Educação Emocional

Educação Emocional

Profundidade na discussão sobre uma das possíveis respostas à escalada da violência dos dois grandes teóricos da Educação, Luiz Puntel e João Roberto de Araújo

Sempre preocupado com os caminhos da educação no país, o escritor e professor Luiz Puntel entrevista o colega professor João Roberto de Araújo. Mestre em Psicologia pela USP, fundador e orientador da Inteligência Relacional, fundador e organizador do Programa Cultural Prometheus e do Ribeirão Preto pela Paz, Araújo é, ainda, orientador de programas de cultura pela paz e pela não violência em vários estados brasileiros. O professor também ministra palestras no país e no interior. Acompanhados pela jornalista Carla Mimessi, os dois conversaram sobre a educação emocional, uma alternativa para enfrentar a violência.

Puntel: Fale sobre os projetos que desenvolveu ao longo da carreira.
Araújo: Sempre me senti atraído pela compreensão do processo da violência nas relações humanas e dediquei uma atenção especial às dificuldades de relacionamento. Como tive uma família muito amorosa, a ignorância emocional, ou seja, a falta de habilidade em lidar com o outro, sempre me impactou nas mais diversas situações. Minha curiosidade para a literatura surgiu na busca de resposta a isso. Já na adolescência meus interesses literários estavam ligados à filosofia, pontuando o comportamento humano com a psicologia para compreender um pouco mais.

Puntel: Quando, efetivamente, passou a atuar nesta área?
Araújo: Aos 14 anos já lia sobre a condição humana, o que potencializou minha opção de caminhar nesse sentido.  Tudo começou no momento em que atuei como consultor de desenvolvimento humano em organizações  — harmonizava as relações nos diversos segmentos no intuito de buscar a produtividade através das pessoas.  Minha vida profissional tomou consistência quando passei a ser percebido pelas organizações como alguém que ajudava a melhorar as relações no trabalho. Nesse momento, nasceu a inteligência relacional. Decidi, então, organizar um programa cultural em Ribeirão Preto que pudesse contribuir. Na convivência com o segmento empresarial, observava uma exclusividade de temas econômicos e de gestão empresarial. Sugeri a empresários que utilizássemos um dia do mês para falar de outros assuntos e um grande amigo empresário decidiu arriscar: acabou frequentando o Programa Cultural Prometeus por 11 anos. Nesse período, oferecemos em Ribeirão Preto conteúdos ligados à arte e o Programa foi se tornando uma referência. Cresci muito com o ‘Prometeus’ porque trazíamos a Ribeirão Preto as mais sensíveis inteligências. Em seguida, tivemos a experiência do Ribeirão Preto pela Paz.

Puntel: Qual era o foco principal deste projeto?
Araújo: Havia uma ênfase no enfrentamento da violência com a resposta da repressão. Até hoje, o senso comum aponta o eixo da repressão para enfrentar a violência. Isso é necessário, obviamente, mas é um equívoco imaginar que repressão possa dar resposta a essa doença social. O ‘Ribeirão Preto pela Paz’ nasceu para ampliar a consciência das lideranças e da população para a compreensão de questões gerais: como nasce a violência ou por que o ser humano fica violento e o que fazer? Comecei a focar na última pergunta. Foi quando apresentamos o eixo das políticas sociais — a Organização Mundial de Saúde esclarece que os bolsões de miséria favorecem a violência. Quando acontecia um crime impactante, a tendência era procurar a polícia para fazer um comentário sobre o fato. Depois do Ribeirão pela Paz, começou-se a procurar sociólogos, psicólogos e outras inteligências para oferecer um olhar político a ações sociais. Nesta época, fomos protagonistas em trazer ao país o eixo da educação para a paz. Para enfrentar a violência, não basta a repressão e a política social que reduz bolsões de miséria: a verdadeira pobreza que cria a violência é a mental. Foi, então, que introduzimos no ‘Ribeirão pela Paz’ a relação entre educação pela paz e educação para as emoções.
 
Puntel: Como podemos definir a educação para as emoções?
Araújo: Na década de 80, alguns pesquisadores americanos apontaram a existência de inteligências múltiplas no ser humano. Howard Gardner, em seu livro “Inteligências múltiplas”, afirmou que inteligência não é só lógico-matemática. Existe a inteligência espacial, a intrapessoal, a do autoconhecimento e a inter-relacional. No início da década de 90, apareceu a expressão inteligência emocional. Em 1991 e 1992, pesquisadores americanos a cunharam de forma mais consistente. Em 1995, Daniel Goleman a popularizou e, a partir daí, pesquisas reafirmaram a importância da mesma. Percebeu-se, então, que o sucesso pessoal e socioprofissional está mais centrado na inteligência emocional do que na dos conteúdos. Começaram a surgir questionamentos a respeito do que poderia ser feito para desenvolver tal inteligência. Nasceu, então, a ideia da educação emocional, um processo educativo contínuo e sistematizado, a partir do ensino básico com as crianças, que visa ao desenvolvimento de competências emocionais com a finalidade de torná-las mais felizes. Hoje, dizemos que a finalidade da inteligência do desenvolvimento é tornar crianças e adultos mais felizes, com a compreensão de suas emoções e das emoções do outro; é desenvolver um olhar positivo para a vida, sabendo enfrentar melhor as frustrações. O segundo ponto fundamental é melhorar a convivência, que implica reduzir a violência. Hoje, as crianças brigam mais na escola porque a escola convencional é profundamente racional e está restrita aos conteúdos da lógica  e da linguística, que são importantes, mas precisam ser harmonizadas com outros aspectos. No estágio em que estamos, somente pedindo a Deus que nos torne pacíficos, mas precisamos ensinar a paz. Temos que colocar esse tema no mesmo status dos demais conteúdos da escola tradicional porque só vive bem quem convive bem. O último ponto fundamental é a melhoria dos índices de aprendizagem. A educação emocional, que cria um clima emocional favorável na escola, é reconhecida por pesquisas na Unesco como a variável mais importante para o aprendizado.
 
Puntel: Como levar esses conceitos à escola pública?
Araújo: Inicialmente, toda novidade enfrenta uma dificuldade de penetração. Mas na educação, quando se percebe que o modelo e as respostas não estão sendo eficazes, passa a haver uma aceitação. A gestão escolar e os educadores estão com dificuldade para melhorar os índices de aprendizagem, têm o desafio de construir uma escola mais pacífica e de ampliar o diálogo entre comunidade e escola. Quando levamos os argumentos da educação emocional, eles percebem que esta é uma das respostas para esses desafios, a começar pelo educador. Mais de 90% dos professores do ensino básico são mulheres que trabalham por três ou quatro períodos. Há professoras sinalizando um estresse profundo, um grande desconforto com a questão emocional e pessoal. Neste contexto, a educação emocional acaba sendo desejada.  
 
Puntel: A educação emocional tem chegado a vários estados. Onde o trabalho tem se efetivado?
Araújo: Há cinco anos, tínhamos cinco mil alunos e seus professores, que implantaram o sistema de educação Liga pela Paz, em unidades do estado de São Paulo e de Minas Gerais. Hoje, temos mais de 100 mil alunos e escolas parcerias em 19 estados. Apesar do conservadorismo, a receptividade tem sido muito grande. Temos parcerias que trabalham exclusivamente com os processos de sensibilização, para criar a compreensão acerca do conceito. As lideranças no Brasil são receptivas à educação emocional. Devido ao nosso esforço, os estados de Alagoas e de Rondônia criaram secretarias estaduais de promoção da paz. Inspirados na nossa proposta, institucionalizaram uma ação política de educação pela paz, e transcenderam as práticas de repressão e de políticas sociais. No começo deste ano, foi publicada no Diário Oficial da União a qualificação, pelo MEC, da Metodologia Liga pela Paz. Hoje, somos qualificados no contexto do Programa Mais Educação após a realização de uma avaliação do nosso material pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o que implica que lideranças da educação já estão dando atenção a esse tema.

Puntel: Qual é o segredo?
Araújo: Muito trabalho e ênfase que damos aos professores. O educador é sempre mais que o livro. Além do conteúdo, precisa adquirir entusiasmo, força, energia e motivação. Nossa plataforma de educação à distância oferece aos professores das escolas parceiras um processo de formação continuada. Para obter o certificado, ele passa por quatro módulos.  A avaliação de resultados também é importante. Temos um inventário aprovado pelo Conselho Federal de Psicologia, e aplicamos um pré-teste no início do ano letivo e um pós-teste ao final, para avaliarmos a redução dos comportamentos problemáticos e o aumento dos comportamentos habilidosos. Agora, estamos estabelecendo uma relação direta entre os índices de aprendizagem, isto é, uma avaliação objetiva dos resultados da educação emocional.

Puntel: O trabalho de sensibilização e de capacitação dos profissionais já chegou a Unesco, em Genebra, à Índia e à Tailândia, certo?
Araújo: Há palestras maravilhosas que criam o encantamento e depois não tem sequência — não trazem a resposta que precisamos. Através da Liga para a Paz, sistematizei a educação para a paz nas escolas. Temos que fazer  com que teorias psicológicas e sociológicas sejam compreendidas por alunos de seis anos. O maior desafio é adaptar esses conteúdos à linguagem de uma criança que não está sequer alfabetizada. Temos o material didático para o aluno e para o professor, que o orienta no seu passo a passo. Criamos uma fábrica de software e oferecemos nosso material didático através de nossa plataforma de ensino à distância. Os seminários de sensibilização são feitos junto a educadores e familiares. A escola Mario Quintana, do Bairro da Restinga, de Porto Alegre — o mais difícil em termos de pobreza e violência — trabalha com nossa metodologia há quatro anos, assim como a escola Afonso Várzea, no Complexo do Alemão,  o Carminha, em Maceió, e o Promotório, em Rio Branco. Os professores dessas cidades receberam formação presencial, pois temos uma equipe de psicólogos e de pedagogos que viajam até esses lugares.

Puntel: Qual é a importância do livro “Educação emocional, social - um diálogo entre arte, violência e paz”?
Araújo: Dediquei esse livro aos professores que encaram, de mãos dadas com nossas crianças e jovens, as chagas da comunidade. Nessa luta, saturam as dores emocionais com firmeza e otimismo, motivados pela crença de que é possível desconstruir a violência. A bondade é o tecido que usam para cerzir os vazios deixados pela generosidade e pelo déficit afetivo. Diante desses heróis anônimos, dobro-me em sincera reverência. Curvo-me diante de uma professora que atua nessas realidades, que muitas vezes tem um salário baixo, enfrenta dificuldades, que cuida do marido, dos filhos e mantém o otimismo e a alegria de dar aula. Peço benção a esse professor porque eu teorizo e pesquiso a educação, mas ele realiza o corpo a corpo na sala de aula. Nos últimos dois meses, visitei 15 estados brasileiros. Sinto que precisamos facilitar a vida do professor, fazer alguma coisa que seja atrativa, pois a violência já é pesada. A forma mais palatável que encontrei de levar esse conteúdo a ele foi utilizar o diálogo e ilustrar o livro por meio da arte para que até mesmo o professor que não leu Guimarães Rosa conheça um fragmento de seu texto e se inspire a ler mais.
 
Puntel: Quais são as temáticas fundamentais do livro?
Araújo: O professor precisa se aprofundar mais na condição humana. Somos filhos de uma história biológica e evolutiva e filhos da cultura. O ser humano não nasce violento, mas a violência é uma construção de sua história de vida. Inicialmente, o livro traz dimensões da sociologia, da antropologia e da psicologia. A partir daí, faz reflexões sobre a violência, o abuso, a negligência infantil e a violência juvenil. Depois aborda a violência perpetrada por parceiros íntimos, que abre espaço para o imenso desencontro entre o feminino e o masculino — o confronto mais fundamental porque os filhos se alimentam das relações dos pais. Daí a necessidade de trabalhar as relações do homem e da mulher como fonte de paz ou de violência. A violência é um processo pautado pela compreensão de que o enfrentamento dessas dores passa pela educação emocional. Temos três tipos de dores humanas: a física, a psicológica e a filosófica. Não devemos negar as emoções, que são conquistas evolutivas. Falamos de emoções confortáveis e desconfortáveis para não negá-las. O ciúme, desconfortável, pode nos tornar um ser humano melhor, mas pode, também, fazer matar o outro. A questão não está na emoção que se sente, mas no que se faz com ela. O livro pode ser útil para que o professor amplie culturalmente seu olhar, enviesado pela questão da educação emocional.

Puntel: Você foi o único brasileiro a levar ao Dalai Lama um recado do povo tibetano. Como se sentiu?
Araújo: Uma curiosidade cultural muito grande me levou ao Tibet. Um guia me colocava em contato com as pessoas da rua e elas sempre me pediam para que eu, se o encontrasse, falasse para o quanto o amavam. Teve um momento em que tive a oportunidade de ficar ao lado dele por 50 minutos, e dei o recado. Foi um evento interessante por realizar uma coisa inimaginável. Foi muito forte.

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