Elas Podem Mais

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Empoderadas, mulheres se redescobrem diariamente e conquistam espaço nos mais diferentes setores da sociedade


Texto: Marina Aranha | Colaboração: Cárila Covas | Fotos: Lidia Muradás | Agradecimento: Sierra UneRobusti



Quando Simone de Beauvoir escreveu que ninguém nasce mulher, mas torna-se uma, já indicava a constante resiliência feminina. Tornar-se mulher é sinônimo de compreender o valor de cada uma delas à sociedade e viver, diariamente, em superação, na busca pela igualdade de gênero. Em 8 de março, data em que é celebrado o Dia Internacional delas, a reflexão e o retrospecto sobre as batalhas femininas ao longo dos anos tornam-se ainda mais necessários.

História 
Durante séculos, diversas histórias embasaram a criação do Dia Internacional da Mulher. A primeira, contudo, não aconteceu de fato. No conto, 129 operárias teriam morrido carbonizadas em um incêndio ocorrido nas instalações de uma fábrica têxtil na cidade de Nova Iorque, no dia 8 de março de 1857. O fogo teria sido intencional, provocado pelo proprietário da companhia, como forma de repreender greves e levantes. A história afirma que as trabalhadoras teriam sido trancadas antes de serem incendiadas. 

Embora essa primeira justificativa para a comemoração do Dia Internacional da Mulher não tenha acontecido, outro incêndio ocorrido em Nova Iorque — dessa vez real — é considerado um dos marcos para a criação da data. Em 25 de março, 146 pessoas morreram no fogo que atingiu a Triangle Shirtwaist Company. A maioria dos mortos era de judeus, sendo 125 mulheres e 21 homens. As causas do incêndio foram más condições das instalações elétricas, junto da grande quantidade de tecido, que teria impulsionado as chamas. 

Embora o acontecimento seja representativo, não foi a tragédia que impulsionou a criação da data emblemática, mas, sim, décadas de batalha e de empoderamento catalisadas a partir das más condições de trabalho e da desigualdade. Foram anos de luta por melhores condições e mais dignidade no tratamento humano. A oficialização do Dia Internacional da Mulher foi consolidada, então, em 1975, pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Desde então, a resiliência feminina tem se transformado. Termos foram abandonados e outros passaram a fazer parte da causa, impulsionada por movimentos de proporções mundiais. Em tempos de tecnologia e redes sociais movimentadas, as hashtags ampliam o alcance e a integração, a exemplo da ação #MeToo, que viralizou em 2017, com início nos Estados Unidos. O movimento se posicionava contra o assédio e a agressão sexuais e levou a acusações contra o produtor hollywoodiano Harvey Weinstein, condenado por ter atacado sexualmente uma ex-produtora e violentado uma aspirante a atriz. 

Na Argentina, no Chile e no Uruguai, um grande movimento chamado “Ni una menos” (nem uma a menos, em português) protestou contra a violência de gênero, também conquistando repercussão ao redor do mundo pelas redes sociais. Os protestos ocorreram em 3 de junho de 2015 e na mesma data do ano seguinte — nessa ocasião, desencadeados pelo assassinato de Chiara Páez, de 14 anos, grávida, e outras quatro mulheres, incluindo Lucía Pérez, de 16 anos, que foi vítima de um dos feminicídios mais brutais já registrados na Argentina.

Empoderamento
Mais do que um sonho distante ou o desejo de autores e sociólogos, o empoderamento feminino e o fim da discriminação de gênero e das práticas nocivas ao universo feminino — como casamentos prematuros e forçados — compõem a quinta meta traçada pela ONU, por meio dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), agenda que prevê a construção de um mundo com o foco no bem-estar e na dignidade da população até 2030. 

Entre os tópicos do quinto objetivo da ONU está a garantia da participação plena e efetiva das mulheres e a igualdade de oportunidades para a liderança em todos os níveis de tomada de decisão na vida política, econômica e pública, além de políticas sólidas e legislação aplicável para a promoção da igualdade de gênero, com o empoderamento de mulheres e meninas em todos os níveis.

Esse empoderamento vai além de um movimento ou uma ação pontual. A palavra faz referência à consciência coletiva, expressada por ações que objetivam fortalecer a mulher e desenvolver a equidade de gênero. Apesar de ser resultante do movimento feminista, o empoderamento abrange todas as possibilidades de garantia de espaço digno na sociedade, fazendo com que as mulheres tenham consciência do próprio poder e promovam transformações substanciais no mundo, conquistando mais direitos, como os estabelecidos pela ONU.

Para a fonoaudióloga Adriana Montans Fortes Guimarães, de 55 anos, grande parte da potência feminina está, justamente, nas qualidades inerentes à sensibilidade do sexo. “Eu acredito que o poder de nós, mulheres, está na nossa intuição, na sensibilidade e na capacidade de colocar amor em tudo o que fazemos”, destaca.

Embora a ascensão feminina seja crescente, ela caminha a passos lentos, segundo a professora universitária Caroline Ribeiro Favaro, de 34 anos. Para ela, o que se busca, atualmente, é uma consciência coletiva sobre a equidade de gênero e um reconhecimento palpável, com inclusão e igualdade de oportunidades. “O espaço da mulher na sociedade gera cada vez mais discussões e debates acalorados, principalmente por meio das mídias sociais. Ainda vemos mulheres ocupando os mesmos cargos que os homens, mas recebem muito menos que eles. Para mim, a chave para que a mulher conquiste sua independência e sua liberdade é a educação”, esclarece.

Para especialistas, o empoderamento feminino na escola pode auxiliar no desenvolvimento de homens e mulheres mais preparados para as discussões de gênero, incentivando as meninas a colaborarem com o progresso social e conscientes seus poderes de transformação.

Sororidade
Outro termo que ganhou mais espaço nos últimos anos foi a sororidade. A palavra, originária do latim — sóror significa “irmãs” — representa a união e a aliança entre mulheres, a partir da empatia e do companheirismo, na busca pela realização de objetivos em comuns. Fortemente presente no feminismo, o conceito é definido como um aspecto de dimensão ética, política e prática do movimento.

Débora Cristina Fernandes Ananias Alves Ferreira, de 45 anos, é juíza de Direito na comarca de Ribeirão Preto e ressalta que o empoderamento está intimamente ligado à sensação e à prática do “ser mulher”. “Empoderar-se é redescobrir diariamente dentro de si mesma a vontade e a força necessárias para viver em plenitude”, afirma.

Para a diretora da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), Maria Helena Palucci Marziali, o conceito do apoio das mulheres entre si é fundamental para a evolução social. “Considerando-se que igualdade envolve aspectos legais e culturais, faz-se necessário que as mulheres apoiem outras mulheres, pois essa união gera o empoderamento feminino e, consequentemente, benefícios para toda a sociedade”, afirma.

A fotógrafa Sheila Vanessa de Andrade Brandão, de 43 anos, também acredita que a convivência entre mulheres é fundamental para o empoderamento feminino. “A vivência e os relacionamentos são conexões importantíssimas dentro da minha profissão. O resultado disso possibilita minha atuação em coletivos, seja concedendo a participação social das minhas amigas e até de mulheres desconhecidas ou apoiando ações na comunidade de forma coletiva e consciente. É dessa maneira que ocupamos espaços, que auxiliamos mulheres para o processo de mudança, criamos impacto na sociedade e, principalmente, nas nossas vidas”, ressalta.

Força interna
A sensibilidade e o reconhecimento da potência de cada mulher são fundamentais para o empoderamento. Identificar todas as mudanças possíveis e as nuances que permitem o desenvolvimento de cada uma é fundamental na trajetória. A empresária Tânia Mara Volpe Miele, de 62 anos, é sócia fundadora e diretora executiva do Instituto Paulista de Estudos Bioéticos e Jurídicos (IPEBJ). Para ela a força do empoderamento feminino é, justamente, uma possibilidade que nasce internamente a partir das adversidades. “Ninguém empodera uma mulher. Somos nós quem nos empoderamos de dentro para fora, reconhecendo-nos, amadurecendo, ajustando nossas atitudes mentais. E isso se aprende com a vida, principalmente quando vivenciamos perdas, decepções e, por um momento, nós nos sentimos incapazes e dependentes. É nesse momento que a mulher acorda e assume um papel integral, tornando-se capaz de realizar o impossível. É aí que a mulher se completa”, pontua.

Homenagem
Em comemoração ao Dia Internacional da Mulher e às décadas de lutas e conquistas femininas, a convite da Revide, a fotógrafa Lidia Muradás clicou as seis mulheres citadas nesta reportagem. Em produções na Sierra UneRobusti, foi possível que cada uma delas refletisse sobre a data comemorativa e as transformações da sociedade durante os últimos anos. Para Lidia, a reflexão propiciada pela sessão de fotos chegou a um cenário otimista para os próximos anos. Segundo ela, as novas gerações tendem a ter mais caminhos para encontrar soluções à desigualdade de gênero. “Com a minha convivência com clientes e amigos, percebo, hoje, que a maioria das mulheres que nasceram no século XXI aprendeu, desde cedo, que elas são capazes de fazerem e serem o que quiserem, por isso, serão mais felizes no futuro. Acredito que não será mais necessário levantar bandeiras, mas, sim, acreditarem em si mesmas”, conclui a fotógrafa. 

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