Encontro de gerações
O jovem e o experiente repórter numa conversa esclarecedora

Atuando como repórter, desde a década de 50, Saulo Gomes, 86 anos, presenciou fatos memoráveis que determinaram o rumo do país, entrevistou personalidades de diferentes áreas, inclusive ilustres anônimos, desvendou costumes e culturas, elucidou casos policiais misteriosos e denunciou problemas que afetavam a sociedade. Seu comprometimento em levar a informação completa e verdadeira ao público fez com que sofresse na pele a repressão do governo militar e a censura velada dentro de algumas empresas.
Sem se abater com os obstáculos, continuou trabalhando na profissão que escolheu e foi colecionando histórias. A memória, privilegiada, guarda cada precioso detalhe dos bastidores da notícia. Basta uma rápida conversa para ser transportado para o passado, vivenciando, ao lado dele, cada situação narrada com um realismo palpável. Por tudo isso, o nome de Saulo é lembrado como referência de um jornalismo ativo, contundente e responsável que marcou época. Motivos de sobra para conquistar a admiração dos representantes da nova geração de comunicadores, como o repórter Rafael Pascuim, 31 anos. Nesse encontro, os dois jornalistas recordam os casos mais emblemáticos da carreira do veterano e trocam impressões sobre a profissão.
Rafael: Você participou da cobertura de diversos casos importantes do país. Qual considera o mais significativo?
Saulo: É difícil escolher apenas um. Na minha carreira, acompanhei temas muito distintos e interessantes, mas, pela repercussão, citaria a entrevista que fiz com Chico Xavier, em 1968. Foi a primeira vez que um líder espírita teve espaço em um canal de televisão, em uma emissora sediada em um país que era, à época, rotulado como a maior nação católica do mundo. A partir daí, várias pessoas quiseram ouvir o que ele tinha a dizer. Em 1971, fizemos o Pinga-Fogo com Chico Xavier, o programa que alcançou o recorde de audiência da TV Brasileira, mantido até os dias atuais. Veja que estamos falando de reportagens feitas há 46 e 43 anos, respectivamente. Tanta coisa aconteceu nesse período e esse trabalho continua marcante.
Rafael: Essa ousadia de trazer para o público algo diferente do que era divulgado até então trouxe algum tipo de problema?
Saulo: A reação foi imediata. A Cúria Metropolitana do Estado de São Paulo emitiu uma ordem para que os padres criticassem a matéria que tinha ido ao ar. Para conferir se isso era verdade, decidi assistir à missa na Igreja de Fátima, que ficava bem próxima à TV Tupi, onde eu trabalhava. Nem precisei esperar muito. No segundo dia, fui completamente espinafrado durante o sermão. Também recebi uma nota oficial da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dizendo que a presença do Chico Xavier no programa Pinga-Fogo era uma ferramenta de deseducação do povo. O documento está devidamente guardado e será publicado em breve, em um livro que estou finalizando e que já tem título, “Nosso Chico”.
Rafael: Além dessa entrevista com o Chico Xavier, quais os outros trabalhos que merecem destaque?
Saulo: Em 1961, passei 47 dias na Bacia Amazônica com os índios considerados os mais estranhos e agressivos daquele território. Foi um enorme desafio. Eu e a equipe montamos acampamento a apenas três quilômetros da aldeia e realizamos um documentário fantástico. No campo criminal, a mais emblemática foi a cobertura da morte de Paulo César Farias, o PC Farias. Sozinho, entrei com os policiais na casa em Guaxuma, litoral norte de Maceió, onde ocorreu o assassinato do empresário e da namorada, Suzana Marcolino. Acompanhei, com exclusividade, a reconstituição, deixando para trás toda a imprensa nacional e internacional que estava no local. As conclusões levantadas naquele dia serviram de base para que a Justiça tomasse providências em relação ao caso. Para finalizar, lembro da denúncia que fiz sobre o abandono de uma instituição de saúde em Uberaba. A população, comovida, organizou uma campanha que resultou na construção do Hospital do Fogo Selvagem, que está em pleno funcionamento, auxiliando quem precisa de cuidados especiais nessa área.
Rafael: Na década de 90, você esteve envolvido em outro caso emblemático, o do chupa-cabras, exibido pelo Programa Domingo Legal, apresentado pelo Gugu, no SBT. O país parava para assistir às suas reportagens. Os números do Ibope comprovaram isso. Você se lembra da repercussão dessa matéria?
Saulo: Sim. Foi uma história muito interessante. Através de ampla pesquisa, mostramos que o misterioso chupa-cabras, que vinha causando o maior alarde na população, nada mais era do que um fenômeno natural, conhecido como menino d’água ou caboclo d’água. O animal habita os rios da região norte do país e faz parte do folclore brasileiro. A série de matérias foi um sucesso absoluto, mas poderia ser ainda mais abrangente. Faltou prosseguir e aprofundar um pouco mais o assunto, mostrando, por exemplo, depoimentos dos pescadores locais. Eu queria continuar, mas a emissora optou por encerrar o caso.
Rafael: Você foi o primeiro jornalista cassado pelo golpe de 1964. Foi preso e exilado no Uruguai. Acredita que a censura acabou ou a imprensa e os profissionais enfrentam, hoje, outro tipo de repressão?
Saulo: Realmente, enfrentei dificuldades e vivi a dureza do período militar. Fui preso político, exilado e cassado pelo ex-presidente Castelo Branco. O que vejo agora é uma situação diferente, porém com a mesma essência. O governo, na verdade, nem tem necessidade de se preocupar com a censura, porque ela está viva dentro das empresas. Especialmente, levando em consideração a forte influência que o departamento comercial exerce nos veículos de comunicação. Isso acontece de forma velada. Há uma falsa sensação de liberdade, mas o profissional tem que lidar com diversas restrições que atrapalham o andamento das reportagens e a qualidade da notícia que chega ao público.
Rafael: As empresas parecem temer qualquer tipo de complicação, como processos e questionamentos. Todos aguardam o que chamamos de versão oficial para divulgar o fato. Antes a independência era maior? Como se diz no jargão jornalístico “se bancava” a informação?
Saulo: Em boa parte sim, e o repórter tem um papel essencial nesse cenário. Parece que na minha época, tínhamos mais personalidade e autoridade sobre o nosso pensamento. Sou de um tempo em que corríamos riscos para desempenhar nossa função corretamente. Batalhávamos para defender a verdade, independente dos ônus que isso trouxesse. Inclusive, uma vez, descobri que seria demitido da emissora por causa de uma denúncia que pretendia fazer. Durante o programa, ao vivo, contei aos telespectadores o que estava acontecendo e isso gerou uma repercussão imensa. Foi a maneira que encontrei de me defender e de me impor. Não estou dizendo que temos que ser indisciplinados. Longe disso, mas precisamos, apenas, ter a noção da responsabilidade que carregamos em nossas mãos, de levar a informação à população e honrar esse posto. Ninguém precisa ser um herói, um mártir. Basta ser profissional.
Rafael: Seguindo essa sua linha de raciocínio, nota-se um distanciamento do jornalista da notícia. Isso também é resultado do uso abusivo dos inúmeros recursos tecnológicos que facilitam o dia a dia do repórter? Quando se usava apenas bloco de papel, caneta e sola de sapato o envolvimento era maior?
Saulo: O repórter se acomodou. Acha que vai apurar uma grande pauta investigativa à distância, pelo telefone ou pelo computador. Perde-se demais com esse tipo de conduta. O jornalista tem que ter faro e disposição para ir até onde a notícia está. Nosso trabalho depende das fontes. Temos que saber bem em quem confiar, pois endossaremos aquela informação e se alguma coisa der errado, não temos ninguém além de nós mesmos, para culpar. Infelizmente, encontramos pessoas desonestas pelo caminho. Se perdermos esse contato mais próximo, de estar no local onde tudo aconteceu, de olhar no rosto de quem está conversando conosco, ficaremos afastados da realidade. Aí fica difícil tirar conclusões e distinguir o que é verdade do que é mentira. Não podemos ficar reféns do que alguém disse. Temos que investigar. Quantas vezes vimos indivíduos acusando os outros por razões infundadas, motivados por sentimentos estritamente pessoais, como vingança? Estando na rua, conseguimos vivenciar a história. Mesmo com todas as portas fechadas, podemos encontrar um vizinho que viu algo ou um sorveteiro de esquina que dá uma dica, por exemplo. Enfim, quando o repórter tem o cuidado de ir até o lugar, sem pressa, vai montando as peças do quebra-cabeça e esclarecendo os fatos sem ficar restrito única e exclusivamente à palavra da fonte. Na minha época, eu e os meus colegas agíamos assim e sempre funcionava. Saíamos sem hora marcada para voltar para a redação.
Rafael: Hoje, esse tempo praticamente não existe. Vivemos uma concorrência esmagadora, não só entre as emissoras de TV, mas em relação a outras mídias. Essa correria é contraproducente?
Saulo: Mais do que isso, é um grande perigo. O ditado diz que “a pressa é a inimiga da perfeição”. Isso se aplica perfeitamente ao jornalismo. Sem conceder a devida atenção a cada detalhe, há o risco de divulgar uma notícia errada e, depois, ter que pedir desculpas aos que foram permanentemente lesados pela informação equivocada. Isso é ruim, uma mancha no histórico, tanto da empresa quanto do profissional, que pode vir a enfrentar sérios problemas na justiça. Sempre fui sensato em minhas declarações e, quando fazia uma denúncia, tinha provas seguras e concretas. Mesmo me cercando de todos os recursos, não escapei das acusações. Fui interpelado nos tribunais e respondi a 106 processos. Consegui absolvição em todos.
Rafael: Por que casos de crimes passionais, crimes envolvendo crianças e essa relação padrastro(a)/entenado(a), como o caso Bernardo, no Rio Grande do Sul, e o caso Joaquim, aqui em Ribeirão Preto, chamam tanto a atenção do público?
Saulo: Não sei como explicar, mas essa atração existe. E isso não é de hoje. Acompanhei de perto um caso semelhante a esses citados, na década de 60, no Rio de Janeiro, que ficou conhecido como a “Fera da Penha”. Uma moça de 23 anos, amante de um homem casado, acreditava que a filha dele, de quatro anos, era o fator que os impedia de viverem juntos. Ela sequestrou e matou a menina. Por fim, ainda colocou fogo no corpo. Depois de horas de interrogatório, a polícia não conseguiu nada. Fui autorizado a entrar na sala onde ela estava. Tratei-a com respeito, serenidade e dignidade. Acima de tudo, quem estava na minha frente era um ser humano, passível de cometer erros, assim como todos nós. Por pior que seja o crime, não cabe ao repórter julgar. Com essa postura, consegui a confissão. O papel do jornalista é esse. O que vejo, atualmente, é um alarde em torno das histórias e pouco foco. Dessa forma, criamos personalidades, como o bandido da luz vermelha e o maníaco do parque. Eles ficam maiores do que os atos que cometeram. Isso não é positivo e nem saudável. Com certeza, falta equilíbrio e preparo por parte dos profissionais.
Rafael: Qual é a sua análise do trabalho da imprensa em relação ao caso Joaquim?
Saulo: Foi bom, mas não completo. Nem a polícia, nem a imprensa conseguiram tudo. Há muitos segredos além do que foi divulgado oficialmente.
Rafael: Ao olhar para a sua trajetória, sente que tudo valeu a pena?
Saulo: Com certeza, e esse sentimento é o meu maior troféu. Tenho lembranças, fotografias, objetos e recordações infindáveis, provas de que cumpri o meu dever. Vejo que o trabalho que desempenhei rendeu bons resultados. Se tivesse que começar do zero, faria tudo de novo com o mesmo comprometimento e entusiasmo. Tanto que, aos 86 anos, com a saúde relativamente boa, continuo na ativa.
Rafael: Com o que você está trabalhando atualmente?
Saulo: A minha agenda está apertada ultimamente. De terça a quinta-feira, fico em Brasília, onde presido a Associação Brasileira dos Anistiados Políticos. Nosso objetivo é reparar os erros cometidos durante o governo militar. Além disso, estou em processo de finalização dos livros “Nosso Chico”, que mencionei anteriormente, e “A coragem da inocência”. Essa última obra tem como personagem principal a Irmã Maurina, uma freira que era diretora do Lar Santana, na Vila Tibério, em Ribeirão Preto, quando foi acusada por engano de participar do movimento revolucionário armado. Presa, ela passou por todo o tipo de violência. A luta dela serviu de inspiração para algumas reportagens e publicações no decorrer dos anos. Porém, a versão completa do que aconteceu não foi revelada. Ao conhecer o irmão da Madre Maurina, o Frei Manoel Borges da Silveira, em Uberaba, fiquei motivado e decidi contar essa história, sob um ponto de vista nunca antes abordado. O lançamento será em breve. Também faço parte da Comissão da Verdade da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e realizo palestras por todo o Brasil.
UMA REFERÊNCIA
“Ter participado dessa editoria da Revidefoi um verdadeiro presente. Quando recebi o convite, aceitei de prontidão. Para nós, jornalistas, o Saulo Gomes é um exemplo de profissional, um modelo a ser seguido. Saulo é a personificação dos princípios do bom repórter, que trabalha com ética, responsabilidade e paixão. Justamente por isso, coleciona um número incrível de histórias e é impossível não se encantar quando ele conta cada uma delas com uma riqueza de detalhes inacreditável. Você se envolve de tal maneira na conversa que nem vê o tempo passar. Além de tudo, é generoso, característica dos sábios. Faz questão de dividir suas experiências e seus conhecimentos. Encontrar e entrevistar o Saulo foi uma grande honra.”
Rafael Pascuim, jornalista
Texto: Paula Zuliani
Fotos: Carolina Alves