Em Nome da Memória

Em Nome da Memória

Especialistas apontam para a urgência histórica, cultural e social de se restaurar patrimônios históricos de Ribeirão Preto e de revitalizar o centro da cidade. Por outro lado, faltam recursos e inter

Em 2 de setembro, o incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro completa um ano. Cerca de 15 anos antes dessa tragédia anunciada, a historiadora francesa Régine Robin já sintetizava o que estava por vir no Brasil. No livro “A Memória Saturada”, ela escreveu que nenhuma sociedade que respeita a própria história deixa o passado "à mercê da própria sorte". Todavia, a despeito do trocadilho, a fatalidade não serviu para acender o sinal de alerta no trato com os patrimônios de Ribeirão Preto. Monumentos que contam a história da cidade, que já receberam barões, presidentes e até o imperador Dom Pedro II, carecem de cuidados e de políticas públicas de preservação mais eficazes. Ademais, a crise financeira pela qual a cidade e o país atravessam afugenta investimentos públicos e privados para esse tipo de benfeitoria. Atualmente, Ribeirão Preto tem pouco mais de 80 patrimônios materiais e imateriais tombados. A discrepância entre o estado de conservação desses bens pode ser vista em um rápido passeio pelo Centro da cidade. Se, de um lado, o Quarteirão Paulista, com o Theatro Pedro II e o Centro Cultural Palace, impressiona, a cerca de 400 metros dali, pouco resta do que um dia foi o Palacete Albino de Camargo, na Rua Visconde de Inhaúma. 
O restauro do “Casarão da Caramuru”, imóvel mais antigo da cidade, está fora dos planos do governo, por enquanto
Segundo a doutora em História e especialista em gestão de patrimônio cultural Lilian Rosa, o quadrilátero central da cidade guarda a memória do que um dia representou o auge dos barões do café. A pujança econômica era tanta, que, em 1907, o escritor Monteiro Lobato esteve por aqui e elogiou a cidade em carta ao escritor Godofredo Rangel. Segundo ele, “da noite para o dia” o café fez surgir a cidade, à época, com 60 mil habitantes. “Vim de lá maravilhado e todo semeado de coragens novas, pois em toda região da Terra Roxa — um puro óxido de ferro — recebi nas ventas um bafo de seiva, com pronunciado sabor de riqueza latente", escreve. No restante da carta, Lobato comenta sobre as milhares de sacas colhidas pelos barões do café e elogia o “entretenimento adulto” da noite ribeirãopretana. Lilian explica que preservar o patrimônio mantém vivas essa memórias, além preservar a identidade da cidade. “Se um terremoto destruir o Coliseu, amanhã Roma será um pouco menos Roma. O mesmo aconteceria com Ribeirão Preto. Se perdêssemos a Catedral, por exemplo, mesmo para os que não são católicos, a cidade perderia uma parte da sua identidade”, ilustra.
A historiadora Lilian Rosa explica que manter preservada a identidade de uma cidade fomenta o sentimento de pertencimento e a cidadania das pessoas
A historiadora analisa que, ao manter viva a identidade de uma cidade, o sentimento de pertencimento da população tende a ser maior. "Esse sentimento é fundamental para a construção da cidadania: se eu não me sinto pertencente a um lugar, eu não irei valorizá-lo", comenta. A secretária municipal da Cultura, Isabella Pessoti, comenta que os desafios estão ligados à compreensão desse conhecimento, que perpassam pela educação patrimonial. Isabella acrescenta que a educação patrimonial deve ser apresentada já nas séries iniciais da escolarização. "Para que o indivíduo desenvolva o senso de pertencimento sobre o seu bem cultural e tenha condições de discernir sobre o que preservar, o porquê preservar e pra quem preservar. O desconhecimento sobre a importância desses bens culturais é o que leva à degradação", afirma a secretária. 
Fora do quadrilátero central, outros imóveis, como a Estação Barracão, também carecem de cuidados
O que se vê, por outro lado, é que a inércia do poder público nas últimas décadas trouxe um sentimento de abandono para algumas localidades. Além dos palacetes do centro, a antiga fábrica das Indústrias Matarazzo (Cianê), nos Campos Elíseos, é um exemplo. Com área de 39 mil metros quadrados, o terreno está abandonado há duas décadas. Já foi atingido por um incêndio, virou moradia para pessoas em situação de rua e até um corpo já foi encontrado por lá. Empresas de grande porte sondaram a administração pública para requalificar o local, mas, até agora, nada saiu do papel. O presidente do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural (Conppac), o advogado Anderson Polverel, comenta que o prédio da Cianê é público, mas que até o momento não há nenhum tipo de movimentação por parte da Executivo para encaminhar um plano de restauro.
O presidente do Conppac, Anderson Poverel, tenta reestruturar a entidade e criar um fundo de recursos para restauros

Limites da Lei
O Conppac tem a atribuição de zelar e cuidar dos patrimônios históricos da cidade. O processo para o tombamento, no caso de um bem material, ou o registro, para um bem imaterial, pode ser solicitado por qualquer pessoa à Prefeitura. Após isso, o pedido é encaminhado para a apreciação do Conselho. Caso os 21 membros do Conppac constatem que o bem possui um valor histórico amplamente reconhecido, é solicitado imediatamente um tombamento provisório, enquanto o definitivo fica pronto. Do contrário, uma equipe do órgão dará início a um estudo para avaliar o interesse cultural e a importância histórica que aquele bem possui com a cidade. Após o tombamento de um imóvel, o proprietário não poderá realizar reformas estruturais sem antes ter o aval do Conppac.
A secretária da Cultura acredita que a educação patrimonial é o melhor antídoto para o descaso
Atualmente, o Conselho não dispõe de estrutura para fiscalizar de maneira efetiva e solicitar o restauro dos prédios. O órgão é vinculado à Secretaria da Cultura, que responde por menos de 1% de todo o orçamento do município. "Hoje, o Conppac não tem dinheiro nem para o café! Os conselheiros são todos voluntários", admite Polverel. Por meio de nota, a Secretaria Municipal da Cultura informou que pretende compor uma equipe técnica com arquitetos e historiadores para que sejam desenvolvidos projetos de preservação dos patrimônios que estão em estado mais precário. No entanto, alegam que não possuem recursos para as contratações no momento. A atual equipe faz parte do que está previsto na Lei 2799 de 2016, que estipula as diretrizes para a preservação dos patrimônios históricos. Polverel explica que, desde que assumiu o cargo na presidência do Conppac, há um ano e meio, todos os seus esforços foram voltados para reestruturar o Conselho e obter a regulamentação da legislação pelo prefeito. Uma das principais solicitações é a criação do Fundo de Preservação do Patrimônio Cultural do Município de Ribeirão Preto (Funpac), que já está previsto em lei. O fundo contaria com recursos provenientes de repasses do imposto de renda, doações e arrecadações com multas. A multa prevista na legislação, mas não aplicada até agora, pode variar de R$ 50 mil a R$ 1 milhão.  


De volta ao Centro

Por falar em Prefeitura, o poder Executivo da cidade, com sede no Palácio Rio Branco, já tem planos para mudar a sede de lugar. Já em 2020, todos os funcionários serão transferidos, provisoriamente, para o antigo prédio da Caixa Econômica Federal, na Rua Américo Brasiliense. Enquanto isso, será construído o novo Centro Administrativo, na Avenida Paschoal Innecchi. Lá, a administração espera concentrar todas as secretarias municipais. Por meio de nota, a Prefeitura mencionou que o Palácio, fundado em 1917, deverá se tornar um equipamento cultural. “Poderá ter exposições fixas e itinerantes, eventos culturais e abrigar o Museu da Imagem e Som ou o Arquivo Histórico”, informou. A atitude, contudo, é mal vista pela historiadora Lilian. Ela explica que há uma tendência mundial de requalificação dos centros de municípios. Com o tempo, o crescimento da cidade e a criação de novos polos comerciais como os shoppings, os centros perderam força. Por isso, teve início na Europa e nos Estados Unidos um movimento de requalificação desses locais, fortalecendo o comércio local, restaurando prédios e criando novas moradias. Desse modo, segundo Lilian, a prefeitura deveria ser a primeira entidade a dar o exemplo e ficar no centro. “Se não cabe todo mundo no Palácio, pelo menos faça dele uma repartição. Tem que manter ele vivo. A Prefeitura mal cuida dos museus que existem, para que criar um novo?”, critica.
“O nosso desejo foi de quebrar o paradigma de que um patrimônio tombado é um mico”, explica o engenheiro Carlos Eduardo Lopes
Um bom exemplo de preservação foi dado pelos novos proprietários do Palacete Jorge Lobato, na Rua Álvares Cabral. Abandonado desde os anos 90, o destino do casarão parecia ser a ruína. Porém, em 2015, uma família de engenheiros e arquitetos “adotou” o local. Os arquitetos Hector e Ingrid Sominami, com a ajuda do pai e engenheiro, Carlos Eduardo Lopes, deram início à reestruturação do palacete que levou dois anos para ser concluída. O trabalho de restauro utilizou apenas os materiais disponíveis em 1922, época em que o prédio foi construído. Ainda em 2019, o casarão será reinaugurado. Nele, será instalado um restaurante, além de um espaço para eventos culturais. "O nosso desejo foi de quebrar o paradigma de que um patrimônio tombado é um mico", explicou Lopes. O engenheiro comenta que há uma “má fama” entre alguns empresários de que um prédio histórico traz muitos gastos, o que reduz o valor de mercado do imóvel. Ele afirma que uma empresa que associa a sua marca ao restauro de um patrimônio tombado tem a imagem potencializada perante à sociedade.  Apesar disso, admite que ainda há um temor do mercado e do poder público em investir nesse tipo de obra. "Infelizmente, em Ribeirão Preto, não conseguimos nos organizar para realizar uma renovação conjunta e planejada. São apenas eventos isolados", lamenta. 
O Palacete Jorge Lobato foi restaurado utilizando os mesmos materiais disponíveis na época da construção, em 1922.




Texto:
Paulo Apolinário

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