de cada turma. Devidamente supervisionadas, as crianças precisam vivenciar momentos em que tenham a oportunidade de compreender o significado desses princípios e como aplicá-los na prática, no dia a dia, em diferentes situações. A escola é o cenário ideal para isso”, finaliza a diretora.
Um direito de todos
Essa conduta não é uma realidade apenas na rede particular. Além do atendimento às finalidades e aos objetivos estipulados no programa de Educação Nacional — que garante meios para que o educando possa progredir intelectualmente, com ênfase nos estudos e na capacitação profissional —, é possível encontrar, fora desse universo, escolas comprometidas em promover uma renovação constante para motivar os alunos e para fazer a diferença no ambiente em que estão inseridas, trabalhando elementos extracurriculares indispensáveis para o pleno exercício da cidadania. É o caso da Escola Sathya Sai de Ribeirão Preto.
Constituída como uma organização apartidária e desvinculada de qualquer religião, a instituição, localizada no Jardim Florestan Fernandes, foi estruturada para oferecer, gratuitamente, uma educação mais ampla e de alta qualidade no Ensino Infantil e no Fundamental I. “Algumas metodologias tradicionais nunca deixarão de existir, mas as novas gerações têm a tecnologia como instrumento de conhecimento, de comunicação, de lazer e de cultura. Essa ferramenta precisa ser levada para a sala de aula e deve ser utilizada para ajudar essas crianças a se tornarem pessoas melhores. Temos que ajustar as nossas ações aproveitando essa tendência, com estratégias lúdicas e interessantes”, ressalta a professora de Matemática e diretora da escola, Sílvia Kowara Pessoa Alves.

Fundamentada em princípios do educador indiano Sathya Sai Baba, a instituição segue um programa de incentivo ao despertar dos valores humanos. “A tomada de consciência dos valores humanos é determinante para o desenvolvimento do caráter. Por isso, formação ética, questões sociais, pluralidade cultural, meio ambiente e saúde, entre outros temas, são integrados como eixos transversais em nossa abordagem didática. Enaltecemos valores como verdade, retidão, paz interior, amor e não violência, que estão relacionados a cinco aspectos de personalidade humana: o físico, o emocional, o intelecto, o discernimento e a identidade pessoal. Aprendendo a atuar, sentir, discernir, amar e ser, cada criança consegue exteriorizar sua verdadeira natureza humana e, assim, adquire repertório para atingir suas metas”, declara Sílvia. A diretora reforça que, para ser efetivo, esse processo não deve ou precisa ficar restrito aos limites da escola. Ele engloba a família, a comunidade e a sociedade em geral.
Abordagem multidisciplinar
Na outra ponta da jornada, o Ensino Superior também tem fomentado mudanças importantes. A geração que se encontra nessa etapa, atualmente, é a Z, nascida entre 1997 a 2010, bem durante o boom tecnológico. Portanto, são jovens que tiveram pouco ou nenhum contato com o sistema analógico e, desde muito cedo, acostumaram-se com as facilidades do mundo digital. “Alcançar esse público com métodos e materiais do século passado é inviável. Os alunos de hoje têm um perfil mais prático, ativo e indagador. Querem se sentir parte do processo e querem aprender com situações próximas da realidade. Sentem-se à vontade com esses artifícios e sabem que basta um clique para terem acesso, imediatamente, a uma enorme quantidade de informações sobre assuntos variados. Cabe a nós, educadores, encontrar maneiras de aplicar esses recursos dentro do contexto correto. Há alguns anos, o uso de celulares em sala de aula era proibido. Agora, os smartphones podem ser a ferramenta ideal para ensinar determinada lição em uma aula interativa”, ilustra a Prof.ª Titular da Faculdade de Ciências Farmacêuticas e Pró-Reitora Adjunda de Graduação da USP Ribeirão Preto, Maria Vitória Bentley.

Para contemplar esses aspectos, a universidade vem se modernizando com foco em três vertentes: a inovação curricular, a transdisciplinaridade e o empreendedorismo na graduação. “O aluno precisa participar, diretamente, da construção de seu conhecimento. Portanto, a grade deve ser flexível para que tenha a liberdade de escolher disciplinas optativas de seu interesse e de acordo com suas aptidões, que são oferecidas no próprio curso ou em outro diferente. Um estudante de Medicina pode ampliar sua formação participando de aulas do curso de Direito, por exemplo”, comenta Maria Vitória. A transdisciplinaridade permite que o futuro profissional, com a orientação dos professores, desenvolva suas habilidades em campo, ou seja, em um ambiente real que funciona como laboratório didático. Ao mesmo tempo em que capacita e conscientiza os estudantes, os serviços prestados colaboram para ajudar a população que reside em comunidades carentes da cidade. O respaldo às iniciativas empreendedoras complementa as diretrizes adotadas pela USP, preparando os graduandos para suprirem as demandas e os desafios do século XXI.
Ensino bilíngue
Uma tendência que desponta no panorama mundial da educação é o aumento da demanda pelo ensino bilíngue, sobretudo nos primeiros anos escolares. As famílias cujos filhos estão no Ensino Fundamental hoje são formadas por profissionais que reconhecem a importância da fluência em outros idiomas, principalmente no inglês. Por isso, desejam que os filhos assimilem, desde cedo, a desenvoltura na expressão em línguas estrangeiras. “Não basta que a criança faça um cursinho uma ou duas vezes por semana. O ideal é que ela tenha uma experiência imersiva no idioma para aprendê-lo de forma mais consistente e natural. Se isso acontece nos primeiros anos de estudo, fica tudo mais fácil depois”, enfatiza Mônica.

Pontos em comum
Em meio a tantas mudanças, o casal Fábio e Daniele Volpe analisa algumas das semelhanças entre a educação que tiveram nos tempos da escola e a realidade que o filho, Octávio, tem vivenciado no nono ano do Colégio Santa Úrsula. “Nós dois frequentamos instituições católicas e esse referencial cristão, com base em princípios e em uma família bem estruturada, tem norteado nossas vidas até hoje. Consequentemente, quisemos proporcionar um modelo de ensino similar ao nosso filho. Claro que nos preocupamos com a grade curricular e com os preparativos para o vestibular, mas também prezamos pela formação completa do Octávio. Levar a sério os estudos, dar valor ao trabalho, ter disciplina, respeito e estar em contato com o universo das artes e dos esportes ampliou nossos horizontes e nos deu a chance se sermos pessoas mais sensíveis em relação a tudo o que acontece ao nosso redor. Ficamos orgulhosos ao constatar que o mesmo tem acontecido com ele. Hoje, apesar do cenário completamente distinto e da exposição excessiva a que as crianças e os jovens são submetidos, a escola consegue manter uma conduta cautelosa, preservando os alunos e isso se reflete no comportamento deles, não só em sala de aula. Atuamos em conjunto para que ele seja bem sucedido em tudo o que ele se dispõe a fazer”, relatam os pais.

Texto: Paula zuliani