Ensino transformador

Ensino transformador

Desenvolver projetos eficazes para mudar a educação no Brasil e, consequentemente, melhorar a saúde é um dos projetos defendidos pelo médico e empresário Yussif Ali Mere Jr.

Em algumas regiões do Brasil, a educação tem estado aberta para um novo diálogo, dando lugar a estruturas que colocam crianças e jovens no centro do processo educativo, compreendendo que eles devem ser vistos como verdadeiros agentes de transformação das próprias vidas, casas, cidades e, também, do mundo.  No entanto, para que essa mudança aconteça de fato, é importante que as crianças tenham acesso a uma educação que contemple e priorize competências como trabalho em equipe, protagonismo, cidadania, cultura, empatia e tecnologia. Investir em educação impacta positivamente não apenas no desenvolvimento social e econômico do país, mas melhora os indicadores de saúde da população.

Esse é o alerta feito pelo empresário e médico nefrologista, com MBA em Gestão e Economia da Saúde, Yussif Ali Mere Jr. Presidente da Federação dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo (FEHOESP), Yussif falou com exclusividade à Revide sobre a qualidade da educação no Brasil, sobre desafios e o projeto que idealizou, intitulado Escola 360. Destacou, ainda, o caminho que acredita ser possível para formar cidadãos mais conscientes dos desafios do século XXI.

Revide: Qual é a sua visão sobre a educação brasileira e quais os maiores desafios na área?
Yussif:
O Brasil investe menos em educação do que deveria. Para 2018, o orçamento do Ministério da Educação sofreu um corte de 1% em relação ao do ano passado. A pasta terá cerca de R$ 110 bilhões. O orçamento da área não é o ideal, mas temos que reconhecer que os resultados desse investimento poderiam ser melhores. Portanto, adequar o orçamento às necessidades nacionais e fazer com que ele seja investido de forma mais eficiente, gerando melhores resultados, é um dos desafios. A qualificação de professores e diretores, com remuneração adequada, é outro problema que precisa ser atacado. Precisamos encontrar meios de implantar a meritocracia no sistema educacional. Hoje, um professor que se destaca é premiado com um cargo fora da sala de aula. Isso é um erro brutal. O caminho é remunerá-lo bem para que continue ensinando. É fundamental, também, acabar com os cargos por indicação política.

Para Yussif, mais importante do que introduzir tecnologias é criar um novo conceito de escola que promova o desenvolvimento integral do ser humanoEsse ponto de vista também pode ser adequado à realidade de Ribeirão Preto?
Com certeza. Ribeirão Preto tem cerca de 110 escolas na rede municipal de ensino e mais de 3.100 professores. O último Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), de 2015, mostra que o município atingiu a nota de 6,1, e tinha como meta 6.  Esse dado é calculado com base no aprendizado dos alunos em português e matemática e no fluxo escolar. Para 2019, a meta de Ribeirão é atingir 6,5. Isso é bom, mas a cidade também poderia produzir mais em educação com o mesmo orçamento. Precisamos oxigenar os setores vitais para o desenvolvimento do país, com novas cabeças, mentalidades mais focadas no século 21 e que atendam aos anseios da sociedade contemporânea.

Em diversas cidades do Brasil as crianças vão à escola, porém não estão aprendendo. Essa resolução pode ser vista no resultado do PISA no qual o Brasil teve um desempenho ruim. Qual é a sua análise?
No último Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), de 2015, o Brasil realmente foi mal. Caiu nas três áreas avaliadas: matemática, ciências e leitura. Com isso, sofremos uma queda no ranking mundial. O Brasil ficou na 59ª posição em leitura, na 63ª em ciências e na 66ª colocação em matemática. Isso atesta o que afirmei anteriormente — mesmo gastando mais em educação, ainda não produzimos os resultados esperados. Precisamos dar especial atenção à formação dos professores e diretores de escolas. Eles precisam ser valorizados, com um plano de cargos e salários atraente, precisam trabalhar motivados. 

As escolas públicas brasileiras têm boa infraestrutura?
Esse é outro problema que precisa ser atacado de frente e com urgência. O Brasil possui cerca de 190 mil escolas de ensino básico. Desse total, mais de 150 mil são públicas. A maioria dispõe de infraestrutura precária. Segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) tabulados pela Fundação Lemann e pela Meritt, mais da metade das escolas não tem esgoto; um terço não possui rede de água e um quarto não conta com coleta de lixo. 

Alguns pesquisadores apresentaram dados sobre a relação entre educação e saúde. Para eles, a educação possibilita a pessoa ter acesso a mais informações sobre como prevenir e tratar determinadas doenças. Na sua opinião, o investimento em educação ajuda na prevenção de doenças e no aumento da expectativa de vida?
A educação ajuda a melhorar indicadores de saúde. Isso é comprovado. À medida que a pessoa tem mais conhecimento, mais noções de higiene, de cidadania e seu nível escolar aumenta, alguns indicadores de saúde melhoram. Um bom exemplo disso é a queda de 73% da mortalidade infantil ocorrida no país. Em 1990, 58 crianças a cada mil morriam antes de completar um ano. Hoje, morrem 16. O relatório da Unicef que retrata essa queda afirma que isso é resultado de programas comunitários e de estratégias de saúde para a família, da melhoria do saneamento básico e, principalmente, da melhoria do nível educacional das mães. 

Acredita que alguns dos problemas sociais e de saúde poderiam ser resolvidos com um método de educação diferente?
Não sei se exatamente com um método, mas um sistema educacional que valorize o ensino e a escola possa ser vista pela sociedade como um ambiente de oportunidades, que vai levar ao desenvolvimento humano. A escola é um local de formação e precisamos aproveitá-la ao máximo para formar cidadãos preparados para os desafios que os esperam. Inclusive para se tornarem adultos mais saudáveis. O ambiente escolar pode contribuir para isso. Um bom exemplo é a alimentação.

É disso que trata o projeto Escola 360?
Alguns indicadores de saúde ligados ao desempenho escolar são preocupantes no Brasil. Dados do IBGE mostram que cinco milhões de crianças brasileiras abaixo dos cinco anos ainda apresentam algum grau de desnutrição, na proporção de uma em cada três. Muitos lares brasileiros sofrem com a insegurança alimentar, ou seja, falta, restrição ou preocupação com a quantidade de alimentos. Isso atinge mais de sete milhões de brasileiros. Do lado oposto, a obesidade infantil avança a passos largos e será um dos problemas mais graves de saúde pública do século XXI, segundo a Organização Mundial de Saúde. Há relação direta entre alimentação saudável, o desenvolvimento da criança e o rendimento na escola. A desnutrição dificulta o aprendizado e a concentração, assim como a obesidade traz barreiras comportamentais, ansiedade e também baixo desempenho escolar. Por ser o local onde crianças e os adolescentes passam grande parte do tempo, as escolas precisam oferecer merendas que promovam a saúde, introduzindo hábitos alimentares saudáveis para formar adultos conscientes e preocupados com a sua saúde. 

A ideia do projeto, então, é oferecer merendas mais saudáveis?
Não só isso. Para milhares de crianças da rede pública, a refeição feita na escola é a principal, senão a única do dia. Exatamente por isso, finais de semana, feriados e férias escolares trazem preocupação para as famílias de baixa renda, que precisam garantir a alimentação dos filhos. Uma boa alternativa que defendo no projeto Escola 360 é estender a merenda nos dias de folga, fazendo com que as comunidades sejam as responsáveis pela sua preparação. Caberia ao Estado oferecer os alimentos. Além de combater os distúrbios alimentares, como a desnutrição e a obesidade, a iniciativa aproximaria as famílias das escolas, contribuindo, inclusive, para evitar a tão comum depredação dos prédios nestes períodos. Mais engajada, a comunidade pode se envolver nos assuntos escolares, incentivar o desempenho dos alunos e ainda tentar frear o assédio do tráfico. 

O projeto Escola 360 objetiva valorizar o ensino para que a escola possa ser vista pela sociedade como um ambiente de oportunidades que leva ao desenvolvimento humanoMuitos dizem que falta uma educação mais “organizada”. Para você, a gestão deve englobar, também, os alunos?
O envolvimento de todos em favor da educação é importante: família, alunos, comunidade, diretores, professores e autoridades. Se conseguirmos organizar um sistema educacional que envolva todos esses atores, melhore a infraestrutura das escolas e tenha um plano de cargos e salários pautado na meritocracia para que os profissionais da área trabalhem motivados, certamente obteremos mais eficiência e melhores resultados em educação. Outro aspecto positivo desse envolvimento é que ele trabalha em favor da transparência, pois quando todos se envolvem em torno de uma causa, a tendência é que as interferências políticas diminuam, o que é ótimo, pois teremos menos cargos sendo preenchidos por nomeações políticas. Eles passarão a ser ocupados por quem merece.

Você observa uma mudança de metodologias nas escolas com a inclusão de projetos, desenvolvimento integral do ser humano, educação democrática e social? O que é necessário para que isso de fato aconteça?
Infelizmente, não vejo essa mudança de metodologia. Há alguns casos de sucesso isolados que ocorrem graças ao grande envolvimento de diretores, professores e da comunidade, mas isso está longe de ser a realidade nacional. O desenvolvimento integral do ser humano deve ser o objetivo da escola e isso precisa acontecer sem nenhum viés ideológico. O foco tem de ser o aprendizado e a cidadania. Para que isso aconteça, precisamos de um sistema educacional mais eficiente, que olhe a criança e o adolescente como um todo.

Qual a sua opinião sobre a reforma do Ensino Médio que prevê que escolas passem para período integral e o currículo seja dividido entre disciplinas obrigatórias e optativas?
A reforma do Ensino Médio deve ocorrer no próximo ano e será implantada gradualmente. E deve ser analisada sob vários ângulos. Ela prevê que 60% do currículo seja preenchido pela Base Nacional Comum Curricular. O restante do tempo será dedicado ao aprofundamento acadêmico nas áreas eletivas ou a cursos técnicos nas seguintes áreas: linguagens e suas tecnologias; matemática e suas tecnologias; ciências da natureza e suas tecnologias; ciências humanas e sociais aplicadas; e formação técnica e profissional. As escolas não serão obrigadas a oferecer aos alunos todas as áreas, mas deverão oferecer ao menos uma. Portanto, a formação técnica e profissional será mais uma alternativa para o aluno. O novo ensino médio permitirá que o jovem opte por uma formação técnica dentro da carga horária do ensino médio regular, desde que continue cursando português e matemática. Ao final dos três anos, terá um diploma do Ensino Médio e um certificado do ensino técnico. Portanto, a preparação para o mercado de trabalho tende a ser mais eficiente. Caberá à escola incluir disciplinas chamadas optativas, como educação física, filosofia, sociologia e artes. Outra previsão da reforma, que não é obrigatória, é a escola em período integral, proposta que deve acontecer de forma gradual. Atualmente, apenas 5% dos alunos matriculados no Ensino Médio estudam em período integral. Até o final deste ano, a meta do Ministério da Educação é abrir mais 500 mil vagas integrais. São, portanto, mudanças positivas, mas precisamos acompanhar a implantação e os resultados.

Vale a pena para a escola inserir tecnologias na rotina do aluno? Quando essa tecnologia é de fato relevante para a aprendizagem?
Não podemos virar as costas para a tecnologia, que é uma realidade. Um dado interessante é que, apesar da deficitária infraestrutura das escolas públicas no Brasil, mais de 60% delas têm acesso à internet. Algumas escolas, por exemplo, já substituíram o giz pelas lousas digitais e isso será cada vez mais comum. Porém, não podemos esquecer que mais importante do que introduzir tecnologias é criar o novo conceito de escola que vislumbre os desafios do desenvolvimento integral do ser humano. 

É possível defender que a formação deve buscar o diálogo com valores culturais, sociais e afetivos, além dos emocionais e comportamentais, somando ao desenvolvimento integral dos estudantes?
Certamente, mas a construção desse diálogo englobando os valores sociais, afetivos e culturais dentro do sistema educacional só será possível com o envolvimento de todos, quando comunidade, diretores, professores, autoridades, família e alunos estiverem imbuídos. 

Qual seria o modelo de ensino ideal para uma aprendizagem completa? Acredita que ele pode ter bons resultados quando se trata de uma educação de massa? 
O modelo de ensino ideal não pode e não deve ser copiado de um país para o outro. O Brasil precisa desenhar o próprio modelo para alcançar melhores resultados. Esse modelo ainda não existe, mas pode, sim, trazer bons resultados mesmo se tratando de uma educação de massa. Claro que há exemplos no mundo que merecem todo mérito e servem de inspiração, como a Coreia do Sul. Para se ter uma ideia, até os anos de 1960, o país apresentava níveis sociais e econômicos comparáveis aos países mais pobres da Ásia. Com um sistema educacional que priorizou a educação primária e só depois que ela se tornou universal passou a destinar recursos para o segundo e o terceiro graus, o país se transformou em uma das maiores economias do mundo e, hoje, exporta tecnologia de ponta. Acredito no Brasil. Com determinação e vontade política é possível mudar a cara da educação e, consequentemente, mudar a cara do país. 


Texto: Pâmela Silva
Fotos: Julio Sian

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