Emoção sem igual
A 15ª edição do projeto Voluntários do Sertão envolveu mais de 700 pessoas que, voluntariamente, doaram seu tempo e sua energia para a população de Condeúba e de outras 26 cidades próximas
Ribeirão Preto pode nem ter notado, mas na última semana perdeu para Condeúba alguns de seus filhos mais ilustres de coração: médicos, enfermeiros, dentistas, oftalmologistas, advogados, jornalistas, empresários e até artistas. Das 186 pessoas que saíram da cidade com destino ao interior da Bahia para participar da 15ª edição do Voluntários do Sertão, ninguém voltou igual. A experiência — pioneira para alguns e compromisso anual assumido para outros — transforma cada voluntário de tal maneira que se torna impossível retornar da mesma forma que foi. Perde-se ali, no chão batido do sertão, um pouco de si. Fica por lá um pedaço da alma, misturado ao ardido do sol, ao suor do trabalho que nunca acaba, a emoção das histórias dos que mais precisam e o sorriso agradecido daquela gente simples e feliz.
Não dá para deixar de pensar que lá, distante 1.242 km, estão Tonheira e dona Helina, em sua casinha azul desbotada, quase no meio do nada, quem sabe passando algum tipo de necessidade. Impossível esquecer a humildade e a paciência de Maria dos Santos, quatro noites dormindo na rua, pelo sonho do atendimento. Por mais que a vida jamais cruze as histórias novamente, um voluntário do sertão sabe que está marcado para sempre. Este, talvez, seja o motivo de muita gente querer voltar. O trabalho é árduo e o cansaço pesa a cada dia, mas como diz a reincidente Ana Maria Trindade, diretora de operações da Coca-Cola Andina: “esta é uma semana em que se vive tudo muito intensamente”.
Ali, sentada no chão do ônibus que leva os voluntários para Vitória da Conquista, para embarcar de volta a Ribeirão Preto no avião da Força Aérea Brasileira (FAB), a voluntária de 52 anos passa quase três horas bastante desconfortável porque as poltronas todas já estão ocupadas, mas não aceita troca. Conversa, sorri e se emociona com as lembranças de edições passadas já com o pensamento em melhorias para a próxima.
O espírito do projeto é este: ser solidário. Não importa a circunstância. Por isso, muita gente habituada ao conforto se sujeita a abrir mão dele durante uma semana. Dormir onde for possível, alimentar-se do que for servido, caminhar o quanto for preciso, passar calor e compartilhar tempo e espaço, não raras vezes, com desconhecidos. Como voluntário, o que importa realmente é dar o máximo de si para atender o maior número possível de pessoas. A urgência em prestar esse serviço, com qualidade, àquela gente simples que forma filas enormes virando a noite na rua, aguardando pacientemente a oportunidade de cuidar um pouco melhor da saúde, é o que se assiste em todos os pontos estruturados na cidade.
Mesmo com infraestrutura improvisada, montada em escolas, quadra esportiva, hospital e caminhões em praças, a edição 2015 do projeto foi, mais uma vez, bem-sucedida, superando desafios técnicos e contando com enorme apoio da população, que não se cansou de expressar sua gratidão aos voluntários. O resultado foram 35.775 atendimentos concluídos, entre consultas médicas e jurídicas, exames, cirurgias, óculos e remédios.
Apenas na área médica, o projeto levou para Condeúba 59 voluntários da enfermagem, 65 médicos de diferentes especialidades (10 deles estudantes de último ano de medicina), 35 dentistas e 10 farmacêuticos. Outras 14 pessoas estiveram envolvidas com a realização de palestras educativas. De Ribeirão Preto, foram 186 voluntários, os demais participantes viajaram a partir de diferentes localidades, entre elas, São Paulo, Santos, Marília, e cidades do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Além de Condeúba, o distrito de Alegre, onde nasceu o idealizador do projeto, Doreedson Pereira, o Dorinho, e mais dois povoados, Feirinha e Mandaçaia de Cordeiros, também receberam a visita dos voluntários. Na zona rural, foram realizados 244 atendimentos de odontologia, 259 de ginecologia, 426 de medicina da família, 349 de pediatria, 1.280 de triagem e 1.280 de enfermagem.
Números podem soar frios. Para quem não esteve lá, pode passar despercebida a importância de cada algarismo. O depoimento emocionado do casal de médicos Adalberto Moreira de Souza (pediatra) e Miriam Borges de Souza (ginecologista), que participa há várias edições do projeto, talvez possa dar uma dimensão mais exata desses resultados. Submetendo-se a atender na área rural, muitas vezes, nas condições mais adversas, eles já vivenciaram momentos bastante difíceis, mas são uníssonos ao afirmar que a frustração maior está na falta de tempo para atender a todos. “Em um dia, chegamos a 60 pacientes, mais que o dobro de um consultório. Dizem que o impacto na saúde pública do que fazemos é questionável. Concordo plenamente, mas achamos que estamos fazendo algo. Pediatria, basicamente, é prevenção e a maioria dessas crianças nunca foi atendida. Daqui algum tempo, quem sabe, a orientação dada a estas famílias possa ser útil para mais crianças. Há casos pontuais, como o do bebê que foi atendido nesta edição, que poderia ter morrido. O impacto é pequeno, mas existe”, afirma Adalberto.
Para Miriam, que leva 1h30 para atender uma nova paciente em Ribeirão Preto, os 20 minutos de voluntária são dolorosos. “É uma luta, até o final do dia, contra o tempo e contra mim mesma, mas acho que cada minuto dedicado a uma pessoa é importante”, comenta a ginecologista, que retornou do sertão mais questionadora e exigente com quem tem muito. “Quando voltei pela primeira vez, precisei trabalhar as minhas ideias para não colocar sobre o outro a obrigação que ele tem de ser feliz porque tem tudo. Neste projeto, você não vê ninguém infeliz, ao contrário, só vê gente agradecida por algo que você acha que é pouco. Isso faz pensar como pessoas com muito não veem que o caminho da felicidade é o básico. São ensinamentos que levamos do sertão”, compartilha a médica.
Cada vez melhor
Aprendendo com os erros e os acertos, a cada edição o projeto evolui. Com o auxílio de voluntários como o médico de família Thiago Roberto Castellane Arena e o advogado Hilário Bocchi Junior, mudanças importantes vão acontecendo. Depois da primeira participação, em 2010, Thiago passou a compartilhar sua experiência na área de coordenação e saúde pública e ajudou a articular uma parceria com o Centro Universitário Barão de Mauá que, este ano, proporcionou a nove estudantes de Medicina um aprendizado único.
Emanuel Bezerra de Lavor, por exemplo,
Emanuel Bezerra de Lavor, por exemplo, nunca tinha visto de perto um caso de hanseníase. Também viu muita lesão de pele, bastante comum no interior da Bahia, por causa da exposição ao sol a que a população é submetida. “Já tinha ouvido dizer que se aprende muito com o projeto e pude comprovar essa teoria. Apesar da cidade ser pequena, em comparação a Ribeirão Preto, vi casos que, em cinco anos de medicina, não tive oportunidade de aprender. O que mais me surpreendeu foi ver que a população, apesar de menos esclarecida, valoriza e busca qualidade de vida. Pensava que encontraria resistência para alguns procedimentos, mas precisamos até selecionar porque não conseguiríamos atender a todos. Acho impossível uma pessoa vir participar de um projeto como este e sair como entrou”, enfatiza o estudante.
Na área jurídica, pela segunda vez, o advogado Hilário Bocchi Júnior participou do projeto com o propósito de orientar, capacitar e multiplicar conhecimentos na área previdenciária, deixando um legado que possa beneficiar mais pessoas o ano todo. O impacto desse trabalho já começa a ser sentido. Segundo depoimento da prefeita de Una, cidade onde os voluntários estiveram no ano passado, os comerciantes pedem sua volta, porque perceberam que aumentou a renda da população, consequentemente, a venda e também a arrecadação do município. “Estamos aprendendo ainda. É como se tivéssemos trabalhado dois dias, um em Una e um agora, em Condeúba. Nesta edição, melhoramos alguns pontos, contando com apoio de advogados locais, que já ficam treinados para dar continuidade ao trabalho na cidade. Inovamos com a documentação da União Estável, que regulariza a situação do casal para que, se um deles faltar, o outro tenha como comprovar estarem juntos para pedir aposentadoria, afinal, aqui eles não têm conta conjunta, cartão de crédito, seguro de vida, sequer uma foto juntos eles têm”, conta o advogado.
Corrente do bem
O que mais surpreende em um projeto de tamanha proporção é a forma autônoma como funciona. Custa acreditar que uma ação, segundo Dorinho, que leva para a cidade, por uma semana, mais do que o orçamento anual da Saúde no município, depende, essencialmente, do espírito de cooperação das pessoas. “Costumamos dizer que o projeto faz mais pela população da cidade onde passa do que o município em 10 anos”, revela. O prefeito confirma: “nossa contrapartida, de R$ 100 mil, foi irrisória diante do benefício”.
O tipo de valor que o Voluntários do Sertão monetiza é outro. Para o projeto, são incalculáveis as doações de medicamentos, de materiais para realização dos procedimentos e, principalmente, as horas doadas pelos participantes, tanto os que vão de fora quanto os locais. Em Condeúba, foram 386 pessoas trabalhando para que tudo funcionasse. Gente como Delson, policial militar que virou motorista, ou Albina, professora de História que foi para o tanque lavar camisetas. Ali, o que vale é cooperar.
Como bem define o dentista e professor da Faculdade de Odontologia da USP-RP, Marcelo Rodriges Alves, voluntário pela quinta vez, “é por isso que a gente se empolga cada vez que participa, porque envolve o sentimento do bem”.
SORRISO QUE ENSINA
Por Cristiane Araújo
De bicicleta, sob um sol de esquentar a cabeça, Gilmar e seu pai percorreram 18 km em busca de atendimento odontológico no mutirão do Voluntários do Sertão. No vilarejo onde moram, não há dentista à disposição sempre e, mesmo que houvesse, não teriam condições de pagar. Foi essa a razão do rapaz de 15 anos nunca ter frequentado um consultório. Mesmo seu sorriso expressando tal necessidade.
Às 8h30 da manhã, sem saber que dali sairia um novo Gilmar, ambos aguardavam, pacientemente, pelo atendimento oferecido na carreta provisória, montada na tradicional Praça do Forró, em Condeúba. Pouco depois, a avaliação da equipe odontológica do projeto deixou clara a necessidade: quatro canais e uma prótese nos dentes da frente, justamente os que impediam o sorriso do Gilmar de aparecer.
Bastante encabulado, provavelmente assustado com tanta gente o observando, tirando foto e mexendo em sua boca, Gilmar, no entanto, venceu o medo e se ficou. A vontade de sorrir era maior. Foram três horas no atendimento, outras duas na cadeira de Rogério Martins de Azevedo, professor em Prótese Dentária na Universidade de Ribeirão Preto (UNAERP) e voluntário do sertão de “primeira viagem”. Enquanto tratava o sorriso do jovem Gilmar, o cirurgião-dentista não pode deixar de pensar em sua vida profissional e pessoal longe daquela cidade carente e sofrida. As lágrimas foram inevitáveis, em muitos momentos, principalmente quando pensou que ele poderia ser o seu filho. “Tudo se resume apenas a uma questão de oportunidade na vida”, avaliou o professor.
A participação no Voluntários do Sertão possibilitou a Rogério uma profunda reflexão e revisão de valores. Ele está agradecido pela oportunidade de compartilhar sua habilidade profissional com quem mais precisa. A prótese provisória foi o tratamento possível naquele momento. O tempo é um vilão para os Voluntários do Sertão. Com ela, o sorriso de Gilmar deve aguentar até que ele tenha condições de voltar a um profissional e fazer o tratamento definitivo. Pelo menos por um tempo, devolver o sorriso do adolescente, está garantido.
Terminado o trabalho, o dentista entrega a Gilmar um espelho. Durante alguns minutos, o jovem tímido se olha, ainda de sorriso cerrado, e parece não acreditar na mudança. Aos poucos, a alegria no olhar motiva a boca a sorrir. O reflexo dos novos dentes no espelho é razão suficiente para prosseguir. Gilmar é questionado sobre o que muda em sua vida a partir de agora. “Vou poder sorrir”, responde. Uma lágrima insistente desce os olhos do dentista. “Muito obrigado por me darem o sorriso de volta”, completa o menino, tendo os olhos marejados de gratidão. O silêncio e a emoção tomam conta do ambiente. Assim é cada dia no Voluntários do Sertão.
PURA INSPIRAÇÃO
Ele nasceu em Alegre, distrito de Condeúba, e veio para Ribeirão Preto aos 14 anos, em busca de melhores condições de vida. Em 2000, resolveu levar cestas básicas e brinquedos para a população do povoado. Não parou mais de ajudar. Apoiado pelo amigo, o oftalmologista Fábio Vieira, improvisou na sala da casa da mãe um Centro Cirúrgico e conseguiu, em um fim de semana, devolver a visão a 11 pessoas portadoras de catarata. Não resistiu. Foi chamando mais e mais amigos para presenciar a realidade do sertão. “Foi nesse momento que as portas se abriram para mim. Foi quando, através de parcerias, consegui aumentar o número de atendimentos”, relembra. Assim, nasceu o Voluntários do Sertão. Com esta edição, são mais de 203 mil atendimentos realizados e quase cinco mil voluntários envolvidos. Porém, o maior patrimônio do projeto, segundo Dorinho, é a gratidão. “O espírito é esse. Nós ganhamos muito mais do que doamos para essas pessoas. O projeto muda quem passa por ele, transforma vidas. Daqui, levamos só o bem que fazemos”, conclui.
Texto: Yara Racy
Foto capa: Tiago Morgan
Fotos: Alfredo Risk, Cristiane Araujo, Tiago Morgan e Yara Racy