Em alta velocidade
A paixão pela motovelocidade passou como herança de pai pra filho
Impossível negar que gostos e características são hereditários, por mais que alguns pais e filhos tentem contê-los. Assim como o mesmo sangue corre nas veias, a paixão por motovelocidade foi herdada pelo ribeirãopretano Michel Velludo, de 17 anos. Fanático por motocicletas, o pai, Tato Velludo, começou a praticar o esporte quando criança. Foi campeão paulista, campeão brasileiro, correu como convidado em três edições do Mundial de Motociclismo do Rio de Janeiro e, atualmente, é proprietário de uma oficina especializada em “motor racing”.
Este ambiente e a energia familiar envolvendo o motociclismo foram propícios para que Michel iniciasse sua carreira, aos oito anos de idade, em 2003. O motociclista conta que o início aconteceu como uma brincadeira, durante um campeonato de minimotos 50cc em Itu, no interior de São Paulo. “Meu pai perguntou se eu queria participar e topei, mas eu tinha receio até do barulho das motos”, lembra o garoto que, na ocasião, ficou em segundo lugar. Depois disso, vieram voltas mais rápidas e pódios, até que Michel foi campeão da Taça de Verão Schincariol, em 2004. Ainda naquele ano, Tato montou uma motocicleta 125cc para o filho treinar e o garoto foi convidado pelo hoje heptacampeão Gilson Scudeler a integrar sua equipe, o “Team Scud Petrobras”, e disputar o Campeonato Brasileiro de 2005. Michel ficou em 8º lugar.
No ano seguinte, sem patrocínio e com a decadência dos campeonatos brasileiros, os pais de Michel começaram a se preocupar com os estudos do garoto e decidiram afastá-lo das corridas. “A escola exigiu muito de mim. No tempo que sobrava, eu me divertia com a Honda CRF250, andando nas pistas da região e na chácara do meu avô, onde meu pai fez uma pista de terra. Foi difícil, pois permaneci longe dos campeonatos e da motovelocidade”, recorda. Michel relata que, em 2011, não aguentou essa distância. “A falta do esporte estava me deixando louco e pedi aos meus pais para voltar às pistas. Foi quando descobri que eles me afastaram de propósito, para me testar, pois tinham dúvida se era aquilo que eu queria ou se não passava de uma cobrança interna de seguir os passos do meu pai”, revela o garoto, certo de que sempre soube que motovelocidade era tudo o que queria para sua carreira.
Metas traçadas
Em outubro de 2011, após disputar o Racing Festival na categoria CB300R, Michel participou do Circuito de Aragón, na Espanha, um teste para jovens em busca de uma chance no Red Bull Rookies Cup, competição que reúne pilotos entre 13 e 16 anos e que corre nos mesmos dias da maioria das provas europeias do calendário da MotoGP. Após se inscreverem pela internet, 106 pilotos de 24 países foram selecionados para três dias de testes, e o ribeirãopretano foi um deles, o único sul-americano escolhido. “Foi válido porque ele participou do segundo dia de teste e teve uma boa classificação. O fato de ter sido indicado já mostra uma ótima posição, afinal, a seleção avaliou o currículo dele e tudo que já fez no motociclismo”, orgulha-se Tato, que contou com a ajuda de cerca de 80 empresários de Ribeirão Preto para levar Michel aos caros testes na Espanha. Os exercícios utilizaram motos idênticas de 125cc, similares às utilizadas na categoria inicial do Mundial de Motovelocidade.
País sem incentivos
Segundo Michel, a experiência em Aragón foi um aprendizado muito grande para analisar a falta de estrutura do esporte no Brasil, onde não há campeonatos profissionalizados, patrocínio, incentivo ou equipamentos adequados. “Nossas motos são adaptadas para competição, enquanto lá fora as motos são prontas para corrida, muito mais evoluídas”, avalia Tato, que pretende levar o filho para um teste na França para correr o Mundial de Superbike.
Após disputar as Preliminares de 500 Milhas em Interlagos, em janeiro, Michel pretende participar de campeonatos fora do Brasil, mas, antes disso, quer treinar e evoluir em uma categoria mais parecida com a das motocicletas dos competidores internacionais, por exemplo, as motos de 600cc. O pai afirma que o passo seguinte é buscar patrocínio, já que a categoria não é nada barata. O próximo teste será em Londrina, no Paraná, em uma moto 750cc, segundo Tato, bem próxima a dos competidores estrangeiros. O pai afirma que Michel tem se saído muito bem, “brigando na ponta” em todas as provas disputadas.
Texto: Marina Rezende
Fotos: Ibraim Leão e arquivo