Esporte de alto rendimento

Esporte de alto rendimento

À frente da equipe de ciclismo de Ribeirão Preto, na categoria elite, Marcelo Donnabella exalta o trabalho e a dedicação dos atletas, que têm rendido uma série de conquistas nos últimos anos

O esporte vem ganhando cada vez mais espaço, estrutura, investimento e torcida em Ribeirão Preto. Além de contar com talentos individuais em diferentes modalidades, incluindo o atletismo, a natação, o futsal, o tênis, o karatê e a motovelocidade, entre outras, a cidade também é a casa de times completos, que participam de campeonatos estaduais, nacionais e internacionais. É o caso dos tradicionais Botafogo e Comercial, no futebol, do Vôlei Ribeirão, no vôlei, e do Ribeirão Preto Challengers, no futebol americano, por exemplo. Dentro desse universo, há um outro grupo de atletas, em especial, que tem se destacado pelos resultados alcançados.

Trata-se da equipe de ciclismo de Ribeirão Preto São Francisco Saúde/Klabin/Secretaria de Esportes. Criada em 1999 e gerenciada pela Associação Terra de Ciclismo (ATC) desde 2007, a equipe da categoria elite é, atualmente, composta por 13 ciclistas, detém o título de tetracampeã do Ranking Nacional (2012, 2013, 2017 e 2018) e quer ampliar a coleção de medalhas e troféus. Um dos principais responsáveis por essa campanha vitoriosa é o diretor esportivo Marcelo Donnabella. O ex-atleta, que também comanda a Seleção Brasileira de Ciclismo, chegou trazendo na bagagem conhecimento e experiência, o que deu novo fôlego para o grupo. Na entrevista a seguir, o especialista relembra o início da carreira no esporte, dá detalhes sobre o trabalho que vem sendo realizado e lista os principais títulos conquistados até agora.

Como você se envolveu nesse universo do esporte?

A minha relação com esse meio começou, na verdade, com o futebol. Foi o meu primeiro esporte. Mudei para o ciclismo por causa do meu irmão mais velho, que praticava essa modalidade. Ao acompanhar os treinos e as competições dele, acabei me interessando. Durante um período, tive uma carreira como atleta em Belo Horizonte, minha cidade natal. Ganhei algumas provas e fui, inclusive, campeão mineiro, mas, fora isso, não obtive resultados expressivos pedalando. 

O que o ciclismo, especificamente, tem de mais especial?

O ciclismo é apaixonante por causa da liberdade que a bicicleta te proporciona. Sentir o vento batendo no rosto, sabendo que você pode ir aonde quiser, quando quiser, dependendo, apenas, do seu próprio esforço, é uma sensação indescritível. 

Em 2018, o grupo de atletas conquistou o tetracampeonato do Ranking NacionalQuais foram as lições mais valiosas que o esporte te ensinou?

A prática de um esporte de alto rendimento me ensinou muito mais do que técnica. Aprendi a respeitar as pessoas e as individualidades de cada um. Descobri a força do trabalho em equipe. Desenvolvi o senso de responsabilidade e compreendi a importância de se honrar os compromissos assumidos. Adotei uma rotina disciplinada e conheci tanto meus limites quanto as minhas capacidades. Superei desafios e encontrei maneiras de aprimorar meu desempenho depois das derrotas. Conheci, também, novas culturas e o contato com essa diversidade me enriqueceu, principalmente como pessoa.   

Já tinha planos de se profissionalizar nessa área?  

Sinceramente, quando pensava no meu futuro profissional, não imaginava que seguiria por esse caminho, ainda mais aqui no Brasil, onde as dificuldades para se trabalhar no meio esportivo, independente da modalidade, são enormes. Só que, em 2003, fui chamado para comandar a seleção mineira em uma competição. Era algo pontual, sem pretensões de continuidade. Decidi aceitar a oportunidade e acabei gostando do que encontrei. A dinâmica de coordenar os atletas da equipe no dia a dia, de acompanhar a evolução nos treinos, de reuni-los em torno de uma estratégia bem montada e de incentivá-los na busca de um propósito maior, a vitória, é realmente fascinante. Desde então, não parei mais. É gratificante ver que o nosso trabalho é reconhecido e respeitado, não só no nosso País, mas no exterior, também. 

Desde quando desempenha a função de diretor esportivo da equipe de ciclismo de Ribeirão Preto?

Assumi em 2012, respondendo ao convite do Danilo Terra, diretor técnico, que já conhecia o meu trabalho por meio de outras equipes que comandei. Inicialmente, era um projeto que seguiria até 2016, mas, diante do cenário positivo que construímos, felizmente, continuo na cidade até hoje. 

Qual é o maior desafio do comandante diante dos atletas?

O desafio é ter os atletas comandados em sintonia com o que você e com o que a equipe pensam. Às vezes, temos de administrar egos, mas, no final, a cobrança é igual para todos e essa postura tem de ser respeitada. Eu estou ali para cobrar, mesmo. Essa é a minha função. Não costumo aliviar. 

Qual é a formação da equipe e que tipo de provas ela disputa?

Hoje, contamos com 13 atletas na categoria Elite: Rafael Andriato, Cristian Egídio, Rodrigo Nascimento, Alessandro Guimarães, Alan Maniezzo, Vitor Teixeira, Mauricio Knapp, Jeovane Oliveira, Lucas Motta, João Pedro Rossi, Felipe Ronzani, Leonardo Finkler e Rodrigo Melo. Como cumprimos todos os requisitos da União Ciclística Internacional (UCI), somos uma equipe Continental, que pode competir em várias provas ao redor do mundo, mas o nosso foco é nas Américas. Disputamos o Ranking América Tour e temos tido ótimos resultados. Corremos provas de estrada e de circuito. No Brasil, temos muitas provas de circuito, mas a essência do ciclismo é a estrada: provas por etapas ou de um dia, com quilometragens altas. Neste ano, disputamos a Doble Bragado, na Argentina, a Vuelta a Chiloé, no Chile, a Vuelta del Uruguay, no Uruguai, e o Panamericano de Ciclismo, no México. Ainda estamos negociando a participação na Volta a Portugal e nas Duas Voltas na China, essas no segundo semestre.

Cada atleta é especializado em um tipo de prova?

Cada ciclista tem uma função: velocistas, passistas e escaladores. O velocista, também conhecido por sprinter, é capaz de atingir grandes velocidades em um curto espaço de tempo. Os passistas mantém um ritmo forte de competição por um período prolongado, geralmente por várias horas. Já os atletas escaladores são especialistas em etapas que envolvem longas subidas ou com um declive expressivo. Todos sabem exatamente o que precisam fazer em uma determinada competição, pois só o trabalho em grupo pode gerar uma vitória individual. Sozinho, ninguém ganha nada. O primeiro a cruzar a linha de chegada vence a prova, mas esse atleta precisa estar muito bem escoltado para que isso aconteça, pois, em um pelotão com mais de 100 ciclistas, as fugas (quando um ciclista consegue se distanciar dos demais na liderança da prova) são inevitáveis. É aí que a equipe entra em ação, para dar suporte e colocar atletas nessa fuga.

Segundo Marcelo, para construir uma campanha vitoriosa, o planejamento é fundamentalJuntamente com os treinos e com o condicionamento físico, o planejamento e a estratégia são essenciais para vencer?

Sem dúvida. No esporte de alto rendimento, além do condicionamento físico, da técnica e do preparo psicológico, o planejamento é uma parte fundamental em qualquer campanha vitoriosa. Temos que ser objetivos. Estabelecer e cumprir metas para vencermos, tanto individualmente, quanto como equipe. Normalmente, montamos um cronograma no qual priorizamos os campeonatos mais importantes da temporada. Defino e passo para os atletas quais são as provas que vão competir e, especificamente, quais cada um deles vai tentar ganhar. 

Quais foram os principais resultados alcançados até agora?

Obtivemos resultados expressivos, como a 3ª colocação por equipes na Argentina, a vitória da 1ª etapa na Volta do Chile e o vice-campeonato geral individual no Uruguai. O atual campeão brasileiro de estrada, Rodrigo do Nascimento, integra o nosso elenco. Também conquistamos o tetracampeonato no ranking nacional por equipes em 2018. Neste momento, lideramos a tabela na categoria elite individual, com o Alan Maniezzo, com 145 pontos, 47 pontos a mais que o segundo lugar, e no ranking por equipes, com 355 pontos, 71 pontos a mais que o segundo colocado. Reforço, mais uma vez, que esses êxitos são fruto do comprometimento de todo o grupo. Os atletas assimilam bem as propostas de estratégia que nós passamos e isso está sendo visto dentro das competições.

Você também está à frente da Seleção Brasileira de Ciclismo. Como é o trabalho com esses atletas que representam o País?

Faço parte da seleção há dois anos. Ocupar esse posto é uma honra, um prazer e, também, uma grande responsabilidade. Nossa delegação tem o dever de representar bem o Brasil em cada uma das provas que disputa. Desde o início, a Confederação Brasileira de Ciclismo (CBC) me deu total apoio. Tive liberdade para convocar os atletas que, no meu ponto de vista, eram os melhores no momento para defender o País. Entre as principais competições que já participei nesse período estão o Panamericano de Estrada, na Argentina, e os Jogos Sul-Americanos, na Bolívia, ambas realizados no ano passado. Neste ano, o calendário começou com mais uma edição do Panamericano, dessa vez em Hidalgo, no México. Alessandro Guimarães, Cristian Egidio, Rodrigo Nascimento, Magno Prado, André Gohr e Flávio Santos integraram a equipe. O melhor resultado foi na prova de Resistência, com o Rodrigo do Nascimento, que ficou com a 12ª colocação geral. Estamos desenvolvendo um trabalho bem estruturado, consistente, com seriedade e comprometimento. Ainda teremos muitas conquistas pela frente. 


Texto: Paula Zuliani Fotos: Julio sian e divulgação

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