Elas do outro lado das grades
Professora universitária pesquisou as dificuldades enfrentadas pelas presidiárias

O sistema carcerário feminino no Brasil conta com mais de 35 mil presas, e para realizar o atendimento médico dessas mulheres, existem apenas 15 especialistas em ginecologia em todo o país, segundo o Sistema Integrado de Informações Penitenciárias (Infopen), do Ministério da Justiça.
Esse dado chamou a atenção da professora universitária e educadora física Elaine Mara da Silva, que desde 2004 desenvolve ações de conscientização para cuidados com a saúde das detentas da Penitenciária Feminina de Ribeirão Preto. Com base no trabalho, ela concluiu a tese de mestrado na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP-USP), orientada pela profª Drª Sônia Maria Villela Bueno, pesquisando a saúde no sistema carcerário feminino.
Elaine conta que conheceu a realidade do presídio quando foi visitar o local para saber que tipos de projetos podiam ser feitos com os alunos do curso de educação física da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp). E quando viu aquela situação, em que feminilidade da mulher ficava em segundo plano, decidiu ela mesma ser voluntária.
“As mulheres só representam 7% da população carcerária brasileira, essa população, por ser inferior, não tem todas as especificidades atendidas, porque o sistema entende que não tem problema por ser um volume pequeno, mas na verdade não é”, analisa a educadora. Ela afirma que o sistema penal, por ser feito “por homens e para homens”, acaba julgando elas como homens.
“Essa mulher é condenada duas vezes, primeiro pelo crime e depois por ser mulher, então o descaso se torna muito maior. É comum encontrar expressões como: ‘o que ela fez? Como parou aqui’”, aponta.
Durante a pesquisa de mestrado, Elaine se deparou com artigos que citam que em algumas penitenciárias espalhadas pelo Brasil se cometiam descasos contra essas pessoas como o não fornecimento absorventes para contenção do fluxo menstrual. As detentas então acabam recorrendo a miolos de pão.
A professora acredita que a mulher, pela passionalidade, a forma como lida com as emoções, o sentido de ser mulher, acaba se tornando um problema para o estado na visão dos políticos.
“O estudo da saúde sexual passa por aí, por todos esses mecanismos que convivi na minha permanência por lá. Algumas não sabem o que é o Papanicolau. Isso é muito comum. Tão comum esse descuido com a saúde sexual que antes de entrar no sistema 35% já teve uma doença sexualmente transmissível, e depois que sai, esse índice sobe pra 78%”, alerta.
Ela conta que as detentas geralmente vêm de uma família desestruturada e tem contato com violência sexual e uso de drogas. “Elas passam a ser alvo fácil do homem, porque geralmente tem um homem nesse assédio. É normal ver mulher presa na visita levando droga para o parceiro, o contrário não acontece, porque elas são abandonadas pelos parceiros e pela família”, afirma.
Por isso, Elaine propôs a si mesma mostrar para a sociedade que os problemas que ocorrem lá dentro também são de responsabilidade dela. Estudos acadêmicos, como o da professora, e movimentos feministas têm trabalhado para tirar esse segmento da invisibilidade.
“Somos imbuídas de um sentido positivo, de que nós podemos colaborar. Se não consigo dar conta do macro, posso ajudar no micro, que é aqui em Ribeirão”, destaca.
“A minha ação passa pela educação e saúde, desde orientar na hora de tomar água, para não colocar o gargalo da garrafa no bico da torneira, porque pode estar contaminada, também a importância da atividade física”, exemplifica Elaine, dizendo que essas atitudes simples ajudam a melhorar a qualidade de vida dessas mulheres.
Revide Online
Leonardo dos Santos (Colaborador)
Fotos: Arquivo pessoal
* Publicado em 24/10/2014