Em busca de respostas
Os virologistas Luiz Tadeu Moraes Figueiredo e Benedito Lopes Fonseca e o médico sanitarista Daniel Cardoso de Almeida e Araujo buscam identificar melhor as causas e os efeitos da infecção pelo vírus
Com 2.531 notificações de casos suspeitos de zika entre janeiro e fevereiro deste ano, Ribeirão Preto entra em estado de alerta, especialmente para os riscos de contaminação na gravidez. Do total, 45 casos foram confirmados laboratorialmente em gestantes, sem notificação de microcefalia relacionada ao vírus zika. Pesquisadores, médicos, especialistas na área de saúde e autoridades políticas de todas as esferas se unem para entender melhor as causas e os efeitos da doença.
A dengue, transmitida pelo mesmo mosquito — o Aedes aegypti —, já vem sendo acompanhada pelos especialistas há vários anos, o que permitiu implantar uma série de medidas de controle, de monitoramento, de diagnóstico e de tratamento eficazes. Foi possível, também, acumular dados estatísticos para saber exatamente a quantidade de pessoas infectadas e de mortes provocadas pela doença. Com o zika, a situação é diferente, pois, como a infestação é recente, as informações ainda são escassas. Um dado importante, já evidenciado cientificamente, é que o vírus pode infectar o feto, em qualquer fase da gestação, podendo deixar sequelas no bebê.
Para ter um controle maior sobre o número de casos da doença, o médico sanitarista e integrante do Núcleo Hospitalar de Epidemiologia do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (HCRP), Daniel Cardoso de Almeida e Araujo, explica que os casos suspeitos de zika, bem como das outras doenças de notificação compulsória, são comunicados aos serviços de vigilância epidemiológica. A diferença com relação ao zika e aos casos de microcefalia é que essa situação é muito nova. Segundo o médico, até o começo do ano passado, o vírus nunca havia sido identificado nas Américas e, até setembro de 2015, ainda não havia sido constatado um aumento expressivo do número de casos de microcefalia e sua possível associação com o vírus zika.
Sendo assim, o sistema de vigilância epidemiológica teve que se adaptar rapidamente a essa nova situação, priorizando a notificação e a investigação dos casos de microcefalia e em gestantes que apresentem exantema (manchas vermelhas espalhadas pelo corpo). Para os demais casos suspeitos de zika, o Instituto Adolfo Lutz, laboratório de saúde pública do Estado de São Paulo, disponibiliza diagnóstico até a primeira identificação do vírus no município, ou seja, após a identificação da circulação do vírus, novas coletas ficam suspensas.
Para as gestantes a situação já é diferente: todos os casos de grávidas com exantema são notificados, assim como ficam garantidos todos os exames laboratoriais para diagnóstico. “Esses dados mudam muito rapidamente, mas temos mais de 500 casos de gestantes com exantema notificados em nossa região, com mais de 50 casos confirmados de infecção pelo zika. Todas essas gestantes serão acompanhadas para verificar se ocorrerá alguma complicação para o feto”, explica Daniel. Atualmente, é possível identificar a presença do zika apenas com o apoio laboratorial, através da identificação direta do genoma do vírus, pela técnica do PCR, ou por técnicas sorológicas que ainda estão sendo desenvolvidas, que identificará a presença de anticorpos contra a doença.
TRANSMISSÃO
A doença é causada por um vírus transmitido predominantemente por mosquito, particularmente do gênero Aedes e, no Brasil, pelo Aedes aegypti. Além disso, a contaminação pode acontecer por transfusão de sangue, por meio de relação sexual, e de mãe para feto, nos casos de microcefalia. Esta, de acordo com o virologista e coordenador do Centro de Pesquisa em Virologia da USP de Ribeirão Preto, Benedito Lopes da Fonseca, ainda precisa ter confirmação, mas, do ponto de vista epidemiológico, é o problema mais crítico. “Já há evidências de fetos onde foi encontrado o vírus zika no cérebro. Aos poucos, o conhecimento sobre isso está sendo ampliando”, antecipa Benedito.
Existe, ainda, outra situação de contaminação do feto pela transmissão perinatal, aquela situação onde a mãe está próxima a dar a luz quando adquire zika e passa o vírus para o bebê. Benedito relata, sobre a transmissão sexual, que um caso americano foi muito bem documentado: a mulher grávida foi infectada pelo zika em outro país e, ao voltar, teve um bebê com microcefalia. O vírus, assim como qualquer outro tipo de doença infecciosa, pode causar danos em qualquer momento da gestação, mas a fase mais crítica, onde as piores malformações acontecem é no primeiro semestre da gestação.
Nesse período, ocorre a maior reprodução celular e, se algo interfere no processo, faz com que as células se reproduzam de maneira errônea. “Certamente, aparecerão alterações, mas o que ainda não sabemos é qual o impacto que uma infecção pelo vírus zika pode gerar no segundo ou no terceiro trimestres da gestação. Ainda não se sabe, também, quanto tempo ele fica no corpo. Benedito explica que, depois de três dias, em alguns pacientes, não se consegue mais detectá-lo, mas há outros em que o vírus permanece no organismo por mais tempo. Pessoas, por exemplo, com a Síndrome de Guillain-Barré, ou prostatite, estão entre esses pacientes. Já há relato de um indivíduo que apresentou sinais do vírus quase dois meses depois da manifestação aguda da doença.
As secreções são outro aspecto que precisa ser melhor estudado. Em alguns casos, o zika demora mais tempo para ser eliminado, como na urina e no esperma. Benedito aponta que alguns estudos mostram a presença do vírus no sêmen, como um caso da Inglaterra, onde um homem de 68 anos passou férias nas Ilhas Cook, próximas à Nova Zelândia, pegou zika, e permaneceu com vírus no sêmen por 62 dias. “Portanto, ainda não sabemos até quando o vírus permanece no corpo. Para saber esta, entre tantas outras respostas, é que estamos acompanhando um grupo de gestantes aqui no Hospital das Clínicas”, frisa Benedito.
Neste trabalho, o virologista e sua equipe acompanham entre 300 e 400 gestantes, em várias fases da gravidez. Algumas delas já aparecem com algum tipo de doença exantemática, e esses casos são investigados com maior rigor. De 29 casos, 18 deram positivo para zika. Benedito observa que a relação do vírus com a microcefalia já é realidade, mas é preciso saber se existem outras alterações neurológicas ou fisiológicas, decorrentes da infecção e isso, segundo ele, deve demandar outro tempo de estudo, conduzido principalmente pela equipe de pediatria da Faculdade de Medicina da USP.
Outra linha de pesquisa sob sua responsabilidade foi a criação de um teste rápido para detectar a presença do vírus, que usou também a técnica do PCR. “Chamamos esses kits de ‘in house’, ou seja, feito em casa. Já desenvolvemos e estamos na fase de compará-los a outros já existentes. Precisamos ter a certeza de que seu desempenho é igual ou melhor do que outros. A partir daí, poderemos oferecê-los ao mercado para a produção comercial”, antecipa Benedito. A priori, o virologista quer repassar a tecnologia para os laboratórios de saúde pública, como o Instituto Adolfo Lutz, para que consigam produzi-la por um preço menor e disponibilizá-la para a rede pública de saúde.
FORÇA-TAREFA CONTRA O VÍRUS
Com o objetivo de sanar diversas questões científicas, a Rede de Pesquisa sobre Zika Vírus, em São Paulo, informalmente conhecida como Rede Zika, conta com aproximadamente 42 instituições com pesquisas intensas sobre os mecanismos do vírus. Com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de são Paulo (Fapesp), foram reativados os projetos ligados à Rede de Diversidade Genética de Vírus (VGDN), o que permitiu a rápida criação da Rede Zika. Dos 444 auxílios e bolsas já concedidos pela Fapesp para pesquisas sobre Aedes, dengue e chikungunya, cerca de 76 estão em andamento. No total, os aditivos aprovados somam cerca de R$ 550 mil, mas novos recursos devem ser injetados em breve. Todos os projetos são coordenados pelo professor Paolo Zanotto, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP. Vacinas, técnicas para sorologia, controle do mosquito, mecanismos celulares em virologia e muitos outros temas são alvos de investigação. Em Ribeirão Preto, as pesquisas envolvem uma equipe com cerca de 30 pesquisadores, coordenados pelo virologista Luiz Tadeu Moraes Figueiredo, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP).
O primeiro passo da Rede foi distribuir o vírus isolado e os recursos para início dos estudos em todos os grupos participantes. Entre as linhas de pesquisas já encaminhadas pela equipe da USP de Ribeirão Preto, Luiz destaca o desenvolvimento de métodos de diagnóstico, de mecanismos para identificar os sintomas entre os pacientes doentes, o sequenciamento do genoma do vírus, os caminhos que levam o vírus ao cérebro, mesmo em adultos, o tempo que ele permanece no corpo, entre outras questões. O especialista destaca que a grande dificuldade dos testes padronizados tem sido em relação ao diagnóstico indireto, quando não se procura o vírus, mas, sim, o anticorpo produzido pelo organismo. “Já estamos desenvolvendo alguns métodos usando abordagem clássica: pegamos uma bactéria, a infectamos com o zika e ela passa a produzir uma proteína, um pectidio, que usaremos no paciente e veremos como reage contra este pectídio”, explica Luiz. A criação de um teste rápido, que poderá ser usado até por médicos no consultório, e o desenvolvimento de uma droga antiviral também são alvos da investigação dos pesquisadores da USP.