Em busca da superação

Em busca da superação

A retomada do crescimento das indústrias do setor sucroenergético e as principais saídas para a crise que fechou mais de 80 usinas foram alguns dos temas da entrevista de Delcy Mac Cruz com Paulo Gall

Diante de um cenário econômico pouco otimista para a indústria de base e a produção de açúcar e de etanol, a união de forças pode ser o diferencial entre a derrocada do setor sucroenergético e a superação. Em busca de alternativas para driblar a crise, Paulo Gallo, empresário e diretor técnico do Centro Nacional das Indústrias do Setor Sucroenergético e Biocombustíveis (Ceise Br), destaca-se pelo otimismo e pelo empenho para lidar com a situação que desgasta o setor.

Com um senso crítico bem dosado, Paulo não mede esforços entre suas idas e vindas a todas as esferas governamentais em busca de equalizar uma pauta que faça com que o setor sucroenergético retome gradativamente seu desenvolvimento. Seu conhecimento e experiência industrial, de gestão e à frente de órgãos como o Ceise Br e o Ciesp trouxeram subsídios para conduzir as negociações, cobrando medidas essenciais da União. No encontro com o jornalista Delcy Mac Cruz, Paulo revela os principais avanços junto aos governos federal e estadual e como as empresas do setor sobrevivem às dificuldades.

Mac: Em crise desde 2008, como as empresas do setor estão se mantendo?
Paulo: Elas estão abertas, porém menores. Temos visto prejuízos afetando o setor industrial e, neste ano, contaminando o resto da economia brasileira. Se olharmos para Sertãozinho, de acordo com o último dado do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), considerando apenas os empregos formais, foram perdidas mais de seis mil vagas nos últimos 12 meses. No Brasil, foram mais de 100 mil empregos diretos. Se levarmos em conta toda a economia, sé em julho, 157 mil vagas foram fechadas. O setor, que na cidade já empregou mais de 15 mil pessoas, hoje emprega em torno de sete mil.

Mac: A produção foi diversificada?
Paulo: A maioria das empresas está queimando reservas. Em 2008, tínhamos um cenário completamente diferente. O setor estava aquecido, com uma série de usinas sendo implantadas no Brasil. Com a crise no exterior, o mundo entrou em alerta, mas a situação demorou a chegar ao país. As empresas do setor sucroenergético se sustentavam até 2009 e 2010 por conta de projetos e contratos anteriores em andamento. Nesse período, já não havia usina nova chegando ao mercado. A partir de 2010, o cenário começou a complicar por conta da falta de novos projetos, com exceção de trabalhos pontuais e pequenas reformas ou melhorias. Também houve uma diminuição nos serviços de manutenção.

Mac: O que podemos vislumbrar para o setor a curto, médio e longo prazos?
Paulo: A curto prazo, nada. Temos feito uma série de gestões junto ao Governo Federal e ao Governo de São Paulo, buscando alternativas e o estabelecimento de uma pauta para alavancar o setor. Primeiro, solicitamos a volta da Contribuição de Intervenção do Domínio Econômico (Cide), cobrada no litro da gasolina, para levantar o preço, congelado há cerca de quatro anos — aliás, esta foi uma das medidas que o governo tomou e acabou prejudicando ainda mais o setor. A Petrobras não repassou para o consumidor os aumentos dos custos, na tentativa de segurar a inflação.

Mac: Esta medida do governo pesou muito para as usinas?
Paulo: Sem dúvida. Com o valor da gasolina congelado, o etanol não conseguiu ter uma variação real, porque seu preço está diretamente atrelado à tarifa da gasolina. Desta forma, as usinas foram absorvendo os custos de produção, ficando quatro anos praticamente sem repassar os custos de produção para o preço de venda. Além disso, houve um retrocesso na questão da adição de álcool anidro à gasolina, quando o Governo reduziu o percentual de 25% para 20%, por três anos. Como a diferença de preço para o consumidor já não era atrativa, o consumo de etanol caiu sensivelmente, agravando ainda mais a situação da maioria das usinas, que ficaram descapitalizadas.

Mac: Qual a saída encontrada pelo usineiro?
Paulo: Muitas usinas, que ainda não estão totalmente descapitalizadas, sobrevivem porque vendem a energia excedente no mercado diário. Também vemos inciativas pontuais por parte de alguns governos estaduais, como o de Minas Gerais, que reduziu o Imposto sobre Operações Relativas à Circulação de Mercadorias e o Imposto sobre Prestações de Serviços (ICMS), do etanol usado em veículos de 19% para 14%. Para compensar as perdas, o mesmo projeto aumenta a alíquota do imposto sobre a gasolina no estado, de 27% para 29%. Desta forma, o consumo tem melhorado, porém sem a recuperação de preço.

Mac: Mesmo assim, as usinas ainda não conseguiram se recompor?
Paulo: O consumo de etanol melhorou muito, porém as usinas ainda não refizeram sua margem de lucro porque os preços ainda estão abaixo do mínimo necessário para a geração de caixa. Hoje, já se comemora o empate de custos e lucro, assim como a vazão da produção. Outro grande problema é o passivo de tempos atrás — o setor está muito endividado e, por isso, falta dinheiro para investimentos.

Mac: A volta da Cide não ajudou?
Paulo:
Esse era um dos pleitos que, de uma forma ou de outra, acabou sendo atendido, mas não na sua plenitude. A taxa não voltou completa ainda, tem espaço para crescer ainda mais, mas já é uma melhora significativa.

Mac: Algo mudou em relação aos leilões de energia?
Paulo: Uma das reivindicações que tínhamos era melhorar o preço desses leilões, o que foi atendido. Porém, as usinas ainda não conseguiram operacionalizar por falta de investimento. Essas medidas que temos buscado andam muito lentamente nas esferas governamentais, não por culpa de uma pessoa ou de outra, mas por causa da própria estrutura. Hoje, é preciso percorrer quatro ou cinco ministérios para tratar do mesmo assunto, o que leva muito tempo.

Mac: Essas usinas não conseguem investir?
Paulo: Não vejo retorno de investimentos a curto prazo. Primeiro, elas precisam investir em manutenção e, hoje, existe um represamento nesse sentido. Como as empresas seguraram os investimentos e não fizeram a manutenção adequadamente, pelo menos nas últimas três entressafras, o parque industrial chegou a um ponto crítico. Acredito que na entressafra de 2015, o mercado desse serviço seja melhor, mas não enxergo nada de positivo para breve.

Mac: A corrida para concorrências na área de manutenção já começou?
Paulo: Sim, as empresas já consultaram seus fornecedores. Nesse sentido, a Fenasucro foi uma excelente vitrine de negócios. No entanto, ainda não vejo um horizonte muito animador, com linhas de crédito para ampliações, por exemplo.

Mac: O empresário está em condições de pedir financiamento?
Paulo: Estimamos que, na região Centro-Oeste do país, de 80 a 100 unidades produtoras têm condições para isso, pois estão com a documentação em dia. O agente financeiro busca garantias, leva em conta a geração de caixa e considera o passivo da usina. Por tudo isso, muitas unidades não conseguiriam recursos, pois seus passivos já estão comprometidos. Além disso, a falta de regularidade tributária de muitas unidades produtoras impede o acesso a possíveis linhas de financiamento, que poderiam ser implantadas, por exemplo, pelo BNDES no futuro, em especial, para investimentos em cogeração de energia elétrica a partir da biomassa da cana-de-açúcar.

Mac: O estoque mundial de açúcar começa a baixar. Um ajuste produtivo das usinas pode significar a retomada dos negócios?
Paulo: Sim, vários indicadores apontam nessa direção, primeiro, em relação ao próprio etanol, pois o consumo no Brasil e no exterior está aumentando, principalmente graças aos benefícios ambientais. Como o setor está desestruturado, temo que as empresas tenham dificuldade para abastecer esses mercados. A demanda pode ser maior do que a nossa capacidade de produção. É preciso investir em destilarias, no próprio processo produtivo e em melhorias na agricultura. O açúcar, pela primeira vez em quase dez anos, apresenta um bom sinal, uma vez que o enxugamento dos estoques pode representar a elevação do preço. É a lei da oferta e da procura. Para o produtor, isso deve acontecer a médio e longo prazos.

Mac: As usinas não poderiam se preparar para isso?
Paulo: Não, porque, hoje, o preço do açúcar ainda está muito baixo. Na minha concepção, a melhor saída para as usinas é a cogeração de energia elétrica por biomassa, principalmente, a de cana-de-açúcar, pois tecnologia e excedente de produção já existem. Seria uma forma rápida e eficiente de fazer caixa.

Mac: Hoje, qual o cenário da energia no Brasil?
Paulo: Há um déficit importante, que só não se agravou mais porque a economia retraiu. A energia de biomassa tem diversas vantagens, como, por exemplo, estar próxima de grandes centros de consumo, o que não é o caso das hidrelétricas. No entanto, precisamos convencer o governo da necessidade de se investir nisso. Há muito tempo, as usinas dominam essa tecnologia, gerando energia para consumo próprio. Ainda na década de 1980, o empresário Jairo Balbo foi pioneiro na venda do excedente de energia da usina São Francisco de Sertãozinho.

Mac: Houve algum avanço em relação aos leilões de energia?
Paulo: Sim. Até pouco tempo, não havia leilões separados, apenas para energia proveniente de biomassa. No final de abril deste ano, o governo promoveu algumas mudanças positivas. O preço melhorou, ficou mais atrativo e o prazo para instalação passou para cinco anos, com 20 anos de contrato para fornecimento. Os R$ 280,00 obtidos na venda do megawatt não são o ideal, mas já significam um avanço. O problema é necessidade de investimento para que as usinas possam aumentar a geração de energia diante da alta na demanda. A falta de recursos do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) e a alta dos juros desestimulam o empresariado do setor.

Mac: Tem como mudar isso?
Paulo: Acredito que sim, e esse é um dos principais motivos das minhas viagens a Brasília. A última reunião nesse sentido foi muito positiva e o setor tem apoio do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Armando de Queiroz Monteiro Neto, administrador de empresas, industrial, advogado e político brasileiro. Ex-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), foi eleito senador por Pernambuco e conhece muito bem todos os lados do setor agroindustrial — sua família tem usina, que está em processo de recuperação judicial. Monteiro Neto sobreviveu à reforma ministerial em andamento e permanece na pasta.

Mac: A Companhia Energética de São Paulo (Cesp) pode ser parceira do setor?
Paulo: Sim, e já temos um direcionamento nesse sentido. O Estado de São Paulo é um grande consumidor de energia e o Governo está se empenhando na geração de energias alternativas e limpas. A Cesp pode atuar na compra de energia e como investidora, fazendo parcerias com as usinas.

Mac: As usinas estão em condições de atender à demanda?
Paulo: Sim, mas é preciso investir. Ampliando a produção, haverá um maior volume de caldo. Assim, será preciso saber se a usina está preparada para o excedente de matéria-prima. Buscamos o convencimento sobre tal necessidade de investimentos e não medimos esforços para viabilizar o processo.

Mac: A entrada de concorrentes estrangeiros mudou o cenário do setor?
Paulo: Não muito. Sentimos uma concorrência acirrada em relação à venda de equipamentos, como caldeiras e destilarias. Embora o produto nacional tenha uma qualidade excelente, a entrada da China e da Índia no mercado tem gerado perda de contratos, pois o preço deles é mais atrativo. Ao participarem de uma concorrência, os estrangeiros chegam com financiamento pronto a juros internacionais. Não conseguimos concorrer no mesmo patamar. Os financiamentos no setor facilitariam as exportações e as vendas no mercado interno. Portanto, linha de crédito a juros atrativos é crucial.

Mac: Quem garante que nossa tecnologia continuará na ponta em cinco anos?
Paulo: A China, até pouco tempo atrás, não produzia nada de qualidade. Os produtos daquele país eram considerados de segunda ou até terceira linha. Os chineses investiram, aprenderam a fazer e hoje dominam o mercado de eletrônicos, por exemplo, a preços competitivos. Na área de software, os indianos são praticamente imbatíveis e o Brasil, até hoje, não conseguiu fabricar um único chip. Não temos uma política ou um planejamento industrial claro e eficiente, nem mesmo para o curto prazo.

Mac: Como está a produção de etanol de segunda geração (2G) ou de outras matérias-primas?
Paulo: Temos projetos e unidades já em produção. Ainda não sabemos se o etanol 2G será economicamente viável, mas estamos terminando o aprendizado. A produção de etanol a partir de milho, principalmente na região Centro-oeste, já é uma realidade. A Usimat, por exemplo, é pioneira nessa produção, com a implantação da planta flex, em Campos de Júlio, no Mato Grosso. Os canaviais foram trocados por milharais, que oferecem a vantagem de produzir o ano inteiro. Isso tem despertado o interesse de outras empresas do setor, mas essas plantas industriais ainda exigem muitos investimentos. Costumo dizer que o lado de lá do rio está bonito, só precisamos descobrir como atravessar e chegar lá.

Mac: E qual a receita para isso?
Paulo: Quem sobreviver à atual crise vai se sair bem. Precisamos, por exemplo, aumentar o consumo e a produção gradativa de etanol, melhorar os preços, investir pesado em tecnologia. Não podemos deixar nossa indústria de base ser desmantelada como vem sendo. Temos know-how e, agora, precisamos investir em qualificação de mão de obra. Para isso, Sertãozinho saiu na frente, com a ampliação da unidade do Senai, que terá uma planta de etanol, onde os alunos aprenderão na prática o funcionamento de uma usina.

Mac: Já tem data para a inauguração?
Paulo: Com investimento de aproximadamente R$ 50 milhões e recursos da indústria, a unidade deve iniciar suas atividades em 2016, mas não sei ao certo o cronograma de abertura de vagas para os cursos que serão ministrados. A previsão é de que, até o fim do ano, os equipamentos estejam disponíveis e as aulas comecem em janeiro. É o dinheiro da indústria que está entrando no setor e todo mundo, em Sertãozinho e região, teve uma participação importante nesse processo, com destaque para a Federação e o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo.

Observador da cana

“Paulo Gallo respira o setor sucroenergético 24 horas ao dia. Eu o conheço desde criança, pois somos praticamente contemporâneos e de Sertãozinho. Como representante do Ceise BR ou como empresário, Paulo integra o segmento sucroenergético de corpo e alma. Profissional bem informado, sabe o que se passa no âmbito político, uma vez que o setor depende de ações públicas, assim como precisa antecipar as tendências do setor. Não é a toa que, trabalhando em Sertãozinho junto a 500 empresas dedicadas ao universo da cana-de-açúcar, Paulo é um dos profissionais requisitados quando a mídia precisa conversar com quem entende do setor.” Delcy Mac Cruz, jornalista

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Rose Rubini
Fotos: Julio Sian

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