Entusiasta do agronegócio

Roberto Fava Scare e Roberto Rodrigues, conversam sobre os entraves, os desafios e os caminhos para o desenvolvimento do agronegócio



Focado 100% no desenvolvimento do agronegócio brasileiro, Roberto Rodrigues se dedica a disseminar o conhecimento e a instigar o setor e o poder público a buscar soluções para os gargalos do setor. Natural de Cordeirópolis, interior paulista, o engenheiro agrônomo possui cursos de aperfeiçoamento em administração e em economia rural.

Doutor Honoris Causa pela Unesp, foi ministro da Agricultura e é o atual coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getúlio Vargas, além de presidir a Academia Nacional de Agricultura, com centenas de trabalhos publicados sobre agricultura, cooperativismo e economia rural, no Brasil e no exterior. Empresário rural em São Paulo e no Maranhão e membro do Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp, é ainda Embaixador Especial para o Cooperativismo da Food and Agriculture Organization (FAO), das Nações Unidas.

Tendo ocupado diversos cargos em instituições de classe, Roberto acumulou uma ampla experiência prática, um dos motivos que levaram o economista e empresário Roberto Fava Scare a convidá-lo para a entrevista a seguir. Direcionado ao agronegócio, o bate-papo teve como cenário a fazenda Santa Isabel, em Guariba, de propriedade da família Rodrigues.

Fava Scare: Quais aspectos transformaram o agronegócio na força propulsora do país?
Roberto: O ponto central foi a tecnologia, que teve um avanço extraordinário. Mas, ao contrário do que Pero Vaz de Caminha pensava, as terras brasileiras são fracas. Menos de 7% do território nacional é fértil. Nós chegamos onde estamos graças à tecnologia e, principalmente, ao trabalho de instituições como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o Instituto Agrônomo de Campinas (IAC), o Instituto Biológico e o de Zootecnia, a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), a Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) e tantas outras instituições e órgãos de pesquisa. Nos últimos 20 anos, só em área plantada com grãos, o Brasil cresceu 40%, e sua produção, 220%, com maior produtividade por hectare (ha). Hoje, temos 55 milhões de hectares cultivados com grãos e sem tecnologia, precisaríamos de mais 68 milhões de hectares para colher uma safra como a deste ano, por exemplo. Essa nossa tecnologia produz um agro sustentável, poupando novas terras.

Fava Scare: As políticas públicas contribuíram para este desenvolvimento?
Roberto: De certa forma, sim. O próprio crédito rural evoluiu bastante, mas acredito que uma das mais importantes ações governamentais dos últimos 30 anos foi o Programa de Modernização da Frota Agrícola (Moderfrota). Para chegarmos a um parque mecanizado, a Agrishow teve um papel importante porque abriu um leque de oportunidades. Junto a isso está o uso das linhas de crédito para a aquisição de novas máquinas, equipamentos ou implementos agrícolas. Na Feira, o produtor vê a máquina em operação no campo e pode comparar os fabricantes. Como consequência, as empresas foram obrigadas a investir em tecnologia, o que gerou uma verdadeira revolução no campo, que está mudando o Brasil.

Fava Scare: Como você avalia a evolução dessa tecnologia no campo?
Roberto: De maneira geral, houve avanços. No entanto, vemos certo desleixo ou até abandono de muitos institutos de pesquisas por parte dos governos. Institutos como o IAC precisam ser reativados. Por outro lado, a pesquisa agrícola feita pelo setor privado está crescendo no Brasil. De acordo com alguns especialistas, só vale a pena investir em pesquisa de um determinado produto quando este tiver mais cinco milhões de hectares plantados. É por isso que vemos a explosão de cultivos como soja, milho, cana e algodão chamando a atenção de empresas multinacionais, o que representou um salto tecnológico significativo, mas ainda lento para a demanda do país. Outra questão gravíssima que precisa ser revista com urgência é o licenciamento de novas moléculas para defensivos agrícolas, como inseticidas, herbicidas, fertilizantes e fungicidas. No Brasil, o registro demora mais de cinco anos, já que o governo federal depende da aprovação de três instituições — Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) —, um processo burocrático e moroso. Em resumo, estamos avançando menos do que poderíamos e muito menos do que deveríamos porque falta uma política estratégica e adequada.

Fava Scare: Como vencer os desafios do agronegócio brasileiro?
Roberto: Novamente, falta estratégia, uma política pública para o agronegócio, que responde por 23% do PIB nacional e gera quase 30% dos empregos no país. O saldo comercial do setor em 2013 foi de US$ 83 bilhões, enquanto no Brasil, chegou a US$ 2,6 bilhões. Portanto, o agro está salvando o emprego, a economia, o saldo comercial e as reservas em dólares do país. É um setor importante e sem estratégia. A única política agrícola que temos está no Ministério da Agricultura, porém, os instrumentos para executá-la estão disseminados em várias outras pastas. Por exemplo, um dos maiores gargalos está na logística de transporte. Para tratar do assunto, temos que passar por dois ministérios: Transportes e Portos. A falta de uma política de comércio internacional também é um problema. Hoje, 40% do comércio mundial de alimentos se dá no âmbito de acordos comerciais bilaterais. Para se ter uma ideia, o Chile tem mais de 20; a Colômbia, mais de 40; o México, mais de 60, e o Brasil está à margem desse mercado, sem nenhum acordo bilateral. O nosso mercado agrícola na União Europeia e nos Estados Unidos corresponde a um terço do que exportamos e eles estão costurando um acordo bilateral. A nossa política comercial é muito tímida.

Fava Scare: Houve avanços na cogeração de energia de biomassa de cana?
Roberto: Este é um tema importante, principalmente quando enfrentamos crise de energia e estiagem. Enquanto isso, o setor de agroenergia está completamente abandonado por conta da falta de planejamento estratégico e pela falta de instrumentos do Ministério da Agricultura para centralizar e executar ações, hoje subdividas em pastas como Minas e Energia, Portos, Transporte, Meio Ambiente e Ação Fundiária. Portanto, falta estratégia do Estado, da presidente da República, cujo gerente seja o ministro da Agricultura. No mundo inteiro, o Ministério da Agricultura se chama Agricultura, Floresta e Pesca, mas, no Brasil, temos quatro ministérios apartados discutindo os mesmos temas, buscando o mesmo orçamento e espaço político na mídia, o que é um desperdício.

Fava Scare: O produtor rural está amparado para aguentar as intempéries climáticas?
Roberto: Lamentavelmente, não. Em 2003, quando entrei no governo, criei o Seguro Rural, mas não houve avanços. Até 2013, só 6% da agricultura nacional, ou seja, quase nada, estava coberta pelo programa. Os Estados Unidos disponibilizaram US$ 90 bilhões para o Seguro Rural na nova Farm Bill. Assim, se houver qualquer percalço na safra, o produtor americano estará amparado e receberá um cheque pelo correio, estabilizando sua atividade. No Brasil, o que acontece? Um bom exemplo é a infestação da Helicoverpa armígera, praga que proliferou em todo o território nacional. Sem falar na ferrugem da soja, aftosa, entre outros problemas fitossanitários. É preciso ter foco no agronegócio brasileiro e olhar mais atentamente para a legislação, seja ela trabalhista ou ambiental. É preciso ter um plano de ação de longo prazo e não apenas um projeto do governo: um projeto de Estado!

Fava Scare: Qual seria a pauta das demandas já colocadas para os pré-candidatos à presidência da República?
Roberto: Desde que atuo no segmento, há 42 anos, procuramos os candidatos a cada eleição pedindo apoio para o setor e nunca recebemos a devida atenção. Este ano, e, graças à mídia, os três pré-candidatos procuraram o setor pedindo informações para montar seus planos de governo. Todos conhecem os problemas do setor, mas também a força que ele representa para a economia. Então, como presidente da Academia Nacional da Agricultura e Coordenador do GVAGRO, organizei um grupo de acadêmicos para montar um plano de governo, uma pauta única que reunisse todos os temas, com metas de curto e longo prazos. Este documento será submetido à apreciação de todos os órgãos de classe e deve ficar pronto até o fim deste mês, para ser discutido entre maio e junho. Tendo um consenso, o programa será apresentado aos três candidatos em julho para que eles possam expor as ações que pretendem adotar. Em seguida, no Congresso da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), que deverá acontecer em agosto, apresentaremos o compromisso de cada um e decidiremos em conjunto o apoio da classe nas eleições. Espero que consigamos harmonizar os interesses de todos em um único plano de ação, a ser assumido como compromisso prévio.

Fava Scare: Como vê os avanços e os impactos do Código Florestal na produção?
Roberto: O Código era uma necessidade. Ninguém ficou completamente feliz com sua criação, mas foi o possível naquele momento, criando um espaço para a legalidade, incluindo ótimas inovações, como o Cadastro Ambiental Rural (CAR). Agora, falta uma regulamentação, que deve ser conduzida pelo Ministério do Meio Ambiente junto ao Mapa. O Código deve ser implementado e aperfeiçoado, o que está demorando por causa da burocracia do Governo Federal.

Fava Scare: Nas fazendas, quais são os maiores desafios do produtor?
Roberto: O primeiro deles é a renda. É preciso garantir renda ao produtor, o que depende de dois alicerces: tecnologia e gestão. O primeiro está disponível: ele compra tecnologia e aperfeiçoa seu sistema produtivo e comercial. Já o segundo deve ser definido de acordo com as características de cada região. O Brasil é um país muito desigual, tanto no clima quanto na qualidade da terra, na cultura e até na questão fundiária. Hoje não existe um programa de gestão que sirva para o país inteiro. Fui para a Fundação Getúlio Vargas para trabalhar com gestão, com foco em profissionalizar o produtor. Ele precisa saber comprar e vender adequadamente, entender sobre finanças, aplicar os recursos e respeitar as questões fiscais, tributárias, ambientais e trabalhistas.

Fava Scare: Neste processo, sustentabilidade é um tema relevante?
Roberto: Esta é a palavra-chave, apesar da complexidade. Tecnologia pode ser comprada, mas gestão não. Trata-se de um processo complexo, que pressupõe educação, formação e deve estar na cabeça do produtor. Felizmente, estamos inundando o país com pessoas preparadas. Só na Getúlio Vargas, há 19 MBAs e um mestrado em Gestão do Agronegócio. A demanda é clara e o produtor está em busca disso, identificando e tentando resolver o problema. E sustentabilidade está em tudo isso.

Fava Scare: Qual a sua análise para o setor da cana nos próximos anos?
Roberto: No momento, ela é profundamente crítica em função da ação do governo federal. O Proálcool foi o maior programa da história universal do setor energético. O mundo inteiro inveja o Brasil e tenta copiá-lo por várias razões: a energia renovável, que emite apenas 11% de CO² em relação à gasolina e gera 1,2 milhão de empregos, só no estado de São Paulo. Mas o álcool só é competitivo se o preço chegar, no máximo, a 70% do valor cobrado pelo litro da gasolina. No entanto, o governo tratou os dois produtos de maneira diferente: congelou o preço da gasolina para conter a inflação, importando o produto por um preço e vendendo aqui dentro por outro menor. Ao mesmo tempo, os custos de produção da cana sobem, e, consequentemente, o preço do etanol também aumenta, ultrapassando a margem de 70% e deixando de ser vantajoso para o consumidor. O governo, com um tiro só, está matando a Petrobrás, que já vale apenas um terço do seu valor de mercado de cinco anos atrás, e o etanol, sentenciando o setor sucroenergético a uma crise inexplicável. O etanol é uma questão de geopolítica planetária. Comida qualquer país pode produzir, mas energia do agro só os países tropicais, onde tem sol o ano todo.

Fava Scare: O preço dos combustíveis é a principal causa da asfixia do setor?
Roberto: São vários fatores. Primeiro, o governo precisa rever o preço ou, então, a Petrobras sempre terá prejuízo. Segundo, é necessário reavaliar a questão tributária. Uma sugestão seria voltar a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) sobre o preço da gasolina e decidir, de uma vez por todas, o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Hoje, cada Estado aplica um percentual. Além disso, há a desburocratização do crédito. O dinheiro existe, mas quem precisa dele não consegue empréstimo por conta da burocracia e das garantias complicadas. Fora isso, ainda falta discutir estocagem, logística do escoamento, política internacional de venda e certificação. São muitas questões difusas em 12 ministérios e mais de 20 agências e secretarias. Não podemos deixar de falar da coordenação do setor na área de cogeração de energia da queima da biomassa de cana. O governo simplesmente ignora o que poderia ser uma alternativa para este momento de represas baixas. Hoje, a palha e o bagaço disponíveis no mercado equivalem à produção de uma Belo Monte, gera energia e está pronta para atender a uma demanda maior, mas o governo não enxerga.

Fava Scare: Isso estará na carta para os pré-canditatos?
Roberto: Sem dúvida. Quando o governo Lula apoiou a agroenergia, vieram empresas estrangeiras para investir no país, globalizar o negócio, mas esse processo foi abandonado. Cria-se, assim, uma certa insegurança e o Brasil perde respaldo internacional pela falta de plano de ação para o setor. Espero que, após as eleições, o governo decida o que precisa: um preço adequado para a gasolina para, quem sabe, garantir a recuperação do etanol. Se isso não acontecer, o horizonte será muito nebuloso.

Fava Scare: A agricultura é reconhecida como mola propulsora de crescimento?
Roberto: Considero que esta compreensão está melhorando e um reflexo disso é o interesse dos pré-candidatos pelo agronegócio. Eles procuram essa integração porque entendem que a sociedade dá outro valor ao setor. Estamos passando por um processo de valorização do campo, mas, de novo, depende da região que tiver uma mídia funcionando, informando. A Abag/RP, por exemplo, tem um programa interessante, que divulga frequentemente a importância e a interatividade do campo com a cidade, intrinsicamente ligados. O brasileiro percebe essa conexão direta porque roupas, calçados, móveis e outros utensílios são geralmente oriundos de matérias-primas vindas do campo. É uma mudança natural.

Fava Scare: Qual a mensagem para os visitantes e expositores da Agrishow?
Roberto: A Agrishow é uma vitrine tecnológica. Os visitantes da Feira conhecem lá as tecnologias mais recentes voltadas para o setor. A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) aponta que, até 2020, a oferta de alimentos precisa crescer 20% no mundo para que a fome não aumente. Para atender a esta demanda, o Brasil deve crescer 40%. Por isso, a OCDE pede ao Brasil que aumente sua produção de alimentos nesta quantidade em dez anos. Trata-se de um senhor desafio, mas é possível. Temos todas as condições necessárias para atingir esse índice de desenvolvimento, só falta criar uma estratégia. Nesta eleição, devemos ficar ligados naquilo que vai ser definido pelas lideranças do agronegócio e qual será o candidato a se comprometer com isso. Além disso, devemos eleger deputados e governadores comprometidos com este projeto. No caso de Ribeirão Preto e região, é quase um voto distrital. O candidato precisa referir os caminhos que pretende seguir para realizar os compromissos assumidos. Podemos fazer muito mais do que fazemos, mas necessitamos de estratégia e isso só se faz com homens e mulheres públicos comprometidos e dispostos a trabalhar pelo agronegócio. Precisamos de estadistas da agricultura.

ESTADISTA DA AGRICULTURA

“Quando comecei a estudar e a conhecer melhor o agronegócio brasileiro, em 1999, sempre ouvia o nome de Roberto Rodrigues. Na época, o então produtor rural e engenheiro agrônomo já era considerado uma referência no setor. Sua carreira tem ênfase em três vertentes: acadêmica, agrícola e cooperativista. Profundo conhecedor do potencial e das necessidades do agronegócio e do homem do campo, Roberto sempre teve uma visão clara e futurista sobre a capacidade produtiva do setor. É um grande defensor da produção agrícola em todas as esferas, tanto na política, como Ministro da Agricultura, na área empresarial, no cooperativismo e na vida acadêmica.  Na última, atua até hoje, disseminando seu conhecimento e sua paixão pelo setor, que é admirado mundialmente pelo desenvolvimento tecnológico, pela produtividade e pela capacidade de suprir a demanda por alimentos nos próximos 20 anos. É de pensadores assim que o Brasil precisa para continuar crescendo sem entraves, sem miopias políticas, com o apoio de toda a sociedade.”
Roberto Fava Scare é professor de Marketing e Estratégia na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP/USP), coordenador do Núcleo de Pesquisa em Agronegócios da FEA-RP (AgroFEA Ribeirão Preto), e fundador do Centro de Pesquisa em Marketing e Estratégia (Markestrat)

Texto: Rose Rubini
Fotos: Carolina Alvez 

* Publicado em 24/04/2014
 

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