Entre histórias

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Feira do Livro de Ribeirão Preto completa 20 anos com motivos de sobra para o ribeirãopretano se orgulhar de ter no coração da cidade a segunda maior feira literária a céu aberto do país

Uma história de sucesso começou a ser escrita em 2001, quando foi realizada a primeira Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, que recebeu 100 mil pessoas. Depois, ano a ano o evento evoluiu e cresceu em público: logo na segunda edição, por exemplo, o número de frequentadores já tinha mais que dobrado, tendo a presença de pelo menos 270 mil pessoas. 

Em 2004, nasceu a atual Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto, uma entidade de direito privado, sem fins lucrativos, com o intuito de realizar a Feira Nacional do Livro da cidade. Esse foi um marco significativo, já que a partir dele, o evento anual pôde reunir pessoas que pudessem compartilhar e colher experiências, promovendo uma agenda cultural atendendo o ano todo com programações e tornando a Feira a segunda maior feira do livro a céu aberto no Brasil e uma das mais importantes da América Latina.

Fundação do Livro e Leitura

Desde a criação, em 2004, a Fundação Livro e Leitura ganhou espaço e se tornou referência cultural do Estado de São Paulo. A instituição se mantém a partir do apoio de mantenedores e patrocinadores, com recursos privados e por meio de leis de incentivo, em especial do Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac) e Programa de Ação Cultural (ProAC). 

A entidade é organizada de forma que um mandato é válido por dois anos, com o acompanhamento do Conselho de Administração Fiscal. Atualmente, Adriana Silva é vice-presidente da Fundação do Livro e Leitura e curadora da Feira.

Desde o início

Além de ocupar a atual presidência da Fundação e curadoria da FIL, Adriana Silva está envolvida no evento desde a primeira edição e se lembra com muita emoção de cada momento. “Por estar desde o início, já presencie a Feira nos mais diversos formatos. Já estive produzindo o programa da Feira do Livro, assumi a vice-presidência algumas vezes e outras vezes a presidência da Fundação e, também, na minha passagem pela Secretaria da Cultura, participei nos quatro anos ativamente pela Fundação”, destaca Adriana. 

“Cada vez que foi necessário recuar, serviu como alavanca para nós subirmos de novo”, afirma Adriana Silva, vice-presidente da Fundação do Livro e LeituraHoje, ela afirma estar mais envolvida com os projetos de formação de leitores de senso crítico. “Para mim, a feira é a oportunidade de debates profundos sobre questões que estão intrínsecas à humanidade. Mesmo que venha pela porta do campo da literatura lúdica, sempre será promovida uma reflexão. Quando eu penso em Feira Internacional do Livro, penso sobre um momento de reflexão, tendo o livro como objeto condutor desse debate. Para mim, é um centro nervoso de reflexões”, explica.

Segundo ela, a comemoração dos 20 anos de história é composta por detalhes que a Feira vai carregar por toda a existência. “Nada do que fazemos hoje daria para ser feito há 15 anos, porque é fruto da maturidade. Tudo o que promovemos vem se consolidando do aprendizado da equipe que se renova. Temos o máximo respeito e devemos muito a todos que começaram tudo, que passaram por aqui, porque sem eles nós não teríamos chegado aonde estamos e estaríamos longe de alcançar outros objetivos ainda maiores”, ressalta Adriana.

Para a vice-presidente, as propostas de inovação e a busca pelo diferente foram feitas dentro da realidade de cada edição. “Desde o início, nós fomos difusores, tínhamos a demanda de produzir o livro como o grande objeto da Feira. Depois, alcançamos determinada maturidade. Foi quando iniciamos a trabalhar os conteúdos e, com isso, começamos a realizar uma curadoria para captar os tópicos”, destaca.

Resiliência

“Cada vez que foi necessário recuar, serviu como alavanca para nós subirmos de novo”, afirma Adriana, recordando os momentos adversos na história da Feira. 

Ela relembra de 2014, quando houve os problemas com os “rolezinhos” que ameaçaram a realização do evento no centro da cidade. “Um debate muito intrínseco se a feira deveria ou não ser realizada no centro. Se nós tivéssemos ouvido a comunidade, talvez tivéssemos saído do centro. Fomos resilientes, entendemos que a feira é democrática, que aquele espaço precisa da gente e vice versa”, pontua. “Um resultado que eu posso afirmar com materialidade, com êxito na proposta da permanência, é: quatro anos depois, as mesmas pessoas que falaram que talvez o melhor fosse tirar a Feira do centro pediram a realização de duas feiras ao longo do ano, porque durante o evento o centro pulsava, ficava vivo, ficava alegre, o centro ficava inteligente”, recorda.

Novo momento

Com oito dias de evento em cada edição, a Feira do Livro de Ribeirão Preto é considerada a sétima maior feira literária da América Latina e a segunda maior do Brasil. O evento já recebeu 3.000 escritores, entre grandes nomes da literatura nacional e internacional. Além disso, durante a realização, ocorrem mais de 340 atividades por edição, todas gratuitas. 

Cerca de 15 mil estudantes participam da Feira por edição e, somando as 19 edições, 5,9 milhões de pessoas já passaram pelo evento, gerando mais de 1.000 empregos, direta ou indiretamente, a cada ano. 

Após a 19ª edição uma mudança foi anunciada: a tradicional Feira do Livro de Ribeirão Preto ganharia uma nova identidade, um novo selo, passaria a ser internacional a partir da edição de 2020, sujeita a novos desafios, transformando-se na Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto (FIL). 

A nova marca é assinada pela jornalista e designer gráfica Thais Navarro, que se inspirou para valorizar o contexto de contemporaneidade que caracteriza o universo cultural atual, trazendo traços dos valores da instituição, que tem como diretrizes de engajamento e atuação nos pilares da educação e cultura, baseados na relação com leitores e na democratização do acesso da população ao livro.

Contudo, um desafio se avizinhou em 2020: a pandemia do novo coronavírus. Com a disseminação da Covid-19 pelo mundo e os novos hábitos da população, que deveria priorizar o distanciamento social, a instituição criou projetos totalmente on-line, como a "40Tena Cultural", a primeira inciativa totalmente on-line de atividades da Fundação. 

O projeto se mostrou eficiente, alcançando mais de 20 mil pessoas em apenas seis meses de execução. “Com o anúncio de que a Feira seria internacional, já sabíamos que íamos fazer muitas realizações virtuais, até porque para ser internacional e dialogar com o mundo seria necessário um dinamismo que ainda não tínhamos em vários sentidos. Desde então, começamos a trabalhar em uma plataforma que será utilizada em longo prazo”, adianta Adriana. 

No ano em que completa duas décadas, o evento não teve a comemoração suspensa, mas realizada de forma on-line, celebrando livros e a leitura: a Fundação realizou o “20 Horas de Literatura”, uma ação inteiramente digital, entre os dias 14 e 18 de setembro, com a participação de escritores e educadores, sendo 20 horas com conteúdo gratuito. A celebração marcou a apresentação do e-book “20 palavras. Leituras sobre o Agora”, trazendo debate sobre 20 palavras significativas que norteiam a abordagem de 20 autores. Também foi feito o lançamento da nova plataforma digital, que será o canal de transmissão dos debates e de produção permanente de conteúdo a partir de agora.

Pensando no futuro

Mesmo com tantos avanços tecnológicos, Adriana garante que a Fundação preza pelo contato presencial. “Não está na nossa plataforma de ideias seguir virtualmente daqui para a frente, a ideia é que tudo que for presencial é enriquecedor, porque esse contato humano faz parte, tem poesia, o contato humano enriquece a troca de ideias. No entanto, acho que vamos ficar híbridos entre o virtual e o presencial, no sentido de transformar nas duas linguagens”, explica a curadora, que é otimista com relação ao futuro da FIL. “Queremos acentuar uma marca que nós comemoramos sobre a pesquisa realizada em 2017, confirmada em 2018, que o índice de leitores em Ribeirão Preto é maior do que a média nacional. Essa é uma conquista de que a Feira faz parte. Queremos seguir por esse caminho, continuar fazendo com que o leitor ribeirãopretano se identifique com a literatura é a missão que estamos propondo nessa versão”, conclui. 

EDGARD DE CASTRO
Vice-presidente da Fundação do Livro e Leitura

“Uma das boas gratificações da vida é fazer parte de um projeto que venceu o tempo, escreveu um legado e modificou as pessoas. O ideal da Feira sempre foi a construção do entendimento através da leitura. Todos nós, de alguma forma, temos um compromisso e um dever para com a nossa comunidade. Nada substitui a magia do livro, onde a gente faz o próprio filme, desenha os personagens, identifica os nossos sentimentos com os da história e desenha a vida. A cada ano desses 20 anos, fico mais feliz quando verifico que a Feira do Livro construiu uma geração, mais leitora.”

IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO 
Contista, romancista, jornalista e membro da Academia Brasileira de Letras

“Uma vez, ouvindo o hino nacional, perguntei à professora: ‘o que era impávido colosso?’, e ela abriu o dicionário e me mostrou. Impávido: que não tem medo, intrépido, corajoso, destemido. Esta lembrança me veio hoje, quando pensei na nossa Feira Internacional de Ribeirão Preto, que chega aos 20 anos. Uma feira impávida, forte, destemida, corajosa, conduzida por gente intrépida. Centenas de feiras, festas literárias, bienais, foram exterminadas no Brasil nos últimos anos. A de Ribeirão está de pé, impávida, colosso. Tive prazer emoção e orgulho em participar em quase metade delas. Vinte anos a favor da Cultura, remando contra a maré, principalmente nos dias de hoje. Emoção pura, coração feliz. A Feira de Ribeirão é tenaz, intrépida, impávida resistência.”

NELSON JACINTHO
Médico ortopedista formado pela USP, fundador do Grupo de Médicos Escritores e autor de 14 livros

“Sou conselheiro e já fui vice-presidente, mas meu laço com a Fundação ultrapassa cargos. Como um grande incentivador da cultura, encontrei na Fundação uma grande oportunidade para cultivar essa admiração. O Grupo de Médicos Escritores e Amigos, do qual sou fundador, reúne-se mensalmente na Fundação para leitura e comentários de textos escritos pelos seus escritores, assim como outras entidades literárias. Nossa cidade não poderia ter recebido maior presente do que a Fundação Internacional do Livro e Leitura, promotora da Feira do Livro.”

GALENO AMORIM
Diretor da Fundação Observatório do Livro e da Leitura

“A Feira do Livro é um dos mais importantes legados da cultura para a cidade. Deu tão certo e cravou seu lugar na história local, porque levou em conta algumas condições básicas. Partiu de uma base sólida: a existência de leitores que amavam ler. E já era tida como uma ótima praça para o negócio do livro, com boas livrarias, distribuidores e escritores reconhecidos nacionalmente. E havia disposição política para o papel do livro e da leitura na sociedade e no projeto de futuro para Ribeirão. Isso, mais persistência, organização e levar a cidade a abraçar e assumir a continuidade da feira — no início, só estatal —, resultou no sucesso que é, com perspectivas ainda melhores para o futuro.”

DUARTE NOGUEIRA
Prefeito de Ribeirão Preto

“Afastados pela pandemia, mas unidos pela literatura, entendemos que a arte também é força, coragem e resistência, caminho para a leveza, para o sonho, para a fabulação. Ao completar duas décadas de existência e persistir em acontecer em meio ao momento turbulento que o mundo atravessa, num formato muito diferente do habitual, a Feira do Livro é ela própria sinônimo de resiliência, demonstrando enorme capacidade de superação de adversidades. Mais do que nunca, os ensinamentos de Antonio Candido são necessários. Literatura é um direito humano. É nosso dever trabalhar para garantir acesso à população.”

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