Empreendedorismo que nasceu no campo

Empreendedorismo que nasceu no campo

A coragem para empreender e a confiança no potencial do agronegócio brasileiro fizeram de Jardel Massari — ao lado do sócio, Norival Bonamichi — um dos grandes nomes do setor agro

Conhecido por ser um dos protagonistas da indústria agro no Brasil, o advogado e técnico agrícola Jardel Massari sempre viu sua atuação como parte do esforço coletivo pelo desenvolvimento econômico e social do país. Ao lado do amigo de infância Norival Bonamichi, o empresário reuniu experiência e economias para dar início, em 1987, à Ourofino Saúde Animal, uma empresa que começou em um galpão em Ribeirão Preto e, hoje, conta com uma sede de 180 mil m² em Cravinhos, além de investimentos no exterior, em países como México e Colômbia, com bases próprias.

 Jardel demonstra que ousadia é apenas um dos ingredientes da sua receita. “Eu e Norival vemos oportunidades em locais que os outros não veem”, salienta o empresário. Os contatos que adquiriu nas empresas pelas quais passou antes de inaugurar a Ourofino abriram grandes oportunidades e motivaram, principalmente, a coragem de arriscar. Esse era o ponto inicial para caminhar a passos mais largos. Ao lado do sócio, começou a desenvolver produtos veterinários próprios e, com o aumento gradativo da produção, surgiu o grande desafio: inserir a marca no mercado. Para isso, os amigos contaram com uma equipe de vendedores que se encarregavam de vender o produto aos comerciantes e com profissionais especializados no setor agro, que, ao lado dos empresários, aprimoravam cada vez mais as técnicas. Desde então, a Ourofino se tornou reconhecida, atuando com equipe própria e investimentos constantes no departamento de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PDI), o que faz Jardel se orgulhar.

 O empresário valoriza o ambiente organizacional e as pessoas com quem trabalha e segue, com humildade e muito trabalho, formando uma companhia sagaz, com vontade de representar o Brasil positivamente no cenário econômico-social. Na entrevista a seguir, Jardel apresenta os pilares necessários para ser um empreendedor de sucesso e exterioriza a alegria de celebrar 30 anos de uma marca que é consequência de um espírito empreendedor.
 
Jardel posa ao lado do misturador, a primeira tecnologia implantada na empresaRevide: Como nasceu a parceria entre Jardel Massari e Norival Bonamichi? 
Jardel:
A Ourofino se une em dois nomes, o meu, Jardel Massari, e o de Norival Bonamichi, meu sócio. Somos de uma cidade do interior de Minas Gerais e nos conhecemos desde a infância, estudamos juntos no colégio agrícola em Inconfidentes, em Minas Gerais, que, na época, era distrito de Ouro Fino, cidade que dá nome à empresa. Depois, estudamos na Escola Agrotécnica Federal de Muzambinho e fomos trabalhar em empresas distintas. Voltamos a nos encontrar cinco anos mais tarde, quando atuamos na mesma companhia que nos enviou para trabalhar em Ribeirão Preto. Nós brincávamos que a nossa sociedade surgiu quando percebemos que o salário tinha 15 dias e o mês 30. Em Ribeirão Preto, montamos uma distribuidora na qual comprávamos e revendíamos produtos veterinários na região. Como conhecíamos bem os produtores, pecuaristas e cooperativas, tínhamos um acesso bastante interessante com todo esse pessoal e, naquela época, havia muita inflação, então comprávamos e conseguíamos vender mais barato do que a fábrica. Com isso, em 1987, nasceu a indústria veterinária. 
 
Como surgiu a ideia de fabricarem os próprios medicamentos veterinários?
Como revendíamos produtos de outras indústrias, avaliamos o custo-benefício e vimos que valia a pena investir nos nossos próprios produtos. É a partir disso que distinguimos o espírito empreendedor:  temos que sair do pensamento convencional, da zona de conforto, e arriscar, buscar oportunidades que muitas pessoas não veem ou têm medo de correr o risco. Com essa percepção, começamos a produção das soluções veterinárias nos Campos Elíseos. Naquela época, o regulatório era brando e, muitas vezes, estudando a biografia, podia se dispor a produzir um medicamento. Hoje, isso não é possível, porque temos um regulatório extremamente exigente. Anos atrás, não existia teste e, agora, são vários até o produto ir para o mercado. Então, graças a Deus, nós iniciamos num tempo em que tudo era factível. Estamos aqui prestes a completar 31 anos de Ourofino Saúde Animal, com muito orgulho. 
 
A Ourofino é considerada uma das maiores fabricantes de medicamentos para saúde animal do Brasil. A que o senhor alega essa definição?
A Ourofino cresceu justamente porque começou em uma época mais fácil. Outro ponto importante é que eu e o Norival somos da roça, nós conhecemos o produtor, a linguagem e as necessidades dele. O que acontecia na época, e ainda vemos em dias atuais, são produtos internacionais dominando o mercado e, quando pensamos em buscar soluções para o pecuarista, nós adequamos a apresentação, a forma e a maneira de aplicar para a realidade do campo no Brasil. Creio que isso foi fundamental para o desenvolvimento da empresa, além da seriedade e da qualidade dos produtos, sempre dentro da legislação e eficientes. 
 
Quais são os pilares trabalhados pela empresa?
A Ourofino tem esse lado empreendedor, de sair do convencional, ou seja, o famoso “sair da casinha para pensar”. Trata-se de um dinamismo muito implícito na marca e, junto a ele, seguimos alguns pilares, como inovação integrada; envolver e colaborar; e construir  e nutrir relações. Além disso, nós praticamos e cobramos de todos para que sejamos uma empresa ágil, transparente, envolvente e simples nos processos, sem insistir no que não agrega valor. O nosso tempo e dinheiro precisam ser gastos com questões que realmente têm importância para os funcionários, a empresa e a comunidade. 
 
No início, vocês investiram os lucros em tecnologia, novos produtos e pessoas. Esses foram os diferenciais para que a empresa deslanchasse?
A tecnologia existe desde o início da empresa, guardadas as devidas proporções. Hoje, nós temos 7% do orçamento investido em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PDI), nos preocupamos em criar diferenciais e ter agilidade no desenvolvimento dos produtos para lançar no mercado. Por exemplo, em comemoração aos 30 anos da empresa, em 2017, apresentamos ao setor a nova fábrica dedicada à biotecnologia, totalmente preparada para a produção de vacinas e tecnologias recombinantes. Investimos no que existe de mais moderno no mundo de desenvolvimento de produtos e, com isso, ganhamos em escala, velocidade, confiança, além de entramos em um mercado conhecido por companhias multinacionais para mostrar a qualidade do produto que surge do conhecimento do cenário brasileiro. 
 
Norival Bonamichi reuniu experiências e, ao lado do amigo, investiu na OurofinoFoi o investimento em tecnologia que fez vocês conquistarem o mercado internacional?
Sim. Toda tecnologia embutida dentro de uma indústria, consequentemente, tem que gerar mais produtos de qualidade. Para atingirmos mercados tão diferentes, como são os internacionais, precisamos nos adequar exatamente ao que cada país pede e estar apto a atendê-lo. Nesse cenário de internacionalização, a Ourofino seguiu o desenvolvimento de alto rendimento e produtividade e aumentou sua presença em países como México, com um escritório em Guadalajara, e uma base própria na Colômbia, entre outros locais. 
 
A Ourofino Saúde Animal e Ourofino Agrociência são empresas diferentes, que não fazem parte do mesmo grupo e têm atividades distintas. Como elas funcionam?
Existem grandes diferenças entre as duas empresas, tanto na administração, na gestão, no foco da estrutura de vendas e clientes quanto na demanda. A Ourofino Saúde Animal é formada por empresas dedicadas à fabricação e à distribuição de produtos veterinários para bovinos, equinos, aves, suínos e pets e atende aos requisitos de boas práticas em recuperação de mercado de capitais. Já a Ourofino Agrociência, localizada em Uberaba, atua na área de defensivos agrícolas e com produção em alta escala. Para ter uma ideia, na indústria em Uberaba já implantamos o uso dos robôs para termos retornos rápidos, devido à alta demanda. 
  
Em 2013, a Ourofino foi eleita a melhor Indústria Farmacêutica para trabalhar no Brasil pelo guia “As Melhores Empresas para Você Trabalhar”, da revista Você S/A. Também ficou entre as 20 melhores empresas para se trabalhar em ranking da revista Época. A que o senhor atribui esse reconhecimento? 
Eu acho que isso está no nosso DNA. Nós somos simples, prezamos muito o relacionamento próximo com as pessoas e o respeito pelos nossos colaboradores. Na nossa visão, isso é extremamente importante para criar um vínculo com aqueles que estão diariamente conosco. Não priorizamos hierarquia, mas, sim, vemos que a empresa tem a obrigação de valorizar os funcionários. Com a motivação daqueles que prestam serviço na empresa, é possível ultrapassar qualquer obstáculo, tanto os bons quanto os maus, que fazem parte da história de qualquer empreendedor. 
 
Quais os principais avanços da empresa em 2017 e os investimentos previstos para 2018?
No ano passado, optamos por uma reestruturação da empresa para consolidar a nossa filosofia de trabalho e creio que essa visão dos fundadores está sendo mantida pelos colaboradores e norteará as conquistas dos próximos anos. Nós criamos a campanha Reimaginar para inspirar funcionários, clientes e parceiros em uma nova era de desenvolvimento, filosofia de trabalho, produtividade e crescimento, estando prontos para enfrentar os novos desafios e crescer na velocidade que sempre exigimos e praticamos. 
 
Em uma área de 180 mil m², em Cravinhos, o complexo industrial está entre os mais modernos do setor

De 1987 para cá, o que mudou na sua forma de pensar o agronegócio?
Há 30 anos, o agronegócio era quase que totalmente manual. O que impulsionou muito o setor foi a Embrapa, uma instituição pública de pesquisa vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Brasil. A partir disso, prosperamos bastante. A verdade é que temos que evoluir para acompanhar o crescimento do mercado. Um dos pontos que gosto de citar é o nosso próprio Centro de Treinamento e Capacitação, em uma fazenda em Guatapará, onde oferecemos formação de mão de obra e vamos além da produção de soluções. Hoje, não dá simplesmente para fazer e vender o produto, precisamos buscar soluções para o pecuarista, algo que gere valor tanto para a empresa quanto para quem for usá-lo. Por isso, trabalhamos com uma modelagem diferente dos concorrentes. 
 
O que lhe dá mais prazer no processo de empreender? 
Ver a realização e o sucesso dos projetos, além da geração de empregos, que, para mim, é o ponto essencial. Em minha concepção, não existe nada melhor do que gerar renda em uma comunidade, pois não adianta empreender apenas por dinheiro. Dessa forma, o empreendedor nunca será 100% realizado. É bem melhor ter uma comunidade que admira sua empresa pelo que ela faz e pela prestação de serviço junto à sociedade. Além disso, o trabalho que conseguimos desenvolver com entidades ao longo do ano, por meio do voluntariado, é algo gratificante. Como empreendedor, é preciso compreender que a empresa não pertence ao dono, mas à sociedade. Nesse cenário,  a nossa obrigação é fazer com que os benefícios conquistados com esse trabalho cheguem às pessoas que são parte da nossa empresa. 
 
Quais são os gargalos que o empresário brasileiro deve superar para obter mais rendimento e sucesso na gestão das empresas? 
No período de crise, todo mundo sofre, alguns mais outros menos, mas posso dizer que os empresários do agronegócio foram menos afetados, pois é esse segmento que sustenta o Brasil nos últimos 10 ou 15 anos. Para ter ideia, a Balança Comercial do Agronegócio registrou superávit próximo a US$ 90 bilhões, já a Balança Comercial deve fechar em US$ 50 bilhões, ou seja, se o setor agro não existisse, nós estaríamos numa situação terrível. Na minha opinião — lembrando que cada um entende do seu negócio —, as empresas devem passar por uma reestruturação e, quando falamos sobre isso, provavelmente será como um remédio amargo, que envolve corte de custo mais acentuado, nível hierárquico menor e, às vezes, demissões. O maior erro é que em períodos de bonança nós abaixamos a guarda, principalmente em despesas, então, é importante manter um planejamento, uma metodologia de trabalho com foco em gestão e atenção redobrada às despesas. 
 
Você e seu sócio partilham da ideia de não se aposentarem ou se distanciarem da empresa. Por que é importante que o criador da empresa se mantenha sempre ativo? 
Quem é empreendedor não pensa em aposentadoria. São inúmeras atividades que eu e o Norival exercemos diariamente, acompanhando de perto o que acontece. No mais, acreditamos que o empreendedor é um otimista por natureza e confiamos no potencial do Brasil. Vemos que esse é um país que oferece as melhores oportunidades e, quando se gosta e conhece o que faz, a chance de dar certo é grande. 

Texto: Pâmela Silva
Fotos: Ibraim Leão e divulgação

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