Escolhas pautadas pela admiração

A admiração pela atuação profissional dos pais foi fator decisivo na escolha da carreira de Luiz, Marcela e Willian

Se a admiração é o estágio inicial do pensamento filosófico, conforme afirmava Platão, um dos fundadores da filosofia ocidental, certamente ela é também o ponto de partida de sentimentos de igual grandeza, como o respeito, a consideração, o encantamento e até a veneração. A admiração é, ainda, um dos primeiros sentimentos que norteiam as relações humanas, aquele que une de imediato pais e filhos, que deve ser alimentado a cada dia e que, no fundo, conduz as atitudes mais importantes no decorrer de uma vida.

Foi exatamente esse o principal sentimento que motivou Luiz Cutti Junior, Marcela Radaelli Bertelli e Willian Vendramini de Paula Ferreira a seguirem os passos de seus pais no trabalho. Nos dois primeiros casos, essa decisão veio depois da formação acadêmica. No último, a escolha aconteceu ainda na infância. Em todas as situações, a admiração pelos pais acabou falando mais alto e definindo os rumos profissionais desses três jovens.

Luiz Cutti Junior é jornalista por formação, mas hoje está, ao lado do irmão, Lee, no comando da Coxilha dos Pampas, churrascaria que completa 18 anos de atividade em 2012. A escolha do curso acadêmico foi baseada na sua identificação com a área. Durante algum tempo, Cutti se dedicou a ela, trabalhando em TV e também em uma produtora como editor de imagens. Ele chegou a abrir uma agência de publicidade antes de mudar totalmente sua área de atuação.

A primeira experiência na gastronomia foi como auxiliar de cozinha do Le Petit Bistrot. Depois, decidiu ingressar nos negócios da família. “Essa decisão foi inteiramente minha. Meu pai sempre me deixou à vontade para escolher o que eu quisesse para a minha vida, mas, ao mesmo tempo, sempre me mostrou os benefícios de ser dono do próprio negócio, deixando as portas abertas”, afirma Luiz.

Mesmo exercendo outra profissão e trabalhando em outros lugares, o jornalista sempre se interessou pelo restaurante, já que foi dali que pôde colher os frutos de uma infância em que não lhe faltou nada. “Todos os dias eu ia até a empresa e, além de almoçar ou jantar, exercia algumas funções. Assim, ficava por dentro de tudo o que se passava”, conta. Desta forma, através da observação e dos conselhos do pai, ele e o irmão se prepararam para assumir o restaurante.

Marcela Radaelli Bertelli também fez uma mudança significativa na sua carreira. Ela sempre se interessou por áreas relacionadas ao design, à arquitetura e à moda. Na hora de escolher a profissão, ficou indecisa, mas acabou optando pela Arquitetura e Urbanismo. Há quatro anos, a inauguração da Andare, loja de calçados e acessórios da sua mãe, Solange, acabou interferindo nessa trajetória. “Ter uma loja era um sonho e eu fiquei muito empolgada com a ideia. Na época, minha mãe tinha uma sócia e eu estava no segundo ano da faculdade, cheia de trabalhos para executar. Apesar de ter participado, em grande parte, do processo de execução e de abertura da Andare, minha atuação na empresa, naquela época, era superficial”, explica.

Hoje, a situação é bem diferente. A partir do momento em que foi desfeita a sociedade, a mãe assumiu os negócios contando com o apoio da filha. Foi então que, ainda na faculdade, Marcela começou a se envolver mais. No início, passava todas as tardes na loja e, com o decorrer do tempo, foi percebendo que aquilo era o que realmente gostava. “Eu queria dar continuidade aos negócios e percebi que adorava aquele ambiente”, destaca. Depois de muito aprendizado, hoje a arquiteta faz toda a parte administrativa, financeira e gerencial da loja de calçados e participa também das compras de coleções.

A história do cirurgião vascular Willian Vendramini de Paula Ferreira é um pouco diferente. Desde pequeno, ele sempre gostou de Medicina e, mesmo vendo o pai, Wagner de Paula Ferreira, também cirurgião vascular, trabalhando muito e estando muitas vezes distante por causa da profissão, ficava fascinado com tudo o que ele fazia. “Tive um professor que dizia que os médicos nascem médicos e que a faculdade serve para nos ensinar a fazer o que sempre gostaríamos de ter feito”, enfatiza.

Durante a faculdade de Medicina, Willian ainda tinha dúvidas sobre a especialidade, mas como teve um contato maior com a cirurgia vascular por acompanhar e discutir casos clínicos com o pai, decidiu fundar a Liga de Cirurgia Vascular com seu professor, Dr. Otacilio. Com o compromisso de organizar aulas e acompanhar a enfermaria desde cedo, aproximou-se mais da área e não teve dúvidas de que iria seguir a mesma especialidade do pai e que trabalharia com ele.

No início, a experiência foi desafiadora para os dois, pois Willian estava em ritmo de residência, em que frequentava o hospital de maneira intensiva, tendo que realizar várias tarefas ao mesmo tempo, e Wagner, que já estava acostumado com uma dinâmica de trabalho, teve que mudar quando o filho chegou. Mesmo assim, eles asseguram que tem sido uma experiência ótima. Atualmente, além de cada um cuidar de seus próprios pacientes, conduzem juntos alguns casos. “Isso, para mim, é uma vantagem imensa, já que, mesmo tendo terminado a residência médica, continuo aprendendo com a experiência de alguém com 40 anos de profissão”, declara o filho.

Para Luiz, a transição para a empresa da família foi um processo tranquilo, já que convivia naquele ambiente desde criança. “Quem trabalha com restaurante vive o negócio 24 horas por dia. A dedicação e o comprometimento têm que ser constantes. Por isso, meu pai sempre nos levava informações da empresa, fazendo com que a minha participação fosse só uma formalização daquilo que eu já vivenciava”, explica. Hoje, ele e o irmão se dedicam ao atendimento ao cliente, já que a filosofia da família coloca isso como primordial. Por causa da  formação profissional, Luiz também atua no marketing e o irmão, que é engenheiro elétrico e se dá bem com números, cuida da contabilidade.

Porém, ingressar em uma empresa já consolidada não é tão simples assim, pois requer muita responsabilidade. “Não só por manter o nome da empresa, que já tem 18 anos, mas também por trabalharmos com alimentação, um segmento que exige muito controle de qualidade. Graças a Deus, os números mostram o constante crescimento da nossa empresa, mostrando que a ‘troca’ administrativa está contribuindo para isso”, salienta. Há nove meses, o pai teve um sério problema de saúde e Luiz e Lee assumiram integralmente a administração das duas unidades da Coxilha dos Pampas, em Ribeirão Preto e em Campinas.

Marcela ficou um pouco assustada quando definiu, de vez, participar dos negócios da Andare. “Confesso que foi um pouco complicado ingressar a fundo em uma empresa que já tinha seu modo de funcionamento e suas regras. Foi preciso muito esforço, aprendizado e dedicação, mesmo porque nunca havia trabalho com as áreas administrativa e financeira”, diz. Além disso, separar a relação pessoal da profissional é um desafio. “Às vezes, confundo um pouco o ambiente loja com o ambiente da casa. Preciso me policiar sempre, pois tudo tem que ter lugar e momento adequados”, frisa Marcela.

Luiz considera inevitável que isso aconteça, mas que é preciso pensar, acima de tudo, no cliente. “Ele sai da casa dele para vir até a nossa casa. Esse cliente é nossa prioridade, por isso deixamos as desavenças no escritório e nos preocupamos única e exclusivamente com o seu atendimento”, pontua. Willian acredita esta seja a maior dificuldade de trabalhar com o pai, pois eles sempre levam para casa todas as questões, muitas vezes delicadas e complexas, que aconteceram durante o dia de trabalho. Ele diz que, na teoria, os problemas concernentes ao trabalho não deveriam transpor as portas do consultório. Porém, na prática, naturalmente, o filho e o médico se confundem.

Apesar de considerar essa dificuldade, o cirurgião vascular vê a situação como algo natural. “Isso é humano; não somos máquinas. Contudo, isso não abala nossa relação e, muito menos, causa algum tipo de prejuízo ou de sofrimento. Somos uma família e não há nada maior e mais precioso do que isso”, destaca. Para o médico, está exatamente aí o maior prazer em trabalhar junto com o pai: saber que a pessoa que está ao seu lado sempre quer o seu bem.

Nesse contexto, é importante considerar alguns aspectos para que a participação dos filhos na empresa dos pais seja bem-sucedida. Para Luiz, o que deve prevalecer é o respeito. “Sou um abençoado por trabalhar com minha família. O ambiente é informal e descontraído. Graças aos meus pais, nossa formação familiar teve como pilar o respeito e o amor, fatores que carregamos para dentro da churrascaria”, salienta. Marcela também acredita que o respeito deve estar em primeiro lugar, seguido do amor ao trabalho e da dedicação. Na área dela, também é fundamental que esteja sempre antenada às tendências e que tenha um contato receptivo e acolhedor com clientes e amigos.

Willian, que desde pequeno via o pai trabalhando de sol a sol, aprendeu que tudo na vida é arduamente conquistado. Portanto, para ele, a determinação e a obstinação são os elementos essenciais para que a participação no consultório do pai seja bem-sucedida. “No meu caso, como eu amo o que eu faço, coloquei a Medicina e o desejo de fazer o melhor ao próximo em primeiro lugar na minha vida. Os outros fatores necessários para que esta participação seja positiva nada mais são do que consequência desse processo constante da luta vinculada ao amor e ao respeito pelo que se faz”, enfatiza.

Além de tudo isso, é preciso se preparar para essa parceria. Marcela inspira-se também na atuação do pai, que é empresário e sempre procura auxiliá-la e ensiná-la ferramentas para administrar um negócio. Ela ainda buscou um MBA na área de Gestão Comercial para adquirir novos conhecimentos. Como existem planos para que a filha assuma integralmente a empresa, Marcela sente-se muito realizada em dar continuidade e estar cada vez mais à frente de um negócio que tanto a satisfaz e, principalmente, a deixa feliz.

No caso de Willian, como ele vem se preparando para isso desde o início da faculdade, sempre observou seu pai, conversaram bastante e trocaram muitas ideias. Então, o ingresso na empresa foi natural. “Afinal, em uma relação entre pai e filho há confiança e nada mais natural do que meu pai ter o desejo de transmitir para mim a experiência conquistada. E nada pode ser mais rico para minha vida profissional e pessoal do que aprender com meu pai, a pessoa que eu mais admiro na vida”, finaliza.

Texto: Máisa Valochi
Fotos: Julio Sian
Produção: Pamella Turatti e Marcela Versiani
Agradecimentos: Garden Hotel (16) 3516.1300 e Oficina
da Casa - (16) 3635.7689

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