Ensinamentos da maçonaria
Val del Lama entrevista Nivaldo Antônio Correa, cuja forte atuação e intensos estudos levaram a atingir o grau máximo dentro da maçonaria

Para quem não está familiarizado, a maçonaria é um tema que gera grande curiosidade. Cheia de símbolos e termos próprios, a ordem, que só aceita novos membros por indicação, está baseada no amor fraternal — tanto é que seus integrantes costumam se referir uns aos outros como irmãos. Para aproximar o público leigo dos preceitos maçônicos, o empresário Val del Lama entrevista Nivaldo Correa, atual delegado regional indicado pelo Sereníssimo Grão Mestre da Grande Loja Maçônica de São Paulo, Ir. Ronaldo Fernandes, para a entrevista a seguir.
Nivaldo ingressou na carreira militar em 1962, como soldado. Durante a trajetória profissional, foi galgando seu espaço até chegar a 1º tenente da Polícia Ambiental, área em que sempre atuou em Ribeirão Preto. Dedicou-se, ainda, ao Direito, tornando-se advogado, e às Letras, que o levou a dar aulas em duas instituições do Município. Tudo isso aconteceu antes que ingressasse na maçonaria, em 1992, já aposentado. Dando continuidade aos estudos na Ordem, percorreu todos os degraus até chegar ao grau máximo e ocupou diversos cargos de grande responsabilidade. Apesar de achar que ainda há muito a aprender, considera-se um bom professor também quando o assunto remete aos preceitos maçônicos.
Val: Como a maçonaria surgiu na sua vida: é uma tradição de família ou uma história que começou com você?
Nivaldo: Começou comigo, através de um amigo maçom, que me convidou para integrar a maçonaria, em 1992. A partir daí, convidei alguns familiares, como irmãos, sobrinhos, filho, e todos eles vieram a fazer parte desse universo. Isso já faz 22 anos.
Val: Como você definiria para o público os conceitos da Maçonaria?
Nivaldo: A maçonaria é uma ordem universal, que existe em todo o planeta. Seu princípio básico é o amor fraternal, por isso nos chamamos de irmãos. Constituída por homens, sem distinção de cor, religião ou outra espécie de diferença, tem o objetivo de estudar e aprofundar o trabalho na direção de contribuir para o desenvolvimento da humanidade, em todos os aspectos: sociais, humanitários e de conhecimento. Para participar, é preciso crer em um ser supremo. Não o nomeamos, no entanto, como Deus, Jeová, Maomé ou Buda, mas tratamos este ser maior como o “grande arquiteto do universo”. Com essa denominação, é possível abranger as figuras de todas as religiões. Portanto, todos que acreditam no princípio criador e em uma vida futura poderão encontrar um caminho dentro da maçonaria, sem abrir mão de sua religião. Convivemos, tranquilamente, na mesma loja, com irmãos espíritas, evangélicos, católicos ou representantes de outras crenças. Este assunto não é discutido por nós, apenas seguimos o preceito divino.
Val: A maçonaria tem, portanto, um cunho mais filosófico?
Nivaldo: Isso, seu princípio está relacionado ao esclarecimento da humanidade. A maçonaria não tem limites na investigação da verdade. Essa afirmação também está relacionada ao conceito de liberdade, em todas as suas concepções. Se o homem não for livre, não poderá ingressar na ordem.
Val: Como é constituída, ou organizada, a maçonaria em si?
Nivaldo: A maçonaria que eu represento, a Grande Loja do Estado de São Paulo, tem um presidente estadual a quem denominamos Grão Mestre. Eleito, junto com sua diretoria, permanece no cargo por três anos. Já nos municípios estão as lojas, que tem esse nome não pelo mesmo motivo dos pontos comerciais. Sua definição vem de “logde”, em inglês, ou “loge”, do francês, que significa pequeno cômodo ou estábulo, locais onde os maçons, no passado, costumavam se reunir. Naqueles tempos, os grupos eram formados por muitos pedreiros, marceneiros ou operários em geral. Hoje em dia, cada uma dessas lojas tem sua diretoria, eleita por um ano, comandada pelo Venerável Mestre.
Val: Qual a sua função atual?
Nivaldo: No âmbito estadual, fui nomeado delegado regional pelo Grão Mestre. Como tal, devo representá-lo nas lojas da região. Atualmente, são 29 unidades, sendo 25 em Ribeirão Preto e uma em Sertãozinho, Jardinópolis, São Simão e Pradópolis. A função é justamente prestar toda assistência e assessoria necessárias aos irmãos, especialmente no que diz respeito à realização de eventos de caráter social, promoção cultural, entre outros. Um exemplo da nossa atuação junto a todas essas organizações maçônicas é que, há três anos, começamos a trabalhar em conjunto para a promoção da Semana do Maçom. Realizada perto do dia 20 de agosto, quando se comemora o Dia do Maçom, promove seminários na parte cultural e, na área social, o Baile do Maçom, para o qual são convidados não só os membros da maçonaria, mas também seus familiares e amigos. Na ocasião, reunimos aproximadamente 900 pessoas.
Val: Há uma independência em relação às ações implementadas em cada loja?
Nivaldo: A loja é totalmente independente, mas as decisões tomadas dentro de cada uma precisam seguir o que está previsto na nossa constituição interna e também no nosso regulamento geral, que ditam os princípios básicos da maçonaria. Assim funciona a organização dentro do Estado de São Paulo.
Val: Você mencionou a Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo, uma das potências da ordem. Há outras?
Nivaldo: No Brasil, também funcionam as seguintes potências: Grande Oriente do Brasil e Grandes Orientes Independentes, totalizando três instituições principais. Em Ribeirão Preto, atuam a Grande Loja de São Paulo, o Grande Oriente de São Paulo e o Grande Oriente Paulista, sendo que o último é independente e o segundo, federado ao Grande Oriente do Brasil. Isso totaliza, além das 25 lojas já mencionadas, mais 20 lojas no Município, chegando a 45 lojas maçônicas e cerca de 1.800 a 2.000 integrantes em Ribeirão Preto. Essas três potências funcionam harmonicamente dentro de cada cidade, pois existe, como não poderia deixar de ser, o espírito de fraternidade e a intervisitação entre todas as lojas.
Val: Todas elas seguem os mesmos princípios e conceitos?
Nivaldo: O conceito não muda, é universal. Quando ingressa em qualquer uma dessas três potências, o maçom passa a seguir uma série de princípios em comum.
Val: Sabidamente, os maçons dão suporte uns aos outros. De que forma isso acontece?
Nivaldo: A maçonaria, por ser fundada no amor fraternal, não é diferente de uma família. Da mesma forma que parentes consanguíneos costumam se ajudar, fazemos dentro da ordem. Portanto, quando um irmão está passando por alguma espécie de necessidade, seja ela de qualquer natureza, a loja, através de seus membros, contribui ativamente para sua recuperação, seja na forma de apoio moral, com uma indicação para o mercado de trabalho ou, em último caso, até socorrendo com um numerário que faça frente às despesas básicas da sua família.
Val: No âmbito social, qual a área de atuação mais forte da maçonaria, especialmente na nossa região?
Nivaldo: A maçonaria tem uma atuação discreta, sempre seguindo o princípio cristão: que a mão direita não saiba o que a esquerda faz”. Em todas as cidades, a participação junto às entidades filantrópicas é muito forte. Aqui em Ribeirão Preto, nossa participação está bastante diluída entre varias instituições, de creches a asilos, mas poderia citar, por exemplo, a APAE, o Asilo Padre Euclides e o Hospital de Retaguarda São Francisco. Essas entidades contam com maçons integrando diretorias e também com apoio financeiro.
Val: Por qual motivo apenas os homens participam?
Nivaldo: A maçonaria valoriza muito a mulher. A tradição surgiu na antiguidade, quando apenas oficiais, pedreiros, marceneiros, entre outros, formavam a maçonaria, enquanto as mulheres cuidavam dos filhos. Além do caráter histórico, acreditamos que a presença feminina em casa é fundamental, dando suporte ao lar, uma visão bastante semelhante àquela que permeia todo o mundo cristão. Claro que, hoje, a realidade é outra e impõe à mulher novos papéis, inclusive como trabalhadora importante para o sustento da própria família. Paralelamente a isso, a mulher foi, sim, inserida no contexto da maçonaria através das entidades paramaçônicas. Há, atualmente, cerca de quatro entidades destinadas às mulheres, que funcionam com o apoio das lojas. São elas a Ordem das Filhas de Jó, voltada às meninas de 10 a 20 anos; a Estrela do Oriente, da qual participam homens e mulheres acima de 18 anos com vínculos com a maçonaria; a Ordem Internacional do Arco-íris, destinada a meninas com idade entre 11 e 20 anos, e, finalmente, as pledges, que recebem as meninas de 7 a 11 anos. Entre os jovens, os meninos também são bem-vindos nos grupos dos Lowtons, de 7 a 14 anos, e dos Demolays, de 12 a 20 anos. Todas essas entidades prepararam os nossos jovens, capacitando-os para praticar a cidadania e a liderança, assim como contribuindo para desenvolver responsabilidade, criatividade, amor fraternal, envolvimento social, tolerância e respeito ao próximo. Em suma, a maçonaria mantém a preocupação de formar lideranças jovens e dar a eles total noção de cidadania. A experiência mostra que essas iniciativas têm contribuído para a formação de grandes homens e mulheres, inclusive com atuação na vida pública.
Val: Na política, qual o posicionamento da maçonaria, principalmente agora, em uma eleição?
Nivaldo: Estamos desenvolvendo em Ribeirão Preto, desde 2008, por orientação do então Sereníssimo Grão Mestre da Glesp, Ir. Francisco Gomes da Silva, um programa criado em 2008 pelas três potências a que me referi anteriormente. Os três Grão Mestres se reuniram em São Paulo e criaram um objetivo comum, de dirigir no Estado a Maçonaria Unida por São Paulo. Com isso, formou-se em cada município o Grupo Regional de Ação Política, com a intenção de desenvolver atividades que insiram o maçom no exercício político, não só por meio dos cargos eletivos, mas também pelas funções administrativas, participando de conselhos, de secretarias e dos outros mecanismos. Antes de 2008, cada um atuava independentemente. Hoje, apesar da independência na ação em si, existe uma organização. Uma das atividades é convidar os maçons políticos a apresentarem suas propostas e seus projetos aos irmãos. Os políticos que não integram a maçonaria também podem receber o nosso apoio, desde que também se mostrem comprometidos com os nossos ideais.
Val: Ao se candidatar, o maçom político assume um compromisso com a ordem?
Nivaldo: Na verdade, o indivíduo que se tornou maçom já assumiu um compromisso dentro da maçonaria, que vale para todas as áreas da sua vida. Quando ele se torna um candidato, apenas reafirma esse compromisso, e amanhã ou depois, poderá ser cobrado por não seguir os conceitos apregoados pela ordem, que nada mais são do que os ditames da honra, da ética e da moralidade.
Val: Para o pleito que se aproxima, existe uma linha política defendida pela maçonaria?
Nivaldo: Existem propostas da maçonaria, como as reformas política e tributária, que são apresentadas para os candidatos. Mas segui-las ou levá-las para a Câmara dos Deputados ou para o Senado, por exemplo, fica a critério de cada um. Isso se repete em todo o Brasil. Entendemos que, para melhorar sua atuação democrática, o país precisa unir todas as forças. É dessa forma que a maçonaria procura contribuir, apresentando ideias e até projetos completos para colocar em prática a série de mudanças que integram a pauta da nação. Anualmente, a maçonaria se reúne no Brasil inteiro e elabora uma carta, entregue a presidência, governadores e vereadores.
Val: A participação da maçonaria na política é histórica. Que acontecimentos destacaria nesse sentido?
Nivaldo: No Brasil, a maçonaria esteve muito presente, por exemplo, na abolição da escravidão, que demandou um trabalho árduo junto à Coroa, na época. A Inconfidência Mineira também é um desses episódios, já que Tiradentes, um de seus personagens principais, era maçom. A Independência e a República também contaram com a contribuição de membros da maçonaria. Então, dá para dizer que a ordem esteve presente nos principais momentos históricos do país.
Val: Qual seria uma grande lição maçônica que pode ser compartilhada com a sociedade?
Nivaldo: O maçom não é um ser excepcional ou diferente de qualquer outra pessoa. O que nós não abrimos mão é de sermos corretos, honestos, retos em nossas ações e, sempre que possível, praticar a fraternidade, em todos os seus aspectos, para com os nossos semelhantes. Esses ideais são cada dia mais valorizados dentro da maçonaria e seria muito bom vê-los praticados no dia a dia em todos os cantos. Espero que o progresso e o esclarecimento da humanidade sejam uma constante dentro e fora da maçonaria.
"UM ETERNO APRENDIZADO“
Confesso que relutei bastante em aceitar o convite para ingressar na maçonaria — não pela entidade em si, mas por não estar acostumado a confrarias fechadas. Sempre tive uma relação social muito aberta a todos. Pelo fato de o convite ter vindo de um amigo muito especial, Luiz Carlos Zorzetto, procurei conhecer os preceitos da ordem dispostos no cotidiano e ergui meu primeiro passo rumo à nova experiência em 22 de julho de 2008. Depois de iniciado, conheci a dimensão desta grande ordem e mergulhei no mundo do conhecimento filosófico, do alicerce da humanidade e do universo da simbologia. Falando assim, devo transmitir uma certa complexidade mas, na realidade, é tudo muito simples: o maçom está numa eterna busca pela verdade e pela luz e, por mais que estudemos a maçonaria, nunca deixamos de ser aprendizes. Dentro da ordem, existem pessoas que se dedicam muito e uma delas é o irmão Nivaldo Antônio Correa, que hoje é a voz do Grão Mestre da Grande Loja do Estado de São Paulo em nossa cidade e na região.”
Val del Lama, empresário
Texto: Luiza Meirelles
Fotos: Ibraim Leão
* Publicado em 02/10/2014