Essência musical

Essência musical

Desde pequena fascinada pela música, a maestrina Gisele Ganade foi, aos poucos, nutrindo o gosto pela ópera musical e, dessa paixão, surgiu a Cia Minaz, um grande polo de cultura da cidade

Segundo a maestrina e fundadora do Minaz, é preciso pensar sempre na continuidade e na qualidade dos projetosO som de um ensaio de ópera, ao fundo, embala a conversa. Música aos ouvidos de quem, desde criança, fez dela uma companheira inseparável. Na infância, as brincadeiras eram todas voltadas para cantar, interpretar, encenar e escrever poesia. A criatividade sempre rondou a vida de Gisele Ganade, maestrina e fundadora da Companhia Minaz, nascida na cidade de Campinas (SP). Reunião de família era sinônimo de música. Apaixonada por ópera musical, ela narra sorridente e com saudade a época de infância em que montava cenas, peças de teatro e convidava as pessoas para assistirem aos ensaios. Pregava lençol no teto, improvisava um palco e, o que era uma simples brincadeira, virava festa. Talvez nem ela mesma imaginasse que a grande paixão, incentivada pelas avós que cozinhavam cantando, iria se tornar uma profissão, que, hoje, transforma a vida de tantas pessoas. 

Imersa nesse mundo musical, Gisele aprendeu a lapidar o dom e ensinar uma geração a levar canto e alegria às pessoas. “Só o que eu enxergava em minha vida era música. Ela sempre fez parte de minha essência, não pensava em fazer nada mais”, lembra. Tanto que, junto com o marido Ivo Rinhel D'Acol, fundou, em 1990, a Cia. Minaz, pronta para formar público e novos profissionais para música vocal em cidades do interior de São Paulo. 

Inaugurado no dia 3 de setembro de 2009, o Teatro Minaz, idealizado pela companhia a partir de um prédio construído na década de 60, no Jardim Paulista, onde funcionava o antigo “Cine Cairo”, foi pouco a pouco se transformando em um grande polo cultural da cidade. Quem ganha é o público, com temporadas anuais de óperas, musicais, concertos, peças de teatro, ballet, shows, masterclasses e oficinas. “Quando comecei a cantar em coral, percebi que poderia seguir esse caminho. Foi ouvindo discos de ópera e musicais que descobri minhas paixões. Dois filmes marcaram minha vida, quando eu ainda estava no colegial. São eles: ‘A Flauta Mágica’ e ‘Hair’. Depois disso, não tive mais dúvidas de que caminho seguir”, afirma a maestrina, que, a seguir, narra mais sobre essa paixão e conta parte da trajetória de construção da Cia. Minaz.

Como se sente ao saber que o trabalho da companhia impacta de forma positiva a vida de tantas crianças e adultos?

É tão bom ter o retorno do público! Isso nos faz sentir mais responsáveis, permite que continuemos transformando a realidade das pessoas. Fico feliz por saber que há tantas pessoas que assumem esse ofício com a mesma maneira de pensar. Sentimos, sempre, que o futuro desses jovens está resguardado. Há os que iniciam a tarefa com a idade que começamos, que adotam nossa filosofia de vida, e isso é muito importante. Eu tenho a sensação de não existir a finitude, pois sempre estamos aprendendo, um ajuda o outro a melhorar, pois o aprendiz faz também com que o mestre cresça.


Podemos reinventar a vida para algo bom, para que nossa cidade seja mais limpa, as pessoas sejam mais felizes, que possam ter qualidade de vida


Quais foram os cuidados que sempre carregou consigo para manter todos os projetos ativos?

Sempre pensamos, em primeiro lugar, na continuidade e na qualidade. Nunca podemos parar diante dos desafios, por mais que o caminho seja complicado. A continuidade faz crescer e traz a qualidade. Incentivamos os alunos a estudar bastante para que busquem todos esses aspectos.

Não é difícil manter essa continuidade, que tanto faz questão de enfatizar?

Não gostamos de falar de dificuldade, costumamos dizer que são obstáculos que transformamos. Você pega algo bruto, manuseia, e transforma em obra de arte. Essas ações são vitais para quem gosta de trabalhar com isso. Não existe dificuldade se você ultrapassou esses pontos, da continuidade, do empenho e da qualidade. Não há dificuldade, mas trabalho árduo. 

A cidade aceitou bem os projetos da companhia desde o início?

Quando começamos, tinham poucos corais em Ribeirão Preto. Não era uma cidade que cantava, como hoje. Acredito que a quantidade imensa de corais que vemos hoje, de professores de canto, deve-se ao primeiro impulso que demos. O público sempre aceitou bem os projetos. Temos casa cheia. Neste semestre, por exemplo, há muitas atividades para acontecer, não apenas na cidade, mas em outras que nunca receberam esse tipo de espetáculo. Por isso, a importância de nunca parar e sempre buscar pelos objetivos.

A arte tem o papel de transformar a vida das pessoas?

Ela é uma representatividade do que acontece no momento; registra, historicamente, o presente. Tendo acesso à arte antiga, por exemplo, você volta à história. A arte tem a importância de registro e de manifestação do ser humano. Ela está em todo lugar e é essencial à vida.

Ela pode dar mais autonomia, especialmente aos jovens, e colocá-los em espaços não ocupados antes?

Sim. Se você observar bem, ela está em todos os espaços, dentro da escola, enfim, todos realizam arte sem perceber. Em tempos de transformação tecnológica, ela também se faz muito presente. Toma conta de tudo, da comunicação. Não é mais um desenho, um rabisco em uma pedra dentro da caverna, está em constante evolução e transformando os espaços.

Junto com o marido Ivo Rinhel D'Acol, Gisele fundou, em 1990, a Cia. MinazA falta de recursos financeiros é impedimento para quem quer participar de projetos na companhia?

Temos projetos sociais que estão vinculados a algumas instituições da cidade, outros de dentro da companhia, como espetáculos, que há o envolvimento de muitas crianças, por exemplo. Já aconteceu de famílias com crianças não poderem pagar, e abrimos exceção. Claro, que não dá para arcar com aulas particulares, mas há momentos em que o próprio professor vê uma criança muito empenhada, que canta bem, que tem vontade de aprender. Sendo assim, conversamos com ele, que acaba abraçando a causa. Além disso, temos também alunos bolsistas.

O que o palco lhe ensinou ao longo da vida que pode passar para outras pessoas como ensinamento?

Ensina-me que a realidade poderia ser bem melhor se a gente entendesse mais o palco, a voz do palco. Quando o palco nos diz alguma coisa, deveríamos chegar do lado de cá e transformar a mensagem transmitida em algo melhor, em uma compreensão do que é a sociedade, o homem, a vida, para que ela serve. Podemos reinventar a vida para algo bom, para que nossa cidade seja mais limpa, as pessoas sejam mais felizes, que possam ter qualidade de vida. Tudo isso é possível quando existe empenho e direcionamento.

Em algum momento, você pensou em desistir?

Sim, muitos momentos, mas o que me segurou até aqui foi justamente a responsabilidade. Eu penso: a vida podia ser bem mais fácil se eu fosse funcionária pública do Teatro Municipal de São Paulo — e eu tive essa chance. Eu estaria me aposentando. Olha, que simples! Porém, não ficaria feliz, porque sou uma pessoa inquieta. Sempre penso no compromisso que temos. Certa vez, aconteceu algo que me marcou muito. Eu comentei, na ocasião, que pararia, não aguentava mais. Meu filho, à época, com uns 10 anos, disse: “Sem o Minaz, nós não existimos. É nossa vida. Nunca podemos fechá-lo”. Depois de ouvir isso, compreendi que minha responsabilidade de seguir era eterna, que eu deveria me esforçar mais e, quando menos esperasse, a dificuldade já teria passado. Como na Carmina Burana, roda da fortuna, um dia se está em cima, outro embaixo. Assim a vida segue. Quando há boa administração e bom pensamento de trabalho, ainda que a roda esteja embaixo, há elementos para que se trabalhe, a fim de levar tudo para cima com facilidade. O certo é nunca deixar a roda descer de uma vez, mas mantê-la equilibrada.

Para você, é difícil cantar e, simultaneamente, encenar?

Se você se dispõe a fazer isso, tem que aprender. Difícil é viver a vida. É preciso ter jeito, mas tudo se desenvolve com técnica e aprendizado.


“A música é a essência da vida. Eu a escuto em todo lugar. Está em meu corpo, em minha pulsação”, define Gisele


No ano que vem, vocês completam 30 anos de Cia. Minaz. Existe segredo para manter a continuidade?

Persistência e talento, é claro. Buscar sempre a excelência para ter sucesso.

Como é a Gisele fora dos palcos?

Sou uma pessoa muito dona de casa, gosto de cozinhar, sou uma mãe coruja, apaixonada pelos meus filhos. Sou alguém que, por mais que queira ter algo mais, só sabe fazer música. Isso vem de infância mesmo: sempre vi as minhas avós cozinhando e cantando ao mesmo tempo. As duas eram sopranos. Isso me acompanhou por toda a vida. Sou também exigente com meus filhos, mas muito amiga deles e de outras pessoas. Eu me defino, basicamente, como uma mulher caseira, que gosta de estar ao lado da família.

O que a música representa na sua vida?

Ela é a essência da vida. Eu a escuto em todo lugar. Está em meu corpo, em minha pulsação. A vida é música. 


Texto: Bruna Romão | Fotos: Julio Sian

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