Em busca de novos conhecimentos
Segundo a Brazilian Educational & Language Travel Association (BELTA), em 2012, 175 mil brasileiros embarcaram para o exterior em busca de aprimoramento
No dia 14 de julho deste ano, Priscila da Costa Carvalho de Jesus, aluna do quinto ano de Engenharia Química da Unaerp, embarcou rumo à University of Strathclyde, em Glasgow, na Escócia. Aos 25 anos, ela decidiu sair da zona de conforto em busca de enriquecimento profissional e pessoal. O desejo de aprimorar seus conhecimentos fora do país e, assim, ter contato com culturas diferentes, era antigo. Priscila pesquisou muito e se preparou bem para encarar o desafio. Antes de preencher o cadastro do Ciência Sem Fronteiras, estudou a língua inglesa e passou no teste de proficiência, uma das exigências para quem busca uma vaga no projeto. Com a aprovação, reuniu os documentos necessários e aguardou o retorno da Universidade. Foi um período de apreensão e correria, mas que, segundo a estudante, valeu a pena. O tão esperado sim logo chegou.
Os primeiros dois meses em solo estrangeiro serão voltados para mais uma etapa de familiarização com o idioma, através de um curso de inglês na própria Universidade. Em setembro, as aulas válidas para a graduação começam de vez. Geralmente tranquila, a jovem foi tomada pela ansiedade. “Sei que essa experiência vai mudar a minha vida. Lá, tudo é diferente. Como não ficar inquieta? As expectativas não poderiam ser melhores. Vou evoluir bastante, abrir portas e adquirir contatos”, previu Priscila, pouco antes da viagem.
Augusto De Santi está no quarto ano de Administração. Ele também arrumou as malas e partiu para a Universidade de Coimbra, em Portugal, para uma Graduação Sanduíche, termo utilizado quando o universitário realiza parte de seus estudos no exterior. “Vou cursar disciplinas específicas e espero desenvolver projetos junto a profissionais da área, que, certamente vão agregar conhecimento à minha realidade. Além disso, quero esmiuçar os detalhes do país: arquitetura, culinária, história, costumes e economia”, adianta Augusto. Mesmo antes de subir no avião rumo à Europa, o jovem já pensava nos benefícios que essa temporada vai trazer em um futuro próximo. “Experiências de vida e estudos internacionais são diferenciais valorizados nos currículos. Acredito que, quando voltar, serei um profissional com mais qualificação, e, consequentemente, apto para encarar o mercado de trabalho”, afirma.
Para Augusto, a ideia de ganhar o mundo tomou força depois de uma visita ao Núcleo de Intercâmbio da Unaerp, onde foi apresentado ao Programa de Mobilidade Internacional. A Instituição acredita tanto no poder transformador dessa troca de informações que, há 15 anos, criou a Assessoria de Cooperação Internacional, iniciando uma série de atividades de colaboração em ensino e pesquisa com universidades parceiras nos Estados Unidos, Europa e países da América do Sul. Mais recentemente, em 2011, foi criado o Núcleo de Intercâmbio, com a missão de incrementar a mobilidade de estudantes de todos os cursos de graduação e também de pós-graduação. “Firmamos parcerias nas áreas de Ciências Exatas, Tecnologias, Humanas e de Saúde. Assim, propiciamos condições para que a internacionalização seja realidade para todos os alunos e professores da Unaerp que com ela sonham e a ela se dedicam”, destaca a assessora de assuntos internacionais da universidade, Profa. Dra. Suzelei de Castro França.
Hoje, a Unaerp conta com convênios bilaterais com Argentina, Austrália, Espanha, Peru, Portugal e Reino Unido, além das outras opções, provenientes da adesão ao programa Ciência sem Fronteiras. Periodicamente, lança editais com regras próprias, de acordo com os requisitos das instituições estrangeiras. Uma avaliação de equivalência é realizada antes do embarque para que, posteriormente, o conteúdo estudado lá fora seja aproveitado ao máximo no curso aqui no Brasil. As disciplinas cursadas no exterior, quando têm conteúdos equivalentes às do currículo original do aluno, são convalidadas no histórico acadêmico. Já as que não se adequam são acrescentadas como extracurriculares. Segundo a professora, o interesse dos alunos não para de crescer.
A perspectiva de quem já foi
Na casa da família Monte-Serrat, a busca pelo saber é uma tradição. A vida acadêmica da matriarca, Dionéia, e da filha, Daniela, são prova disso. Mesmo frequentando as mais renomadas instituições que o Brasil possui na área de Direito, as duas optaram por um aperfeiçoamento no exterior. Dionéia escolheu o Colégio Judiciário Nacional dos Estados Unidos. “Foi em 1994. Inicialmente, aceitei o desafio mais por curiosidade e para acompanhar meu marido, Ricardo, que ia ampliar seus conhecimentos como juiz. Como já era advogada e professora, recebi uma autorização para participar. Fiquei impressionada com a qualidade e com a profundidade do conteúdo oferecido”, lembra. O encantamento foi tanto que, um tempo depois, ela foi para a Inglaterra, para realizar outro curso, na Universidade de Kent.
Enquanto isso, Daniela acompanhava tudo de perto. Até que um dia, decidiu seguir o mesmo caminho. “Desde o início do bacharelado na USP, percebi que teria uma excelente formação o que, de fato, aconteceu. No entanto, sabendo que os assuntos que iria estudar nasceram em outros países ou receberam forte influência de juristas estrangeiros, concluí que deveria ir à fonte. Também notei que a maioria dos meus professores havia feito pós-graduação fora, o que confirmava que esse intercâmbio seria importante para a minha carreira”, explica.
Com essa ideia em mente, em 2008, Daniela partiu para Cambridge, na Inglaterra. Em 2009 e 2010, o destino foi os Estados Unidos e, em 2011, Austrália, Nova Zelândia e, novamente, Estados Unidos. A cada temporada, voltava com cursos, estágios e muita experiência na bagagem. Um dos destaques foi o curso sobre “Negociação Avançada”, na Universidade de Harvard. “Nesses países, a educação é prioridade. A reunião de grandes pensadores acaba transformando essas universidades em centros geradores de novas ideias. Fazer parte desse ambiente é contagiante”, opina. Há, ainda, o aspecto pessoal. Segundo a jovem, conhecer diferentes culturas, novas manifestações artísticas e aprender lições do passado de outros povos é enriquecedor.
Mãe e filha continuam se atualizando. Em 2010, Dionéia realizou um Doutorado Sanduíche na Sorbonne, em Paris. “Desde a decisão de estudar lá até a aprovação no processo de seleção, foram nove meses de trabalho intenso. Mas foi um período incrível, que, inclusive, abriu portas para um novo estágio, em 2012, na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris. Essas duas oportunidades enriqueceram a tese que defendi e contribuíram, efetivamente, para a minha aprovação”, revela Dionéia, que ainda acrescenta: “Além de conhecimentos específicos, aprendi o que é valorizar o estudo e a cultura. É uma vivência única, que produzirá frutos valiosos por toda a vida”.
Brasil também é referência
A qualidade das instituições de ensino brasileiras ultrapassa limites territoriais e desperta interesse em alunos de outras nações. Tanto é que, segundo dados do Ministério das Relações Exteriores, o número de estrangeiros interessados em estudar no Brasil nunca foi tão grande. Metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro são as mais procuradas, mas Ribeirão Preto também aparece na lista. Segundo Fernanda dos Reis Almeida, que trabalha como chefe da seção técnica de apoio ao visitante estrangeiro da USP, a unidade local recebe, anualmente, 150 alunos de fora, para graduação e pós-graduação. De 2010 para 2012, houve um crescimento de 17%. A maior parte desse público vem da América Latina, mas, nos últimos anos, a diversidade se intensificou, com representantes de países da Europa, África e Oriente Médio, entre outros.
Para Fernanda, essa demanda ocorre por causa da posição de destaque atingida pela USP em rankings internacionais. “Isso tem atraído mais instituições de ensino para o estabelecimento de convênios de cooperação, assim como professores, pesquisadores e estudantes. No campus de Ribeirão Preto, especificamente, temos uma tradição na área de biológicas, mas os cursos voltados às Ciências Humanas também estão ganhando espaço”, enfatiza. A Universidade se organizou para aprimorar a infraestrutura física e de pessoal para atender a esse grupo. “Damos suporte total e promovemos a integração deles com os brasileiros. Assim, contribuímos para que ambas as partes tenham uma convivência enriquecedora”, conclui.
Há pouco mais de três anos, a colombiana Silvia Liliana Ruiz Roa veio para Ribeirão Preto realizar o programa de doutorado na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP. “O Brasil está se tornando uma ótima referência em pesquisa não só na América do Sul, como também no mundo inteiro. Estou feliz por ter vindo e satisfeita com o que estou aprendendo. Apesar da diferença das línguas, nossas culturas são similares, o que facilita bastante. Além disso, fui muito bem recebida por todos. Para falar a verdade, tenho me sentido em casa”, finaliza Silvia.
Quanto antes, melhor
Hoje em dia, é cada vez mais comum jovens de 15 a 17 anos estudarem fora do país. O programa de High School, correspondente ao Ensino Médio, tem sido bastante procurado. “É uma oportunidade única, que proporciona um desenvolvimento intelectual fantástico. Além de aprimorar o idioma e obter um vasto conhecimento, os adolescentes que realizam esse tipo de intercâmbio aprendem outros valores e culturas, fazem amizades facilmente e se divertem enquanto estudam. É um detalhe importante no currículo, especialmente, para a conquista do primeiro emprego. Por isso, quanto antes for possível passar por essa experiência, melhor”, explica Maria Jose Diniz Scorsolin, diretora da Diniscor Education, agência especializada em Educação na Austrália e na Nova Zelândia. Em média, o período indicado são seis meses, podendo ser prorrogado para um ano. Nesses dois países, que possuem qualidade de ensino reconhecida, mundialmente, a maioria das escolas é pública e o ano letivo vai de fevereiro a dezembro, com intervalos em abril, julho e setembro.
Os números do intercâmbio
• Segundo a Brazilian Educational & Language Travel Association (BELTA), órgão que regulamenta as agências de intercâmbio do país, em 2012, 175 mil brasileiros embarcaram para o exterior em busca de aprimoramento. O número é 4,5% maior do que o registrado em 2010, quando pouco mais de 167 mil pessoas optaram por essa experiência internacional.
• As empresas especializadas apontam que a procura pelos cursos de idiomas é a mais significativa. Cerca de 60% das vendas é para essa modalidade. Logo em seguida, aparecem os cursos de férias, o Ensino Médio (High School), a Graduação e a Pós-Graduação.
• O público jovem é predominante. Cerca de 73% dos intercambiários têm até 17 anos. Os estudantes entre 18 e 30 anos somam 20%. Os outros 7% representam a faixa etária superior aos 31 anos.
• Os países mais requisitados são Canadá, Estados Unidos
e Austrália.
• Os valores variam de acordo com o país de preferência e com a instituição escolhida. Em média, um curso de férias custa cerca de R$ 6.000. O preço vai subindo de acordo com o nível de qualificação. Uma pós-graduação, por exemplo, gira em torno de R$ 25.000.
Incentivos do Governo
O “Ciência sem Fronteiras” é um programa que busca promover a consolidação, a expansão e a internacionalização da ciência e da tecnologia brasileira por meio do intercâmbio e da mobilidade internacional. O projeto prevê a utilização de até 101 mil bolsas de estudo para que alunos de graduação e pós-graduação façam estágio no exterior e, assim, mantenham contato com sistemas educacionais competitivos e tragam esse know-how para o Brasil.
A iniciativa é fruto de esforço conjunto dos Ministérios da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e do Ministério da Educação (MEC), por meio de suas respectivas instituições de fomento — Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) —, e Secretarias de Ensino Superior e de Ensino Tecnológico do Ministério da Educação (MEC). Para mais informações, acesse: www.cienciasemfronteiras.gov.br.