Elas são indispensáveis
Responsáveis pela polinização de 70% dos alimentos consumidos no mundo inteiro, as abelhas precisam de proteção
Pode parecer estranho, mas as abelhas estão entre os principais integrantes da cadeia alimentar. Conhecidas há mais de 40 milhões de anos, são elas as responsáveis por grande parte da polinização que resulta na reprodução de flores, frutos e plantas, contribuindo, portanto, para a produção dos alimentos. Além da importância para a agricultura, as abelhas também fabricam mel, geleia real, cera e própolis, que integram a receita de muitos produtos consumidos pelo homem. Para se ter uma ideia de sua importância, algumas espécies — caso das amêndoas — dependem 100% das abelhas para se reproduzirem e se desenvolverem. Elas correspondem, também, por 90% da polinização que resulta em maçãs e 27% das laranjas, entre diversos outros produtos que, sem o trabalho incansável das abelhas, simplesmente desapareceriam.
Segundo estudiosos, isso pode acontecer se esses insetos não receberem atenção especial. Cada dia mais, as abelhas estão sendo acometidas pela Síndrome do Colapso das Abelhas (CCD, sigla em inglês para Colony Collapse Disorder). Este fenômeno causa danos irreversíveis à capacidade de navegação desses insetos, que não conseguem mais retornar às colmeias. Diversas doenças, pragas, fungos, ácaros, vírus, manejo inadequado, mudanças climáticas, déficit nutricional e, em especial, o uso de pesticidas neonicotinoides estão entre as inúmeras causas do problema.
Recentemente, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos divulgou a morte de um terço das abelhas do país durante o inverno de 2012/2013. O levantamento também aponta que, nos últimos seis anos, o número de colônias deste inseto caiu 30,5%. A situação também é alarmante em diversos países europeus e no Brasil.
Dados da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) de 2011 mostram que os apicultores catarinenses produziram apenas quatro mil toneladas de mel, enquanto a média anual chegava a seis mil. Piauí, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e São Paulo também enfrentam queda na produção e na exportação do produto: o Brasil caiu da 5ª para a 10ª colocação no ranking mundial dos produtores de mel nos últimos dois anos.
Com uma produção média de 20 toneladas de mel e cinco toneladas de própolis, entre outros produtos, o empresário Manoel Eduardo Tavares Ferreira, da Apis Flora, garante que muitos apicultores de São Paulo e do sul de Minas Gerais já enfrentam problemas. “No ano passado, registramos perdas significativas. As abelhas saem para se alimentar e não voltam às colmeias”, frisa Manoel. Em 2012, Edson Mauchi, de Rio Claro, perdeu mais de 200 colônias. Trabalhando com abelhas há 35 anos e com uma produção média de 500 quilos de mel por mês, o apicultor observa, ainda, que as monocultoras, como cana e pasto, agravam a situação.
Na tentativa de unir os produtores para encontrar mecanismos que reduzam o uso de pesticidas prejudiciais às abelhas, o pesquisador Lionel Segui Gonçalves, juntamente com seus filhos Daniel e Karin, criou a campanha “Bee or not to be?”, que busca assinaturas on-line para a petição pela proteção das abelhas. O objetivo é entregar o documento a lideranças governamentais. Professor aposentado do Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP de Ribeirão Preto (FFCLRP), Lionel preside o Centro Tecnológico de Apicultura e Meliponicultura do Rio Grande do Norte (CETAPIS).
A iniciativa, lançada e apresentada por Daniel no International Apimondia Congress 2013, realizado em Kiev, na Ucrânia, pela Federação Internacional das Associações de Apicultores, já conta com mais de 7.100 assinaturas e com o apoio de diversas instituições internacionais. Paralelamente, estão sendo desenvolvidas outras ações de cunho educativo junto a empresas, instituições e escolas da rede pública de ensino pela equipe da 6P Marketing e Propaganda, de Ribeirão Preto, responsável pela elaboração e pela coordenação da campanha.
Muito além de divulgar as causas que levam ao desparecimento da espécie, Daniel quer mostrar a importância das abelhas nas lavouras. “Precisamos trazer as abelhas, agente polinizador da maioria das culturas que alimentam e vestem as populações do mundo inteiro, para o centro da discussão. O mel e o própolis também são importantes, mas a questão é muito mais ampla”, enfatiza Daniel. Lionel defende que é preciso aumentar as áreas verdes, cultivar plantas de interesse das abelhas e proteger o meio ambiente.
Como melhorar a alimentação das abelhas para torná-las mais saudáveis e, consequentemente, mais resistentes, é a questão central das pesquisas de David De Jong, professor do departamento de Genética da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto. Especialista em abelhas, De Jong alerta para a necessidade urgente de se criar mecanismos para que o apicultor saiba a quem recorrer quando algum problema atingir suas colmeias. Para isso, o ideal é criar um determinado órgão ou setor para pesquisar as reais causas da morte ou do sumiço das abelhas.
Processo de reavaliação
A redução do número de abelhas em várias partes do país em decorrência de quatro tipos de agrotóxicos levou o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) a reavaliar o uso dos neonicotinoides (classe de inseticidas originário da molécula de nicotina) e seus efeitos sobre o organismo das abelhas. Além de reduzir as formas de aplicação desses produtos, que não podem mais ser disseminados por via aérea, o órgão iniciou a reavaliação das substâncias Imidacloprido, Tiametoxam, Clotianidina e Fipronil, identificadas como nocivas às abelhas.
Márcio Rosa Rodrigues de Freitas, coordenador geral de Avaliação e Controle de Substâncias Químicas da Diretoria de Qualidade Ambiental do Ibama, explica que a reavaliação do Imidacloprido, único produto cuja revisão já foi iniciada, está em pleno andamento. “As empresas registrantes apresentaram estudos ao Ibama, que, por sua vez, solicitou novos estudos, inclusive, por meio de processos de campo e semicampo”, esclarece Márcio, lembrando que esta etapa deve ser concluída até meados de 2015.
Márcio observa, ainda, que também está proibida a aplicação desses produtos em época de florada e visitação das abelhas às culturas. “Somente ao final dos estudos em desenvolvimento é que possivelmente teremos novas restrições definidas e publicadas”, conclui o coordenador.
Desde 1° de dezembro de 2013, por decisão da Comissão Europeia, o uso de inseticidas que contêm Clotianidina, Tiametoxam e Imidacloprida foi proibido por dois anos no continente. Eles não poderão mais ser empregados em lavouras de milho, colza, girassol, algodão e cereais.
Desafio ao agronegócio
Diversas culturas de grande expressão econômica para o Brasil, como citros e outras plantas frutíferas, dependem exclusivamente da polinização das abelhas. Para discutir o impacto do uso de defensivos à base de neonicotinoides e pirazol sobre as comunidades desses insetos, o Ministério da Agricultura, Pecuária e do Abastecimento (Mapa) promoveu um encontro no início de outubro de 2013, em Campinas. Com o tema “Convivência entre agricultura e apicultura”, pesquisadores, empresas e governo realizaram mesas redondas e painéis para levantar a situação atual e novas propostas para gerar melhorias.
Formado por 50 empresas fabricantes de defensivos agrícolas, o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg) participou do evento e reforçou a necessidade de uma investigação mais intensiva sobre os incidentes que envolvem o sumiço das abelhas. Apesar do Ibama já ter identificado quatro substâncias nocivas, Silvia Ligabó, diretora de assuntos regulatórios e internacionais do Sindiveg, salienta que é preciso saber até que ponto as abelhas são afetadas pelos agrotóxicos. A Instituição incentiva a pesquisa e capacita pessoas no país inteiro. Além disso, implantará um serviço telefônico via 0800 para tirar as dúvidas e apoiar os apicultores. Entre os principais fabricantes que usam um dos quatro componentes em seus produtos, a Syngenta e a Bayer, ainda não iniciaram os processos de reavaliações.
Leandro Conti, diretor de assuntos corporativos da Syngenta, que usa o Tiametoxam, alega que a empresa investe em pesquisa e em treinamento da equipe, além de manter contato direto com o Ibama. “Todos os rótulos dos produtos já trazem orientações sobre uso e forma de aplicação, mas a empresa também oferece esclarecimentos e está à disposição dos produtores por meio de suas revendas e do serviço de Atendimento Syngenta, disponível pelo 0800 704 430”, pontua Leandro.
Em nota, a Bayer CropScience explicou que a empresa orienta que o produtor utilize os defensivos de acordo com as recomendações agronômicas de rótulo e de bula, que contêm em sua face frontal a classificação quanto ao potencial de toxicidade humana e ao meio ambiente. A Bayer acredita que apoiar a saúde das abelhas requer engajamento de todas as partes interessadas, como apicultores, produtores e fabricantes de produtos de proteção de cultivos, bem como pesquisadores, reguladores e organizações não governamentais. Além disso, oferece orientação sobre a pulverização correta, recomendando que a utilização do produto no momento adequado e com adoção de áreas de refúgio apropriadas durante aplicações foliares para proteger os polinizadores.
Como ajudar
Lionel e Daniel Malusá reforçam que a população pode ajudar na preservação das abelhas de várias formas. A primeira delas é assinando a petição, disponível no site www.semabelhasemalimento.com.br. No endereço eletrônico, também estão postados vídeos e outros materiais sobre a importância desse inseto para a vida humana. “Se perdermos as abelhas, seremos os primeiros prejudicados. Albert Einstein já dizia que se as abelhas desaparecessem da face da terra, a humanidade teria apenas mais quatro anos de existência. Sem estes insetos, não há polinização e, consequentemente, não há reprodução da flora. Sem flora não há animais e sem animais, não haverá raça humana”, alerta Lionel. Outra forma de contribuir para a preservação da espécie é difundir a prática de manter colmeias de abelhas sem ferrão em casa. Daniel dá o exemplo, mantendo em sua casa uma colmeia em plena produção, com abelha jataí, sem ferrão.
Para tornar a apicultura ainda mais atrativa, o marceneiro Antônio José Rodrigues criou casinhas decorativas e funcionais para a reprodução das abelhas, em substituição às tradicionais caixas. Coloridas e com design moderno, são feitas sob encomenda e custam a partir de R$ 80,00. Elas são perfeitas para decorar o jardim e usar na área urbana. “Mas, para isso, é preciso lembrar que as abelhas requerem fartura em alimentos e, para isso, nada melhor do que um belo jardim, com muitas flores”, sugere Antônio. As encomendas podem ser feitas pelo tel.: (16) 991.929.250 e 991.645.024. O manejo de abelhas sem ferrão não exige fumífugo ou vestimenta apícola. Nativa do Brasil, a espécie possui, na verdade, um ferrão atrofiado, que não é utilizado para defesa. Em todo o país, são mais de cinco mil espécies nativas, sendo 250 delas sem ferrão.
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Texto: Rose Rubini
Fotos: Carolina Alves e Ibraim Leão