Em busca de referências
Durante uma fase de descobertas, os adolescentes utilizam o exemplo de seus ídolos
No dia 5 de junho, “A culpa é das estrelas” estreou nas salas de cinema. Como era esperado, o lançamento atraiu uma verdadeira multidão, atingindo recordes logo no primeiro final de semana de exibição em território nacional. De quinta a domingo, 985 mil pessoas assistiram ao filme estrelado por Shailene Woodley e Ansel Elgort.
Os dados foram divulgados pela empresa de monitoramento Rentrak. O longa é uma adaptação do livro homônimo, escrito por John Green, que causou uma verdadeira comoção pelo mundo ao narrar a história de amor entre Hazel Grace e Augustus Waters. Os personagens da trama têm suas vidas modificadas depois de se conhecerem em um grupo de apoio a jovens com câncer.
O romance, inclusive, foi eleito o melhor de 2013 na categoria ficção pela revista norte-americana “Time” e liderou a lista dos mais vendidos do “New York Times”. No Brasil, figura há 62 semanas no ranking elaborado pela revista Veja.
Outras produções também atingiram números significativos anteriormente, tanto nas livrarias, quanto nas telonas. A saga “Crepúsculo” e a coleção “Harry Potter” são algumas delas. As obras citadas possuem suas particularidades, mas todas têm um fator em comum que, talvez, seja o elemento-chave para justificar tamanho sucesso: elas caíram no gosto dos adolescentes.

A cada dia, esse público conquista mais espaço e maior destaque na sociedade. Cheios de opinião, eles sabem o que querem e, muitas vezes, levam os pais à loucura até conseguirem. A indústria entende bem isso e aproveita a oportunidade, desenvolvendo produtos sob medida para eles.
Por tudo isso, essa fase demanda uma atenção permanente. “O adolescente contém uma extraordinária energia dentro de si. Entretanto, ainda não tem maturidade para lidar com diversas situações. O sentimento que impera é de poder tudo, de estar imune aos riscos. Temos que entender que é um período de transição, de intensas mudanças no corpo e na mente, de experimentação e de preparação para a vida adulta”, descreve Silvana Vassimon. Psicanalista, membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto e membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, a especialista atua há 30 anos na parte clínica, atendendo jovens e adultos.
Silvana explica que há uma necessidade de libertação, de rompimento com certos apegos familiares e da construção da própria personalidade. Nessa hora, o grupo social surge com força total. “As emoções, as dúvidas e as fantasias são compartilhadas com os amigos. É importante ter um universo particular, um lugar do qual os adultos são excluídos. Aos pais, cabe o papel de porto seguro, onde os filhos encontram acolhimento nos momentos de desamparo. É dos bastidores que a família deve observar os adolescentes, não só aonde vão ou com quem vão, mas como se sentem, como pensam e que pessoas estão se tornando”, aconselha Silvana.
Durante o processo de descobertas, a tendência é buscar modelos em que se espelhar. Isso explica porque os teens têm tantos ídolos, desde um astro do cinema ou uma banda, até um herói dos gibis. Os jovens se identificam com esses exemplos e estabelecem uma estreita afinidade com seus eleitos. De certa forma, essa experiência dá uma bagagem para que consigam se expressar e se relacionar com o mundo ao redor de uma maneira mais tranquila.
“São personagens para onde os desejos, as expectativas e as ambições podem ser canalizadas, com quem eles podem viver sonhos, medos e frustrações. Enquanto servem de ligação entre os membros de cada turma e de inspiração para um futuro brilhante, os ídolos ajudam o adolescente a descobrir aspectos valiosos e, com isso, permitem que encontrem, muitas vezes inconscientemente, sua identidade”, relata a psicanalista.
Ainda segundo a especialista, essa relação é saudável, desde que não haja exageros, visto que esta é uma etapa em que o ser humano está extremamente vulnerável às influências externas. “Os limites são absolutamente necessários. Se eles forem ultrapassados, é hora de procurar ajuda psicológica”, recomenda.
Entretanto, conter a paixão de um adolescente por seu ídolo não é tarefa fácil. Que o diga Luciana Oliveira, mãe de Gabriela Borges Marques de Oliveira. Com 12 anos, a garota é fã do One Direction. Conheceu o grupo há quatro anos assistindo pela TV a uma premiação organizada pelo canal Nickelodeon, e foi amor à primeira vista.
“Eles são lindos, principalmente o Niall Horan. A música também é muito legal. Depois da apresentação, fui procurar informações sobre eles e quanto mais eu encontrava, mais gostava”, lembra Gabriela. A partir daí, a tietagem começou. Comprou CDs, DVDs, revistas, bonecos, blusas, faixas, figurinhas e tudo mais que fosse relacionado à banda, além de espalhar pôsteres dos astros pela parede do quarto.
Ver os cantores ao vivo virou um sonho que se tornou realidade em maio deste ano. “Soube através das minhas amigas que a turnê passaria pelo Brasil e insisti para que meus pais me levassem. Disse que não precisava me dar presente de aniversário e nem de Natal: eu só queria os ingressos. Desde o início, eles disseram não. Só fiquei sabendo que iria um dia antes. Na hora, não acreditei”, comenta Gabriela.
A família embarcou rumo a São Paulo e ficou de prontidão no Estádio do Morumbi horas antes do One Direction subir ao palco. “A ansiedade era enorme. Esperamos bastante, mas, assim que eles apareceram, tudo valeu a pena. Chorei de emoção. Não existem palavras para descrever o que eu senti”, relata a jovem. Segundo Gabriela, esse foi um dos dias mais felizes de sua vida.
Para Luciana (com Gabriela na foto) e o marido, Paulo Henrique, a decisão de levar a filha para conhecer os ídolos foi acertada. “Conversamos bastante e, em conjunto, chegamos à conclusão de que poderíamos proporcionar esse momento especial. É imprescindível que os pais estejam na mesma sintonia sobre a educação dos filhos. Sabemos o quanto essa banda é importante para ela e compartilhar da sua alegria durante o show foi inesquecível. Confesso que assusta um pouco olhar para a Gabriela e constatar que ela não é mais uma criancinha. É uma adolescente, que tem vontades e gostos próprios. Não existe uma cartilha para entendê-la e, às vezes, as situações exigem jogo de cintura. Encaramos tudo isso de forma positiva. Somos sempre presentes, participativos e mantemos uma comunicação afinada para que essa fase transcorra da melhor maneira possível”, comenta Luciana.
E parece que o charme dos rapazes britânicos realmente conquistou o coração de muitas meninas. O One Direction está entre as bandas favoritas de Maria Clara Campos, de 13 anos. Ela, inclusive, esteve também na apresentação que aconteceu em São Paulo este ano. “Foi sensacional”, resume. Apesar da música ocupar um lugar significativo na lista de preferências da jovem, são os livros que a fascinam verdadeiramente.
“Leio todos os dias, nem que seja só um pouquinho. Só neste ano, já foram 16 títulos para a minha coleção, até agora. Eles me dão uma ideia de como é o mundo dos adultos. Muitos contam histórias com que eu consigo me identificar. Outros trazem situações que nunca passei e me fazem sonhar com o futuro”, declara. Apesar do gosto eclético, Maria Clara tem o seu autor queridinho: Nicholas Sparks.
“Os romances dele são maravilhosos. A sensação é de que você está realmente vivendo tudo aquilo que ele conta, palavra por palavra. Eu amo isso”, enfatiza. Para quem quiser conferir as obras do escritor norte-americano, ela indica “Um porto seguro”, “O melhor de mim”, “Um homem de sorte” e “Uma carta de amor”.
A mãe de Maria Clara,Fabiana Albuquerque, acredita que a aproximação entre pais e filhos é uma característica dos tempos modernos. “Somos melhores amigas. Conversamos sobre tudo e temos diversos interesses em comum. Ouvimos os mesmos CDs, trocamos livros, assistimos a filmes juntas comendo pipoca e brigadeiro. Sei que a maioria das amigas dela tem uma relação parecida com as mães. Os adolescentes da atualidade estão mais espertos. Fica mais fácil e gostoso acompanhá-los”, pontua Fabiana. O cenário é diferente do que era predominante em gerações passadas. “Com a minha mãe, existia um certo distanciamento. Ela é uma mulher elegante, sempre de salto alto e não colocaria um tênis para ir a um estádio assistir um show comigo sentada na grama”, diverte-se. A assessora de imprensa diz que compreende a tietagem da filha, até porque ela sentia o mesmo por seus ídolos na adolescência, como New Kids On The Block, Michael Jackson, Madonna e The Cure. O que acontece quando aquele personagem tão adorado demonstra um comportamento controverso e não tão exemplar fora dos holofotes? “O jovem tem que saber separar bem a imagem do artista da vida pessoal dele. A Maria Clara gosta da polêmica Miley Cyrus. Esses dias ela me disse: ‘Mãe, ela é toda errada, só faz besteira, mas eu curto as músicas’. Achei o máximo esse comentário. Mostra o quanto ela é esclarecida”, comenta Fabiana.
Os meninos também têm seus ídolos. Os deEduardo Colombari, de 11 anos, são os heróis. Influenciado pelos irmãos mais velhos, começou a curtir os personagens dos mangás, como Cavaleiros do Zodíaco e Naruto. Depois, passou para os da Marvel, sendo o Homem de Ferro e o Capitão América seus preferidos. O primeiro por não ter poderes sobrenaturais e utilizar sua genialidade para fazer a diferença e resolver os problemas. Já o segundo, por ter sido ridicularizado antes de sua transformação e, mesmo assim, focado sua força não para a vingança, mas para fazer o bem.
As horas vagas na agenda, agora, são ocupadas com gibis, livros, filmes ou jogos de videogame. “Os filmes, em princípio, são mais atrativos, com efeitos especiais, narrativa rápida e tom de comédia. Mas eles, geralmente, são apenas uma pequena parte do todo, instigando a saber mais. Aí, quando você conhece a obra impressa completa, vê que muitas informações ficam de fora e são justamente esses detalhes que deixam o enredo ainda mais interessante. Meus amigos, meus irmãos e eu nos reunimos para comentar sobre esses assuntos”, conta.
O pai, Jorcelino, fica feliz pelo envolvimento do filho com a cultura. “O mundo de hoje oferece muitas distrações. É bom que eles voltem a atenção para coisas assim, que ocupem a mente de forma bacana, criativa e enriquecedora. Esse vínculo que eles formam funciona como uma proteção e os ajuda a discernir o certo do errado naturalmente, porque sempre há uma lição de moral a se aprender nesses conteúdos, mesmo que esteja escondida nas entrelinhas”, analisa o pai.
O PAPEL DA ESCOLA
A escola tem uma função estratégica. Além de contribuir para o desenvolvimento intelectual dos jovens, ensina lições preciosas para garantir uma vida plena em sociedade. Conceitos como solidariedade, tolerância, respeito, diversidade e ética são trabalhados dentro e fora das salas de aula.
“Lidar com adolescentes nos coloca dentro do seu universo de forma plena, o que nos torna cúmplices de atitudes e crenças. Por isso, é um desafio constante encontrar linguagens efetivas para orientá-los”, explica Rodrigo Pires de Morais, diretor do SEBCOC – Unidade Ribeirânia.
Para isso, a instituição criou uma série de programas extraclasse, dinâmicos e interativos, como Sarau Interdisciplinar, Feira de Ciências e Artes (Feciarte), Curso de Teatro, Curso de Matemática Financeira e atividades esportivas. Há, ainda, intercâmbios culturais e parcerias com renomados centros de ensino internacionais.
“Assim, mostramos que, com organização, seriedade e a irreverência da juventude usada de forma correta, podemos realizar grandes conquistas”, reflete Rodrigo. Os alunos respondem comparecendo em peso aos encontros e participando com grande empenho e entusiasmo.
Além disso, no dia a dia, os professores indicam músicas e filmes que podem interessar. Os ídolos também estão presentes nesse ambiente, mas com um toque mais intelectualizado. “Destacamos referências como Einstein, Darwin, Oswaldo Cruz, César Lattes, Freud, Machado de Assis, Clarice Lispector, Marie Curie, Nelson Mandela, Marx e outros personagens da história cultural, política e científica. Esses modelos mostram possibilidades do que fazer e de como fazer”, salienta o diretor.
Os próprios ex-alunos que obtiveram êxito profissional e pessoal podem ser bons exemplos. Porém, Rodrigo faz um alerta. “A escola deve contribuir com a formação pessoal dos alunos, mas jamais substituir o âmbito familiar. Para o sucesso dos alunos, é de fundamental importância a união entre a escola e a família”, finaliza.
Texto: Paula Zuliani
Fotos: Carolina Alves e Julio Sian
Produção de Moda: Marcela Versiani e Mel Cândido
Agradecimentos
Etna Shopping Iguatemi - tel.: (16) 3131.3000
Gafe Galeria Via Allegra (mural, copo e fone) - tel.: (16) 3446.4120
Fnac Ribeirão Preto - tel.: (16) 3238.3000* Publicado em 04/07/2014