Em estado de alerta
Alterações na respiração, aceleração dos batimentos cardíacos, sensação de asfixia no peito, tremores na voz, sudorese, fadiga e até distúrbios no sono: o corpo reage diante do medo
Reação natural de proteção, o medo é uma resposta vital para situações de perigo iminente, seja de algo que afetaria fisicamente ou emocionalmente. O sentimento está presente em situações corriqueiras ou outras mais específicas e pode ser desencadeado por traumas, experiências ruins, crenças pré-estabelecidas ou mesmo ameaças legítimas. Independente da origem, assusta e causa limitações, quando não controlado.
Muitas vezes visto como algo desagradável, o medo tem a sua importância. Do ponto de vista evolutivo, foi graças a ele que os homens primitivos sobreviveram em meio a animais selvagens. O medo possibilita a preparação, a prudência e a cautela. Se o indivíduo está com medo quando precisa caminhar por uma rua deserta, à noite, fica alerta e se prepara para uma eventual fuga. “O reconhecimento dos nossos limites favorece o advento do medo. A criança que não sabe nadar se joga na piscina. A partir do momento em que os adultos vão alertando, ela vai tomando consciência dos seus limites, de até onde pode ir, e passa a ter medo. O medo tem sua importância, pois impede que a criança se afogue”, exemplifica o psiquiatra Leonardo Ciciarelli Pereira Lima.
Leonardo é médico (CRM: 163.671) formado pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, médico psiquiatra pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (RQE 71340), psiquiatra colaborador do Programa Terceira Idade (PROTER) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) e cursa especialização em Psicodrama Clínico e Análise Psicodramática pela Escola Paulista de Psicodrama (EPP). Segundo o especialista, o medo é uma emoção universal do homem, porém, pode vir a se tornar patológico quando suas manifestações são paralisantes, desproporcionais e intensas. A partir daí, acontecem as chamadas fobias e o pânico.
Fernando Midea Reis, psicólogo pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP), neuropsicólogo pelo CEPSIC-SP e pós-doutorando no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), também considera o medo como um sentimento comum porém desagradável. “O medo e a ansiedade são sentimentos perfeitamente normais, mas, às vezes, tornam-se desadaptativos. Podem ser excessivas na intensidade, duração ou frequência, levando ao estresse e ao sofrimento, de modo a prejudicar significativamente a vida diária”, afirma Fernando.

Desta forma, é possível a pessoa se adaptar às preocupações em relação, por exemplo, a honrar compromissos financeiros, a conseguir um emprego, estudar para concursos, assim como as reações a objetos ou lugares perigosos. Entretanto, quando constantes e infundadas, preocupações que levam a evitar situações de interação social por receio de estar sendo julgado ou humilhado, ou preocupações irracionais sobre a evitação de lugares, objetos ou situações que representam baixa ou nenhuma ameaça de dano, assim como a repetição de ações incontroláveis (como rituais excessivos de limpeza) e a recorrência de pesadelos (ou “flashbacks”) relacionados a eventos traumáticos ocorridos há muito tempo, mostram-se desadaptativas no funcionamento do indivíduo e podem caracterizar um quadro patológico.
Quem tem mais medo
Dados de um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), de 2017, mostram que a proporção da população global com transtornos de ansiedade é estimada em 3,6%. O Brasil é o país com a maior taxa de pessoas nessa situação. Assim como acontece com a depressão — apesar das taxas de suicídio serem maiores entre os homens do que entre as mulheres —, os distúrbios de ansiedade são mais comuns entre mulheres do que homens: 4,6%, comparado a 2,6% no nível global. As taxas de prevalência não variam substancialmente entre grupos etários, embora exista uma tendência observável para menor predomínio entre os mais velhos.
O número total estimado de pessoas vivendo com transtornos de ansiedade no mundo é de 264 milhões. Esse total, para 2015, reflete 14,9% de aumento desde 2005, resultado do crescimento e do envelhecimento da população. Fernando explica que contribuições psicossociais, fatores genéticos e neurobiológicos têm sido discutidos como possíveis causas para a maior prevalência em mulheres. É provável que, em determinada fase da vida, principalmente quando o estresse e as alterações hormonais têm maior probabilidade de alterar o funcionamento do indivíduo, seja mais recorrente o estabelecimento de um transtorno de ansiedade.
O corpo fala e a mente também
O medo é, frequentemente, uma experiência psíquica e somática, ou seja, é acompanhado de reações como alterações motoras, hormonais, viscerais e vasomotoras. “Existe uma teoria postulada por William James e Carl Lange (James-Lange) que diz que a emoção é concebida como a tomada de consciência das modificações fisiológicas produzidas por determinados eventos. Segundo essa teoria, o homem primeiro vê o tigre, começa a suar, a empalidecer, a ter taquicardia e, em consequência dessas mudanças corporais, passa a sentir propriamente o medo. Existem controvérsias em relação a esta teoria, porém, em favor dela, os indivíduos com lesões medulares relatam sentir um ‘medo frio’, ou seja, um medo sem a força e a intensidade que tinha antes da supressão das informações corporais que recebiam, portanto, referem-se a uma mudança significativa na qualidade de suas emoções após a lesão medular”, exemplifica Leonardo.
Fernando completa que, compreendendo o medo como uma consequência cognitiva do processamento de uma ameaça, sabe-se que esse processamento é acompanhado de uma série de respostas fisiológicas e comportamentais. Assim, em situações em que o medo está presente, são comuns alterações na respiração, nos batimentos cardíacos, sensação de asfixia no peito, tremores na voz, sudorese, fadiga ou distúrbios no sono, entre outras. “Do ponto de vista cognitivo e comportamental, dependendo do quadro clínico, podem estar presentes comportamentos de evitação, supervalorização do significado de ameaças, dificuldade em distinguir situações de perigo e segurança, sentimentos de tensão, preocupação, incapacidade de relaxar, sensação de vergonha ou rejeição, sentimentos de estar fora do controle e até sensação de morte eminente”, completa o psicólogo.
Circuitos cerebrais
A amígdala, uma estrutura localizada na região temporal do cérebro, tem um papel fundamental nas reações de medo, particularmente o chamado condicionamento do medo. Ela recebe os estímulos dos órgãos dos sentidos que são ali processados e, posteriormente, envia estímulos para outras regiões do cérebro, como o tronco cerebral e o hipotálamo, desencadeando respostas hormonais e comportamentais ao medo. Essas respostas preparam o indivíduo para ações como luta ou fuga.
Fobias
As fobias, de acordo com o psiquiatra Leonardo, são medos desproporcionais e incompatíveis com as possibilidades de perigo real, desencadeadas por objetos ou situações fobígenas. Estão associadas à simples antecipação ou exposição a uma situação ou objeto circunscrito que frequentemente leva ao comportamento de esquiva e resulta em considerável sofrimento e prejuízo nas atividades do dia a dia.
A ansiedade fóbica pode ser desencadeada pela antecipação do estímulo, pela exposição real a ele e até mesmo pela audição do seu nome falado em voz alta. É relativamente comum a associação da fobia com outros transtornos de ansiedade, depressão e dependência de álcool. De acordo com Leonardo, os indivíduos frequentemente afirmam que reconhecem o medo como algo completamente irracional ou excessivo, mas são incapazes de controlar sua reação diante da situação ou do objeto temido.
Assim, o medo pode ser uma fonte de constrangimento e, muitas vezes, é acomodado por várias estratégias de evitação. Como exemplo, alguém com medo de aranhas pode evitar situações que aumentam a probabilidade de ver uma aranha (o porão, a garagem, o quintal e atividades ao ar livre) e também pode tentar controlar o ambiente para reduzir a exposição da aranha (não abrir as janelas e vestir camisas de manga longa e calças no verão). O mesmo pode ocorrer em quem tem fobia de avião, que evita fazer viagens longas para não precisar encarar esse medo.
Sinal de alerta
Para algumas pessoas, a fobia específica — quando o foco do medo está nos aspectos de uma situação particular — pode ser bastante prejudicial e até mesmo fatal, como no caso da fobia de situações que podem levar à asfixia (em casos extremos, um indivíduo pode evitar consumir alimentos sólidos ou líquidos espessos para evitar ter asfixia) e no caso de fobia por sangue ou injeção (um indivíduo pode evitar procedimentos médicos necessários).
Para controlar o medo e reduzir a ansiedade, os indivíduos fóbicos, às vezes, adotam comportamentos de segurança, evitando enfrentar uma ameaça percebida, porém, acabam retroalimentando o quadro fóbico. Essas ações podem ser mais evidentes, como fuga e evitação, ou mais sutis, como supressão de pensamento ou transporte de um item capaz de proporcionar conforto ou proteção. Um indivíduo com medo de voar, por exemplo, pode consumir quantidades significativas de álcool para reduzir a experiência de ansiedade em um voo.
Transtorno de pânico
Leonardo ensina que os ataques de pânico são crises agudas e profundas de medo intenso, que atingem o pico em alguns minutos, acompanhadas por muito medo de morrer ou de perder o controle e de acentuada descarga autonômica (sudorese, taquicardia, tremores, palpitação, sensação de falta de ar, náuseas, formigamento, entre outras sensações). Na maior parte dos casos, não é possível identificar um fator desencadeante.

Existe também o transtorno de pânico, no qual os pacientes apresentam, além dos ataques de pânico recorrentes e inesperados, uma preocupação com futuros ataques e suas consequências ou uma mudança desadaptativa no comportamento relacionado aos ataques, como evitar as circunstâncias precipitantes ou as de situações em que eles seriam incapazes de escapar ou de obter ajuda se entrassem em pânico.
Esses pacientes podem vir a desenvolver agorafobia — medo e/ ou evitação de situações em que a ajuda pode não estar disponível ou onde pode ser difícil deixar a situação — e, muitas vezes, transtornos relacionados ao uso do alcool, pois acabam se automedicando com o álcool, buscando o efeito ansiogênico da substância. Vale ressaltar que esses agentes têm uma ação ansiolítica de curta duração, mas são subsequentemente associados à exacerbação da ansiedade e aos ataques de pânico quando os níveis sanguíneos diminuem.
Visto que esses pacientes apresentam, muitas vezes, sintomas cardiorrespiratórios, gastrointestinais e otoneurológicos, como tonturas, acabam buscando ajuda em médicos não-psiquiatras ou em serviços de emergência. Frequentemente, ficam insatisfeitos após um exame clínico geral negativo e, por isso, costumam repetidamente procurar diversos especialistas, fazer uso de medicamentos desnecessários e realizar uma infinidade de exames para descartar outras doenças médicas. “Esse uso extensivo de recursos geralmente retarda o diagnóstico de transtorno do pânico em até dez anos”, reforça o psiquiatra.
Entretanto, Leonardo destaca que, antes de se fazer um diagnóstico de transtorno de pânico, é fundamental a exclusão das etiologias orgânicas para sintomas de pânico, ou seja, avaliar condições médicas que podem imitar ataques de pânico, como doenças cardíacas, pulmonares ou doenças da tireoide, por exemplo. Além disso, deve-se atentar às substâncias que podem desencadear ou agravar o transtorno do pânico como, por exemplo, o uso excessivo de cafeína ou de outros estimulantes. O tratamento do transtorno de pânico é realizado com antidepressivos e deve ser feito por um período prolongado de, pelo menos, um ano.
Tratamentos
Para o tratamento da fobia específica é fundamental o acompanhamento conjunto psicoterápico, em especial, o que os especialistas chamam de terapia de exposição, na qual os pacientes são expostos a situações temidas organizadas em uma hierarquia de exposição do menos ao mais temido e evitado, com base em suas avaliações de cada situação. Como um exemplo de uma hierarquia de exposição, Leonardo cita um paciente com medo de cachorros pode começar dizendo a palavra cachorro, seguido de uma foto de um cão. Uma exposição mais moderada seria para o paciente ficar próximo de um cachorro vivo. Uma exposição máxima seria para o paciente segurar um cachorro.
Entre os medicamentos, os benzodiazepínicos (conhecidos como tarjas pretas) podem ser usados no tratamento de fobia específica quando o estímulo fóbico é raramente encontrado e inevitável, como no tratamento de uma fobia de avião, por exemplo. “Porém, o mais importante em relação ao tratamento é que os indivíduos se atentem ao fato de que fazer uso dos comportamentos de segurança ou de estratégias de evitação pode dar uma falsa impressão de que o problema está resolvido, mas isso só acaba retroalimentando o quadro fóbico. Portanto, tentar criar ‘mecanismos de proteção’ para o quadro fóbico é muito pior do que enfrentá-lo”, reforça Leonardo.
Fernando lembra que o tratamento varia, dependendo do tipo e do grau do transtorno de ansiedade, assim como das respostas individuais de cada paciente à eficácia e aos potenciais efeitos colaterais das medicações indicadas. O médico psiquiatra tem como principais recursos a escolha de diferentes tipos de medicação (antidepressivos tricíclicos, inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina, inibidor da monoaminooxidase e benzodiazepínicos), além da psicoterapia, que pode ser realizada com um psiquiatra ou psicólogo.
O profissional destaca que, em psicoterapia, trabalha-se no estabelecimento de metas e no desenvolvimento de habilidades práticas para reduzir os sintomas de ansiedade. “A Terapia Cognitiva Comportamental (TCC) é uma das abordagens mais eficazes de psicoterapia para transtornos de ansiedade. Geralmente, a TCC se concentra em ensinar habilidades específicas para melhor tolerar a ansiedade, desafiar diretamente as preocupações e retornar gradualmente às atividades que o indivíduo evitou por causa da ansiedade”, completa Fernando.
As fobias mais frequentes:
Existem cinco tipos principais de fobias específicas baseadas na natureza do estímulo fóbico:
• Animal: aranhas, insetos, cachorros, entre outros;
• Situacional: aviões, elevadores e locais fechados;
• Ambiente natural: altura, água, tempestades e outras ações da natureza;
• Sangue-injeção-ferimentos: agulhas e procedimentos médicos invasivos;
• Outros, por exemplo, situações que podem levar a asfixia ou vômitos; em crianças, por exemplo, sons altos ou personagens fantasiados de palhaços.
Angústia x Ansiedade x Medo
Muitas vezes utilizados como sinônimos, esses termos possuem diferenças:
Ansiedade:
estado de humor desagradável caracterizado por manifestações somáticas e fisiológicas, como taquicardia, sudorese, tensão muscular, e por manifestações psíquicas, como inquietação interna e apreensão negativa em relação ao futuro.
Angústia:
relaciona-se diretamente à sensação de aperto no peito e na garganta, de compressão e de sufocamento. Tem uma conotação mais corporal e mais relacionada ao passado.
Medo:
refere-se a um objeto ou a uma situação mais ou menos precisa. O medo é, quase sempre, medo de algo. A angústia e a ansiedade não se referem a objetos precisos.
Texto: Máisa Valochi
Ilustrações e Capa: Alexandre Nascimento