Encontro de jornalistas
Bate-papo entre Letícia Savegnago e Marcos de Assis fala sobre o cenário jornalístico de Ribeirão Preto
O cenário para esta entrevista não poderia ter sido outro: um estúdio de televisão. Afinal, foi em um lugar como esse que as relações de Marcos de Assis e Letícia Bighetti Savegnago tiveram início e logo foram estreitadas. Eles trabalharam juntos na STZ-TV, emissora afiliada da TV Brasil, instalada em Sertãozinho. Foi ali, nos estúdios daquela emissora, que Letícia começou a admirar a atuação profissional de Marcos e passou a buscar para si características que pudessem torná-la uma jornalista tão qualificada quanto ele. Na entrevista a seguir, eles trocam figurinhas sobre a profissão que os uniu e também abordam reflexões de Marcos sobre a vida, a imprensa, a política, entre outros assuntos.
Letícia: Quem é o Marcos de Assis?
Marcos: Não sei me definir. Mas acho que sou amigo, crítico, emotivo, nostálgico e quase exigente (já fui mais). Sou dedicado ao trabalho e hoje sou mais família do que já fui no passado, mas ainda não tanto quanto gostaria. Afinal, viver com a Beatriz, a Marina e a Gabriela é ótimo. Ter contato com meu pai, avô, irmãos, tios, tias, sogro, sogra é muito bom. Infelizmente, minha mãe foi muito cedo, mas o que ela fez, sua importância para mim e sua imagem são lembranças diárias. Mas, na minha opinião, nós apenas sobrevivemos, não vivemos. O prazer da vida não é esse que a gente oferece a nós mesmos. Para resumir: trabalhar, dormir, acordar, trabalhar e depois ter um fim de semana medíocre. Somos convidados à mediocridade. A nossa vida não pode ser essa mediocridade. Tem que ter alguma coisa além, um êxtase. Mas estou longe de encontrar o caminho. É difícil mudar maus hábitos. E a maioria se acostumou aos maus hábitos e acha normal. Admiro quem tem história de vida para contar. Mas é difícil sair da mediocridade.
Letícia: Eu sei que você leu o livro “Qual é a tua obra?”, do Mario Sergio Cortella. E lhe devolvo a pergunta: qual é a sua obra, Marcos?
Marcos: A vida, por si só, já é uma obra. Você já pensou na complexidade que é o corpo? Milhões de genes, células, neurônios funcionando 24 horas por dia. O corpo é uma maravilha. Você já pensou na complexidade é que o universo? Como a Terra foi formada? Isso tudo é lindo demais. Mas a minha obra particular ainda não encontrei. A minha obra está por vir.
Letícia: Como o jornalismo entrou na sua vida?
Marcos: O jornalismo entrou na minha vida há muito tempo. Eu vi um pequeno anúncio em um jornal, noticiando que teria uma reunião para a fundação de um partido em Ribeirão Preto, chamado Partido Humanista. Eu fui nesta reunião e tinham cinco pessoas. Dessas cinco, dois eram estudantes de Direito da Unaerp, os outros dois não me lembro bem. Eu fazia Administração de Empresas, no Centro Universitário Moura Lacerda. Seis meses depois, haveria a eleição para o Diretório Acadêmico de Comunicação da Unaerp. Decidiu-se que alguém teria que ir para a Comunicação. Assim, fui para o curso por causa de partido político e ganhei a eleição para presidente do Diretório Acadêmico. Apesar de ter iniciado nesta área por linhas tortas, eu encontrei o que gosto de fazer.
Letícia: Em quais veículos de comunicação você já trabalhou?
Marcos: Eu comecei em 1991, na Rádio Clube. Depois, passei por outras emissoras de rádio e televisão, como a TV Clube, o Diário Popular, de São Paulo, a Rádio CBN, a Rádio Jovem Pan, a TV Thathi, a EPTV e a STZ-TV, em Sertãozinho. Entre 2002 e 2011, também dei aula no curso de Jornalismo do COC. Há sete anos, faço assessoria de comunicação para dois grupos privados e uma instituição pública.
Letícia: Você entrou nesta área através da política e hoje estamos vivendo um momento político reflexivo. O povo está indo às ruas, questionando, pedindo mudanças. Como você acha que a imprensa pode contribuir para que isso seja cada vez mais bem feito pelo povo brasileiro?
Marcos: É importante ter a liberdade de manifestação, mas é preciso fazer isso de uma forma mais coerente. O médico faz greve e quem paga a conta é o paciente (população). O professor faz greve e quem paga a conta é o aluno (população). O policial faz greve e quem paga a conta é a vítima (população). O motorista faz greve e quem paga a conta é o passageiro (população). Acho errado. Por que a população tem que pagar a conta dessas reivindicações? Todos têm o direito de reivindicar, mas o palco dessa manifestação deveria ser outro lugar.
Letícia: E qual seria o palco certo?
Marcos: Quem toma as decisões no setor público é a Câmara dos Vereadores, a Prefeitura, o Governo Estadual, o Senado, a Câmara Federal, a presidente da República e o Judiciário. Então, o palco das manifestações tem que ser nesses lugares e não em uma avenida prejudicando o motorista e os pedestres, que são a população. Dia desses, 100 vendedores de cachorro-quente fizeram manifestação, em várias ruas de São Paulo, para regularização da profissão. Não está certo. Outro absurdo é manifestar vestindo capuz. Os encapuzados ficam valentes apoiados no anonimato. Copiam atitudes de europeus e norte-americanos e depois se dizem lutar contra o imperialismo. Mas, depois de cada depredação, vão tomar Coca-cola e comer um big mac. Repito: as manifestações servem para crescermos como sociedade, mas de cara limpa. Quem não se indigna com o que acontece no país é porque já morreu. E se o protesto é contra o setor privado o caminho é um só: não consumir aquele produto ou serviço. Não há empresário que resista.
Letícia: A imprensa pode provocar uma reflexão neste sentido?
Marcos: Sim, pode. Mas não sei se as pessoas pensam como eu. Talvez elas achem que o local certo é a rua. Eu não acho certo reivindicar prejudicando o outro. Eu chamo o local das manifestações de palco porque tem muita encenação, além do efeito “manada”. Assista ao vídeo sobre o tema nesse endereço www.mentalista.com.br/#!/2012/10/efeito-manada.html. É muito interessante.
Letícia: Você disse que talvez as pessoas não tenham a mesma opinião que a sua. No jornalismo, um dos princípios é a imparcialidade, que é justamente a posição de não tomar partido de nenhum lado. Na prática, isso é possível?
Marcos: O jornalista não é imparcial. Ao definir o que assistimos nos telejornais, o que lemos nos jornais, rádio e internet, o jornalista está fazendo juízo de valor para escolher o que é notícia e esses valores influenciam na hora de escrever. Sua trajetória de vida influência na hora de produzir uma reportagem. Mas para mostrar que é imparcial, ele ouve o outro lado. Os jornais “evoluíram” tanto que tem um box para explicar o outro lado, supostamente para dar equilíbrio à reportagem. Isto é o famoso auto-engano. Assim, ele dá legitimidade ao manual de redação que diz que o jornalista deve ser imparcial. Besteira. O profissional, quando recebe ou sugere uma pauta, já pressupõe uma hipótese e vai à rua para confirmar essa hipótese. Quando um jornalista escreve uma reportagem, ele está contando apenas parte da realidade. Ao menos disto ele tem que ter consciência. Mas em Ribeirão Preto tem excelentes jornalistas. Eu até gostaria de citar nomes de quem eu admiro, mas o espaço é pequeno.
Letícia: O que você pensa dessa vontade do governo em censurar o jornalismo, controlando a imprensa? Acredita que os governantes conseguirão fazer isso?
Marcos: No fundo, o governo não consegue explicar o que quer. A liberdade vale para todo mundo. A opinião deveria ser sagrada. Quanto mais regras são colocadas nesse jogo, pior fica. Uma regra só seria fundamental: preservar a liberdade de expressão. Quando você cria barreiras para a imprensa, está atrasando a sociedade.
Letícia: Hoje, como você avalia a imprensa brasileira? O cenário é o mesmo em Ribeirão Preto?
Marcos: Acho que a imprensa cumpre o seu papel. Boa parte das picaretagens só anda quando o jornalista coloca o seu olhar na questão. Por isso, é importante termos vários veículos de comunicação fortes. Cada um tem sua linha editorial. Uns são mais próximos do governo, outros bem críticos, mas assim que é bom. Em Ribeirão Preto, acho que corremos o risco de reduzirmos o número de veículos, enfraquecer os médios e eliminar os pequenos por causa da miopia de boa parte das agências de publicidade. As agências não estão enxergando que, com as estratégias que utilizam, colaboram para redução e o enfraquecimento dos veículos. Perdemos a Gazeta de Ribeirão e a Bandnews; por sorte chegou a CBN. Esses dois veículos não fecharam as portas porque eram ruins. Fecharam porque o publicitário, nem todos, vê a vida pelos 30 segundos que ele compra na TV. O resto é resto. Veja: o cliente X tem uma agência de publicidade e uma assessoria de imprensa. O assessor, ao produzir um release, manda para todos os veículos grandes, médios e pequenos, ou seja, para divulgar a notícia de que empresa tal fabrica um produto tal, todos os veículos servem e não importa o tamanho, mas, para receber o anúncio, não. No final do mês, a assessoria manda o relatório e diz: “olha você saiu tantas vezes no jornal do bairro, na revista do Zé e também no blog do fulano”. Mas esses mesmos veículos que receberam release para ser divulgado são marginalizados pelas agências de publicidade, nem todas, claro. Creio que no mercado em Ribeirão Preto, se continuar assim, mais veículos vão fechar. Será ruim para agências e assessores de imprensa, que também têm sua parcela de culpa quando não mostram para o cliente a importância de valorizar esses outros veículos.
Letícia: Você tem opiniões firmes e bem definidas. Levando isso para a sua vida pessoal e fazendo um resumo dela, faria algo diferente?
Marcos: Muita coisa. Pediria perdão mais vezes. Estudaria mais, muito mais. Cada vez que leio um livro ou assisto documentários, nas áreas que tenho mais interesse (meio ambiente, saúde e neurociência), vejo o quanto sou ignorante. Portanto, deveria ter lido mais. Também diminuiria minha chatice e seria mais tolerante. No trabalho, por exemplo, era um chato para provocar as pessoas a darem o melhor de si. Gostaria de ser mais leve, rir mais e me divertir com os detalhes, mas desconfio que estou mudando. Espero que para melhor.
A admiração através do convívio
“Logo que me formei em Jornalismo, fui trabalhar na STZ-TV e foi lá que aconteceu meu encontro com Marcos de Assis. Tudo era muito novo para mim, pois eu havia antes me formado em Psicologia e atuava nessa área. Então, o mundo do Jornalismo, na prática, era novidade. Carregava muitas incertezas e inseguranças junto comigo, pois, na época, eu já estava com 29 anos e começando numa profissão do zero. O Marcos era o diretor de jornalismo da TV, ou seja, meu chefe. Nele eu encontrei um apoio maravilhoso e espaço para aprender muito. Conversávamos bastante sobre todos os assuntos possíveis e nos tornamos amigos. Os questionamentos e também as críticas desse meu amigo e chefe me ajudaram a amadurecer muito como pessoa e profissional. Através dos nossos diálogos, fui pegando cada vez mais gosto pela profissão e, além disso, o Marcos sempre foi muito generoso, dando espaço e oportunidade para a equipe colocar ideias em prática. Na época, quem quisesse trabalhar e se destacar encontrava espaço. O Marcos nos dava essa liberdade. Isso era muito bom, pois quando surgia uma ideia, que fosse bem estruturada e planejada, ele deixava tranquilamente colocarmos em prática. Foi assim que comecei, esporadicamente, apresentar o telejornal STZ Notícias e também a fazer os quadros semanais ‘Reflexões’ e ‘Entrelinhas’, com entrevistas e matérias especiais sobre comportamento. O Marcos questionava muito os quadros e, ao mesmo tempo, dava oportunidade de aliar Jornalismo, Psicologia e também crescimento pessoal e profissional. Tem coisa melhor? Durante as edições que ele acompanhava, íamos criando outras pautas, várias ideias surgiam. Era estimulante e desafiador. Com o tempo, esse quadro evoluiu para meu próprio programa de TV. E o Marcos, sem perceber, foi fundamental para eu apostar nesse projeto e me apaixonar cada vez mais pelo mundo do Jornalismo. Esses são alguns dos vários motivos que me fazem admirar e querer mostrar um pouco do Marcos para vocês.”
Letícia Bighetti Savegnago, jornalista